O Exterminador do Futuro

James Cameron · Capítulo 52 de 52

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O Exterminador do Futuro

Dia126

 

■ BUENAVENTURA, MÉXICO

7:46 A.M.

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O cerrado plano já estava se aquecendo para cozinhar algumas cobras no meio do dia, com o sol

aparecendo por trás do contorno irregular das montanhas ao longe. Ainda assim, o ar estava pesado com

a umidade. Um clima confuso, como geralmente é no México. Sarah nem percebeu, dirigindo o jipe

aberto pelo que se chamava de estrada, com o vento agitando seus cabelos como uma bandeira

acastanhada e usando óculos escuros. Estava grávida. Embaixo da pequena e doce protuberância que um

dia se tornaria John Connor, estava um revólver .357 Colt Python aninhado com segurança em seu colo.

Estava carregado e ela aprendera a usá-lo. Muito bem.

Pugsly Júnior estava sentado ao lado dela, bocejando. Era um pastor alemão de 37 quilos, treinado para

atacar e matar qualquer um remotamente diferente de Sarah, caso fizesse gestos ameaçadores. Podia ser

um cão dócil, mas Sarah nunca realmente o considerou um animal de estimação. Ele era uma arma.

Ela havia dirigido a noite toda, locomovendo-se na relativa segurança da luz da lua, como sempre fazia

então, embora soubesse que, caso outro Exterminador atravessasse o tempo – uma possibilidade que não

devia descartar –, a noite não poderia protegê-la. Ela era sua melhor proteção.

Mas Sarah se mantinha discreta, mais por paranoia de que um acidente casual pudesse destruir tudo

aquilo que ela e Reese haviam conquistado. Nenhum acidente estúpido de trânsito, nenhum desastre idiota

de avião, nenhum ato de violência aleatório poderia lhe tirar a vida naquele momento. Era vital que ela

sobrevivesse.

Ela havia mudado.

Não era só a gravidez, embora seu corpo houvesse mudado, com um peso desagradável nos quadris e

seios. Ela sentia sua aparência melhor, de alguma maneira, por causa disso. A alteração maior era

interna, por trás dos olhos. Conseguira medir a distância total do golfo entre o que um dia fora e o que se

tornara, quando lhe contaram no hospital que sua mãe fora assassinada. Ela sentiu todo o enorme quebra-

cabeça explosivo daqueles três dias se formando. Junto com isso veio a tristeza, alimentada por todas as

outras tragédias que abalaram sua vida, mas ela a canalizou de maneira que não se afogasse naquilo.

Depois pegou tudo, enfiou em uma caixa de metal e a fechou com solda.

Mais tarde, quando estivesse mais forte, ela a abriria de tempos em tempos e se permitiria absorver

tudo. E então, ao assimilar aquilo, podia ficar de luto antecipado por um mundo que seria completamente

perdido. Pegando aquela emoção, tão real e dolorosa, e elevando-a à enésima potência, podia ter um

vislumbre do futuro, com sua perda tão extensa que desafiaria até as compreensões mais abstratas. E

aquilo a tornava ainda mais forte. Porque o ódio também é uma emoção poderosa e muito mais eficaz.

E assim ela deu início ao Plano. Ao ser liberada do hospital, esvaziou sua parca conta bancária,

recebeu o seguro de vida de sua mãe, comprou o cão de guarda, o .357 e o jipe, e saiu pela estrada. Para

o sul. Até o fim da América do Sul, talvez. Para dar à luz, criar John Connor e prepará-lo para a guerra.

Onde fosse seguro, longe dos ataques nucleares. Onde fosse tranquilo, lindo e ventasse, e...

A gasolina estava acabando. Era melhor encher o tanque antes de pegar a estrada para as montanhas.

Parou no posto de gasolina decrépito em uma área empoeirada ao lado da estrada.

Desligou o gravador de fita no painel. Ela estava ditando a próxima seção do Livro, o guia de

sobrevivência para seu filho. Tentava deixar tudo registrado, caso lhe acontecesse alguma coisa antes que

John chegasse à maturidade, e concretizar as memórias em fita magnética antes que se esquecesse dos

detalhes. Muita coisa do que havia acontecido já estava se apagando, recusando-se a ser trazida de volta,

porque isso também traria de volta a antiga Sarah e não dava para trazer de volta os mortos. De certo

modo, o Exterminador realmente a matara.

Logo antes de parar para reabastecer, ela estava dizendo: “Será que devo lhe contar sobre seu pai?

Essa é difícil. Será que vai mudar sua decisão de enviá-lo aqui, pra sua morte? Mas, se não mandar Kyle,

você nunca existirá”.

De vez em quando, quando se deparava com esse tipo de paradoxo, ela ficava tonta e fraca com a

vertigem temporal. Dava para enlouquecer pensando nisso.

Ela desligou o motor do jipe, deslizou a arma para baixo do banco e saiu do veículo para esticar as

pernas. Estavam mais grossas agora, até mais bonitas, e a cicatriz quase curada. O pino estava lá,

segurando o osso que o destroço do Exterminador havia estilhaçado, o mesmo pino que o Exterminador

procurara em vão nas pernas das outras Sarahs Connor. Aquelas pobres mulheres. Às vezes, ela sentia

uma culpa irracional, como se todos aqueles inocentes houvessem morrido por algo que ela mesma fizera

pessoalmente. De certo modo, era verdade. Ela só não havia feito ainda.

Como é estranho, ela pensava frequentemente, fazer história sabendo dela o tempo todo e conhecendo

seu impacto. Aquilo a fazia se sentir significante e insignificante ao mesmo tempo. Quase como se ela

fosse uma engrenagem, um fantoche do destino, um mero elo da corrente causal.

Ela sabia que havia mais do que aquilo, claro. Sua gana de sobreviver, de se fazer sobreviver, havia

determinado o resultado. O que fazia aquele aspecto de sua personalidade apenas outro elemento do

Plano. A cobra come seu próprio rabo e para sempre o fará.

Pugsly rosnou baixinho e abaixou as orelhas conforme Sarah analisava o posto. Galinhas cacarejavam e

se mexiam em volta dos grandes pneus do jipe, afobadas ocasionalmente pelo vento que soprava. O posto

era um oásis de velharias no meio da área deserta, cerca de dois quilômetros afastado de uma cidade que

era apenas um alargamento temporário na estrada.

Rodeado de árvores de josué e nada mais, estava um pequeno prédio no centro do que parecia um

ferro-velho. Picapes enferrujadas jaziam sobre os blocos, sem rodas, sem vidros. Havia veículos

manchados e amassados de todos os tipos, aparentemente aguardando que outros de sua espécie

morressem para que as partes necessárias pudessem ser reaproveitadas em seus consertos. Algumas

piñatas frágeis balançavam e se retorciam por conta das rajadas de vento, com suas cores vivas

zombando da aparente falta de vida do lugar.

Finalmente, alguém apareceu à porta. Um homem velho, curvado e maltratado, saiu da sombra e foi em

direção a ela. Devia ser um indígena yaqui e seus olhos estavam avermelhados de tanta mescalina barata

da região. Sarah viu os olhos dele e sentiu um arrepio momentâneo. Por um instante, teve a sensação

absurda de que ele podia ver o futuro. A sensação passou imediatamente, substituída por um pensamento

mais estranho ainda. Ela era a vidente. Era ela que via além do horizonte, mas, assim como aqueles ao

longo da história tocados por visões, ela desejava não ver.

O atendente acenou com educação. Sarah se esforçou com a pronúncia de Llena el tanque, mas o

proprietário de pele curtida a interrompeu. Ele falava um pouco de inglês e tinha um imenso orgulho

daquilo, tão longe assim da fronteira. Ele lhe garantiu que “completaria o tanque, sí”.

 

Sarah entrou novamente no jipe, porque o vento estava ficando mais forte, jogando areia quente em seu

rosto. Ela teve uma ideia e apertou o botão de gravar da máquina.

“Acho que vou lhe contar sobre seu pai, sim. Eu devo isso a ele. E talvez seja suficiente você saber

que, nas poucas horas que tivemos juntos, nós nos amamos pra vida toda.”

Ela se deu conta do quanto aquelas palavras eram inadequadas. Elas nunca poderiam transmitir a força

de emoção ou a exatidão do que acontecera.

Um estalo seguido de um zumbido a assustou e Pugsly se esticou, alerta, mas era apenas um garotinho

mexicano de seus quase 10 anos. Ele estava segurando uma câmera, uma Polaroid velha e amassada que

devia ter “aliviado” de um turista de passagem. Uma foto saiu pela abertura inferior.

O menino falou rápido demais para que Sarah conseguisse entender. Quando o atendente apareceu, ela

lhe pediu para traduzir.

“Ele diz que a senhora é muito bonita e que está com vergonha de lhe pedir cinco dólares americanos

pela foto, mas que, se não o fizer, o pai dele vai lhe dar uma surra.”

Sarah olhou para o garoto magricela e sorridente com sua camiseta furada e disse: “É um belo golpe,

garoto. Dou quatro. Quatro”.

O garoto entregou a foto, pegou o dinheiro da mão dela e saiu dançando, feliz por ter encontrado outro

otário entre os raros turistas.

Sarah observou a imagem se formar com uma sensação de seu próprio futuro estar se formando. Os

olhos que se materializaram naquele buraco branco da superfície da Polaroid eram os dela. Ela assistiu

ao restante de seu rosto escurecer, uma lenta aparição da Sarah que existia agora. Mais velha, pensou ela.

Mas não era uma mudança fisiológica, apenas uma nova configuração das antigas feições suaves. Havia

um olhar distante e ela estava sorrindo apenas um pouquinho, mas de algum modo era um sorriso triste.

Sarah pôs a foto de lado, jogando-a casualmente no banco do carona entre as fitas de seu diário, com

etiquetas escritas à mão. Ao pegar a chave da ignição, a foto já estava quase esquecida. Pugsly a cheirou

uma vez, deixando a marca úmida do focinho, o primeiro de muitos abusos que envelheceriam aquele

retângulo de plástico antes de repousar na palma da mão de um soldado que se agachava na escuridão

trovejante do fogo infernal daquele Reich de máquinas enfurecidas acima. Sarah a daria a John e ele a

daria a Reese. Era o início do círculo. Mas é claro que círculos não têm início ou fim.

Sarah pagou o atendente pela gasolina e deu a partida no jipe. O vento passou por ela e rolou as

salsolas secas pela estrada. O menino estava tagarelando atrás deles e apontando para as montanhas.

“O que ele disse?”, perguntou ela ao velho.

“Ele disse que há uma tempestade chegando.”

Sarah olhou para o céu e para as nuvens que se formavam. Relâmpagos se acenderam atrás deles como

enormes estrobos.

“Eu sei”, disse ela baixinho, e pôs o jipe em primeira.

Na estrada, ela pensou em Reese. No tempo. Na história. E, acima de tudo, no destino.

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