O Exterminador do Futuro
Sand Canyon Road 10:48 a.m.
■ SAND CANYON ROAD
10:48 A.M.
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Após encher o tanque, a surrada picape saiu fazendo barulho pela Sand Canyon, deixando Sarah e Reese
em uma nuvem de fumaça do escapamento. Sarah olhou em volta. Um posto de gasolina. Do outro lado,
um camping para trailers. Ao lado, havia uma área de piquenique onde duas famílias com seus filhos
brincavam na grama marrom.
Sarah viu Reese examinando um campo úmido de morangos que ladeava a área de piquenique. Ele
parecia tão estranho parado ali, um homem arrancado de outra época que nunca se encaixaria nesta.
Reese sentiu que ela o estava observando e a encarou com uma expressão cansada e séria. Seu rosto
estava sujo e parecia que ratos tinham feito ninhos no seu cabelo. Sarah lhe deu um pequeno sorriso
encorajador e apontou para os banheiros virando a esquina do posto de gasolina.
“Melhor a gente se limpar enquanto podemos.” Reese assentiu e simplesmente a acompanhou em
silêncio. Quando chegaram às portas, ele continuou a segui-la entrando no banheiro feminino.
Ela o parou com uma das mãos e riu ao ver a confusão nos olhos dele. Indicando a outra porta, ela
disse:
“Aquele é o seu. Agora é com você”.
Reese olhou da porta que dizia FEMININO para a que dizia MASCULINO. Percebendo seu erro, ele deu de
ombros, estupefato, e entrou no banheiro certo.
Sarah fez o que tinha de fazer com grande alívio e em seguida examinou o rosto maltratado que via no
espelho. O sabonete líquido disponível no banheiro não conseguiu remover toda a maquiagem, mas
retirou a sujeira aparente. Já o cabelo era outra história. Ela não tinha nem uma escova. Enrugando os
lábios, passou os dedos pelo emaranhado e fez uma careta por causa do resultado. Estava para lá de
armado. Ela esperou que as pessoas achassem que era uma nova moda. Em seguida, riu sozinha por conta
disso. Que importância tinha o que as pessoas pensavam agora?
Ao sair do banheiro, ela não viu Reese. Sarah bateu à porta do reservado masculino – nada.
Uma pancada de medo a atingiu. Ela deu a volta no posto e viu um bando de crianças jogando uma
pequena bola de futebol verde por cima da cabeça de um grande e ofegante cão setter irlandês. Ele latia e
trotava em círculos preguiçosos conforme o míssil verde voava de uma criança para outra. Um Lincoln
Continental estava se empanturrando de gasolina em uma das bombas. Reese havia sumido.
Sarah piscou com um desespero crescente, percebendo instantaneamente como precisava muito da
proteção dele. Todas as outras raízes de sua vida haviam sido arrancadas. Exceto sua mãe. Percebendo, com um aperto dolorido, que sua mãe poderia pensar que estava morta, Sarah correu até um orelhão no
canto do posto.
Não tinha dinheiro, mas se lembrou do código de seu cartão telefônico e discou para a pequena casa em
San Bernardino. Quase antes que o primeiro sinal terminasse, a voz ansiosa de sua mãe entrou na linha.
Levou pouco mais que um minuto para assegurar à mãe que ainda estava viva e bem. A polícia da
Divisão de Rampart estava procurando por ela e por quem achavam que era um suspeito na chacina que
aconteceu lá. Sarah estava prestes a explicar a situação e pedir a sua mãe para ir buscá-la quando viu
Reese parado no campo de morangos.
O alívio levou embora o medo em um jato súbito. Sarah apertou o telefone e fechou os olhos, com o
lábio inferior tremendo. Sua mãe estava exigindo que Sarah lhe dissesse onde estava para que pudesse
buscá-la. Sarah percebeu que estava mais protegida com Reese, por enquanto. Ninguém mais poderia
ajudar de verdade, porque ninguém mais acreditaria e tomaria as precauções que Reese sabia que seriam
necessárias.
Ela se abaixou perto da quina da parede em que o orelhão estava montado, levando o fone consigo.
Reese havia deixado claro que Sarah não deveria ter contato com ninguém e ela teve medo da reação que
ele teria se a pegasse ao telefone.
Sarah cobriu a boca com a mão para que sua voz não se propagasse. Ela falou rapidamente e com uma
urgência que a deixaria surpresa se a conversa fosse gravada e ouvida depois.
“Mãe, me ouve com atenção, por favor. Eu não tenho muito tempo para falar...”
“O que foi, querida? O que está acontecendo?”
“Só me escuta! Eu quero que você apanhe algumas coisas; faz uma mala bem rápido e vai pro chalé.
Não conta pra ninguém aonde você vai, nem mesmo pra suas amigas. Nem mesmo pra Louise. Apenas vai
pra lá; faz isso agora. Não dá tempo de explicar; você vai ter que confiar em mim.”
“Eu preciso saber o que...”
“Só faz o que eu tô pedindo. Se não fizer, não vou poder entrar em contato de novo.”
“Credo, Sarah... tudo bem. Tudo bem.”
Sarah olhou para Reese, estranhamente parado e imóvel, de costas para ela. Se ele começasse a se
virar, ela teria de largar o telefone e começar a andar. Isso sim deixaria sua mãe doida.
“Ok, mãe. Eu ligo pra você lá mais tarde. Não se preocupa comigo. Eu vou ficar bem.”
“Sarah, me escuta. Você precisa de alguma maneira falar com a polícia.”
“Você não tá entendendo. Eles não podem me ajudar. Ninguém pode. Eu preciso ir...”
“Sarah!”
“Tchau, mãe.” Ela desligou, interrompendo a pequena voz. Reese estava ajoelhado agora, de costas
para ela, colhendo um morango. Ele o limpou e o mordeu. Ela não podia ver a expressão dele daquela
distância, mas de algum modo a linguagem corporal dele, antes rígida e precisamente controlada, agora
parecia ter relaxado por completo.
Ele ficou de pé lentamente, lambendo os dedos, perdido em pensamentos. Depois a bola verde estava
girando no ar bem na direção das costas dele. Logo antes de ela bater, o corpo de Reese rapidamente se agachou, ao mesmo tempo que se virou e rebateu a bola para baixo.
As crianças ficaram paralisadas e depois se aglomeraram por um instante antes de mandarem a mais
nova delas, uma menina de no máximo seis anos, para pegar a bola.
Sarah ficou um pouco alarmada com a posição tensa de Reese, como se ele estivesse pensando que as
crianças tentaram atingi-lo deliberadamente. Ela apertou o passo para atravessar a rua em direção ao
campo, mas a menina já estava aos pés de Reese, olhando para cima e apertando os olhos de soslaio,
daquele jeito cauteloso que as crianças fazem quando são repreendidas por um adulto.
Ao se aproximar por trás de Reese, Sarah reduziu o passo. A menininha dizia: “A gente não quis
assustar você. Posso pegar nossa bola de volta agora?”
Reese lentamente relaxou, como uma faixa de metal se desenrolando, e olhou para a bola. Ele engoliu a
tensão e se abaixou para pegá-la. Com a mesma delicadeza que havia demonstrado a Sarah naquela
manhã, o soldado ofereceu a bola de espuma. A garota hesitou, olhando para aqueles olhos selvagens de
outra época, talvez sentindo o pavor e o desespero neles, mas depois sentiu outra coisa, algo mais forte e
bem mais benevolente. Ela começou a sorrir ao pegar a bola das mãos de Reese. Imediatamente, ela se
virou e segurou o objeto de sua missão para cima, gritando triunfantemente: “Peguei. Peguei!”
Nesse exato momento, o setter completou seu salto, mirando inicialmente na bola na mão da criança, um
pouco mais baixo que o desejado, derrubando a menina em cima das pernas de Reese. O cachorro saiu
para pegar o prêmio caído. Um instante depois, ele foi até o grupo de crianças e largou a bola, agora
babada, no meio delas.
Reese ajudou a menina atordoada a se levantar. Ele também tinha algo como um pequeno sorriso no
rosto, mas era uma expressão nova demais para conseguir fazer direito. A garota cerimoniosamente puxou
seu vestido para baixo e fungou com uma aversão solene. “Você tá com um cheirinho ruim, moço”,
anunciou ela, e em seguida saiu saltitando para se reunir a seus amigos.
“Kyle? Tudo bem?”
Sulcos, como os que havia no chão, começaram a se formar na testa dele. Ele queria falar, mas alguma
poderosa força interior resistia. Enfim sua boca começou a se mexer, formando palavras praticamente
inaudíveis.
“Não era pra eu ver isso”, respondeu apenas. Quando ele reabriu os olhos, Sarah ficou espantada com a
expressão perdida ali, quase como se ele estivesse prestes a chorar.
“Eles me instruíram. Eu vi fotos, mapas. Eu ouvi as histórias. Mas eu não esperava...”
Ele estava tendo dificuldades de falar novamente. Sarah se aproximou. “Eu estou todo errado aqui. Eu
não consigo... parar de querer fazer parte disto...” Ele não tinha vocabulário para compreender o mundo
dela.
Sarah fez uma tentativa de tocar o ombro de Reese. Estava vidrado no rosto dela, sem perceber seu
toque. Ela tentou acalmá-lo com suas próprias palavras.
“Kyle, você é parte disto. Este é o seu mundo agora.”
Ele balançou a cabeça com tanta violência que Sarah recuou. “Não, não, não”, ele murmurava, “você
não entende, Sarah. Eu não posso parar por nada. Eu não posso ser nada além de um soldado com uma...” E aqui ele engasgou novamente, mais de emoção do que por falta de palavras.
“Kyle, eu...”
“Obrigação!”, interrompeu ele. Reese percebeu que não estava fazendo muito sentido. Ele agarrou os
ombros dela e tentou fazê-la entender a realidade da situação. “Sarah, será que você não compreendeu?
Tudo isto desapareceu! De onde eu venho, isto aqui é um terreno baldio, cheio de ossos de pessoas como
aquelas!” Ele apontou na direção das famílias que se divertiam no piquenique.
Sarah olhou em volta, tentando enxergar da maneira dele. As crianças, o cachorro, os campos, tudo era
tão familiar. Ela nem percebia mais aquilo, como um peixe com relação à água. Mas para ele aquilo
devia ser alguma espécie de sonho idílico, o paraíso perdido, do qual apenas lembranças amargas
sobreviveram em sua época. Agora que havia vislumbrado o mundo dele, ela podia começar a ter noção
da dor e da desorientação que Reese devia estar sentindo apenas por caminhar pela rua.
E então ele parou, porque percebeu que as crianças estavam olhando na sua direção com uma mistura
de medo e curiosidade.
Os pais estavam se esticando para olhar para ele e para Sarah. Ele estava chamando a atenção para si,
fracassando em seu dever primário. Fracassando com John. Fracassando consigo mesmo. Ameaçando a
preciosa vida de Sarah com sua falta de controle emocional. Ele se travou, trancando todas as portas de
suas emoções, e pegou o braço dela. “Precisamos ir”, disse ele, e a puxou na direção da rampa de acesso
à rodovia.