O Exterminador do Futuro
Região central de Los Angeles Pizzaria Stoker 10:08 p.m.
■ REGIÃO CENTRAL DE LOS ANGELES
PIZZARIA STOKER
10:08 P.M.
_
_
Sarah estava observando uma garçonete serpenteando de maneira insegura em meio a uma movimentada
massa humana, de risadas escandalosas, até chegar à sua mesa. Ela conhecia aquela sensação. A
garçonete, pequena e tímida, estava fadada a derrubar a pizza destinada a Sarah, se o resto da noite se
mostrasse condizente com o dia. Surpreendentemente, porém, a corajosa garota apenas empurrou para o
lado um grupo de adolescentes arruaceiros, fazendo seus trajes de metaleiro tilintarem, recuperou o
equilíbrio e cambaleou até Sarah com um sorriso cansado, mas sincero.
A pizzaria estava cheia de gente cuidando de suas próprias vidas e parecendo se divertir bastante com
isso. Sarah fora até lá por hábito, esperando que Ginger e Matt talvez aparecessem também. Mas eles
provavelmente estavam se divertindo em casa, na cama.
Sarah sorriu de volta para a garçonete, lançando-lhe um olhar que dizia “eu sei como você se sente”.
Quando a pizza que havia pedido entrou em foco, percebeu que colocaram anchovas. Ela havia pedido
champignon. Sarah suspirou. Sentia-se um pouco mais segura ali. A vizinhança era conhecida e ela fora
muitas vezes à Stoker com Matt e Ginger.
Mais cedo, havia se perdido em um território desconhecido, o Cinema Picwood. Simplesmente foi o
primeiro cinema que apareceu. Era um filme com Burt Reynolds. Daqueles em que ele usava peruca.
Aquelas comédias de mocinho, com perseguição de carro e erros de gravação nada engraçados no final.
Não aqueles filmes românticos, realmente emotivos e engraçados, que ele fazia sem usar aplique. Ela
permaneceu no cinema até o fim, mas não estava assistindo ao filme.
Ela não viu o homem malvestido e de olhos arregalados sentado duas fileiras atrás. E não percebeu que
ele a vigiou no estacionamento e esperou que ela subisse em sua scooter para ligar o carro e segui-la.
Ela já tinha muita coisa na cabeça.
De repente, ouviu seu nome e olhou em volta para ver quem a chamara, esperando que fosse Matt. Mas
era a televisão no fundo do bar. Um apresentador de telejornal dizia seu nome naquele tom cheio de si,
ostensivo, que eles sempre usam.
Ah, não, pensou Sarah, ele deve estar falando sobre a mulher assassinada. Sarah Connor. Mãe de
dois filhos. Em seguida, um medo sombrio brotou das Sarinhas, que achavam melhor ela ir até a TV para
ouvir melhor.
E ela foi, largando a cerveja aguada e a pizza fria cheia de peixe, passando no meio das pessoas até
chegar perto do aparelho, entre dois homens usando jaquetas de algum time. Olharam para ela com apreço, sem perceber o medo em seus olhos. Medo do que a voz da tevê estava dizendo: “A polícia se
recusa a especular sobre as aparentes semelhanças entre a morte a tiros de uma mulher em Studio City,
hoje mais cedo, e o assassinato quase idêntico, duas horas atrás, de uma moradora de Hancock Park de
nome praticamente idêntico. Sarah Helene Connor, uma secretária jurídica de 24 anos, foi dada como
morta na cena do crime em seu apartamento...”
Alguém do bar quis que mudassem de canal. Sarah viu o barman indo na direção da tevê e esticando a
mão para mexer no botão do aparelho. “Deixa aí!”, gritou ela, dando um susto nos homens dos dois lados
e derramando uma das bebidas deles. O barman tirou a mão, como por reflexo, e olhou para ela com uma
expressão confusa. Sarah percebeu que havia gritado com toda a sua força. Deu certo. E ela gritaria de
novo se ele tentasse mudar de canal, mas agora o apresentador estava terminando. “Nenhuma ligação
entre as duas vítimas foi estabelecida ainda. Em uma notícia mais leve, hoje houve motivos para
celebração no zoológico de Los Angeles...”
Àquela altura, todos sentados ali perto estavam olhando para Sarah como se fosse uma louca. Ela se
afastou, piscando por conta do choque e escutando atentamente aquelas pequenas vozes dentro dela
gritando, alertando.
Ela encontrou um telefone público e consultou a lista telefônica. Algumas páginas estavam faltando,
mas ela encontrou a que tinha seu nome. Havia Sarah Anne Connor. Depois Sarah Helene Connor. E em
seguida o nome dela.
E não havia mais ninguém. Não era assim aquele versinho?
Três belas Sarahs, todas enfileiradas. Certo, Connor?
Certo.
A cerveja em seu estômago fervia. Estava virando cambalhotas para a frente, dando saltos mortais
duplos, e ela precisava ir ao banheiro, rápido.
Quando chegou à cabine, viu que estava ocupada. Ela quis rir de desespero. Em vez disso, molhou o
rosto com a água gelada da torneira, secando-se com papel.
Eu sou a próxima, pensou ela. É. Eu. Porque é assim que um dia como este terminaria, não é? Havia
um maníaco com uma arma correndo pela cidade procurando por ela.
Então era assim que o pânico fazia a gente se sentir.
Sarah sentiu medo muitas vezes. De quedas. De fogo. De ser rejeitada. Abandonada. Drenada
emocionalmente. É, coisas muito amedrontadoras. Realmente importantes e completamente ínfimas
quando se levava em consideração que alguém havia assassinado duas pessoas e você deveria ser a
terceira vítima.
Uma pancada alta fez uma onda de pavor subir por suas costas até sua cabeça como um raio. Ela se
virou, arfando, e viu uma velha se atrapalhando com o fecho da porta da cabine. A idosa passou por
Sarah com uma expressão cautelosa, provavelmente pensando que a pobre menina estava tendo uma bad
trip. Quando a mulher saiu, o zumbido das luzes fluorescentes no teto ficou mais alto.
Ela correu para o telefone público novamente e inseriu duas moedas no aparelho. Nada. Foi então que
percebeu o aviso escrito à mão e grudado com fita na lateral. “Quebrado.”
O barman olhou para Sarah como se ela estivesse sob o efeito de PCP[5] ao perguntar onde havia uma
porra de telefone que funcionasse. Ela não podia dizer a ele que seria assassinada por um maníaco com
um problema pessoal com pessoas que tinham o nome dela. Não podia lhe pedir ajuda. Ela queria mais
do que uma pessoa para protegê-la. Ela queria um exército. A polícia.
“Tem um orelhão no Tech Noir aqui perto.”
“Lá fora?”
Sarah passou pelos clientes agitados e hesitou ao chegar à porta. Ele podia estar em qualquer lugar.
Esperando. Ah, meu Deus. Ele tem o endereço dela. Ele pode tê-la seguido. Ele podia estar bem do outro
lado da...
Estacou na calçada, procurando o Tech Noir. O que quer que fosse, ela queria ver. Olhou para as
pessoas que passavam. Nenhuma delas parecia letal. Mas letal se parece com o quê?
Com aquilo.
Aquele homem ali. Nas sombras, do outro lado da rua, usando um casaco comprido de chuva. Parado
em uma entrada, olhando para...
...mim.
Ele parecia sujo e maltrapilho, como um mendigo, só que mesmo daquela distância parecia jovem.
Jovem porém duro, como uma lixa, como uma navalha, como...
Não.
Sarah se forçou a entrar em ação, andando rapidamente. Será que ele a seguiria? O que isso
significaria? Coincidência? Paranoia? Ou morte?
Ela olhou para trás. Ele havia sumido. Para onde fora?
Sarah parou, olhando para os dois lados, quando dois adolescentes negros e altos passaram por ela, um
deles gingando com o rap que saía do rádio que segurava como um galão de água sobre o ombro. Quando
a música diminuiu, Sarah percebeu que estava em um lugar ermo. Não havia ninguém a metros de
distância e ela se sentiu exposta, nua e indefesa.
O homem sujo, de olhos arregalados, estava atravessando a rua. Sem pressa. Na direção dela.
Sarah continuou em frente e alguma coisa louca a impedia de sair correndo logo de uma vez.
Aí o brilho vermelho radioativo de uma placa de néon caiu sobre ela. Ao olhar para cima, viu o Tech
Noir.
Era uma boate. Havia luzes estroboscópicas, trovões e caos lá dentro. Dava para ver e ouvir pela
grande vitrine de vidro que vibrava. Era uma geometria dura, metálica, de linhas e planos angulosos, da
new wave à moda californiana. Tech Noir. Tecnologia escura. O lugar tinha tudo a ver com o nome.
Sarah olhou para trás, para o homem que a estava seguindo, e se assustou. Ele estava apenas a dez
metros de distância, olhando para uma vitrine apagada como se quisesse comprar o que estava lá dentro.
Espere um pouco, Sarah. Acalme-se. Talvez esse cara só esteja andando na mesma direção e seja uma
vítima inocente de seu pesadelo. Talvez...
Mas logo ela se arrepiou de pavor. Ele estava olhando para ela e ela viu o Olhar, tão duro e devorador
que teve a repentina certeza de que era quem a procurava.
Algumas pessoas saíram do Tech Noir, empurrando-a. Ela girou e correu pela porta antes que se
fechasse.
O homem passou direto, com a atitude rígida que Sarah achou ser frustração.
Ele continuou a andar pela calçada até ela não conseguir mais vê-lo.
Reese estava impressionado. Sarah Connor era apenas uma menina. Como qualquer outra dessas criaturas
macias do passado. Ela parecia estar andando em seu próprio sonho, alheia às centenas de ameaças
afiadas em seu ambiente. Será que era mesmo Sarah Connor? A imagem em sua mente disse Identificação
Positiva. Seus instintos disseram outra coisa. Mas ele não estava ali para pensar. Sabia que o momento
de executar o plano estava próximo e ele queria muito aquilo.
Nada o deteria.
Havia prometido isso para John.
Mas ele detectou medo nela, tão forte que foi carregado pelo ar como uma descarga elétrica entre eles.
Ela iria fugir. Ele rapidamente girou cento e oitenta graus e atravessou a rua, com a mão na escopeta
através do bolso do casaco.
Ela já o vira e agora não restava nada a fazer a não ser se aproximar. Quando ela entrou no prédio,
Reese hesitou, olhando para a placa acima da porta e conferindo as ordens guardadas na memória. Estava
tudo certo. Siga em frente. Tão perto. Mas ele queria ir até ela agora.
Separando! Atenha-se ao plano, soldado.
Siga em frente!
E então... volte.