O Exterminador do Futuro

James Cameron · Capítulo 26 de 52

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O Exterminador do Futuro

Bairro Palms Jasmine Street, 656 10:14 p.m.

■ BAIRRO PALMS

JASMINE STREET, 656

10:14 P.M.

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Matt estava em um estado de estupor, refestelado nos lençóis emaranhados, com o corpo se secando à

brisa fresca da porta de correr parcialmente aberta no canto do quarto de Ginger. As cortinas eram

fustigadas pelas brisas silenciosas. Ginger se sentou e o cutucou. Ele estava apagado.

Ela pisou no carpete, vestiu seu robe, encontrou os fones de ouvido e o walkman e trocou a fita.

Enquanto a fita era rebobinada, ela passou descalça pelo corredor, dando suspiros quando as solas de

seus pés tocaram o ladrilho frio da cozinha. Ginger ficou na ponta de seus pés fortes e deu um gracioso

salto de balé até a geladeira, abrindo-a. Sob a luz suave que vinha de dentro, ela pegou alface, tomates,

picles, maionese, pasta de frango e cebola roxa e colocou tudo sobre a bancada. No momento em que

esticou o braço para apanhar o pão, ouviu um barulho. Parecia vir de toda parte – um som baixinho de

raspagem não muito longe. Ginger olhou em volta sob a luz fraca, sem enxergar nada direito. Tateou na

prateleira mais baixa e encontrou o pão integral. Agora o leite...

Lá estava o barulho novamente. Mais perto desta vez. Uma raspagem afiada. De novo, mais perto.

Ginger tinha nervos de titânio. Nada a abalava. Estava curiosa com o barulho, só isso. Mas um baque

alto atingiu seus ouvidos e fez seu coração e seus pulmões subirem pela medula espinhal e se alojarem na

cabeça. Ela então percebeu que a fita já havia rebobinado e parado, fazendo um estalo em seus fones.

Titânio uma ova. Agora onde ela havia deixado a mostarda? Ah, ali em cima da...

Alguma coisa passou por ela no escuro e Ginger gritou involuntariamente. Vidros de tempero caíram

fazendo barulho quando Pugsly saiu correndo de cima da geladeira, mais assustado do que Ginger por seu

encontro inesperado. A iguana correu pela bancada e saltou para o chão de ladrilho, depois rastejou até

chegar ao carpete do corredor e entrar na sala, onde poderia mais uma vez ficar em qualquer lugar à

sombra.

“É, Pugsly, melhor ficar esperto”, gritou ela, “senão eu faço um cinto com você.” Lagarto idiota.

Ginger pôs a mão sobre a garganta. Uau. Fiquei com o coração acelerado agora. Nada como uma boa

injeção de adrenalina pra abrir o apetite. Expirando irregularmente, Ginger se virou para a pilha de

comida e percebeu que havia esquecido o queijo suíço. Ao se abaixar para pegá-lo, no fundo da

geladeira, atrás da geleia solidificada e da pasta de amendoim dura feito pedra, Ginger se lembrou da

música e apertou o botão. Prince & The Revolution trovejaram em seus ouvidos, movimentando seu

corpo com aquela energia rápida e firme.

A luz estava brincando em padrões intermitentes nas pálpebras de Matt. As cortinas estavam

esvoaçando para fora com o repentino aumento do vento. Ele abriu os olhos quando um som baixinho

começou a tilintar em algum ponto do outro lado do quarto. A princípio, não viu nada além do teto; em

seguida, uma figura humana entrou no seu campo de visão, com o punho fechado erguido e pronto para

atacar. Alguma coisa brilhou naquela mão. Os olhos de Matt se arregalaram, ele se abaixou e se atirou da

cama um instante antes de o punho bater no travesseiro onde sua cabeça estava. Ao cambalear para trás,

tentando clarear sua visão, ele viu penas explodirem e voarem pelo quarto quando o intruso puxou a mão

do travesseiro destruído. Ele devia ter alguma coisa na mão. Uma lâmina ou um canivete pequeno – havia

penas demais, descendo em câmera lenta como neve seca.

Ele era um pouco maior do que Matt e silencioso como uma cobra. Somente o barulho das correntes em

suas botas o entregava.

Deve ter entrado pela porta da varanda, pensou Matt. Ele girou o corpo e instintivamente pegou uma

pesada luminária de latão sobre o criado-mudo. Derrubou a cúpula e arrancou o fio da tomada, fazendo

barulho como um chicote, e brandiu a luminária como se fosse um machado de guerra, balançando a base

em semicírculos.

“Não faz eu te machucar, cara”, gritou Matt. O medo permeou a ameaça em sua voz, uma ameaça

formada mais por afronta e adrenalina do que por coragem. Matt olhou para o canivete reluzente e depois

para os olhos sem expressão, e novamente para o canivete. Quando o intruso deu um passo em sua

direção, Matt concentrou seus mais de 100 quilos para bater um home run digno de Reggie Jackson[6]

com a luminária de metal. A base atingiu o vulto bem na têmpora e a batida quase arrancou o objeto das

mãos de Matt – mas o sujeito apenas balançou para trás, como se houvesse recebido um tapinha de

brincadeira, e partiu para cima de seu oponente.

Matt o golpeou novamente, com mais força, mas o Exterminador simplesmente estendeu o braço e

pegou o pulso de Matt, como uma armadilha para ursos. A visão que Matt tinha do quarto de repente

rodou incontrolavelmente quando o Exterminador o levantou pelo pulso e o lançou por cima da cama até

o chão do outro lado. Ele rolou como um saco de cimento até a cômoda de madeira. Matt se levantou,

meio grogue, e foi em direção ao intruso soltando um grito de pura raiva.

Ginger havia localizado o queijo suíço e estava mastigando um pedaço de aipo enquanto empilhava o

“lanchinho” em uma torre de babel de carboidratos. Quando Prince tocou o terceiro refrão de “Let’s Go

Crazy”, ela segurou o aipo como um microfone e uivou com ele.

O rosto do Exterminador estava vagamente visível. Os olhos eram opacos e sem vida, como os de uma

boneca; o maxilar pendia imóvel e a boca uma linha fina e reta, como a leitura de um homem morto em

um monitor cardíaco.

Matt estava segurando o antebraço do intruso com as duas mãos e observou o canivete se aproximar de

seu pescoço. Era um daqueles estiletes com lâmina extensível, com pontas descartáveis quando ficam

cegas, só que estava completamente estendido, como uma navalha comum. Os músculos de Matt se

contraíram e saltaram sob sua pele conforme reunia toda a sua força contra o outro, mas o braço continuou a descer, como uma espécie de equipamento hidráulico. Matt nunca havia se deparado com

tanta força. O medo rugiu e uivou dentro dele.

Ele jogou seu adversário de lado, lançando a lâmina contra a parede, apenas para ser agarrado pela

garganta por mãos incrivelmente fortes.

Morrer – eu vou morrer. Preciso me livrar dessas mãos...

Matt levantou o joelho como uma catapulta, enterrando-a no abdome do intruso. O joelho se afundou

com um baque satisfatório, mas em seguida bateu inexplicavelmente em uma parede de músculos tão

duros que quase destruíram a patela de Matt. Logo depois, ele foi erguido como se fosse um bebê e

atirado através da porta de vidro. Ele caiu de costas e ficou esparramado, com os fragmentos de vidro

caindo e tilintando sobre o seu corpo.

Como um motor que engasga mas ainda gira, Matt se pôs de pé, arquejando. Seu joelho machucado

doeu e ele jogou o peso para o outro, com o corpo agredido molhado de suor e de sangue quente, que

escorria de uma dúzia de cortes.

O Exterminador estava à espera, observando o homem atravessar a janela quebrada tão lentamente que

cogitou sair do quarto e prosseguir com a localização do alvo. Antes que ele de fato agisse, Matt mais

uma vez reuniu suas forças, transformou seu corpo inteiro em um punho e se lançou para a frente.

O Exterminador ajustou sua posição em oito centímetros e desviou facilmente do golpe. Matt bateu no

ombro do Exterminador e dali para o espelho de corpo inteiro na porta do armário. O vidro explodiu em

seu rosto e ele sentiu uma dúzia de facas cortando seu corpo. Desabou no chão, mortalmente ferido, com

os pulmões congelados entre as respirações, paralisados pelo choque da pancada e pela enorme força

opressora de seu oponente.

O quarto estava se afastando de Matt, sumindo em um vazio sem cor. Um peso enorme crescia em seu

peito como um buraco negro reverso. E Matt sabia que, se pudesse passar por aquela dor gigantesca, tudo

ficaria bem. Ele estaria morto.

O som da risada de Ginger em sua lembrança ecoou por sua consciência cada vez menor como uma fita

que ia ficando lenta. Ele mal sentiu os dedos de aço acabarem com sua vida.

 

Ginger pegou o copo de leite, o sanduíche de três andares e ajustou os fones de ouvido antes de sair da

cozinha. Ao andar pelo corredor, pensou ter ouvido um barulho repentino e agudo, como algo se

quebrando. Pugsly? Aquele lagarto estava ficando definitivamente psicótico.

Mas, quando olhou para a sala, viu Pugsly brincando de estátua dentro do terrário. Tudo parecia estar

bem ali. Talvez fossem os vizinhos brigando de novo.

E aconteceu novamente, uma batida alta seguida de um... Ginger balançou a cabeça rapidamente e os

fones caíram em seus ombros. Agora havia silêncio. Não, alguém estava... gemendo? Ginger sorriu com

uma excitação crescente. O que Matt deveria estar fazendo? Aquele diabinho adorável.

Ela parou em frente à porta do quarto, tentando equilibrar o prato em seu braço para poder ter a mão

livre para abri-la, querendo pegar Matt no flagra fazendo alguma coisa obscena. Mas, antes que pudesse

realizar essa proeza, a porta explodiu pelos ares e encheu suas pernas de estilhaços e sangue. O corpo de Matt havia acabado de ser atirado, como se fosse um aríete. Ginger deixou cair o prato e o copo,

molhando as pernas com o leite frio. Ela pôs as mãos no rosto, ondulando-as incoerentemente, e os dedos

abertos cortaram o ar entre seus olhos e o corpo totalmente destruído de Matt. Ele estava morto. Seu Matt

havia morrido.

Alguma coisa naquele quarto acabara de matá-lo.

Ela abaixou as mãos e parou de respirar. Um vulto andou até a porta e olhou para o corpo de seu

adversário derrotado e em seguida para a garota. O Exterminador parou para registrar detalhadamente as

feições dela em seu cérebro. Ela se encaixava nas configurações do alvo. A mão dele foi até a .45 em seu

casaco. Empurrou a porta, mas ela não se mexeu, pois o cadáver de Matt atravancava o caminho, jogado

em cima do que havia restado.

Ginger se virou e correu, com as solas de seus pés sendo retalhadas pelos cacos de vidro ao pôr todo o

seu peso para se virar desesperadamente. Ela não sentiu o sangue quente jorrando dos cortes quando

levantou a perna direita e se atirou para o corredor.

O Exterminador abriu a porta, arrancando-a pelas dobradiças, e foi na mesma direção.

Ginger corria como uma velocista, com os pulmões puxando grandes quantidades de ar e queimando-o

para dar energia. Ela se agarrou à moldura da porta da sala e entrou no cômodo, na hora em que o

Exterminador estava mirando em suas costas, abaixando o ponto vermelho da mira a laser até atravessar

seu ombro, mas logo ela estava em outro aposento.

Havia um vulcão de pavor abjeto entrando em erupção no peito de Ginger. A porta. Era sua salvação,

ela pensou de repente. Não havia Deus, nem destino, nem nada ou ninguém além daquela porta, daquela

saída desta doença vil e cruel que estava atrás dela agora, sorrindo, apontando a arma e puxando o

gatilho, e vai se foder, estou quase lá! E então Ginger foi atingida nas costas por um foguete que viajou

na velocidade da luz e pulverizou metade de seu pulmão direito ao atravessar seu tórax.

Enquanto estava caindo – parecia que nunca chegaria ao chão –, ela ouviu o som do tiro que a atingira.

Depois outro míssil a pegou, desta vez no rim, e a carne espessa capturou a bala e a reteve até o impulso

vencer e o projétil, por fim, atravessar seu corpo em uma última e perversa estocada, alojando-se na

parte inferior de seu abdome. Foi aí que ela caiu no chão e as coisas pioraram.

O Exterminador passou por cima dela como um monumento à morte.

As mãos de Ginger arranharam o linóleo frio. Ele parecia molhado ali embaixo, enquanto ela deslizava

para a frente. Muito embora seu rosto estivesse pressionado contra o desenho vazio dos ladrilhos, ela

sentia uma sensação intensa de estar caindo. Ouviu as botas pesadas baterem no chão de ladrilho atrás

dela e pararem ao lado. Ela não conseguia se virar, mas o vulto se agigantou em sua mente, tão escuro e

enigmático quanto a própria morte. O medo desapareceu, substituído por uma enorme e ultrajada

interrogação. Por quê? Talvez a resposta estivesse do Outro Lado.

Por fim, ela desejou que não fosse Sarah quem a encontrasse...

O dedo do Exterminador apertou o gatilho. O cão levou o pino até a espoleta, acendendo a pólvora. Os

gases que se expandiram conduziram o projétil de cobre e chumbo pelo cano, simultaneamente elevando

o próximo cartucho para a câmara. O gatilho foi puxado outra vez e o ciclo se repetiu.

E de novo.

E de novo. E mais uma vez, esvaziando a pistola.