O Exterminador do Futuro

James Cameron · Capítulo 38 de 52

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O Exterminador do Futuro

Brea Canyon Road 3:31 a.m.

■ BREA CANYON ROAD

 

3:31 A.M.

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Sarah estava observando Reese atentamente. A maneira como ele se agachava à frente dela, como um

dançarino esfarrapado de hipercombate, equilibrando seu corpo enquanto passava por entre os arbustos.

Seus olhos perscrutavam quase como uma câmera de segurança, sem piscar, virando em movimentos

rápidos, olhando para os arredores dos objetos, em vez de diretamente para eles, absorvendo o terreno

caótico.

Ele era como um gato à espreita, a elegância em ação, seu corpo agredido era duro, porém flexível,

com os músculos machucados deslizando sob a pele.

Reese era um soldado. Ela enfim pôde perceber. Ele havia feito esse tipo de coisa tantas vezes que já

era natural. Foi uma revelação anticlimática, mas agora Sarah acreditava piamente na história dele. Tudo

que havia acontecido até então – o massacre na delegacia, o turbilhão maníaco das ruas, a explosão

totalmente incompreensível de realidade no Tech Noir – foi super-real. De alguma maneira, na delegacia,

a mente de Sarah se desconectara de seu corpo e desta vez foi uma observação simples e tranquila do

profissionalismo de Reese no campo que a fez se reconectar e aceitar a verdade.

Um robô do futuro estava tentando matá-la. Desculpe: ciborgue, corrigiu Sarah mentalmente, como se

fizesse diferença. Uma máquina de matar em forma de homem havia passado por cima de trinta policiais

armados como uma daquelas colheitadeiras que passavam pelos campos de trigo. Ele fora atingido por

inúmeras balas e continuou em frente. E tudo que parecia estar entre ela e essa monstruosidade era este

soldado, talvez muito jovem e, mesmo que agisse com a precisão da prática, parecia tão amedrontado

quanto ela.

Chegaram a uma galeria de drenagem de concreto sob a rodovia 57, formando uma escura caverna de

superfície lisa para eles se aconchegarem.

Reese apontou a lanterna que pegara no carro para o interior. O chão estava molhado com uma água

salobra e esverdeada. Sarah franziu o nariz por causa do cheiro de umidade, mas acabou deslizando pela

parede oposta à de Reese mesmo assim, exausta. Reese se acocorou, com os olhos acompanhando o raio

da lanterna, ainda examinando seu abrigo improvisado, lentamente desacelerando da noite frenética. Ele

enfim olhou para Sarah, agora com os olhos surpreendentemente ternos. Sua voz era um sussurro áspero

que cortou o silêncio com uma eficiência militar, mas parecia haver também uma preocupação real ali.

“Está ferida?”

Sarah riu abruptamente e, em seguida, ficou séria ao perceber que poderia facilmente ter sido baleada.

Ela olhou para baixo. Sem sangue. Sem dor em nenhum ponto específico.

“Estou bem”, respondeu ela, e depois sentiu necessidade de acrescentar: “Reese... é real. Quero dizer,

a guerra... tudo que você disse”. Era uma aceitação, não uma pergunta, então Reese não respondeu. Ele

estava olhando para ela com a mesma intensidade que dedicara anteriormente à paisagem. Será que ele

está me olhando para ver se eu estouro?, imaginou Sarah. Se eu fico histérica? Ela não iria fazer isso.

Ela se impressionou por não ter pirado, mas não, não iria, apesar de a histeria ainda pairando por ali, não

muito longe. Só havia um único problema e isso já era bastante confuso. Não conseguia chorar agora. E

ela achava que deveria, considerando-se que no futuro próximo o mundo ficaria tão louco que milhões de

pessoas agonizariam aos pés de algum descendente horrível de um computador da Apple. Como aquele

pequeno “organizador” do Chuck. Mas ela não conseguia chorar, porque nada daquilo ainda havia

acontecido. Mas então de onde aquele homem diante dela havia saído? E aquela... coisa, tão decidida a

destruí-la a ponto de matar dúzias de inocentes. Ao encostar-se no cimento frio, um arrepio profundo a

atravessou. Se Reese não tivesse conseguido atravessar o deslocamento temporal para protegê-la, ela

estaria morta. E ninguém teria descoberto o porquê. Ela estava sozinha nisso, sem nem mesmo o luxo de

se sentir segura com a proteção da polícia. Sozinha e tremendo em um buraco úmido no meio da

madrugada, com um estranho – um valentão das ruas, com cara de maluco, com as roupas rasgadas, um

adolescente marcado e muito sábio, para a idade, sobre como lidar com a morte. Ele a salvara.

Sarah olhou nos olhos dele e tentou um sorriso trêmulo. “Reese... hã, qual é o seu primeiro nome?”

“Kyle.”

“Kyle”, prosseguiu ela com a voz oscilando, “eu não estaria viva agora se você não estivesse aqui.

Eu... quero... lhe agradecer.”

Reese se permitiu olhar nos olhos dela. Apenas uma garota, continuava repetindo mentalmente para si

mesmo. Um alvo que precisa de proteção, acrescentou ele. E depois, para ajudá-lo a sustentar, ele disse

em voz alta: “Só estou fazendo meu trabalho”.

Sarah assentiu, satisfeita com aquilo, por ora. Reese voltou a escutar. Um carro estava se aproximando.

Talvez a mil metros dali. Hostil? Improvável. Esperou, posicionado entre tenso e relaxado, e deixou

outro som chegar até ele; o vento soprava tão suave e vastamente ali que parecia ser possível ouvir o

mundo todo respirando. Aquilo o fazia se sentir honrado. Ele podia sentir o cheiro de animais no vento,

talvez cachorros, não tinha certeza.

O carro passou correndo acima deles fazendo um zuuumm. A mão de Reese se enrijeceu sobre o

revólver da polícia em sua cintura e em seguida relaxou quando o carro prosseguiu sem hesitação.

Sarah estava se segurando e tremendo incontrolavelmente agora, uma combinação de choque posterior e

ar frio. Ele veio do outro lado do túnel com um movimento fluido e eficiente e pôs o braço em volta do

ombro dela. A princípio, Sarah recuou. Suas roupas fediam a suor velho. Mas seu corpo estava ardente

de calor. Mesmo através do casaco de chuva, ela pôde sentir e logo ficou mais aquecida. Ela olhou para

Reese com gratidão, mas agora ele estava olhando para a noite lá fora, com a expressão intensa e

concentrada, porém distante. Não houve emoção em sua ação, apenas obrigação. Apesar disso e do fedor,

ela passou os braços em volta do tronco dele e o abraçou. Ela sentiu o corpo dele se contraindo com as respirações controladas. Seus músculos pareciam tiras de metal aquecido sob a pele. Talvez ele fosse um

ciborgue também.

Um ciborgue de um futuro inimaginável de dor e horror.

“Kyle, como é viajar no tempo?”

Por um momento, ele parou de respirar, pensando naquilo como se fosse a primeira vez. “Luz branca.

Dor. Como fazer força para atravessar... alguma coisa. Não sei. É como nascer, talvez.”

Nesse momento, ela sentiu algo que parecia um café grosso e quente escorrendo em seu braço e o puxou

para trás. Ela pegou a lanterna e apontou para sua mão. Sangue.

“Meu Deus!”

Reese olhou para o sangue saindo de seu braço como se estivesse se lembrando de um sonho

desagradável. “Eu levei uma lá.”

Sarah não entendeu por um instante. “Levou uma? Você quer dizer que foi baleado?”

Ele assentiu. “Não é sério. Não precisa se preocupar.”

Ela apontou a luz para o braço ferido. Havia um pequeno buraco no casaco, como uma queimadura de

cigarro, mas a parte superior do braço toda estava ensanguentada.

“Ficou louco? Nós precisamos ver um médico!”

“Deixa pra lá.”

Sarah delicadamente abriu o casaco dele e o tirou dos ombros. “Me dá isso aqui.”

Reese cuidadosamente removeu o casaco e olhou para o ferimento com um alívio reprimido. Ele

pensara que era grave, na verdade, e não queria nem ver. “Viu”, disse ele, “passou direto pela carne.”

Sarah olhou para o pequeno buraco perfurado em seu tríceps, ainda com sangue escorrendo em volta de

um pedaço de tecido azul-marinho do casaco que entrou na ferida. Reese cuidadosamente virou o

músculo, sob a luz bruxuleante da lanterna, e Sarah viu o buraco de saída, maior e mais irregular. Apesar

de toda a violência das últimas horas, esta foi a primeira vez que ela realmente viu o que uma bala fazia

na carne humana. Era ao mesmo tempo apavorante e fascinante; principalmente apavorante.

O ferimento precisava de um curativo e ela foi a escolhida. Foi por isso que Reese lhe entregara o kit

de primeiros socorros. Ponha-se a trabalhar, pensou ela. Tente não pensar a respeito. Ela precisava

limpá-lo primeiro. Isso significa ter de tocá-lo. Minha nossa, isso estava ficando real demais.

Sarah abriu o kit de primeiros socorros. Ataduras. Pomada. Comprimidos. Gaze. Água oxigenada.

Cotonetes. Essas coisas eram para joelhos arranhados, não buracos de balas. Ela pegou o cotonete e

chegou mais perto dele, que a observava, fascinado e entretido.

“Jesus... isso vai me fazer vomitar. Fale sobre alguma coisa, por favor. Qualquer coisa, não tem

importância.”

“O quê?”

Sarah quase riu. Tinha um bilhão de perguntas para as quais queria respostas. Como... seu filho. Tinha

um filho, como ele dissera. Ou teria. Terá. Teria tido. Não havia tempo verbal para essa situação.

“Fala sobre o meu filho. Ele é alto?”

“Da minha altura, mais ou menos. Ele tem seus olhos.”

Ela começou a limpar o sangue do ferimento e ele se encolheu, mas depois fez sinal para ela continuar.

Da maneira mais delicada que podia, Sarah voltou ao trabalho, mordendo o lábio e se concentrando nas

palavras para não botar os bofes para fora em cima do braço de Reese.

“É difícil explicar. Ele... Você confia nele. Ele tem aquela força de vontade. Você sabe que ele pode

fazer qualquer coisa, quando decide que é isso que precisa ser feito. Meu pai, eu não me lembro dele. Eu

sempre o imagino como John. Ele sabe como liderar as pessoas. Elas o seguem a qualquer parte. Eu

morreria por John Connor.” Falou a última frase com a voz baixa, passional, e ela acreditou que ele

estivesse falando a verdade. Agora Sarah sabia que ele era capaz de sentir emoção. Aquele fanatismo

puro, duro e sem filtros dos jovens, uma paixão que ela nunca conseguira sentir por nada nem ninguém.

“Pelo menos agora eu já sei que nome dar a ele.” Ela riu. Foi uma piada, certo? Reese não sorriu e ela

percebeu que não foi muito engraçada. Havia dor demais por trás dos olhos dele.

Ela tentou novamente. “Você sabe me dizer quem é o pai? Só pra eu não mandar o cara dar o fora

quando o conhecer.”

Reese deu de ombros. “Não, John nunca falou muito a respeito dele. Eu sei que morreu antes da guerra

e...”

“Não”, interrompeu Sarah. “Eu não quero saber.”

Ela se voltou ao curativo improvisado. Ele estava em silêncio, observando os dedos dela ficarem mais

seguros conforme trabalhava. Em seguida, Sarah perguntou: “Foi John que enviou você?”

Reese desviou o olhar, ficando sério e tenso novamente. “Eu me ofereci.”

“Se ofereceu?”

Ele a encarou novamente. “Claro. Uma oportunidade de conhecer a mãe de John Connor. Você é uma

lenda. A heroína por trás do herói.”

Retraiu-se quando ela amarrou a gaze.

“Não precisa ter receio, pode apertar bem”, disse ele, e depois continuou. “Você o ensinou a lutar, a se

esconder, a se organizar... desde quando ele era pequeno, quando vocês estavam se escondendo antes da

guerra.”

Sarah levantou a mão, com uma expressão confusa chegando em seus olhos. “Você fala no passado

sobre coisas que eu ainda não fiz. Isso tá me enlouquecendo.” Ela puxou o final da gaze e deu um nó,

esquecendo-se de si mesma por um momento, e Reese abafou um gemido. Mais delicadamente, ela

terminou de amarrar o curativo. “Desculpa, mas você tem certeza de que eu sou a pessoa certa?”

Os olhos dele se fixaram nos dela. Sarah viu aquele olhar de novo. E não tinha nada a ver com a

obrigação dele. Era ele olhando diretamente para dentro dela, a Sarah dentro daquele corpo. As Sarinhas

se encolheram sob seu olhar desnudante.

“Tenho certeza”, disse ele. E ele estava... fisicamente certo, pelo menos. Suas dúvidas estavam em

outras áreas.

Sarah se levantou, exasperada. “Tá legal... Eu tenho cara de mãe do futuro? Eu sou forte? Sou

organizada? Não consigo organizar nem meu talão de cheques!”

Reese ouviu o tom da voz dela, mais do que as palavras. Era o mesmo tom choramingão, derrotista, que

muitas pessoas usaram quando John pediu que elas se arriscassem pela causa. Era um tom de voz que ele

detestava, porque foi essa mesma atitude que impediu que os homens derrotassem as máquinas anos

antes. Aquela aceitação cega do que quer que o “destino” houvesse lhes reservado. Religiões inteiras e

filosofias elaboradas haviam sido desenvolvidas para dar respaldo àquele tom de voz repugnantemente

fraco. Até John sair das cinzas com uma granada e explodir um CA. Até John arriscar a vida ficando no

meio dos destroços em chamas, sugando o combustível não queimado para usar em seu carro blindado.

Por causa de seu exemplo, o pedido de John foi atendido. As pessoas se mobilizaram com ele e

continuaram a se mobilizar. E, quando Reese tinha idade suficiente, ele se separou do grupo da rua e se

alistou também, feliz por se afastar daquelas lamentações patéticas de “Por que eu?” que tanto detestava.

Desde que vira Sarah na rua, pela primeira vez Reese estava dividido entre admiração e desgosto.

Ele se lembrou das informações que recebera. Sarah Connor era simplesmente uma garçonete de meio-

expediente, de 20 anos, que ainda estava estudando e não havia até então exibido qualquer habilidade ou

talentos incomuns. Ela era o equivalente a uma daquelas pessoas que viviam remexendo os entulhos

cegamente, sem se dar conta de sua capacidade de resistir e mudar seu destino. Ele havia conhecido

muita gente assim. E, quando alguém lhes mostrava o caminho, essas pessoas se tornavam bons soldados.

Talvez fosse esse o caso de Sarah. Mas ele não era recrutador. Ele só sabia de sobrevivência. Ele havia

se voluntariado para aquela missão esperando ser preterido por um lutador mais velho e mais experiente.

Quando John o convocou pessoalmente, ele ficou lisonjeado ao perceber a enorme responsabilidade que

estava assumindo. Seu desempenho afetaria profundamente toda a história da humanidade. John lhe

dissera isso.

Antes de se voluntariar, Reese só pensava na chance de cumprir a ordem mais importante que John já

dera e na gloriosa honra de conhecer a linda mãe de John pessoalmente. A maior parte do impacto da

missão ainda não havia lhe atinado. Tudo acontecera tão rápido... tão rápido. Depois que as forças de

John tomaram conta do laboratório de deslocamento temporal, ele foi notificado da missão especial e

imediatamente se ofereceu. Minutos mais tarde, ele se apresentou ao bunker de comando de John e

recebeu rapidamente as instruções. Ele se lembrou agora do que John havia enfatizado – a enorme

importância de que ele tivesse sucesso na missão e a certeza espantosa de que Reese teria sucesso.

Aquele olhar de confiança, mais do que a euforia das drogas que os médicos estavam injetando nas veias

de Reese, foi o que o prontificou para o combate. E nesse momento, quando Reese fez continência, John o

abraçou. Aquilo pegou Reese totalmente de surpresa. John Connor era um homem difícil de se chegar

perto. Após a morte de sua mãe, ele se tornou um solitário taciturno que não se abria com ninguém. Era

adorado por seus seguidores porque nunca lhes pedia que fizessem nada que ele não faria e porque sabia

o que fazer. Nunca fora realmente íntimo de ninguém. Mas John disse a Reese que ele era o agente do

destino e depois o abraçou como se fossem velhos amigos. Quando John se virou para tratar de outros

assuntos técnicos, havia um olhar de tristeza profunda que Reese sabia que não deveria ver. Talvez a

confiança de John fosse um fingimento para dar coragem a Reese. Esse outro olhar o perturbou. Agora,

enquanto pensava no que ele e Sarah deveriam fazer para sobreviver, ele se lembrou dos dois olhares de John e da pouca informação que havia recebido antes que o empurrassem por aquele instante interminável

da viagem no tempo. Até onde Reese sabia, ele foi o primeiro homem vivo a ser temporalmente

deslocado. A Skynet desenvolvera o equipamento como parte de sua ambiciosa pesquisa de

desenvolvimento, um repertório de novas tecnologias geradas por computador que crescia de forma

exponencial.

Os invasores humanos tomaram conta do local intacto e os técnicos rapidamente baixaram os arquivos

do sistema para análise. Ao perceberem o que a Skynet havia feito em seu desespero friamente racional,

John decidiu usar a mesma tecnologia como força contrária. Mas, quando Reese entrou na plataforma

biaxial do gerador de campo, ninguém sabia se era possível sobreviver ao deslocamento temporal. Ele

poderia chegar a 1984 já como um saco de carne fria, com o coração paralisado por energias

incomensuráveis.

“Olha, Reese”, Sarah estava dizendo, “eu não pedi nada disso. E eu não quero ter parte alguma nisso.”

Ela ia chorar. Seu cabelo estava opaco pelo suor seco. Suas roupas estavam imundas e rasgadas. Ela não

era uma lenda. Ela era uma resmungona prestes a chorar incontrolavelmente a seus pés e agora, além de

mantê-la viva, ele tinha de mantê-la sã e forte. Algo que mal sabia fazer para si próprio.

E então ele se lembrou da última coisa que John lhe dissera para fazer. Ele fez sua voz ficar alta e

calma. “Sarah.”

Ela parou de vagar feito um animal encurralado e o encarou.

“Seu filho me deu uma mensagem para entregar a você. Ele me fez decorar.”

Ela ficou paralisada, piscando, sem saber o que esperar. Reese continuou, com a voz suave, com um

leve toque do amor do locutor original por trás da repetição mecânica.

“‘Eu nunca tive chance de agradecê-la devidamente por seu amor e coragem durante todos os anos

escuros. Eu não posso ajudá-la com o que precisará enfrentar em breve, a não ser dizendo que o futuro

não está escrito em pedra. Eu vi a humanidade se levantar da derrota e fui privilegiado em estar na

liderança e mostrar o caminho. Você deve preservar nossa vitória. Você deve ser mais forte do que

imagina que possa ser. Você deve sobreviver ou eu nunca existirei.’”

Reese pôde vê-la se acalmando. As palavras estavam sendo absorvidas por ela. Ele não queria que os

seus próprios sentimentos transparecessem, mas ficou tudo bem, pois Sarah parecia estar reagindo.

Reese flexionou a mão. Não havia tanta dor agora. Nada que ele não conseguisse suportar, em todo

caso, e sua mão já havia recobrado mais de setenta e cinco por cento da mobilidade.

Talvez, apenas talvez, eles tivessem uma chance de vitória. Se pudessem ficar a salvo, sem deixar

dados rastreáveis, eles poderiam ficar escondidos por tempo indeterminado. Para encorajá-la, Reese

disse: “Belo curativo de batalha”.

Sarah sorriu, cansada. “Gostou? Foi meu primeiro.”

Ela sentiu a ironia de suas palavras. Ainda rejeitava o manto de responsabilidade que haviam jogado

sobre ela, pelo menos emocionalmente. Mas algum componente muito lógico bem dentro de si já havia

aceitado que ela um dia faria aquelas coisas, assim como aceitava agora a iminente incineração da

civilização dali a alguns anos e todos os horrores do mundo por conseguinte.

Haveria muitas feridas, muitas ataduras. Tragédias e perdas inimagináveis. Sarah estremeceu conforme

a paisagem sombria infinita parecia se estender diante de seus olhos. Uma palavra lhe ocorreu. Destino.

Era como fazer parte de uma peça. Você podia mudar a atuação, mas não podia mudar o final. Lembrou-

se de uma peça em que atuara no colégio. Gostava de um dos personagens, mas ele morria no terceiro

ato, todas as noites. E ela se lembrou de como ficara ingenuamente amargurada. Só uma vez queria que a

doença do personagem não fosse fatal. Ela não gostou mais de atuar depois disso e não estava gostando

muito do conceito de destino também.

Outro veículo passou ruidosamente lá em cima. Uma caminhonete de caçamba estendida e motor a

diesel martelando um ritmo estrondoso. Reese percebeu que ela estava morta de cansaço. “Durma um

pouco. Vai clarear logo.”

Ela se sentou ao lado dele, com as costas no concreto frio. A tensão entre os dois ainda pairava no ar e

ele pôs o braço em volta dela.

Por um momento, pensou que estivesse sofrendo um choque pós-deslocamento temporal, pois pareceu

que sua vida sempre fora ficar amontoado ali e que ela sempre estivera com ele.

Sarah estava exausta. Ela precisava dormir e estava quase conseguindo, quando Reese se esticou ao

ouvir o som dos grilos. Aquilo a fez se sentir mais segura. Percebeu que, embora Kyle devesse estar

muito cansado, ele acordaria caso alguém ou alguma coisa se aproximasse. Ele era um garoto estranho,

assombrado. Ela pensou que Reese talvez nunca tivesse escutado um grilo. Estar ao lado dele naquela

intimidade necessária a fez se sentir serena, apesar do pesadelo psicótico que havia acabado de

atravessar. Quando ele fez uma voz suave, ela se sentiu calma e protegida. Ela queria ouvir mais.

“Fala mais um pouco sobre a sua terra. Qualquer coisa que você quiser. Vai me ajudar a dormir.”

“Ok”, disse ele. “Você se esconde durante o dia, mas à noite dá pra sair. Os CA s usam infravermelho,

então você ainda precisa tomar cuidado. Especialmente com os aéreos. Eles não são tão inteligentes.

John nos ensinou maneiras de acabar com eles. Ficou difícil quando os infiltrados começaram a aparecer.

Os Exterminadores foram os mais recentes. Os piores.”

Ela se sentiu flutuando, fundindo-se a Reese, enquanto ele falava de um lugar de barulho e fogo, de

cinza branca e ruínas, embarcações de patrulha sob a luz da lua, enviando feixes cruéis e explosões de

plasma na direção de sobreviventes maltrapilhos – vasculhando as cidades destruídas em busca de latas

não queimadas de comida –, ossos enegrecidos e máquinas reluzentes caçadoras de humanos, arrastando

seus corpos cromados ensanguentados sobre os sobreviventes, como tubarões num frenesi alimentar.

Reese ainda estava falando quando as pálpebras de Sarah tremeram até se fecharem. A cabeça dela caiu

sobre o ombro dele. Só conseguia ver a parte de cima da cabeça e não sabia se Sarah estava dormindo.

Ele continuou seu relato, que não tinha nenhuma estrutura narrativa e consistia em imagens fortes soltas

dentro de sua cronologia pessoal – trechos de sabedoria de combate e dicas de sobrevivência, anedotas e

exemplos da vida no século XXI.

O último pensamento consciente de Sarah foi curioso e ela só se lembraria dele depois. Pensou que ele

soava poético, como um poeta das ruas que consegue claramente expressar imagens com uma

sobreposição bruta e não estruturada de palavras. Se houvesse nascido em outra época, com outra vida, ele poderia ser um artista ou compositor, mas esses impulsos de antissobrevivência estavam praticamente

erradicados e seus raros vestígios agora se manifestavam apenas na crueza vívida de sua descrição.

Seu pensamento de que Reese era um soldado com coração de poeta ressurgiria mais tarde e então teria

tons de tristeza desesperada.

As palavras de Reese ainda chegavam até ela, enquanto entrava no sono REM, e desencadeavam imagens

tão deslumbrantes quanto surreais na catacumba profunda de seus sonhos.

 

Havia uma luz. Uma luz clara, ofuscante como o sol. Ela cortava a paisagem noturna e passava sobre as

formas destruídas de concreto, proporcionando sombras muito nítidas. Havia vento também, descendo

bem forte, e um som rascante, como um metal morrendo, que ela percebeu ser um motor a jato ou vários.

A explosão levantou uma nuvem de poeira, revelando uma pilha de ossos, como se fossem varetas.

Saíam cinzas das órbitas dos crânios e as sombras dos holofotes passavam sobre elas como uma paródia

da vida. A máquina era como uma enorme vespa cromada, só que no lugar das asas, no centro do tórax,

havia dois turbojatos apontados para baixo. A coisa flutuava e descia, analisando frequências visuais e

infravermelhas. Em seguida, ela se inclinou de lado, caindo de frente e ganhando velocidade, como um

helicóptero Aircobra. Sua arma suspensa disparou uma vez para um prédio queimado e depois se retraiu,

enquanto a aeronave continuou sua patrulha.

A um quilômetro de distância, do outro lado da paisagem destruída, outra máquina estava aterrissando,

com pernas hidráulicas, como as de um inseto, sobre o que parecia uma estação ou área de testes. Vários

CA s de chão, como tanques, estavam estacionados sob as luzes dos refletores infravermelhos. Em pilones

afunilados de concreto, canhões automatizados de vinte metros de comprimento montavam guarda, com

minúsculas metralhadoras antipessoais girando embaixo deles. Holofotes varriam a escuridão.

Depois que o CA voador passou, era seguro se levantar. Com suas camuflagens de dois tons de cinza, os

soldados se misturavam perfeitamente ao ambiente. Cinza sobre cinza. Preto sobre preto.

O líder jazia sob uma laje inclinada de concreto e estava olhando através de um visor acoplado a seu

fuzil, uma tela de vídeo de imagens intensificadas na qual a paisagem se revelava clara como o dia. O

brilho verde iluminava seu rosto. Era Reese. O suor escorria, deixando filetes claros na camada de cinza

de seu rosto. Ele estava sujo e com a barba por fazer, mas nenhum dos outros soldados tinha uma

aparência muito melhor. Todos eles usavam fones e havia um ruído constante de comunicação das outras

unidades na região.

“LRRP equipe Yankee um-três para base de fogo Eco-nove.”

“Prossiga, Yankee um-três. Qual é sua posição?”

“Varredura concluída até a linha de três mil metros. Não vi muita coisa. Encontrei alguns sobreviventes

no shopping center. Eles não têm registro, mas têm algumas coisas para trocar.”

“Que tipo de coisas?”

“Comida enlatada, algumas ferramentas e gasolina. Eles precisam de abrigo e de munição dois-dois-

três.”

“Entendido, um-três, traga-os aqui.”

“Estamos indo. Nosso olheiro está com a pata ruim, então vamos encerrar a patrulha cedo.”

“Entendido, um-três.”

As vozes murmuravam incessantemente. Relatos de patrulhas em todos os setores próximos, equipes de

sapadores procurando CAs para desativar e pegar as partes, uma equipe de reconhecimento de longo

alcance correndo de um novo Aéreo do Marco Oito – estava bem na cola deles e não parecia nada bom.

Uma unidade em cima dos morros, perto do Bunker 23 na antiga Mulholland Drive, pedia uma equipe de

mecânicos para ajudar a desembarcar o canhão de um CA recuperável. Alguém lá na praia havia

encontrado dois exterminadores série 600 vestidos de soldados camuflados. O resultado foi um morto,

três para a evacuação médica, e duas estruturas de exterminador queimadas. O olheiro deles, um beagle,

também se deu mal e o líder da equipe ficou desconsolado.

E assim por diante.

Reese sinalizou uma movimentação e a unidade desceu por uma escada através de um buraco,

escondido por detritos. O olho da mente de Sarah se moveu com eles conforme marchavam para dentro

da terra, descendo nível após nível, guiados pelo facho de uma lanterna. Quatro níveis abaixo da

superfície, Reese bateu em uma porta de aço, grosseiramente soldada, com a coronha de seu fuzil. Uma

vez. Duas vezes. E mais uma vez. Uma placa de aço deslizou para o lado e os olhos de uma sentinela

apareceram pela abertura.

“Reese. Kyle. DN...”

A porta ressoou e se abriu antes de ele terminar. Reese entrou. Calor, fumaça e cheiros enjoativos de

corpos humanos o tomaram de assalto. Três sentinelas armados estavam lá dentro, com as armas em riste.

Reese estendeu a mão para ser cheirada por dois cachorros sentinelas, um pastor e um dobermann.

Provavelmente, as criaturas mais bem-alimentadas da base de fogo. Os rabos dos cães abanaram e Reese

passou. Ainda era humano.

As sentinelas recuaram, relaxando as mãos em volta das Westinghouse M-25. O esquadrão de Reese

entrou, registrando-se no posto de serviço montado em uma velha mesa de carteado, e em seguida se

separou pelo labirinto.

Base de fogo E-9. Antigamente, fora o nível D do estacionamento sob o Centro de Entretenimento ABC,

em Century City. Agora estava destruído, parcialmente desabado, e era o lar de soldados, crianças,

sobreviventes, os doentes e os moribundos, e muitos ratos.

Sarah parecia estar se deslocando com Reese, como se ele fosse seu guia. Eles passaram por rostos

emaciados, assombrados, cujos olhos piscavam, mal registrando sua passagem. Vestiam farrapos,

camadas de roupas sem nexo, de tamanhos maiores ou pequenos demais, capas ou coletes feitos de

tapetes, lonas, plásticos pretos presos com pedaços multicoloridos de fios. Seus rostos eram pálidos e

cansados, os olhos vazios. Apenas as crianças pareciam ter vida enquanto corriam pelas sombras,

pegando ratos para o cozido.

A catacumba tremeluzia com as pequenas chamas acesas para se cozinhar e por toda a parte rostos

espiavam das sombras como fantasmas, homens e mulheres cujas almas desertaram. Eles estavam

vivendo em destroços de carros, caçambas de lixo viradas de lado ou talvez apenas atrás de um cobertor esfarrapado pendurado em uma corda. Alguns dos rostos mais velhos exibiam cicatrizes de queimaduras

das explosões nucleares durante a guerra, com a pele derretida e cheia de bolhas, como queijo queimado.

Um fraco gemido veio de algum lugar da escuridão e em algum canto ali perto um choro seco se repetia

incessantemente. Era um passeio pelo inferno e Sarah estava dividida entre uma avassaladora vontade de

fugir e um intenso desejo de ajudar de qualquer maneira possível para aliviar o sofrimento daquela gente.

Conforme andava entre eles, ela estendia a mão, como se pudesse puxá-los junto ao seu corpo e fazer

tudo ficar bem. Todas as pobres crianças nucleares. Mas era como se ela fosse o fantasma, porque elas

olhavam através dela. Ela não estava ali. Não ainda.

Reese e Sarah se aproximaram de um grupo de homens aglomerados em volta de uma estação de base

transmissora, sob uma forte luz fluorescente. Reese bateu continência ao passar. Havia muitas patentes

altas. Alguns ele conhecia; outros não. Vários capitães, dois majores e um vulto sentado de costas para

eles, flanqueado por guardas. Ele usava uma boina preta com uma estrela de general pregada do lado.

Apenas um homem no diversificado exército de guerrilha em todo o planeta usava uma boina preta como

aquela.

John fora até a base de fogo na noite anterior para organizar um ataque às fábricas automatizadas da

região. Sabia-se que a Skynet produzia os canhões de plasma automáticos usados nos Marcos Sete e Oito.

Era uma invasão grande, marcada para dali a três dias. Reese estava entusiasmado. Um dos tenentes

mencionara que Reese poderia ser transferido para a unidade pessoal de Connor e o próprio John falara

com ele logo depois de chegar. Foi um encontro curioso, com Reese se sentindo constrangido conforme

Connor o analisava lenta e cuidadosamente. Era como se Connor o estivesse medindo de alguma maneira

além da avaliação comum de um oficial. Os olhos de Connor não revelaram se Reese era insuficiente.

“Prossiga, sargento”, disse o general, e se virou.

Era sempre assim com John e embora Reese tivesse servido no combate com ele várias vezes, o homem

permanecia um enigma.

Agora, rodeado por seu pessoal, John estava coordenando uma dúzia de grandes ofensivas pelo mundo

por meio de sua unidade móvel de telecomunicações.

Reese ficou sabendo que eles na verdade pirateavam canais dos próprios satélites da Skynet, sabendo

que o inimigo destruiria qualquer coisa que os homens colocassem lá, mas sem poderem destruir seu

próprio sistema de retransmissão. Reese não fazia ideia de como essas coisas funcionavam, mas também

não era seu trabalho.

Sarah viu os homens aglomerados em uma área iluminada. Ela viu o vulto de boina preta quando dois

de seus auxiliares deram um passo para o lado. Estava de costas para ela. Seus ombros largos estavam

caídos, cansados, mas suas mãos se moviam com movimentos decididos, indicando ações em um mapa de

batalha. Ela ouvia sua voz, mas não as palavras, e desejou que ele se virasse. Mas os auxiliares se

juntaram e sua visão foi bloqueada novamente. Queria ir até ele, mas era impossível. Era algo que ela

não deveria ver. Reese continuou e encontrou um lugar para descansar por algumas horas, um sofá de

couro meio queimado. Ele desafivelou seu cinto, depois soltou seu fuzil e o colocou sobre os joelhos, mantendo a mão sobre o armamento. “Meu amante e meu melhor amigo”, disse para ela, acariciando a

coronha da M-25. “Nós sempre dormimos juntos.”

Sarah se sentou ao lado dele no sofá. Ele se recostou, com o corpo pesado. Ao abrir um saco com zíper,

ele retirou um retângulo de plástico pequeno, achatado. Era uma foto Polaroid amassada, mas ela não

conseguia ver a imagem. Enquanto Reese olhava para a fotografia, seu olhar ficou suave e distante. Ele

ficou imóvel ali por muito tempo.

Reese olhou para cima ao ouvir a porta de segurança ser destrancada e aberta. Outra patrulha estava

entrando, visível ao longe sob as fracas luzes fluorescentes portáteis. Dois batedores. Os cachorros

estavam farejando suas mãos. Em seguida, outro homem entrou antes que as sentinelas pudessem fechar a

porta. Ele era bem mais alto que os outros e carregava alguma coisa grande debaixo de seu poncho cinza

rasgado.

Os cachorros começaram a latir furiosamente para o último homem. As sentinelas já estavam pegando

suas armas. Um deles gritou:

“Exterminador! Exterminador!”

Reese ficou paralisado por meio segundo, enquanto o Exterminador jogou seu poncho para trás e ergueu

a RBS-80 da General Dynamics para atirar. A arma disparou e o bunker foi cortado pela luz.

Reese segurou a preciosa fotografia com os dentes para liberar as mãos e saltou com seu rifle, correndo

em direção à ação.

Uma série aterrorizante de pulsações ofuscantes iluminaram o bunker conforme o Exterminador

pulverizava o interior com fogo letal. Gritos pontuavam as concussões das explosões e uma sirene

começou seu gemido maníaco. No meio da fumaça e do pandemônio, o Exterminador estava se dirigindo

com uma precisão assustadora ao centro de comando. Connor estava vociferando ordens, tiros passavam

em volta do Exterminador. Algumas munições explodiram. A cena ficou obscurecida por uma bola de

fogo que rolou pelo teto baixo.

Reese foi lançado ao chão sob uma chuva de destroços flamejantes. Ele rolou, atordoado de dor,

procurando seu fuzil. A foto havia caído ali perto e estava queimando em meio aos outros detritos. Sarah

observou Reese olhando para a Polaroid, com os olhos vidrados de choque conforme ela se encolhia nas

chamas.

Agora eram apenas impressões. Gritos. Pés correndo. Disparos de energia iluminando a fumaça como

lanternas. Uma menina de seis anos chorando no meio do caos. Os cachorros gemendo e uivando. Um

deles, o pastor, rosnando e tentando morder as próprias costas, onde o pelo estava pegando fogo.

E, no meio disso tudo, uma silhueta se movia implacavelmente, com olhos vermelhos reluzentes, a arma

espalhando morte. A RBS-80 se virou e seu enorme cano foi apontado bem na direção dela. Sarah sentiu

seu estômago descer, pois sabia que não conseguiria se desviar rápido o bastante. Ela olhou, paralisada,

durante a fração de segundo antes do disparo, o que se estendeu por um século. Os olhos vermelhos

fixados nela. E em seguida uma luz branca a transformou em fumaça. O sonho não tinha para onde ir a

partir desse ponto, então parou abruptamente, como o final de um filme rodando no projetor.

Sarah gemeu, meio acordada, e se segurou em Reese, virando-se para o calor de seu corpo. Depois caiu

novamente no sono total. Desta vez sem sonhos.

Reese sentiu Sarah se mexer e aquilo o despertou com um susto. Ele percebeu que quase havia

cochilado e fez alguns exercícios mentais rápidos, que usava em patrulhas longas, para ficar acordado. O

céu do lado de fora da galeria estava começando a clarear. Ele deve ter falado durante um bom tempo.

Percebeu ter dito mais palavras em uma hora do que nos dois últimos anos de sua vida. Por que motivo

havia entrado em tantos detalhes sobre aquele ataque ao bunker, ele não sabia dizer de imediato. Era

certamente uma ocorrência bastante comum, banal do ponto de vista militar. Ele estava tentando dar a ela

um apanhado geral de seu mundo, então aquilo serviu um pouco como exemplo da vida cotidiana no ano

2029. Talvez a foto tivesse alguma coisa a ver com aquilo. A combinação da foto, do Exterminador e de

John estar presente – de algum modo, esses elementos tornavam a coisa toda vívida.

John lhe dera a foto, originalmente, um ano antes, quando estavam agachados em um bueiro bem

parecido com o que ele e Sarah estavam e o chão balançava com as bombas de plasma que lançavam luz

artificial sobre eles intermitentemente. John sacou um estojo de couro do bolso de sua farda, uma antiga

carteira pré-guerra, e dali tirou a Polaroid. O que significava ou por que Reese deveria ficar com ela

nunca foi mencionado, permanecendo ainda um mistério. Reese reconhecera o rosto imediatamente, claro,

pois havia muitas fotos de Sarah Connor disponíveis, e alguns soldados até as levavam para a batalha a

fim de atrair alguma sorte. Mas ter uma Polaroid original tinha muito mais importância.

Levou-a consigo por toda parte depois disso, mesmo em missões ruins onde ficaria encharcado ou

coisa pior.

A foto ficou gravada em sua memória como consequência, embora a imagem ainda fosse enigmática.

Ela parecia estar sentada em alguma espécie de veículo; não aparecia o suficiente no quadro para

identificar. O cabelo dela estava diferente de agora, embora parecesse ter a mesma idade, talvez um

pouco mais velha; estava mais curto e preso com uma faixa na cabeça. Suas feições estavam levemente

cansadas, mas o formato de seu maxilar irradiava força e seus olhos davam a impressão de calma

interior. Seus lábios estavam curvados em um pequeno vestígio de sorriso. Talvez um sorriso de

recordação. Mas o efeito geral era quase sombrio. O céu encoberto ajudava também. Havia alguma coisa

atrás dela fora de foco. Demorou muito até Reese reconhecer o ombro e a lateral de um cachorro. Talvez

um pastor alemão, pelo tamanho e coloração.

Quando chegou à parte sobre o Exterminador entrando no bunker enquanto olhava para a foto, ele não

mencionou que era um retrato dela. Sentiu uma onda de constrangimento, como se contar a ela fosse uma

admissão de um estranho voyeurismo. Nem sua sinceridade pragmática conseguiu vencer isso.

Ele pensou na explosão que o aturdira e em como a primeira imagem que viu, quando seus olhos se

focaram novamente, foi a foto dela se queimando ali perto. Quando uma Polaroid se queima, ela se

encolhe, se enruga e se distorce, embora a imagem ainda fique visível, derretendo e se modificando.

Ele olhou para a Sarah de verdade, agora deitada em seu colo, perdida em um sono perturbado. Ele

sentiu aquele estranho deslocamento e imagem dobrada quando olhou para suas feições: déjà vu. Como

quando o mapa de um terreno é memorizado antes de uma missão e, mais tarde, ao rastejar pela área propriamente dita, há uma sensação do abstrato sobreposto ao real. A preparação para um evento se

tornando o evento.

Ele inspirou o ar frio da manhã. A luz do sol banhava de branco o cimento cinza da galeria de

escoamento.

Sarah se agitou e murmurou. Seu rosto estava virado para ele, imerso em um sono inocente. Ele

acompanhou as linhas simples da geometria de Sarah. Apesar do rosto inchado de sono, a boca aberta, a

bochecha imprensada contra a camisa suja dele e embora sua expressão agora não fosse nem um pouco

nobre, ela era linda. Ele contornou o nariz dela com a ponta do dedo, em seguida percorrendo seus lábios

carnudos. Eles cederam ao toque. Não houvera nada mais macio em toda sua triste vida. Uma sensação,

como uma miniatura de lâmina de helicóptero girando em seu peito, fez sua respiração acelerar e sua mão

tremer.

O corpo todo de Reese era um conjunto de dores, mas ele não se importava. Uma cãibra horrível estava

se formando em sua panturrilha esquerda. Ele a ignorou. O braço que segurava Sarah já estava dormente.

Ele odiou isso. Ela estava em seus braços, mas ele só podia senti-la pela metade.

Delicadamente tirou um fio de cabelo de cima da bochecha dela. Sarah enrugou o nariz e suspirou. Ele

sentiu a exalação quente, sentiu o cheiro da doçura... Reese se reprimiu. Forçou sua cabeça a espairecer.

Sarah abriu os olhos e focou em Reese. “Eu estava sonhando... algo sobre cachorros”, disse ela,

parecendo confusa. O sonho era um borrão turbulento de sombras aterrorizantes.

“Eu lhe contei sobre eles ontem à noite”, explicou Reese. “Nós os usamos para identificar

exterminadores.”

Com a menção de exterminadores, Sarah veio completamente para a agora plácida superfície da

consciência e, de memória, olhou novamente para o turbilhão distante que atravessara na noite anterior.

“Ah, Deus”, disse ela. Mas não foi uma oração.