O Exterminador do Futuro

James Cameron · Capítulo 49 de 52

Páginas do PDF

O Exterminador do Futuro

Tikki Motel 8:42 p.m.

■ TIKKI MOTEL

8:42 P.M.

_

_

 

Se você semicerrasse os olhos e não prestasse atenção aos detalhes, Kyle e Sarah poderiam ser um casal

preparando o jantar lado a lado, uma comovente imagem doméstica. Em vez disso, eles estavam fazendo

a receita que era um dos pilares da guerrilha – bomba caseira.

Eles estavam na cozinha, ao lado um do outro, em frente à pequena mesa de compensado, que agora

estava coberta de utensílios e vasilhas.

Reese estava segurando um dos oito pedaços de cano de vinte e cinco centímetros de comprimento. Ele

pressionava a massa altamente explosiva, que haviam acabado de fazer, para dentro do cano com uma

colher de plástico. “Deixa um pouco de espaço, assim. Não deixa grudar nada nas roscas.”

Sarah o observou raspar delicadamente o excesso e depois colocar a tampa na ponta.

“Enrosca isso aqui – assim, muito delicadamente.”

Ele a ajudou a começar; depois, quando se certificou de que ela podia completar as bombas sem sua

assistência, Reese se pôs a trabalhar na porta de trás.

Algum tempo depois, quando Reese já a pusera em funcionamento, ele voltou à cozinha para ajudar

Sarah a fazer os estopins.

Desenhos das luzes da rua formados pelas finas cortinas balançavam suavemente nas paredes. Sarah

observou as sombras na sala escura, esperando que o movimento delas a fizesse dormir. Mas não

conseguia dormir, apenas olhar para o teto.

Reese era uma silhueta imóvel ao lado da janela, agachado para enxergar pela fenda entre a cortina e a

parede. Ele podia ser uma estátua chamada “Vigília”. Despido até a cintura, seu corpo parecia esguio e

duro sob a luz da rua, com as cicatrizes em relevo como insígnias.

Sarah desviou o olhar para a mesa; as bombas finalizadas estavam organizadas em uma fileira ao lado

de uma sacola de náilon, que continha um isqueiro, alguns pacotes de comida e várias outras

casualidades para a sobrevivência na estrada. Do outro lado, sentado em uma cadeira ao lado da janela,

estava Reese.

Ela se levantou e andou até ele. Reese olhou para Sarah apenas rapidamente, quando se sentou ao seu

lado no braço da cadeira, depois continuou a espiar pela janela, observando, com o .38 no colo.

Por insistência inabalável de Sarah, Reese havia tomado banho. A sujeira de seu rosto havia sumido,

revelando uma pele lisa e rosada, os cabelos limpos e úmidos. Ele estava usando a nova calça jeans que

havia comprado mais cedo e tênis. Por suas costas nuas, cicatrizes irregulares marcavam a área plana de músculos contraídos. Era como um mapa de sofrimento e uma sensação de desgraça em vão tomou conta

de Sarah. A carne não era páreo para a máquina.

“Você acha que ele vai nos encontrar?”, perguntou ela.

“Provavelmente”, disse Reese.

“Olha para mim; eu tô tremendo. Que lenda, hein? Você deve estar bem decepcionado.”

Reese saiu da sombra e a encarou.

Ela não usava maquiagem. Seu cabelo estava embaraçado. Seu lábio inferior tremia. “Não estou

decepcionado”, disse ele com a voz mais neutra que conseguiu.

Sarah olhou nos olhos de Reese. Desviou o olhar. Ela imaginava qual deveria ser a comparação com a

imagem da Sarah Connor que trazia consigo. Tinha certeza de que até as mulheres mais humildes do

mundo dele estavam mais aptas à sobrevivência do que ela.

“Kyle, as mulheres da sua época... Como elas eram?”

Reese deu de ombros. “Boas lutadoras.”

“Kyle...”, começou Sarah, e depois hesitou, percebendo que estava olhando para um rosto jovem e

doce. Bonito, na verdade, apesar da cicatriz. Ele era seu protetor, mas de alguma maneira sentia que

Reese precisava dela. O que ela estava prestes a perguntar era algo novo; não tinha nada a ver com sua

obrigação ou com o medo dela, ou com aquele pesadelo compartilhado por eles. “Na sua época, havia

alguém...”

“Alguém?”, perguntou Reese, confuso.

“Uma garota. Alguém especial. Você sabe...”

“Não”, disse ele, rapidamente, lembrando-se de todas as mulheres que conhecera, especialmente as que

morreram. Parecia que todas haviam morrido, pelo menos aquelas cujo nome ele sabia.

“Nunca”, acrescentou ele, quase como parêntese.

Sarah fez uma pausa, surpresa. “Quer dizer que nunca...”

Reese se virou para a janela, com os dedos involuntariamente apertando a arma. “Não havia muito

tempo pra isso. Eu estava em uma guerra. Se as mulheres tinham idade suficiente pra... isso, então tinham

idade suficiente pra lutar. Elas eram apenas soldados – mais nada.”

A solidão cinzenta e interminável da vida dele a impressionou neste momento e as Sarinhas sentiram o

bafo quente de indignação e desespero, e depois algo ainda mais doloroso e, no entanto, mais

maravilhoso do que o que viria em seguida – algo que as fizera mudar de ideia e ver um novo lado de

Sarah, tanto que choraram e se abraçaram. “Eu sinto muito”, disse Sarah, impulsivamente tocando um

corte alto e malcurado abaixo da escápula de Reese. “Tanta dor...” As lágrimas brotaram nela,

escorrendo quentes por suas bochechas, lágrimas para ele enquanto permanecia rígido sob seu toque,

parecendo alheio aos dedos dela acariciando uma antiga ferida.

“A dor pode ser controlada”, disse ele, com a voz séria. “Dor é uma ferramenta. Às vezes, quando ela é

irrelevante, você pode simplesmente desconectá-la.”

“Mas aí você não sente nada.”

Reese se ateve às palavras de John Connor. Ele repetia as instruções várias vezes em alta velocidade

em sua memória, reprimindo suas emoções, que estavam borbulhando e saindo de si. Ele tentou bloqueá-

las, tentou vedar as rachaduras, mas os sentimentos estavam sob enorme pressão e os dedos dela eram tão

macios e bons.

Sarah sentiu os músculos de Reese se ondularem sob seus dedos, a respiração presa em sua garganta.

Então ele falou bem baixinho, como se ela fosse um padre e ele estivesse se confessando. “Uma vez, John

Connor me deu uma foto sua. Eu nunca soube por quê. Era muito antiga. Rasgada. Você era jovem, como é

agora. Você tinha um olhar distante e sorria, só um pouquinho, mas de algum modo era um sorriso triste.

Eu sempre me perguntei o que você estava pensando. Eu decorei cada linha, cada curva.”

Ele reprimiu a última parte. Não queria continuar de jeito nenhum, mas não conseguiu parar, porque

agora estava explodindo. Tudo que estava preso lá dentro jorrava pela fresta aberta e sua boca continuou,

e sua voz ficou forte, com convicção, quando disse: “Sarah, eu atravessei o tempo por você. Eu te amo.

Eu sempre te amei”.

Pronto. Tudo dito. Agora volte para dentro e tape o buraco com cimento e tudo ficará bem. Mas ele

não conseguia encontrar o caminho de volta, pois estava olhando para os olhos luminosos de Sarah. Ela

estava olhando para ele, chocada, com os olhos úmidos, e ele não estava mais certo de nada – nem de seu

treinamento, nem de seu dever, nem dos sentimentos dela em relação a ele, principalmente. Mas sabia que

a amava e que nada jamais a mataria. Nenhum homem, nenhuma máquina, nada jamais chegaria perto de

machucá-la novamente, porque ele destruiria um mundo para salvá-la. Ele se cortaria ao meio. Ele

deixaria de existir para que ela pudesse viver, não mais pela humanidade, mas por ela.

Sarah viu tudo isso no rosto e nos olhos dele e foi em sua expressão, mais do que em suas palavras, que

ela acreditou. O que mais a chocou foi a revelação de que ela, enfim, havia inspirado o Olhar, mais

profundo e doloroso do que jamais imaginara que fosse capaz. Reese estava lhe mostrando o Olhar, tão

intenso que a queimava, mas ela não queria se desviar. Ela queria que ele a olhasse daquele jeito para

sempre. E, ao querer isso, o tempo começou a desacelerar e ficou tudo muito quieto no pequeno quarto

escuro.

Sarah tocou o rosto dele. A pele de sua bochecha era tão macia...

De repente, Reese se lembrou do caminho de volta. Era escuro, frio e difícil, mas era importante que o

tomasse agora, se realmente a amava. Levantando-se com dificuldade, ele se afastou.

“Eu não devia ter dito isso”, chiou entredentes. Ele parou ao lado da mesa e começou a colocar as

bombas caseiras metodicamente na sacola de náilon. Por um momento, Sarah ficou desorientada. Ele

estava se mexendo como uma máquina, como um ciborgue. Ele estava na máquina se escondendo dela.

Isso ela não podia suportar. Foi até ele, puxou-o para se virar, abraçou-o, beijou seu pescoço, sua

bochecha, sua boca. A onda de sensações parecia fluir através de seus braços e boca até o corpo dele,

esmorecendo sua rigidez. Reese sabia que o caminho de volta se perdera para sempre.

Ele soltou um pequeno gemido quando uma parte de si morreu e outra se fortaleceu. Ele puxou Sarah

mais para perto, pressionando-a contra seu peito, e bebeu de sua boca.

De alguma maneira, eles estavam no chão, ao lado da mesa. Ele não sentiu. Não havia nada ao redor

dele a não ser Sarah; ele a queria e a puxava cada vez mais para perto.

Ela beijou as cicatrizes de Reese. Estava tirando a dor e alterando o propósito de sua vida. Ela era uma

ladra e ele, uma vítima voluntária. Ela estava se mexendo em cima dele agora, pairando como uma

delicada antítese aos CA s aéreos, e ele a puxava ainda mais para perto, embora ela já estivesse o mais

perto possível sem que ele a esmagasse até a morte.

Sarah sentiu o desejo de ele atravessar seu corpo e ressoar pelo dela, até que começou a devorá-lo

vorazmente. Por um tempo infinito foi assim, agarrando-se e ofegando sem pensar, sem planos, ambos se

afogando na primeira e poderosa onda de seu amor.

Mas depois Sarah começou a voltar a si e viu que ele estava perdido, sem direção, chafurdando no

confuso desejo por ela. Ela levou Reese até a cama.

Sarah então o ajudou a tirar a calça e depois o guiou pelo corpo dela, colocando as mãos dele nos

lugares que pareciam adormecidos, pois nunca foram realmente despertados. Despertaram ao toque dele

e imploraram por libertação. Os dois logo estavam nus, criando um novo ambiente de união, um ambiente

que nunca existira e jamais existiria novamente. E agora o tempo realmente parou.

Juntos, eles venceram um impulso medido de tempo quando seus corpos se encontraram no centro

macio e pulsante de um universo sombrio.