O Exterminador do Futuro
Oceanside 1:23 p.m.
■ OCEANSIDE
1:23 P.M.
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Sarah e Reese desceram da boleia do reboque após agradecerem ao motorista corpulento. Conforme o
caminhão se afastava com um estrondo, Sarah puxou Reese na direção do Tikki Motel, do outro lado da
rua. Parecia feito de papelão, de tão frágil, com o telhado plano decorado com tubos de néon quebrados e
a estrutura inteira inclinada para o lado, mas tinha camas. E chuveiros. Ao se aproximarem do lugar,
Reese olhou para os fuzileiros navais uniformizados passando pela rua em bandos, saindo para um
passeio longe de Camp Pendleton, ao norte da cidade. Ele teve inveja dos uniformes impecáveis, mas se
espantou com a suavidade dos rostos jovens. Os guerreiros deles eram como civis, pensou, descuidados
e despreocupados ao passearem por aí em plena luz do dia. Aquilo ainda parecia inacreditável para ele.
“Vem, Kyle”, pressionou Sarah.
A recepção do motel havia sido fechada com tábuas e transformada em uma espécie de bilheteria de
cinema, por motivos de segurança. Oceanside tinha uma vista linda do Pacífico, bastante sol e uma
elevada taxa de criminalidade. A dupla enlameada se aproximou de uma grade com uma abertura. Reese
vasculhou os bolsos e tirou um bolo de notas amassadas e sujas de dinheiro. “Isso dá?”, perguntou ele.
“Dá sim”, exclamou Sarah. “E eu não quero saber onde você conseguiu isso.” Ela retirou a quantia
necessária para pagar o pernoite e falou para o homem do outro lado da grade: “Queremos um quarto”.
“Com cozinha”, acrescentou Reese.
Enquanto Sarah lidava com o gerente entediado, Reese voltou sua atenção para um grande e
empoeirado pastor alemão preso por uma corrente a uma casinha de cachorro desbotada ao lado da
recepção. Ele havia acabado de beber água em sua tigela. Reese olhou nos olhos dele. O bicho era velho,
talvez uns dez anos de idade. Mas Reese ainda conseguia detectar uma centelha silenciosa de luta por trás
daqueles olhos castanhos. Aproximou-se lentamente, estendendo a mão. O cão hesitou apenas por um
momento e depois se levantou para ir ao encontro de Reese, lambendo sua mão com carinho. Ele havia
passado pela inspeção canina novamente. Velhos hábitos. Relaxou um pouco, se sentindo
inconscientemente mais seguro com um cachorro por perto.
Alguns momentos depois, entraram no simplório quarto que lhes foi dado. Havia uma cama, uma
cômoda, um minúsculo nicho de cozinha e um banheiro. Sarah viu da porta os azulejos manchados de
ferrugem do banheiro. Não era o Waldorf. Era apenas o paraíso.
Reese perambulou agitadamente, conferindo o local com eficiência e prática. Para ele, o fator de
conforto era menos importante do que a localização das janelas, que afetavam a linha de visão e de fogo ou da espessura das paredes. Bloco de concreto. Ótimo. Baixa penetração. A porta traseira, que
apresentava um trinco e uma barra deslizante de ferro, também foi aprovada por ele.
A placa na porta, que dizia NÃO USE ESTA SAÍDA, não significava nada para o soldado. Mesmo que a
última pessoa a pintar o quarto tivesse passado uma demão sobre a soleira, Reese a desprenderia.
Sarah caiu na cama e disse: “Tô morrendo de vontade de tomar um banho”. Reese olhou para ela como
se essa fosse a última de suas prioridades.
“Eu preciso sair pra comprar suprimentos”, anunciou, e foi em direção à porta.
“Kyle, espera.” Ela se sentou, sem gostar nem um pouco da ideia de ficar sozinha. “Preciso trocar seu
curativo.”
“Quando eu voltar.” Então ele viu a expressão no rosto dela e percebeu o que a estava atormentando.
Ele andou até Sarah e jogou o .38 na cama ao lado. “Não vou demorar.” Ele se virou e chegou
rapidamente à porta. Quanto mais cedo cuidasse das coisas, mais rápido voltaria.
Sarah o viu sair e ficou sentada diante da luz fatiada das persianas, ouvindo o trânsito abafado. Ela
olhou para baixo, para a arma de cano curto. Parecia brutal e ameaçadora, embora soubesse por suas
experiências com o ciborgue que a arma não poderia detê-lo. Talvez Reese tivesse deixado a arma para
que, caso a máquina a encontrasse enquanto estivesse fora, ela pudesse usá-la em si mesma. Mas não,
Reese nunca iria querer isso. Todas as suas forças estavam concentradas para a sobrevivência dela. Ele
queria que ela continuasse vivendo até esse direito ser revogado à força. Então por que deixá-la? A arma
com certeza não a fazia se sentir melhor. Ela a cutucou hesitantemente, depois a pegou. Havia na arma um
cheiro forte de metal lubrificado que fez Sarah se sentir pequena e fraca. Mas, de alguma maneira, o .38
se encaixou bem na mão dela. Claro, a arma foi pensada para se encaixar bem na mão. Mas não era isso,
havia outra coisa ali, percebeu Sarah. E então ela desenvolveu outra teoria de por que Reese lhe dera a
arma.
Ele queria que Sarah se acostumasse. Com uma sensação de vazio, ela começou a compreender as
beiradas de algo tão grande que esmagava completamente qualquer escala normal de pensamento. Ela
talvez tivesse que usar armas como aquela pelo resto de sua vida.
Reese estava perdendo rapidamente o ímpeto de continuar. Todas as suas reservas estavam se esgotando.
Mas ele precisava manter os níveis máximos de alerta apenas mais um pouco. Ele estava andando na
direção de um grande supermercado, cruzando o estacionamento repleto de pessoas e veículos novos e
reluzentes. Sua boca salivou ao ver os interiores magníficos, com os painéis de aparência complexa e
os...
A missão, soldado. Missão, missão... Preciso equilibrar a balança... atualizar a defesa... construir
uma parede de poder de fogo que nem o 800 poderá atravessar. Reese sacudiu a cabeça, cansado, e
andou com os pés machucados e moídos até o Fort Knox das comidas. É, sem estresse, pensou Reese.
Apenas mais um trabalho impossível.
O banho quase lavou todos os resíduos de sangue e estrondos que Sarah havia carregado consigo pelas
últimas doze horas. Ela se esfregou com força com o sabonete branco comum e escaldou seu corpo com
água quente. Mais tarde, sentada na cama, de toalha, com o cabelo agora desengordurado, ainda pingando
água em suas costas, ela se sentiu quase limpa. Quase.
Ela se esticou na cama por um momento apenas para ficar quieta, para reduzir temporariamente a
insistente força da gravidade, e caiu imediatamente em um sono profundo e escuro.
Sarah estava encurralada. O enorme vulto do Exterminador atravessou a porta com um sorriso lúgubre,
ávido, quase lascivo de desejo, e apontou a arma para o peito dela. Sarah viu o sol vermelho em
miniatura da mira a laser passar sobre seu corpo e parar em cima de seu seio direito. Antes que pudesse
se atirar da cama, houve uma explosão, como se fosse o mundo em erupção, e a bola de chumbo assoviou
na direção dela, cortando o ar como um bisturi. Quando a bala atingiu seu corpo, ela sentiu o estalo
abafado dos ossos da costela e foi jogada para trás como se houvesse levado um soco de um gigante.
Sentiu a vida quente sendo bombeada para fora de si e pensou, serenamente, que a dor estava distante
demais para machucá-la muito e então o Exterminador estava de pé ao seu lado atirando, bala após bala,
em seu corpo que um dia fora bonito, cada projétil um minúsculo aríete abrindo buracos em sua carne e
fazendo-a baquear e saltar. Depois ela gritou, porque não havia apenas morte acontecendo aqui, mas sim
uma mutilação estúpida, insana e injusta. Sentou-se para puxar ar e gritar outra vez, e percebeu que estava
em silêncio, então não poderia ter acabado de gritar, e isso significava que ela não havia gritado, o que
significava...
Ela estava sonhando.
Quando estava completamente consciente, percebeu duas coisas simultaneamente: havia escurecido e
Reese ainda não voltara. O relógio elétrico encardido na mesinha de cabeceira indicava 6h03. Ela se
sentou e imediatamente se arrependeu. Seus músculos pareciam bife batido, brutalmente abusados pelas
marteladas das últimas doze horas. Ela não dormira nem de longe o suficiente para se sentir bem.
A arma estava na cômoda, apontada para a parede, atraindo seus olhos como uma intimação da
Suprema Corte. Não gosta da minha aparência?, parecia lhe dizer. Problema seu. Você e eu agora
somos parceiras para o resto da vida. Durma sem mim para você ver só. Sarah estremeceu e pegou o
telefone. Alguns segundos mais tarde, estava falando com sua mãe.
“Acredita em mim, mãe”, dizia ela, “você não pode fazer nada pra ajudar. Só fica aí, onde é seguro.
Não, eu não posso contar onde eu tô. É perigoso demais.”
Mas sua mãe foi muito persistente desta vez. Ela queria pelo menos um número para o qual pudesse
ligar, no caso de precisar sair. Sarah não poderia entrar em contato com ela. Isso pelo menos era
verdade.
“Mãe, se eu der um número, você tem que prometer não contar à polícia ou a ninguém. É sério.
Provavelmente só vamos ficar aqui por pouco tempo, de qualquer maneira. Ok, ok, anota o número.”
Ela deu a sua mãe o número escrito no telefone do motel e depois disse que a amava. Houve uma breve
hesitação, depois a resposta esperada e calorosa. Após Sarah desligar, ela ficou olhando para o telefone. Todo esse mistério devia estar acabando com sua mãe.
Mas ela precisava se proteger. Um pensamento errante saltou em sua mente como uma pedra sobre um
lago. Ele não ficou ali por muito tempo para Sarah considerá-lo significante. Mas aquela oscilação
característica na voz de sua mãe havia sumido.