O Exterminador do Futuro
Divisão de Homicídios 2:33 a.m.
■ DIVISÃO DE HOMICÍDIOS
2:33 A.M.
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Sarah vagou intermitentemente pelas fronteiras do sono. Ela viajava até a promessa quente da
inconsciência e depois se afastava, nervosa demais para se render ao cansaço.
Tanta morte a cercava. Ginger e Matt. Todas as pessoas inocentes que estavam andando e respirando
ainda pela manhã e que então não estavam mais, pareciam se estender em seu futuro como uma acusação.
Tudo aquilo pertencia à vida de outra pessoa, não à dela.
Por que duas mulheres com o mesmo nome dela foram assassinadas em seu lugar? Por que havia um
louco em seu encalço cidade afora e outro, agora na cadeia, protegendo-a? E a pergunta que ofuscava
todas as outras – por que eu? Por que Sarah Connor? Por que não Mertyle Cornwaithe? Ou John Smith?
Ela pensou na estranha história de Reese. Computadores começando a Terceira Guerra Mundial. A
humanidade acabando. Uma revolução de humanos correndo no meio das pernas de máquinas colossais.
E um homem conduzindo-os à vitória desesperada. Seu filho.
Um arrepio percorreu seu corpo e ela ficou séria. Seu bebê. Um bebê que ela criaria a fim de liderar
uma batalha para salvar o mundo. Não. Ridículo. Algumas horas atrás ela estava pensando em sua
própria mortalidade e na insignificância que sua morte teria. Em seguida, um homem insano lhe diz que a
vida e a morte da humanidade dependem da vida e da morte dela. Era demais... demais. Mas por que um
homem insano iria atrás dela e criaria essa natividade bizarra?
Imagens fragmentadas de uma criança surgiram em sua mente; uma coisinha gordinha e rosada
arrulhando em seus braços. Seus olhos realmente eram escuros e os fiapos de cabelo na cabeça quase
careca eram acastanhados. Quase podia sentir o cheiro da pele do bebê. Teve uma sensação estranha,
algo como uma saudade, mas distante demais para senti-la diretamente, apenas um eco dissipado dela
enquanto desaparecia; mas Sarah estava ciente de que as lágrimas quentes agora não eram apenas por
seus amigos mortos. Eram em parte inspiradas por uma emoção inexplicável que ela não sabia definir –
ainda.
Não conseguia nem chegar perto de uma resposta. Ela precisava não pensar por um tempo. Não sobre
Reese e suas visões psicóticas. Nem em Ginger e Matt. Ou em como seria ser mãe.
Seu último pensamento consciente foi um arremedo de oração para que Reese de fato fosse louco.
Uma oração que não seria atendida.
Silberman bateu na divisão de acrílico ao lado da cabine de vidro à prova de balas que rodeava o
sargento do plantão noturno. O sargento, Eddie Rothman, olhou para o psicólogo e pressionou o pequeno botão vermelho sob o balcão. Houve um ruído irritante e um estalo quando as travas elétricas da porta de
segurança de aço bateram de volta. Silberman entrou no saguão, murmurando um boa-noite distraído para
o sargento. Ele estava quase do lado de fora quando sua fantasia foi perturbada pelo bipe-bipe-bipe-bipe
de seu pager. Ele olhou para o número no leitor digital. Seu telefone de casa. Deveria ser Douglas
querendo saber que horas ele chegaria em casa. Silberman, bastante desperto e se sentindo agressivo,
esperava que Douglas ainda estivesse de pé quando ele chegasse.
Se não tivesse olhado para baixo e desligado o bipe, ele teria visto o grandalhão que passou pela porta.
E teria percebido que o sujeito estava usando óculos escuros às duas da manhã. Talvez percebesse que o
olho do homem por trás dos óculos estava muito danificado. E que havia um leve brilho vermelho nas
pupilas, do tipo que se espera de um ciborgue do futuro. Silberman poderia ter salvado muitas vidas se
tivesse olhado para cima antes de sair da delegacia.
Mas ele não olhou. Apenas saiu pela porta.
Decidido, o Exterminador caminhou na direção do sargento na recepção e esperou pacientemente o
homem erguer o olhar da pilha de papéis à sua frente.
“Posso ajudá-lo?”, perguntou o sargento Rothman com a voz muito entediada. Ele percebeu a palidez
desagradável do grandão. Rothman tinha certeza de que por trás daqueles óculos estavam olhos muito
dilatados. Outro drogado, ele pensou consigo cinicamente.
“Sou amigo de Sarah Connor”, disse o Exterminador sem rodeios. “Me disseram que ela está aqui.
Posso vê-la, por favor?”
“Não, ela está dando um depoimento.”
“Onde ela está?”, o Exterminador perguntou lentamente, para o caso de o homem do outro lado do vidro
não ter entendido o pedido.
O sargento Rothman jogou o lápis sobre a mesa e olhou laconicamente para o grandão. Por que será
que eles sempre vêm no meu turno?, pensou ele.
“Escuta, meu chapa”, disse Rothman como um professor primário impaciente, “vai demorar um pouco.
Se quiser esperar, tem um banco aí.”
Ele ajustou os grossos óculos no nariz e retornou à pilha de papéis.
O Exterminador deu um passo para trás, sem a menor perturbação com a recusa do sargento. Nem um
pouco.
Ele examinou a cabine, percebendo o vidro grosso e provavelmente à prova de balas. Ao lado, havia
uma pesada porta de aço – a entrada. Atrás dela, várias salas. E, em algum lugar lá dentro, estava Sarah
Connor.
O Exterminador educadamente voltou para a cabine e bateu de leve no vidro.
“Eu voltarei”, disse ele.
Com isso, ele se virou e saiu sem pressa pela porta da frente.
Atrás da recepção, no fundo do labirinto de corredores e salas, Reese estava sendo escoltado por
Vukovich e outro detetive à paisana até uma sala de espera onde aguardaria a transferência para a ala
psiquiátrica do hospital para outras avaliações.
Seus piores medos estavam se tornando realidade. Ele dera tudo de si, mas não recebera nada em troca.
Burrice tática. O preço seria a vida de Sarah e as vidas de milhões que ainda nasceriam.
John estava certo – não confie em ninguém; não dependa de nada. Era hora de tirá-la dali.
Nos instantes seguintes ao encontro com o Exterminador, o sargento Rothman se concentrou na
meticulosa tarefa de preencher relatórios de serviço. Se fosse mais alerta, teria visto um par de faróis
rapidamente se aproximando da entrada da delegacia. Assim como Silberman, ele permitiu que suas
pequenas preocupações o distraíssem dos dados essenciais da vida. Mas, ao contrário de Silberman, ele
não sobreviveria para se arrepender.
Quando os faróis do Chevrolet Impala roubado pelo Exterminador foram com tudo em direção à entrada
de vidro, Rothman cerrou os olhos por conta do clarão. Ele escolheu como seu último ato dizer as
palavras “Ah, merda”. Estatisticamente, as últimas palavras mais utilizadas em mortes violentas.
Duzentos e setenta quilos de placas de vidro explodiram em uma tempestade opaca, conforme o
monstro sobre rodas avançou pelo lobby, lançando vigas partidas e outros destroços como uma onda
diante dele.
O carro atacou a cabine de Rothman e a atingiu a 80 km/h. Tanto a cabine quanto o sargento foram
esmagados juntos em uma massa indistinguível e arrastados até a parede lá atrás.
Do outro lado do prédio, Sarah foi acordada abruptamente pela colisão distante. Ela piscou os olhos
embaçados e tentou localizar o som.
O Chevrolet do Exterminador, arrastando metade do saguão consigo, derrapou até parar cerca de seis
metros dentro da área principal da delegacia.
Rapidamente, o Exterminador chutou para fora o para-brisa estilhaçado e saltou sobre o capô do
Impala. Em uma mão estava a AR-180; na outra, a SPAS-12. Brandindo as duas como pistolas, o
Exterminador desceu para o chão do corredor e começou a caçar.
As primeiras vítimas foram dois veteranos que saíram para o saguão para ver o que diabos estava
acontecendo; um deles ainda estava segurando o copo de café que tomava.
O Exterminador tranquilamente fez alguns disparos com o fuzil de assalto AR e deu fim à vida dos dois
homens; uma chuva de gesso e sangue.
Sarah ouviu o som distante, mas inconfundível, dos tiros que ecoaram de volta até ela. A ponta de
apreensão que ela sentira ao acordar agora estava se transformando em um alerta total.
O Exterminador passou por cima dos dois policiais mortos e continuou em frente, sem diminuir o passo.
Ele olhou para a sala da qual haviam saído – vazia.
Ao chegar à porta seguinte, o ciborgue tentou a maçaneta. Trancada. A enorme máquina deu um passo
para trás e a arrombou com um chute.
Quando a porta de sua sala saiu voando, o homem atrás da mesa pulou da cadeira e tentou
desesperadamente pegar seu revólver.
A um metro dali, havia outra porta. Uma porta aberta. Se eu puder apenas alcançá-la, pensou o
policial. Abaixado, ele viu o Exterminador apontar a AR-180 enquanto atravessou a porta.
A salvo..., pensou ele.
A visão computadorizada do Exterminador rastreou o policial quando ele correu para o outro lado da
parede. Por trás de seus olhos infravermelhos, o microprocessador do Exterminador ainda via o alvo
como um contorno animado – um cálculo probabilístico do movimento do policial baseado em sua
trajetória e velocidade.
O Exterminador alinhou o cano da AR-180 com um ponto na parede a dois metros da porta e atirou. As
balas de 5,56 mm atravessaram a divisória e fizeram buracos grandes no peito e pulmões do policial. O
jovem morreu bastante surpreso.
Os tiros ainda estavam ecoando quando Traxler abriu a porta de sua sala, assustando Sarah. Ela
instintivamente deu um pulo para trás antes de reconhecer o tenente.
Traxler e Sarah se entreolharam por um segundo. Ele fez uma expressão como se dissesse Eu sei o que
você está pensando, mas está errada. No entanto, ele soube pela expressão de Sarah que ela não estava
a fim de acreditar nele.
Tudo que ele disse foi “Fique aqui”.
Traxler trancou a porta por dentro e a bateu, deixando Sarah sozinha.
Por todo o prédio, policiais corriam, de armas em punho, lançando olhares assustados uns para os
outros e gritando perguntas.
Um pânico controlado havia tomado conta deles. O barulho de tiros de armas automáticas em uma
delegacia de polícia era o pior pesadelo de qualquer oficial. E agora todos eles estavam tendo o mesmo
pesadelo ao mesmo tempo.
O Exterminador passou distribuindo morte até o fim do corredor e virou à esquerda. Ele abria portas e
atirava em policiais em um ritmo regular e constante.
Na metade do corredor, o ciborgue encontrou o quadro elétrico principal da delegacia e arrancou a
tampa. Analisando rapidamente o interior, viu os fios da linha de entrada de 440 volts e ferozmente os
arrancou. Uma miniexplosão de faíscas e correntes elétricas envolveu o ciborgue, formando um arco
voltaico pelo corredor.
Ele casualmente abriu uma pequena caixa de passagem e alimentou os 440 volts diretamente no circuito
de iluminação. Todas as lâmpadas do prédio, 134 tubos fluorescentes suspensos, explodiram
simultaneamente, jogando a já caótica delegacia na escuridão.
Por acaso, Sarah estava diretamente sob uma lâmpada na sala de Traxler quando ela se desintegrou com
um estrondo de arrasar. A sala ficou escura e isso não ajudou em nada as tentativas de Sarah de manter a
calma. Os disparos cresciam em quantidade e em volume. Ela conseguiu traçar com total precisão o
movimento da batalha – que estava indo para cima dela.
Na sala de espera, Reese ainda estava algemado quando os primeiros tiros foram disparados. Sua
mente de soldado absorveu instantaneamente a situação. Ele não ficou surpreso. Ele sabia quem havia
chegado.
Vukovich ficou rapidamente de pé e correu para a porta, sacando sua pistola. Ele se virou para o outro
detetive à paisana e falou prementemente: “Vigie-o”. Depois desapareceu pelo corredor.
O outro detetive assentiu e se levantou para fechar a porta. Ao fazer isso, deu as costas para Reese.
Uma burrice.
Ele ouviu a corrente de ar e estava começando a se virar quando Reese se chocou contra ele. A cabeça
do detetive bateu na porta e ele sentiu o joelho de Reese batendo em seu peito uma, duas vezes,
golpeando-o contra a parede. Ele caiu no chão, sem ar, e Reese ficou de pé, procurou a chave, retirou
suas algemas e pegou o revólver do policial.
Traxler já estava dentro do arsenal quando Vukovich chegou. Ele e seu parceiro trocaram olhares
sombrios. Secretamente, estavam pensando a mesma coisa: o coleguinha de Reese havia chegado. Mas
nenhum dos dois estava pronto para admitir que só um homem pudesse causar todo aquele estrago.
Em silêncio, Traxler pegou um fuzil de assalto M-16 e jogou outro para seu parceiro. Sem dar uma
palavra, eles correram para o corredor na direção do barulho dos tiros e gritos.
A busca do Exterminador levou a outro corredor. A SPAS-12 atirou pela primeira porta aberta.
Rapidamente, o homem-máquina examinou o interior, não localizou o alvo e prosseguiu.
Próxima porta. Exploda a fechadura. Examine. Nada. Prossiga. O padrão era fixo, mas fluido o
suficiente para reagir a qualquer obstáculo ou ameaça inesperada.
Um grupo de policiais uniformizados entrou pelo corredor e mirou no alvo que vinha lentamente na
direção deles. Seis pistolas atiraram ao mesmo tempo, fazendo buracos no tórax, braços e pernas do
ciborgue. O Exterminador olhou para eles, casualmente ergueu a AR-180 e os mandou pelos ares com
disparos precisos e discretos.
Os tiros pareciam estar do outro lado da porta, de acordo com os ouvidos não treinados de Sarah. Ela
não estava tão errada.
Seus olhos percorreram a minúscula sala, procurando um lugar para se esconder. Não entre em pânico,
ela ordenou a si mesma. Faça alguma coisa. Uma lembrança de sua infância surgiu em sua mente
consciente. Toda vez que queria se esconder da voz raivosa de seu pai, ela corria para o seu quarto e se
agachava sob sua pequena...
Mesa! Embaixo da mesa. Sarah correu até a grande mesa de trabalho de metal e se enfiou no espaço
apertado onde ficava a cadeira.
O Exterminador recarregou rapidamente a AR-180. O ciborgue havia grudado dois pentes banana com
fita adesiva, fundo com fundo, e simplesmente virava o carregador de cabeça para baixo e o reinseria.
Chamas dançavam pelas paredes; o corredor estava aceso com raios de luz amarela pulando para um
lado e para o outro.
Na sala anexa, Traxler ouviu o clique metálico inconfundível de um fuzil sendo recarregado. Ele ficou
paralisado, escutando os passos. Um homem pesado estava passando por ali, com suas botas ecoando
pelo longo corredor. Traxler abriu a porta da sala e mirou sua M-16 nas costas da larga jaqueta de couro.
Ele cuidadosamente alinhou os visores do cano com um ponto exatamente entre as escápulas do homem e
apertou o gatilho.
A M-16 rugiu ferozmente enquanto metade de seu pente saía pelo cano. Traxler viu a jaqueta de couro
ser retalhada, viu as balas entrando e ficou estarrecido.
Ele ficou estarrecido porque o homem simplesmente se virou, sem nem piscar, apenas se virou
casualmente e ergueu a pesada AR-180 como se fosse de plástico. E aquilo não era de brinquedo.
As balas atingiram Traxler no ombro, estômago e peito, e o lançaram contra o batente da porta. Ele viu
seu próprio sangue espirrar na parede em frente.
Lentamente, ele escorregou até o chão. As explosões em seu peito começaram a diminuir de
intensidade. Havia um zumbido alto em seus ouvidos.
A última coisa que Traxler percebeu foi que Reese não era nada louco.
Vukovich se abaixou e olhou incrédulo para os restos destroçados de seu chefe. A revolta ferveu dentro
dele, fazendo-o saltar até o corredor, tolamente, e apontar seu fuzil para a figura do agressor de Traxler.
“Ei, você!”, gritou ele furiosamente.
O homem se virou e ficou ali parado, aceitando o fogo de Vukovich como se fosse um agradecimento.
Para sua grande surpresa, o grandalhão segurava uma pesada escopeta com uma mão e o explodiu para
o além.
O Exterminador prosseguiu.
Sarah deu um pulo quando um barulho alto quebrou o novo silêncio. Era a maçaneta. Alguém estava
tentando entrar.
Seus dentes estavam batendo de medo quando ela olhou por cima do tampo da mesa. Uma silhueta
grande estava visível atrás do vidro opaco da porta. Era ele. Ela sabia.
Sarah se abaixou de volta sob a mesa. O pavor puro estava tomando conta dela. Seriam seus últimos
momentos de vida.
Houve um grande barulho de vidro se quebrando. Alguém deu um soco no vidro da porta para
destrancá-la por dentro.
A porta se abriu e um único par de passos ecoou. Sarah fechou os olhos. Nada aconteceu.
“Sarah?”, gritou uma voz.
Era Reese.
Sem um segundo de hesitação, Sarah saiu de baixo da mesa e correu para ele.
Reese estava ainda mais aliviado do que Sarah. Ela estava viva; a missão ainda estava viva. Pegou a
mão dela e saíram juntos em disparada pelo corredor.
O incêndio que havia começado em uma única sala, na frente do prédio, se espalhou, ameaçando
engolir a delegacia inteira.
No corredor por onde Reese e Sarah estavam passando, surgia fumaça por todos os lados,
acompanhada dos gritos dos homens morrendo.
Reese segurou a mão de Sarah bem forte enquanto zunia pelas salas destruídas por balas. Ele estava se
mantendo longe dos corredores abertos – era onde estavam todos os corpos.
E era por onde o Exterminador rondava.
Reese estava acostumado a lutar daquela forma, se esgueirando por pequenos túneis infestados de ratos.
Era a sua especialidade.
O fogo então estava furioso, devorando a delegacia inteira. Reese sabia que, em alguns segundos, todos
que ainda estavam ali dentro morreriam só por conta do calor.
Ele atravessou uma porta trancada com cadeado, entrou em um almoxarifado e viu o estacionamento
pela janela. Reese a esmurrou para abrir, agarrou Sarah, quase inconsciente por causa da fumaça, e a
empurrou através da janela.
O Exterminador sentiu a temperatura subindo. Muito em breve, sua pele começaria a criar bolhas e a
cair, embora isso não importasse muito, já que seu disfarce fora abandonado.
O tiroteio havia parado. Não havia mais coisas a matar e mesmo assim ele não conseguira localizar o
alvo primário.
O ciborgue começou a considerar os vários cenários da possível fuga dela, quando o barulho ao longe
do motor de arranque de um automóvel atravessou o crepitar das labaredas.
Instantaneamente, o Exterminador soube onde o alvo estava. Largando a escopeta vazia, ele correu até a
porta de saída dos fundos.
Quando o Exterminador chegou ao estacionamento, Reese já havia feito ligação direta no Ford 70
vermelho e estava voando na direção da saída. Ele viu o Exterminador parado, iluminado pelo fogo atrás
dele, com a porta aberta. “Abaixe-se!”, gritou ele para Sarah.
O Exterminador cuidadosamente mirou o fuzil de assalto AR, levando em consideração a velocidade do
carro e seu curso tangencial. Ele disparou três tiros rápidos antes de a arma se esvaziar e o alvo sumir de
vista, virando a esquina do prédio.
Reese e Sarah tiveram sorte. A primeira bala atingiu o lado esquerdo do para-choque, logo atrás do
farol. A segunda passou por cima do motor; dois centímetros a menos e o carro teria morrido. A terceira
bala perfurou a porta do motorista e atravessou alguma coisa macia antes de se enterrar inofensivamente
no tapete.
Durante a hora seguinte, Reese dirigiu com total concentração, interrompendo a vigília da estrada
apenas rapidamente para verificar o estado de Sarah.
Ela chegou perto da histeria quando eles deixaram o estacionamento e desceram a alameda com tudo na
direção da Interestadual 10.
Reese queria sair da cidade. Para ganhar um pouco de tempo. Para retomar o controle da situação.
Rumaram para o leste na 10, longe do litoral. Longe dos corpos fumegantes e do pesadelo ambulante
que Reese sabia que iria atrás deles.
Reese estava viajando às cegas, meramente se distanciando da carnificina na delegacia. Mas, após os
primeiros minutos, reduziu a velocidade, ligou os faróis e começou a imitar os outros poucos motoristas
da estrada. Sarah, que estivera se segurando com força ao painel, esperando outra corrida de demolição
pela calçada, permitiu-se relaxar um pouco. Mas ainda estava atordoada demais para falar e ficou em
silêncio enquanto Reese se concentrava em escapar e evadir-se.
“Que bom que você está viva”, disse Reese sem se virar. Seu tom de voz era muito sincero. Ela ouviu e
silenciosamente concordou, relaxando mais um pouco conforme o choque e a adrenalina diminuíam.
“Aonde estamos indo?”, ela conseguiu balbuciar.
Reese percebeu que não tinha destino. Olhou pelo retrovisor, procurando alguma atividade que
parecesse suspeita, e então parou o carro e abriu o porta-luvas. Atrás dos fusíveis sobressalentes, do
Pepto Bismol e das dúzias de pacotinhos de ketchup e mostarda de fast-food, ele encontrou um guia de
mapas. Estava velho e desbotado, muito provavelmente desatualizado, mas era melhor que nada. Ele
procurou uma área aberta. Encontrou. “O sul é a melhor opção. Talvez o México.”
Eles viajaram em silêncio, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Sarah estava tentando
deixar Ginger e Matt descansarem. Isso ainda levaria muito tempo.
Reese virou para o sudeste na rodovia de Pomona e vinte minutos depois pegou a direção sul na 57.
A gasolina estava acabando. Àquela hora da madrugada, nada ficava aberto; todos os postos de
gasolina que podiam ver da estrada estavam escuros.
Atravessando os morros ao norte de Brea, onde a estrada cortava as colinas verdes como uma fita
prateada, o motor do carro começou a engasgar.
Reese costeou até a primeira rampa de saída que encontrou, para a Brea Canyon Road, e foi descendo
por ela até rolarem para a beira macia da rodovia sem iluminação.
Ele e Sarah desceram, cansados, com Sarah protestando de leve. Ela não via motivo para dormir ao ar
livre quando tinham à mão um carro em perfeitas condições.
Mas Reese sabia que era melhor assim. E Sarah sabia pelo menos que não devia discutir com ele.
Reese pegou um kit de primeiros socorros e uma lanterna no porta-malas; depois ela o ajudou a
empurrar o veículo até a beira de um grupo de árvores pontilhando uma encosta suave. Com grande
esforço, eles lançaram o carro para baixo da encosta, na escuridão, onde ele não pudesse ser visto da
estrada.