O Exterminador do Futuro
Restaurante familiar do Big Jeff 12:17 p.m.
■ RESTAURANTE FAMILIAR DO BIG JEFF
12:17 P.M.
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Sarah atravessou a neblina que estava gradativamente ficando mais espessa, aquela fumaça quente
reluzindo o horizonte em uma miragem de placas de trânsito e outdoors de cores berrantes. Ela conduziu
sua scooter até o estacionamento do Big Jeff. Acorrentou apressadamente a Honda a um poste perto do
boneco feito de gesso e fibra de vidro do próprio Big Jeff, trajando um chapéu de mestre-cuca e um
sorriso obsceno de tão feliz. O moleque sardento estava perpetuamente sustentando um hambúrguer
esculpido – com mostarda escorrendo pelo pão com gergelim, sempre a instantes antes de cair no chão –
em homenagem a sabe-se lá qual divindade que protege as crianças gordas.
O cheiro da atmosfera saudável do Big Jeff subiu e a envolveu em um miasma adocicado de fumaça
velha de cigarro, hambúrgueres pela metade, frios e nojentos, e o “molho especial”, coagulando e ficando
escuro como melado.
A correria do almoço estava começando a virar um caos total. Auxiliares de garçom passavam para lá e
para cá discretamente, com a paciência de um gavião, limpando os dejetos culinários das mesas
momentos após a partida dos responsáveis pela bagunça. Garçonetes zanzavam, clientes engoliam a
comida e até os mais velhos corriam para o banheiro.
Uma câmera de vídeo avaliava o salão acima da porta em que se lia “Apenas Funcionários”. Sarah fez
uma careta ao passar sob a câmera sem olhar para a frente e acabou trombando com Nancy Dizon, uma
garçonete robusta e morena de ascendência metade filipina e metade irlandesa.
“Desculpa”, sussurrou Sarah.
Nancy acenou para ela. “Nada, a culpa é minha. Estou apressada porque me atrasei.”
“Eu também”, disse Sarah para as costas de Nancy, que rapidamente desapareceu.
No corredor de serviço, Sarah reduziu a velocidade para vasculhar a bolsa em busca do cartão de
ponto, deixando cair seus livros. Ao se ajoelhar para pegá-los, uma voz metálica chamou seu nome.
Ela olhou para a câmera do teto logo acima de uma porta onde estava escrito “Chuck Breen, Gerente”.
“Sarah, venha até o escritório, por favor.”
Mordendo o lábio, Sarah enfiou o cartão no relógio de ponto e se encolheu com o barulho alto e
acusatório da máquina, processando e imortalizando seu atraso. Ela então enfiou a pilha de livros sob o
braço e empurrou a porta para abri-la.
Chuck Breen estava sentado atrás de um console cheio de monitores. Tudo que precisava era de um
uniforme para ficar parecido com um segurança. Ele não usava crachá – a não ser, talvez, na sua cabeça.
Sarah tentou dar seu sorriso mais brilhante, mais corajoso. “Oi, Chuck. Adivinha só, eu me atrasei.”
Ela disse tudo como uma única palavra, mas Chuck as separou e decifrou.
Ele se inclinou sob o brilho de um monitor e seu rosto cheio de espinhas ficou em alto-relevo, como a
superfície da lua. Encantador.
“Isto” – Chuck apontou para um computador em sua mesa – “é um Apple Macintosh 128K com planilhas
eletrônicas. É meu organizador. Eu registro salários, gorjetas, escalas de trabalho e, o mais importante, o
relógio de ponto. Você está exatamente dezoito minutos atrasada, Connor. Qual é a desculpa?”
“Meu pneu furou.”
“Por que será, Connor, que o pneu de tanta gente parece incapaz de permanecer inflado quando eu
mesmo não tenho um pneu furado há dez anos?”
“Faz dez anos que você anda de ônibus, Chuck”, respondeu Sarah, calmamente.
“Como todas as pessoas que não têm transporte confiável deveriam.”
“Minha moto geralmente é confiável. Não tive pneu furado em...”
“Desculpe-me, Connor, não quero ouvir a história da sua mobilete.”
“É uma scooter, Chuck”, disse ela.
O que você está fazendo?!, censuraram as Sarinhas. Você precisa deste emprego. Por um instante,
Sarah tentou afugentar as vozes prudentes; depois ela cedeu.
“Escuta, Chuck... Me desculpa, não vai acontecer de novo.”
Simples, humilde, tranquilizadora. Para a maioria das pessoas, seria suficiente. Mas não para esse cara.
“Olha, Sarah, um dia você vai ter de aprender que há responsabilidades que deve cumprir na vida
adulta. Cuidar de si mesma, de sua família e honrar seus compromissos com os outros. Especialmente
com seu patrão. Você não pode se atrasar novamente.”
Por que as pessoas têm de agir assim?, pensou ela. A vontade de dizer a Chuck o tamanho da
relevância que sua visão cósmica tinha nesse momento chegou no auge, mas foi derrotada pelas Sarinhas,
que a aconselharam a preservar o emprego. Era a hora do estrangulamento. Para a outra parte de Sarah,
ela deveria ter dito algo além do que dissera. Mas não o fez. E isso era um pouco triste. Mas foi a
decisão que ela tomou. E Sarah não se sentaria sobre as mãos e gritaria de dor.
“Estou descontando do seu salário.”
Ele fez um gesto para que ela se aproximasse e apontou para o nome de Sarah piscando como um
minúsculo néon em um limbo fantasmagórico eletrônico.
“Viu? Já entrou.”
Chuck se voltou para os monitores monocromáticos, passando os olhos sobre eles independentemente,
fazendo Sarah se lembrar de Pugsly quando contemplava um pedaço de alface.
“Maravilha”, ela murmurou baixinho ao sair pela porta.
Do lado de fora, Sarah se sentiu entorpecida pela raiva. Ela dobrou o corredor apressadamente e,
diante do vestiário, girou o corpo, voltando-se na direção da sala do gerente, e estendeu o dedo médio.
A voz de Chuck surgiu no alto-falante.
“Que atitude ruim, Connor. Isso não é o tipo de coisa que uma garota do Jeff deveria estar fazendo.
Lembre-se: você é uma garota do Jeff, pelo menos por enquanto.”
Sarah havia se esquecido da câmera do outro lado do corredor.
“Não esquece de empurrar a salada do Jeff hoje, hein?” Nancy veio pelo corredor na direção dela.
“Vamos lá”, disse ela. “O Big Jeff tá de olho em você.”
Dentro do vestiário, Sarah jogou os livros no fundo de seu armário, cansada. “Aposto que ele tem uma
daquelas câmeras escondidas aqui em algum lugar.”
“Ah, é?”, murmurou Nancy. Ela levantou sua saia oficial do Jeff, puxou a calcinha para baixo e tocou o
terror. “Isso aqui é pra você, cara esburacada.”
Sarah riu, liberando os últimos resquícios de raiva, e em seguida começou a se despir.
“Cuidado”, alertou Nancy, mascando sua onipresente pelota de cinco pedaços de chiclete.
Sarah fingiu uma paranoia e virou-se para a parede, escondendo-se atrás da porta do armário enquanto
tirava suas roupas e vestia a blusa roxa e rosa e a saia.
Nancy ficou fazendo hora, esperando Sarah terminar, usando o tempo para sua atividade favorita:
fofocar sobre suas colegas garçonetes. Ela matraqueava alegremente sobre Sue Ellen, a menina em
treinamento que tinha o desleixado hábito de dar espirros bem molhados em cima da comida logo antes
de servi-la.
Sarah se apressou com sua maquiagem, passando um pouco de delineador e um toque de blush para se
levantar da cova. Aquele dia estava cobrando um preço alto, isso era fato.
Quando ela era pequena, sua mãe costumava lhe dizer que seus olhos um dia levariam os homens à
loucura. Ela os analisou agora. As pálpebras inferiores eram levemente caídas. Sua mãe dizia que as
mulheres invejariam aquele olhar sexy. Mas Sarah só pensava que sempre parecia estar acordando após
uma longa noite. E a cor deles. Sua mãe também elogiava a cor que eles tinham. Cor de mogno, para
combinar com seu cabelo castanho. Sarah sorriu para si mesma, depois jogou a cabeça para trás e esticou
a pele do rosto, examinando o efeito que algumas pinceladas de rímel tinham. Normal. Sarah viu apenas
olhos castanho-escuros e cabelos castanho-claros. Boa tentativa, mãe.
No momento seguinte, parou em frente ao espelho de corpo inteiro e colocou a redinha oficial do Big
Jeff no cabelo.
“Oi”, disse Sarah, exibindo um sorriso vazio. “Meu nome é Sarah e eu serei sua garçonete.” Ela
apertou as bochechas para completar. Tudo nos conformes.
“Eu sou certinha pra caralho.”
Aquilo fez Nancy desabar.