O Exterminador do Futuro

James Cameron · Capítulo 3 de 52

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O Exterminador do Futuro

Dia1

 

■ LOS ANGELES, CALIFÓRNIA

OBSERVATÓRIO DO GRIFFITH PARK

9 DE MARÇO DE 1984

SEXTA-FEIRA – 3:48 A.M.

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“A História está morta”, dizia a pichação em uma das paredes de estuque que circundavam o laboratório

iluminado pelo luar. Talvez o rabisco tenha sido feito por capricho de algum aluno ou pintado com spray

pelo membro de alguma gangue local que interrompera com um conceito literário seu ritual comum de

marcar território. Ou talvez tenha sido colocado ali por alguém que sabia a verdade.

O edifício de cúpula tripla estava em silêncio, iluminado apenas por uma fraca lâmpada amarela acima

da entrada de cobre e vidro. Os jardins ao redor eram bem-cuidados, podados com uma precisão soberba

pelos jardineiros do parque municipal, mas havia pequenos montinhos de lixo rodopiando pelo amplo

estacionamento e sendo imprensados pelos ventos de março contra o muro pichado.

No passado, o observatório havia sido uma janela de trabalho com o cosmos. Desde que fora

construído, astrônomos ponderavam sobre o tique-taque centenário do relógio cósmico no céu, lá do alto

dos morros. Agora isso era quase impossível, devido à teia brilhante da cidade que iluminava a bacia de

Los Angeles à noite e apagava as estrelas. A emissão de gases das indústrias e do tráfego das rodovias

criava uma névoa quase opaca e constante que dificultava ainda mais o uso dos telescópios, que agora

permaneciam quase sempre desativados.

Ao longo dos anos, o observatório se tornou um planetário, com o teto das cúpulas agora refletindo

“estrelas” projetadas de uma máquina, como se conseguisse apenas se lembrar de suas formas. Do

passado acadêmico, ele agora havia se tornado, assim como a Disneylândia, um lugar para turistas se

perderem a caminho de outro, uma meca para excursões de ciências do ensino médio e, desde que

acrescentaram o “Laserium” – raios laser criando formas complexas sobre o teto curvo ao som de um

rock ensurdecedor –, um ponto de encontro para estudantes procurando por alternativas para cinemas

drive-in e shows de rock. A outra atração era a vista de Los Angeles do estacionamento. Nos trinta ou

quarenta dias do ano em que o ar estava limpo – e ele podia ficar limpo como o alto de uma montanha,

com sombras tão nítidas que pareciam feitas por lâminas –, alguns casais ficavam após a última sessão

do Laserium para admirar um show de luzes mais estáticas, mas não menos espetaculares, até que os

vidros de seus carros ficassem embaçados e sentidos diferentes da visão se tornassem mais importantes.

Mesmo para quem não tinha companhia, a vista valia a longa subida. Isto é, quando a estrada estava

seca e não chovia sobre a cidade, com as luzes dos postes e os néons multicoloridos ofuscados pelas

nuvens negras que chegavam carregadas de Santa Mônica e da imensidão verde-escura do Pacífico do

outro lado. Aí a viagem íngreme e esburacada não valia a pena. Portanto, antes da tempestade, que já se

aproximava, o único veículo que se movimentava pela Vermont Canyon Road era um gigante laranja e

amarelo, um caminhão de lixo da prefeitura.

Del Ray Goines apalpou o bolso direito de seu casaco azul-marinho procurando o botão de volume de

seu walkman. Os dedos de B.B. King pressionavam as cordas de sua guitarra, formando um acorde

virtuoso de blues. Del adorava essa parte, mas seu caminhão estava perdendo força. Ele teve que

acelerar o ruidoso motor a diesel e, com o barulho, B.B. King simplesmente desapareceu. Os fones de

ouvido que vieram com o toca-fitas eram leves demais e deixavam entrar os sons de fora. Ele pensou em

comprar aqueles fones antigos que cobriam completamente as orelhas. Era ilegal usar fones para dirigir,

ainda mais para um funcionário público, mas foda-se, um homem precisa manter suas prioridades.

Música é mais importante que lixo, pensou Del. Se descobrissem que ele usava o walkman

clandestinamente no trabalho, seria despedido. Não que ele amasse o emprego. Longe disso. Mas

precisava comer e ainda havia a pensão de Leanna, seu cachorro, Boner e o senhorio melequento.

Lógico, agora ele tinha um salário decente e o dogue alemão se alimentava bem, não havia dúvidas.

Mas também ninguém acusaria Del de ser um fracote. Nas épocas mais magras, a balança marcava mais

de cento e dez. Mesmo assim, levar lixo de uma ponta do parque à outra não era exatamente seu emprego

dos sonhos. Há vinte e dois anos ele estava fazendo o que queria: era linebacker, um jogador de defesa

no futebol americano, dos Houston Oilers. Duas boas temporadas, provavelmente as únicas boas

temporadas que os Oilers tiveram, e depois ele entrou numa maré de azar. Lesão no joelho. Divórcio.

Saída do time. A maior parte de seu salário foi para o bolso de um jogador de pôquer melhor que ele.

Desde então, Del entrou numa montanha-russa. Houve alguns altos, mas na maior parte do tempo a danada

o colocava para baixo. E agora ele era lixeiro – desculpe, engenheiro de campo do departamento

municipal de saneamento. A porra de um transportador de merda. Um antigo colega de time o recomendou

e ele foi contratado.

Levantava às duas horas da porra da madrugada. Entrava no cavalo de metal e lutava para que ele

subisse estradas estreitas de terra a fim de coletar os restos de comida do piquenique de alguém. Aquele

fedor de podre, de casca gosmenta de laranja do lixo, ia com você. Sempre. Como um ser vivo nojento.

Ele pegou a alavanca de câmbio com sua mão grande e marrom e engatou duas marchas violentamente.

Estava subindo a última elevação e precisou reduzir uma marcha para conseguir. O caminhão chacoalhou

o motor e as vibrações trepidantes viajaram pela carroceria, passaram pela coluna de direção e subiram

pelos braços musculosos de Del. Ele virou o caminhão para o estacionamento do observatório e piscou

ao ver um Chevy Malibu 1968 cinza, parado feito um poste, bem no meio de seu caminho. Em dois

segundos, seu cérebro precisou registrar totalmente espanto, medo e então ressentimento por alguém

poder tornar seu trabalho ainda mais perigoso, ainda mais difícil, quando avistou um garoto branco

urinando na grade frontal do veículo. Ele usava uma jaqueta preta de couro com correntes enroladas, o cabelo roxo arrepiado bem para cima formando pontas, fazendo Del se lembrar de Buckwheat de Os

Batutinhas, e uma calça cinza com a barra enfiada nos coturnos. Um punk, como se dizia. Del freou com

força e fez o caminhão girar. O garoto – talvez dezessete ou dezoito anos – não moveu um músculo

enquanto o caminhão de Del rugia. Del olhou pelo espelho lateral para ver se o garoto daria um pulo para

trás. Em vez disso, ele se virou calmamente para o caminhão de lixo que passava e continuou a mijar,

com o jato batendo no pneu de trás.

Pequenas explosões de raiva deram lugar ao medo que Del sentira e ele bateu a mão contra o centro do

volante. O estrondo da buzina a ar acima da cabine podia levantar defunto. Isso sim faria os cabelos do

garoto ficarem de pé. Del olhou para o espelho, mas só conseguiu ver a figura distante do punk lhe

mostrando o dedo médio.

Punk uma ova. Babaca. Se fizesse isso quando Del voltasse, aí sim ele teria motivos para mijar.

Havia um adesivo no para-choque do caminhão que dizia “Esta propriedade é segurada pela Smith &

Wesson”. E ele estava realmente armado, mesmo que fosse apenas com uma pistola HR calibre 22 de

setenta dólares que ele comprara de seu cunhado uns anos atrás. Talvez a única coisa a ser morta com ela

tenha sido uma lata de Budweiser, mas ele sabia mirar e apertar o gatilho decentemente.

B.B. King voltou, flutuando em sua consciência conforme ele dirigia o grande caminhão de lixo pelo

asfalto em direção às caçambas de lixo.

Del Ray tentou se acalmar. Mas aí ele se lembrou por que começou a carregar a arma. Não era por

conta das dúzias de esfaqueamentos e brigas de gangues que manchavam a história recente do parque. Era

mais pessoal do que isso. Aquela noite da terceira semana em que ele começou a dirigir para a

prefeitura. Por volta dessa hora, em outra parte do parque. Ele estava operando o elevador, movendo uma

caçamba por cima da cabine para esvaziá-la atrás, quando alguma coisa bateu no teto do caminhão e

rolou para cima do capô.

A polícia disse que foi assassinato ligado a drogas, mas tudo que Del sabia era que o garoto de dezoito

anos havia sido estripado e grande parte do que ele havia comido se espalhou pelo para-brisa. Então Del

começou a andar armado. Todo o mundo sabia que L.A. era cheia de malucos. E os garotos brancos

estavam mesmo ficando estranhos. Del olhou no espelho lateral de novo, mas agora já estava longe

demais para ver alguma coisa. Contornou uma curva do muro e parou em um beco sem saída onde as

caçambas se amontoavam como metais abandonados. Ao inclinar o caminhão para poder se enganchar à

primeira caçamba, ele começou a relaxar um pouco. Tá ficando igual a uma velhinha, Del, pensou. Mas

ele demorou mais do que de costume para terminar o trabalho, porque ficava olhando distraidamente o

retrovisor lateral – só por precaução.

 

Mark Warfield estava no meio da mijada quando o monstro rugiu estacionamento adentro. Como um

canguru paralisado com o brilho da lanterna do caçador, Mark se manteve na posição. Aquilo era o

destino chegando, desafiando seu brio. O destino com meio carregamento de lixo nas costas, roncando em

sua direção como um rolo compressor. Foda-se o destino. E mije nele também.

Enquanto o destino passava, ele mijava.

Um instante depois, enquanto colocava o pinto de volta nas calças, a buzina o fez dar um salto,

prendendo Mark dolorosamente nos dentes do zíper.

Foi então que uma revelação primordial passou por seus neurônios ligados e ele percebeu que o destino

o estava sacaneando. Estourando seus ouvidos, machucando sua pele. Levantou o punho e apontou o dedo

médio para o alto. Ele enfrentaria o destino. Já havia enfrentado coisa pior. Como o chão. O chão também

o estava sacaneando. Ondulando sob seus pés como uma cobra ligada na tomada.

Apesar de passar surfando sobre ele, como um verdadeiro profissional, sentindo seus movimentos,

lutando pela supremacia, o chão venceu, levantando-se e dando um tapa em seu rosto, com força. Ele viu

uma luz branca, ouviu seu próprio grunhido ao longe e depois sentiu o galo em sua testa, no local onde o

estacionamento o atingiu. Ele riu. Ele ouviu seus amigos rindo também, provavelmente dele. Johnny era

baixo, ágil e malvado à beça. Geralmente chamavam-no de Kotex. E Rick era alto, ossudo, como um

fantasma de casaco rasgado. Seus amigos. Ele os amava. Ele os odiava. Eles eram uns babacas. Talvez

ele metesse o canivete em um deles a qualquer momento. Ele viu algumas garrafas fechadas de cerveja ao

pé do telescópio que funcionava com moedas, ao redor do qual Kotex e Rick estavam dançando. Estavam

em uma plataforma de observação na ponta do estacionamento, a um milhão de quilômetros de distância,

mas ele podia ouvi-los como se estivessem a apenas dez metros dali. O aparelho de som deles estava

tocando “Let’s Have a War”, do Fear.

Os três haviam começado no Cathay, dançando perto do palco, girando os braços, aumentando a

energia. A adrenalina escorreu pela rua quando eles saíram e foram até o estacionamento, onde alguns

rockabillies babacas os agarraram.

Kotex atravessou a cabeça de um cara pela janela de sua caminhonete e os outros sumiram. O dínamo

girou mais rápido, com a mistura de adrenalina e pó em seu sangue, criando uma onda quente de euforia.

Amontoando-se no Malibu de Rick, eles saíram à caça, como tubarões, famintos, sem rumo, até se

verem nas montanhas.

Mark tossiu seco – ou talvez aquilo tenha sido um riso. Às vezes, parecia a mesma coisa. Agora Kotex

e Rick estavam brigando. Ou talvez estivessem demorando muito para cair, um por cima do outro. Eles

iriam quebrar as garrafas. E ele estava com sede. Aquilo era uma ofensa enorme. Ele começou a

engatinhar.

 

Um relâmpago piscou sob a imensidão de nuvens da chuva que se aproximava do observatório. Del não

queria de jeito algum se molhar descendo a Vermont Canyon, então acelerou o ritmo, operando a alavanca

hidráulica que controlava o elevador, batendo a última caçamba sobre o asfalto. Ele se afastou para

liberar os braços do elevador quando outro raio piscou acima dele. Desta vez chegou perto, bem acima

do caminhão. Ele imaginou a manchete: “Trabalhador sanitário morto por raio”. Não era isso que ele

queria. Então engatou a primeira marcha com força. Ao pressionar o pé no pedal do acelerador, o motor

engasgou e morreu. Ao mesmo tempo, os faróis piscaram e B.B. King desapareceu.

Essa merda de novo não, pensou dele, enguiçado onde Judas perdeu as botas, a seis íngremes

quilômetros de um orelhão.

Ele tentou virar a chave. Nada.

“Filho da puta.”

De novo. Nem mesmo um clique do solenoide de partida.

Os pelos grossos de sua nuca se arrepiaram. Talvez fosse aquela vozinha lhe dizendo que seu walkman

era a pilha e não havia nenhum motivo lógico para ele parar de funcionar só porque o caminhão estava

aprontando. Talvez fosse a estranha atmosfera de eletricidade no ar. Ele deu um murro no painel.

“Porra de caminhão filho da puta que não vale um centavo em dinheiro chinês...”

Tudo isso foi um rosnado subvocal e Del estava apenas começando a se irritar quando aconteceu algo

que estava além dos limites da manutenção desleixada dos mecânicos. Luzes piscavam dos lados e acima

do caminhão, como mil máquinas fotográficas disparando na sua frente. Ele virou a chave na ignição.

Não ia dar certo. Nada de bateria. E então um enorme raio atravessou a atmosfera e serpenteou pela

borda de uma das caçambas. O que quer que fosse aquilo, estava ficando pior. Instintivamente, Del largou

as chaves de metal, arrancou os fones e afastou o cotovelo do descanso de metal. Ele estava usando botas

de borracha. Será que eram bons isolantes? Os isolantes impediam a eletricidade ou deixavam-na

passar? Ai, mamãe, não me deixa fritar agora! O ar crepitava e gemia como um rádio emperrado entre

duas estações, com a música toda distorcida em um guincho dissonante. E os estalos aumentaram, como

um disco de 78 rotações que começa lento, formando um som pesado no ar eriçado próximo ao caminhão;

aquele zumbido assustador, de não-me-toque de um transformador potente.

Del queria sair correndo, mas, caso se mexesse, estava certo de que iria morrer. Aquilo não era um

relâmpago comum. Um cruzamento caótico de linhas arqueadas e arroxeadas de energia lambia o

caminhão, com suas línguas ardentes se chicoteando como a de um lagarto, acariciando o metal da

cabine.

Ele assistiu à dança frenética de energia que formava uma bola de luz ruidosa. A bola de luz estava

ficando mais iluminada conforme os raios de força pareciam se amalgamar. O cabelo de Del começou a

se agitar como se houvesse uma brisa, embora suas janelas estivessem bem fechadas. Nesse momento,

seu cabelo endureceu e ficou bem para cima. Como aquele punk que lhe mostrara o dedo. Mas não era

porque ele estava com medo, apesar de ter gritado trinta segundos antes e então estar ultrapassando o

limite do pavor; era porque tinha energia estática em toda parte, enchendo a cabine com o cheiro

imaculado de ozônio.

Depois os ouvidos de Del se taparam, com o aumento de pressão. A bola de luz explodiu em lascas

roxas e alguma coisa passou a existir, fazendo um som como se fosse um enorme Mean Joe Green[1] se

chocando nas Montanhas Rochosas.

Ele se abaixou quando a pressão deu um salto, bateu no vidro da janela e o pulverizou em fragmentos

que tilintaram sobre as suas costas. A rebarba da explosão sugou o ar da cabine, agora ventilada, com um

estalo. E então as coisas começaram a se acalmar.

Del se levantou lentamente, apalpando-se com cautela para ver se não havia se cortado. Ele estava

bem, a não ser pelo fato de ter alguma coisa em seus ouvidos. A concussão.

Tentar fazer pressão nos ouvidos com a palma das mãos sobre as orelhas também não ajudou muito. Sua

garganta se apertou, mas ele não conseguia engolir, porque a surdez não importava, porque ele estava

olhando para a nuvem de fumaça onde a explosão aconteceu, rapidamente se dissipando no vento gelado,

como um vapor. E havia alguma coisa ali, onde não havia nada antes. Del não queria olhar.

Mas ele sabia que tinha de ver o que iria matá-lo. Não havia dúvida na mente de Del Ray Goines de

que aquilo era algo sobrenatural e estava ali por sua causa, e, já que ele era basicamente um escroto

fodido, a coisa estava ali para matá-lo. E sempre se deve olhar seu algoz nos olhos. Del então virou a

cabeça e viu a forma branca na névoa que se dissipava.

Aquilo havia saído do nada e agora estava diante dele.

Ele podia ver aquilo respirando. E então, lenta e graciosamente, aquilo se desenrolou e revelou um

homem nu. O cabelo curto tipo militar estava fumegante. A pele estava coberta de cinzas brancas que

caíam como uma farinha fina, revelando a pele rosada como a de um bebê por baixo. Mas a coisa não era

uma criança.

Del vira homens maiores no campo de jogo quando estava com os Oilers. Talvez alguns até mais fortes.

Mas não tão perfeitos. Os músculos se contraíam e relaxavam em movimentos suaves e fluidos, marcando

o torso muito bem esculpido. Os braços eram um estudo sobre o poder da simetria, a curva raivosa dos

bíceps se estreitando com precisão no cotovelo e depois se expandindo com incrível equilíbrio

matemático em grossos antebraços que fluíam em pulsos quase elegantemente finos. Os dedos das

enormes mãos se desenrolaram e se flexionaram.

Se colocassem esse homem num campo de futebol americano, ele poderia chegar aonde quisesse. Nem

mesmo três Del Rays lançando todo o seu peso corporal poderiam detê-lo. E Del percebeu por quê. Não

era por causa do corpo. Era o rosto. Implacável. Vivo, porém morto. Absorvendo sem se mexer – e, mais

do que o rosto, tinha aqueles olhos. Havia morte naqueles olhos azul-cobalto. Algo inimaginável. Cruel.

Inexorável. O tipo de morte que as pessoas jamais imaginam por ser real demais. Direta, sem emoção e,

portanto, sem misericórdia. Del conseguia ver claramente que o homem olhava para ele. Se estava perto

o bastante para ver seus olhos, pensou Del, também estava perto o bastante para ser morto por ele.

Um dos piores problemas de Del no campo de jogo era então sua única esperança. Suas pernas. Seu

coração estava disparado agora.

Del bateu o ombro contra a porta e caiu no chão frio. Seu pé não recebeu bem o choque, enviando a

velha dor familiar para seu joelho ruim. Mexa-se!

Ele saiu em disparada, percorrendo a extensão do caminhão e se afastando do homem cujos olhos o

perseguiam como a artilharia de um destróier, seguindo o homem gordo que partira em uma velocidade

respeitável.

Del ignorou as pontadas de dor subindo por suas pernas, reverberando do joelho ruim e martelando

suas coxas. Aquele cara assustador estava bem na sua cola, e ele sabia disso. Não era preciso olhar para

saber, e ele não queria mesmo olhar. Sua barriga era um saco que balançava e batia por cima de seu

cinto, depois ondulava para cima em seu peito, mas ele manteve o equilíbrio.

Não era sua barriga que iria derrubá-lo.

Ele já havia cruzado metade do estacionamento quando viu os punks na plataforma de observação.

Precisava avisá-los. Então se lembrou do garoto mijando em seu caminhão e os limou de sua vida. Que

se defendessem. Além do mais, eles podiam distrair aquele cara. O cara dos sacos de lixo da Glad,

pronto para embrulhar sua alma em celofane e congelá-la para usar mais tarde.

Ele correu como um desgraçado.

A corrida de sua vida.

Passou pelo Chevy Malibu cinza.

Passou pelos punks.

Desceu a estradinha sinuosa.

E depois despencou pela descida muito íngreme da Vermont Canyon. Agora ele não conseguiria parar

nem se quisesse. O impulso o levantou como se estivesse preso na mão de um gigante, até que seu joelho

finalmente se dobrou, o chão o pegou pela bunda e o fez deslizar para fora da estrada ladeira abaixo. Ele

rolou, passivo frente às forças da gravidade e da inércia, contente em seu sofrimento por deixá-las

decidir quando ele pararia.

Ele então parou em um monte de mato molhado, a uns sessenta centímetros de uma cerca de arame, de

costas, o corpo mole. Nesse momento, alguém aumentou o volume do mundo. Sua respiração ofegante se

tornou audível e ele chorou. Bem-vindo de volta, B.B.

Del se sentou lentamente e o mundo oscilava junto com ele. A estrada acima estava vazia. Nenhum

passo. Nenhum homem maligno da Glad. Touchdown. Sua mente balbuciou todas as orações de gratidão

que fora obrigado a aprender na vida. Estava sentado sobre alguma coisa pressionada contra seu quadril.

Ele apalpou a região e sentiu o metal aquecido pelo corpo da pistola calibre 22.

Sua oração mais profunda e sincera foi por ter se esquecido de usá-la. Ele não sabia por que tinha a

sensação de que ela não teria impedido aquele homem. E Del não se importava. Ele ficou de pé sobre a

terra molhada e prosseguiu mancando ao longo da cerca, afastando-se do observatório. O desemprego

estava começando a ser algo muito bom na opinião dele.

Del Rey Goines foi um dos poucos a sobreviver ao Exterminador.

 

O Exterminador se distraiu por um microssegundo. Alguma coisa muito forte o fez apagar. Em seguida, a

consciência rapidamente se projetou para fora novamente. A estática em sua mente diminuiu e as imagens

entraram em foco. Havia uma névoa misteriosa à sua volta, mas ele conseguia ver através dela. O

cronoporte fora realizado com sucesso. Ele inspirou e analisou o ar. Era a mesma coisa, tanto Aqui

quanto Lá, com pequenas exceções a respeito de poluentes e quantidade de nitrogênio. Ele se curvou,

como uma bola fetal, para aumentar a eficiência da cobertura de descontinuidade. Lentamente se

levantou, mantendo o equilíbrio perfeito conforme as partes de seu corpo se ajustavam. A gelatina de

condução carbonizada havia protegido sua epiderme de queimaduras com sucesso. A cobertura de cinzas

brancas criava uma figura parecida com uma escultura clássica, de mármore branco ou alabastro, tão

impressionantemente perfeita quanto qualquer Bernini ou Rodin.

O Exterminador analisou a área em volta em busca de sinais de atividade. Um grande objeto de metal

estava parado no asfalto a quatro metros dali. Ele fixou-se no contorno e imediatamente o reconheceu

como um caminhão de lixo a diesel da GMC, circa 1975. O Exterminador identificou o prédio atrás do

veículo, meio segundo depois, como sendo o Observatório do Griffith Park. Dentro de mais um segundo –

conforme todos os seus sentidos começaram a funcionar de maneira ideal –, ele tomou nota do terreno, do

tempo e da localização geográfica em geral, comparando com um mapa de referência em sua memória.

Ele estava no destino certo.

Voltou sua atenção para o homem no caminhão. Ele era negroide, aproximadamente 50 anos de idade,

pesando quase 150 quilos. Sua expressão facial sugeria medo, confusão e choque temporário.

Evidentemente, era o operador do veículo que ocupava. O deslocamento temporal havia quebrado o

vidro e queimado o sistema de ignição. O Exterminador concentrou-se no homem. Ao observar os

movimentos isolados e sutis do corpo, ele pôde estimar o comportamento do sujeito e logo determinou

que o nível de ameaça potencial era extremamente baixo. Pouco antes de o homem saltar da cabine, o

Exterminador já previra tal possibilidade calculando a direção das contrações musculares na parte

superior do tronco.

Enquanto o restante de seu cérebro e corpo se acelerava, o Exterminador observou o homem correr

pelo estacionamento. Ele poderia tê-lo ultrapassado facilmente se julgasse necessário, mas o sujeito não

era um alvo, muito menos hostil. O homem nu tentou dar um passo e viu que estava no controle de todas

as funções motoras.

Ele caminhou até a beira do estacionamento e olhou para a cidade lá embaixo. Um mapa de sua

memória se sobrepôs à vista que observava. Los Angeles. Ele tomou ciência das ruas e de seus nomes e

começou a acumular opções. O Exterminador revisou em detalhes minuciosos os acontecimentos desde

sua chegada e percebeu um erro – estava nu. Ele precisava de roupas. O homem negro tinha roupas. Ele

deveria ter pegado as roupas do homem negro. Várias opções se amontoavam em seu pensamento e ele

percebeu que a cidade estava cheia de pessoas. Acabaria encontrando uma de tamanho e configuração

apropriados e então o erro estaria corrigido. O homem de porte poderoso e físico quase perfeito, nu em

meio à ventania de cinco graus Celsius, virou-se novamente para a paisagem da cidade lá embaixo e

estudou o mapa do relevo de Los Angeles, planejando cem estratégias, mapeando mil caminhos e

acumulando dados ambientais valiosos antes de sair em sua missão.

 

Mark estava de pé agora e as substâncias químicas em seu sangue o impulsionavam como um fantoche

hidráulico a andar na direção de Kotex e Rick. Ele queria pegar o mundo pelas bolas e puxar com toda a

força. Contentando-se com Kotex, ele pegou as dragonas de corrente de sua jaqueta e o girou em um arco

desenfreado, batendo-o contra a grade de aço que passava pelo parapeito. Seus punhos e pés voaram com

o golpe conforme Kotex se desvencilhava da grade e eles se chocaram com um furor fraternal.

Eles giraram juntos em um abraço suado e bateram contra o telescópio operado por moedas que havia

atraído a atenção de Rick. Rick sentou sua garrafa de cerveja na parte de trás da cabeça de Mark, que

desabou em meio à espuma da cerveja e dos cacos de vidro. Em seguida, um chute criteriosamente aplicado com coturno fez Kotex perder o equilíbrio em cima do toca-fitas, que foi esmagado e parou de

tocar, deixando os ecos do Fear refletirem no prédio do observatório até o silêncio imperar.

Rick levantou a cabeça do telescópio que havia apontado para o estacionamento vazio. Sua expressão

preguiçosa e atônita mudou para um olhar malicioso de cruel bom humor.

“Ei”, disse ele, jovialmente chamando atenção deles como se não houvesse acabado de quebrar uma

garrafa de cerveja na cabeça de alguém. “Ei, o que essa imagem tem de errado?”

Ele fez uma moldura unindo cada dedo indicador aos polegares, como os diretores de cinema que

usavam echarpes e chapéus sempre faziam na TV , e Mark olhou para ver o que ele estava emoldurando.

E ele também ficou atônito.

Kotex olhou por um bom tempo como se seus olhos não estivessem focalizando. Em seguida, ele riu.

Era um daqueles caras com corpos inacreditáveis que usam um monte de filtro solar e uma sunguinha

minúscula, que ficam lá na Praia dos Músculos em Venice. Só que o tal cara não tinha sunga; era

madrugada, chovia e fazia cinco graus.

“Ele tá vindo na nossa direção, cara”, disse Kotex, chegando perto dos outros dois.

Rick deu um passo à frente do telescópio, deixando as solas de seus coturnos se arrastarem fazendo um

som lacônico e enfadonho, como sempre fazia quando se sentia cruel.

“Vamos quebrar a cara dele”, disse por sobre o ombro para os outros caras atrás de si.

Mark viu o sorriso e sabia que eles estavam prestes a se meter em problemas.

O homem nu estava andando bem na direção deles, sem desviar o olhar. Mark sentiu um arrepio

premonitório e Kotex também, aparentemente. “Ei, Rick, fica frio. Esse cara é grande pra caralho”, disse

Kotex.

Rick virou-se para ele, desdenhosamente. “Esses caras são viados. Eles malham olhando no espelho.

Não sabem brigar. Vai por mim. Olha isso.”

Kotex sorriu. Ele entrou na onda, mas Mark sentiu alguma coisa no andar deliberado e na expressão do

estranho que o deixou na dúvida.

Rick pôs a mão no bolso de seu casaco cuidadosamente rasgado.

Aquele era o sinal e Mark e Kotex pegaram seus canivetes disfarçadamente. A mão de Mark estava

suada e sua cabeça fervilhava de medo e de euforia elétrica. Se ele se afastasse, não haveria volta. Ele

não faria mais parte do grupo.

Ele não queria ficar de fora.

Então deu um passo à frente.

Os pés descalços do estranho despido batiam no asfalto molhado.

Filetes de chuva haviam lavado as cinzas brancas, que agora formavam um padrão de riscas tão

complexo quanto o da madeira, conferindo-lhe a aparência de uma estátua renascentista que ficou exposta

às intempéries por séculos.

Ele parou na frente dos três punks, com os braços estendidos junto ao corpo. Posição de descanso.

Eles se separaram, ladeando-o, casualmente ameaçadores.

O sorriso de caveira de Rick apareceu.

“Bela noite para uma caminhada”, comentou Rick.

O estranho olhou calmamente para cada um deles, absorvendo sem demonstrar nada. Ele olhou

diretamente para Rick e disse: “Bela noite para uma caminhada”.

Mas Mark ficou confuso, porque aquilo soou muito parecido com Rick. Só que não era Rick que estava

falando – era o estranho.

O problema das drogas é que você nunca tem certeza se alguma coisa esquisita realmente está

acontecendo. E, até então, essa merda estava bem alta na escala de esquisitices.

Rick se balançava alegremente.

“Já sei”, disse ele, tendo uma ideia repentina. “Amanhã é dia de lavar roupa, não é? Não tem nada

limpo hoje, certo?”

Mark não segurou o riso, apesar do arrepio gelado que passou por sua espinha como uma cobra. Rick

era demais.

“Não tem nada limpo hoje, certo?”, ecoou o grandão.

Mark pensou sombriamente: Será que ele tá sacaneando a gente?

E se ele for um desses caras de artes marciais e essa é a ideia dele de diversão? Do tipo “Tire toda a

roupa e vá dar umas porradas”?

Mark apertou o cabo perolado com força. Estou com você, meu chapa.

Kotex, com um sorriso idiota, esticou o braço e estalou os dedos várias vezes na frente do rosto do

estranho.

O olhar intenso permaneceu imóvel. Ele não piscava.

“Ei”, arriscou Kotex, entrando no clima, “acho que esse cara bebeu todas.”

“Suas roupas”, o estranho disse com frieza, “dê suas roupas para mim.”

“Agora”, ordenou o estranho, com o olhar rígido.

O sorriso de Rick se fechou como uma porta se batendo com o vento frio.

“Vai se foder, seu otário!”

Merda, lá vamos nós, pensou Mark.

Rick ejetou sua lâmina com um estalo, reluzindo sob as luzes fluorescentes, sob o queixo do grandalhão

antes que a mão de Mark pudesse se mexer.

Em seguida, Mark e Kotex retiraram seus canivetes, abrindo-os com precisão e exibindo-os.

Bem claro. Bem assustador. Com certeza.

Só que o marombeiro não estava aparentando o nível de medo de cair o queixo que eles estavam

esperando.

Na verdade, ele mal desviou o olhar de um para outro, sem expressão.

Mark sentiu que algo estava muito errado.

Foi então que um taco de beisebol o esmurrou no rosto e, conforme o mundo rodava, ele soube que

havia sido o punho do estranho mexendo-se com uma rapidez impossível.

Ele bateu na grade e se abaixou, mas olhou para cima a tempo de ver Kotex catapultado para trás por

um segundo golpe de bate-estacas. E então ele caiu no chão, sem se mexer. Quebrado, Mark sabia. Morto.

Rick disfarçou e deu-lhe uma estocada, pondo seu peso atrás da ponta do canivete. Ela afundou até o

cabo na barriga do homem e pareceu bater em algo duro, como uma costela, talvez. Mas como poderia ter

uma costela logo abaixo do umbigo dele?

Rick saltou para trás, com a mão e o canivete ensanguentados, para fazer uma nova tentativa, quando o

punho do Exterminador sumiu dentro dele.

Dentro dele. Mark viu o braço despido se enterrar até o cotovelo, um pouco abaixo do esterno de Rick.

Os olhos de Rick se esbugalharam quando o fôlego foi retirado dele, mais de espanto do que de dor.

O Exterminador levantou o braço como um macaco hidráulico.

As botas de Rick se levantaram do chão, balançando como as de um homem enforcado por um longo

instante. Houve um som abafado de ossos se quebrando e o braço do Exterminador voltou para trás.

Rick caiu, morto antes que seu rosto batesse no concreto. Meteu a mão e arrancou sua espinha, uma

voz gritou dentro do cérebro de Mark.

Em seguida, o estranho virou-se para ele, com o olhar eletrizante. Olhar para aqueles olhos era como

olhar para o cano de um revólver.

Mark tropeçou, afastando-se conforme o estranho avançava.

Mark não conseguia tirar os olhos do braço do homem, coberto de sangue até o cotovelo – o sangue de

Rick. Enterrou o braço dentro dele e...

Mark estava andando para trás, às cegas, e bateu na cerca de arame. Ele se virou para ir em outra

direção e viu que estava em um canto do outro lado da plataforma de observação. O homem se aproximou

dele.

Mark teve a presença de espírito de começar a arrancar suas roupas. Ele estendeu o casaco como uma

oferenda, como um escudo, como um pedido desesperado para que talvez pudesse ter um pouco mais de

tempo... tempo de escapar... descer a montanha... se enfiar na cama... puxar as cobertas por cima da

cabeça – e acordar. Ele estava certo. A oferenda realmente o fez ganhar tempo. Cerca de catorze

segundos.