O Exterminador do Futuro

James Cameron · Capítulo 31 de 52

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O Exterminador do Futuro

Tech Noir 10:31 p.m.

■ TECH NOIR

10:31 P.M.

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Houve um pequeno indício de movimento em frente à boate, o que atraiu alguns olhares momentâneos

perto da porta. Mas as cabeças logo se viraram novamente, intimidadas em uma intensa despreocupação.

Um homem passou pela porta da frente. Um homem grande, usando uma jaqueta cinza justa, um tamanho

menor, e botas de motoqueiro. Ele se movimentou suavemente, observando os rostos das pessoas à sua

volta, apenas passando os olhos sobre elas por um instante. O rosto que ele queria não estava ali.

Ele passou direto pela bilheteria e a mulher lá dentro se inclinou e olhou para aquelas costas

impassíveis se afastando.

“Ei!”, gritou para o segurança. “Esse cara não pagou.”

“Ei, camarada”, disse o segurança, colocando a mão pesada sobre o ombro do grandão.

O Exterminador nem se virou. Ele pôs a mão esquerda na região do ombro onde sentiu a pressão do

aperto, agarrou a mão do outro homem e a apertou. Os ossos se partiram fazendo um estalo. Em seguida,

ele soltou aquela coisa mole e continuou. Ninguém ouviu o grito abafado do segurança. Se alguém ouviu,

fingiu que não.

Ele entrou na pista de dança, olhando, empurrando as pessoas para longe, como um caçador empurra

para o lado os galhos no meio da trilha. As luzes dos estroboscópios não afetaram a visão do homem. Ele

simplesmente as ignorou e começou uma busca sistemática por um rosto específico.

Sarah pôs o telefone de volta no gancho e se virou, já sentindo falta da voz suave de Traxler. Mas tudo

acabaria em breve. “Um carro a apanhará em um minutinho.” As “autoridades” estavam a caminho. Para

buscá-la. Ela estaria salva. Sarah se apegou a isso, como um colete salva-vidas, e se afastou do telefone.

Ela voltou à sua mesa perto da pista de dança. A mistura de pessoas flutuava ao seu redor como em um

sonho. Rostos distorcidos por risadas. Corpos voando em um orgasmo de dança. Uma loira alta usando

um macacão colado ao corpo cambaleou para uma mesa, bêbada, conversando animadamente com suas

amigas. Pessoas se divertindo. Pessoas bem perto dela, em um mundo diferente. Mas o homem do casaco

comprido não estava entre elas. Talvez ele tenha se assustado, pensou ela. Talvez ele não quisesse ser

visto por essa gente toda. Talvez ele esteja esperando eu sair. Talvez. Ela tentou não pensar sobre isso.

Eu vou ficar bem, Sarah disse a si mesma. Só cinco minutos. Só isso. Cinco minutinhos. Ela estava

começando a acreditar naquilo. Então olhou para o bar e não acreditou mais. O tal sujeito do casaco

estava sentado ali, olhando para o espelho em frente a ele. Direto para ela.

Reese desviou o olhar o mais casualmente possível, mas dentro de sua cabeça os pensamentos estavam

acelerados, quase na velocidade da luz. Ela o vira novamente. Ele percebeu que agora realmente havia assustado o alvo; dava para ver pela expressão nos olhos de Sarah. Pode ter estragado a emboscada. Ele

queria ir até ela agora. Afaste-se! Atenha-se ao plano, soldado. Ele esperaria.

Ao ver Sarah entrar na boate, Reese continuou a caminhar até ter certeza de que ela estava lá dentro.

Depois deu meia-volta e rondou a entrada. Os acordes graves e vibrantes de uma banda de new wave

vazaram pela frente do prédio. Ouvira falar de lugares assim. Eram chamados de casas noturnas. Um

nome lhe ocorreu das profundezas escuras de sua memória: Sinatra.

Reese sentiu a explosão do ritmo pulsante da música assim que abriu a porta. O som era estrondoso.

Luzes coloridas piscantes transformavam o movimento frenético dos homens e mulheres de pele rosada

em uma coisa mais sentida do que vista. Ao passar por uma jovem entediada atrás de uma tela metálica,

em uma jaula perto da porta, ela estendeu a mão e agarrou a manga de seu casaco. Ele rodopiou, com os

olhos atentos, e rapidamente pôs a mão sobre o .38 em seu bolso.

“Quatro e cinquenta, ô doidão”, ela logo exigiu. Reese olhou para ela, intrigado. Cabelo azul – isso era

novidade. Finalmente, a mulher inclinou-se na direção dele em uma demonstração dramática de

condescendência.

“Quatro dólares e cinquenta centavos”, ela repetiu, com a fala arrastada. Reese pôs a mão no bolso,

pegou um bolo de notas amassadas e empurrou para ela. Não esperou o troco.

Rapidamente, ele fez o reconhecimento do frenético terreno interno – entrada de vidraça, porta de

saída de aço ao fundo, duas janelas de vidro na parede esquerda, uma na direita –, ignorando os

olhares dos frágeis habitantes da boate, atraídos por sua estranha figura, mas conferindo seus rostos. Ele

encontrou Sarah quase de imediato, pendurada em um telefone ao fundo. Reese se abaixou quando ela se

virou, olhando nervosamente sobre o ombro.

A longa fileira de bancos à frente do bar espelhado dava o melhor ponto de vantagem para observação

discreta. Ele se sentou no centro e, de frente para o espelho, analisava o salão às suas costas. Perfeito.

Todos estavam na zona de morte.

Quando Sarah se sentou à sua mesa, Reese estava focado nela. Ela olhava em volta, como um animal

assustado que sente algo perigoso no ar. E então seus olhos se encontraram no espelho.

Por um segundo, Sarah não conseguiu se mexer. Um alarme delirante estava soando em seu cérebro. Era

ele. Ele estava aqui. Agora. Vigiando-a. Quando olhou para os olhos perturbadores do homem de casaco,

ela deixou de acreditar que algum dos cinquenta caras no salão faria alguma coisa para ajudá-la. Ela

estava repentina e completamente sozinha outra vez. Aprisionada.

O homem sinistro do casaco de chuva calmamente desviou o olhar. Sarah tentou se acalmar. O tenente

Traxler estava vindo. Estava a caminho. Apenas alguns minutos – não foi isso o que ele disse? Só mais

alguns minutos, querida, ela disse a si mesma. Nada irá acontecer. Vai ficar tudo bem. Por favor, faça-

o vir logo!

Os corpos ondulantes continuaram a se movimentar diante dela, bloqueando sua visão do homem no

bar. Ele não se mexera. Ele ficou sentado ali, feito pedra. Sarah olhou nervosamente para seu relógio

enquanto a música surrava seus nervos e os reduzia a frangalhos.

O Exterminador vagava lentamente, metodicamente, atravessando o mar de pessoas, movimentando a

cabeça em uma varredura contínua, primeiro para a direita, depois para a esquerda, ajustando o foco para

cima ou para baixo conforme o objeto, catalogando tudo ao seu redor, verificando cada rosto com sua

memória.

Nervosa, Sarah pegou uma Coca-Cola na mesa em frente, sem nem perceber que fora deixada por outra

pessoa. Seus olhos estavam grudados nas costas do casaco de chuva sentado próximo ao balcão do bar.

Seus dedos estalaram o topo da lata e a derrubaram de cima da mesa. Por reflexo, Sarah se abaixou para

pegá-la na mesma hora que o grandalhão de jaqueta cinza se aproximou de sua mesa.

Os olhos do Exterminador passaram sobre a mesa e a cadeira vazia. Nada significante registrado. Ele

descartou os dois objetos e prosseguiu.

Quando ele virou para o outro lado, Sarah se sentou de volta e pôs a lata sobre a mesa.

Ao chegar na parede, do outro lado da pista, o Exterminador ainda não avistara o alvo. Ele estava no

local correto. A informação que havia recebido era, por determinação dele, altamente confiável.

Logicamente, ela deveria estar por ali. Talvez não a tenha visto. Ele se virou para reexaminar o salão. E

lá estava ela.

A boca de Reese ficou seca como areia. Mecanicamente, ele levou o copo de cerveja aos lábios,

permitindo-se um gole para umedecê-los. Do canto de seu olho esquerdo, avistou um homem grande se

afastar da parede e seguir uma linha reta que ia direto para Sarah, empurrando as pessoas para fora como

se fossem grama alta, e com a mão direita no bolso de sua jaqueta. Ele era o tal. Reese sabia. Lentamente,

abaixou o copo de cerveja e deixou sua mão vagar de forma casual até o botão superior de seu casaco,

desabotoando-o. Seus dedos deslizaram sobre o metal liso da Remington 870 e desativaram a trava de

segurança.

Estava acontecendo. Era agora. Naquele microssegundo antes da ação, quando os músculos se contraem

– ávidos pelo próximo microssegundo – e a onda de adrenalina leva o coração a cem BPMs,

sobrecarregando todo o sistema, Reese pôs a mão esquerda na beirada do balcão cromado do bar para

pegar impulso e levou a mão direita até o cabo da Remington 870. Em seguida, lançou o corpo na direção

de seu oponente e o banco do bar girou.

Sarah tomou um gole de sua Coca e olhou para o relógio. Três minutos se passaram desde que ela falara

com o tenente Traxler. Quando olhou para cima, alguém estava se aproximando. Um cara grande e

assustador, de jaqueta cinza, pegando sua carteira. Parou bem na frente dela, enorme – uma cadeia de

montanhas que havia acabado de se mudar para a vizinhança.

Traxler?, pensou Sarah. Ele não tinha nada a ver com o que imaginara. Não com olhos como aqueles.

Não era uma pessoa amigável. Então ela percebeu, instintivamente, que alguma coisa ruim logo

aconteceria.

O Exterminador ficou ali, parado, por uma fração de segundo, olhando atentamente para ela, com a mão

ainda dentro da jaqueta. Comparou o rosto dela com sua memória e teve identificação positiva. Ele

calculou alternativas possíveis. Em seguida, em um instante, a .45 saiu, engatilhada e brilhando, em um

movimento que terminou com o ponto vermelho da mira a laser perfeitamente no centro da testa de Sarah.

Ela olhou para cima, aterrorizada com a incompreensão, olhando diretamente para o cano do maior e

mais negro buraco no espaço que já vira em toda a sua vida. Todo o recinto pareceu desaparecer e tudo

mais que ele continha.

A mão livre do Exterminador puxou para trás o ferrolho de aço da arma e a deixou voltar com um

estalo, colocando o primeiro cartucho na câmara. Apesar do barulho martelando, o estalo da arma

pareceu, de alguma maneira, ser o único som nos ouvidos de Sarah.

Mil pensamentos gritaram dentro dela em um microssegundo. Oh, meu Deus, isso não é brincadeira. É

de verdade. Eu vou morrer aqui, bem na frente de todo o mundo. Acabou que não era o outro cara. É

esse aqui. Por que isso tá acontecendo? Por quê, por quê, por quê?

Reese ainda estava girando na banqueta do bar, com seu casaco se abrindo, erguendo a Remington com

ambas as mãos, quando o Exterminador sacou a .45 automática. Foi bem rápido. Muito rápido. Mais

rápido do que Reese esperava. Será que ele é um setecentos ou um oitocentos? Reese esperou que fosse

setecentos. Ele estava se afastando do bar quando um homem e uma mulher entraram em seu caminho,

com os olhos se abrindo como flores quando viram o cano da escopeta no ar diante deles. Havia gente

demais no caminho! Merda! Ele achou que não fosse conseguir. Reese vorazmente empurrou o homem

para o lado e continuou avançando, derrubando as pessoas, pegando a Remington e mirando. As pessoas

à sua volta agora se afastavam, sentindo o movimento, sem entender, mas saindo rapidamente do caminho,

abrindo espaço para o que quer que aquele homem estivesse perseguindo. Reese estava em pleno ar

quando uma janela, emoldurada por corpos que se abaixaram, se abriu diante dele. Ele apertou o gatilho

e a Remington rugiu.

Cento e trinta e sete pequenos universos independentes ficaram instantaneamente paralisados quando os

clientes reagiram à explosão de som.

Reese disparou um centésimo de segundo antes de o Exterminador apertar o gatilho. A explosão da

escopeta teria arrancado o braço de um homem comum. Mas tudo que havia feito com seu adversário foi

estragar sua mira. O chumbo grosso calibre 00 de três polegadas da Remington bateu no cotovelo do

Exterminador, fazendo-o girar cerca de vinte graus.

Reese continuou se aproximando, deslizando a mão sobre o ferrolho para trás e ferozmente soltando-o,

colocando mais um cartucho na câmara da arma. O Exterminador começou a se virar para a ameaça,

ajustando as prioridades. Reese disparou outra vez, atingindo o alvo bem no peito. Apesar de seu

tamanho e força, o Exterminador começou a cambalear devido ao impacto.

E então todos começaram a gritar.

Novamente, o ruído do ferrolho indo para trás, depois o estalo dele batendo para a frente e outra

explosão de fogo conforme Reese avançava, decidido, como um rolo compressor, seu mundo reduzido a

um único e claro objetivo: mandar seu grande adversário para a morte.

O Exterminador tentou erguer a .45 automática ao se afastar. Reese disparou de novo, fazendo-o perder

o equilíbrio. Ele viu que o Exterminador estava caindo agora, com a .45 apontada para o teto, irrelevante.

Reese se aproximou da mesa de Sarah. Ela estava gritando, abaixada em sua cadeira, sem acreditar no

que estava acontecendo. Reese ainda tinha um pente na escopeta e o disparou na direção do Exterminador, que estava caindo.

O Exterminador atingiu o chão como um prédio desabando na rua. Ele ficou bem quieto sobre o piso de

cerâmica. Imóvel. Nem mesmo uma contração. A frente de sua jaqueta era um campo retalhado de

padrões de buracos perfeitamente ajustados, com jorros escarlates que rapidamente ensoparam sua

jaqueta. Ele parecia bastante morto.

Ele deve ser um setecentos, pensou Reese consigo mesmo. Ele permaneceu ali por um segundo, com a

adrenalina ainda martelando dentro de si, fazendo tudo parecer mais lento, sentindo a onda como se

estivesse surfando no topo dela. Ninguém no recinto havia se mexido nos seis segundos e meio desde que

o primeiro tiro fora disparado. Agora estavam boquiabertos, sem acreditar no estranho quadro diante

deles. A música parou. O chiado rítmico do disco girando, estupidamente amplificado, ecoava pelo

salão.

Em choque, Sarah olhou para o corpo ensanguentado estatelado no chão a menos de dois metros de

distância. Depois olhou para o homem do casaco de chuva que derrubara o outro sujeito. Ele se virou

para ela. Sarah viu apenas seus olhos e a escopeta reluzente em suas mãos. Deu um passo na direção dela

e alguma coisa chamou sua atenção.

E a de todo o mundo também. O Exterminador havia aberto os olhos. Um minúsculo espasmo percorreu

a extensão de seu corpo. Em seguida, pôs-se de pé sem problemas, agachando-se defensivamente, e

retirou a submetralhadora UZI do coldre de ombro De Santo sob sua jaqueta. Ele virou a arma, puxando o

ferrolho, e mirou em Reese.

Reese rolou como um gato e deslizou do lugar que havia ocupado um segundo antes das primeiras

rajadas da UZI baterem no balcão rugoso de aço inoxidável do bar, lançando pedaços de metal pelos ares

atrás dele.

O Tech Noir explodiu em uma orgia de violência e corpos desabando. Todos acordaram do choque que

havia tomado conta deles e correram desesperadamente, tropeçando, caindo, em direção às portas e

janelas. Muitos não se moveram rápido o suficiente. Uma jovem, que já estava tendo uma noite

especialmente ruim, passou na frente de Reese, que cruzou por trás dela na direção oposta. O cartucho de

nove milímetros da UZI perfurou sem esforço a caixa torácica da mulher.

Sarah saltou de sua cadeira e pulou na corrente de braços e pernas que se arremessavam em direção à

entrada da boate. Ela estava apenas reagindo agora, como um animal, instintivamente se afastando da

morte.

O Exterminador estava parado calmamente no meio do recinto e viu Sarah também correndo para a

entrada, rodeada por outros clientes. Ele começou a disparar mais uma saraivada de balas quando Reese

chamou sua atenção, indo em direção ao bar.

Ele mergulhou por cima do balcão do bar assim que a UZI varreu a barricada de metal polido,

começando de baixo para cima, indo até o topo e voltando, a centímetros de atingir as panturrilhas de

Reese, desintegrando o espelho no fundo. Cacos de vidro voaram em mil direções diferentes,

espalhando-se pelo recinto e caindo pelas costas de Reese enquanto ele se curvava atrás do bar.

Sarah estava na metade do caminho até a porta quando o Exterminador voltou ao seu alvo primário. Ele

viu o alto da cabeça de Sarah balançando no meio da multidão aterrorizada.

Ele ergueu a UZI, estendendo-a em uma das mãos, e mirou pelo cano como se fosse uma pistola. Esperou

até a cabeça dela aparecer e depois puxou o gatilho.

As balas de nove milímetros estavam gritando em direção a um ponto no centro do cabelo ondulado de

Sarah, quando a garota atrás dela tentou, de maneira egoísta, tirá-la de seu caminho – e foi baleada em

seu lugar. Os projéteis entraram nas costas da garota e a impulsionaram para a frente, fazendo Sarah

tropeçar e levando as duas ao chão.

Atrás do bar, Reese pôs a mão no bolso, enfiando cartuchos na Remington o mais rápido que conseguia.

Mais rápido, mais rápido! Suas mãos voavam.

Sarah estava presa debaixo daquele corpo morto pesado. Ela olhou para trás, apavorada, enquanto o

enorme brutamontes assassino avançava, firme, calmo, quase de maneira casual, na sua direção. Sarah

tentou se libertar. A garota era pesada demais. Sarah estava desesperada. Ela empurrava e puxava com

toda a sua força, mas já era tarde.

O Exterminador estava chegando para matá-la, soltando o carregador usado da UZI, buscando outro com

sua mão ensanguentada e enfiando-o na arma – uma ilha de movimentos lentos e precisos em meio à

confusão e ao pânico. E então ele estava bem acima de Sarah e mirando à queima-roupa.

Impotente, Sarah olhou para aqueles olhos frios e sem vida. Não havia nada ali a não ser morte. E

estavam focados nela.

De repente, a Remington explodiu de novo. O tiro atingiu o Exterminador no ombro e o fez girar

completamente. Reese havia atirado em pleno ar ao saltar de uma das cabines revestidas de vinil para a

outra. Ele aterrissou agilmente e saiu atirando. Ele atirou novamente – Morre, filho da puta! – e carregou

outro cartucho. A Remington continuou explodindo, brutalmente, um tiro após o outro, de forma bárbara,

implacável, empurrando o Exterminador para trás, em direção à vidraça. O quinto tiro o ergueu do chão e

o atirou contra o vidro, que se espatifou para fora, em uma cascata de fragmentos de vidro temperado.

Sarah rolou a tempo de ver a vidraça se abrindo como um portão brilhante e aceitando o corpo que

explodia através dela.

O Exterminador bateu na calçada como um avião abatido, deslizando sobre o concreto antes de parar.

Havia sangue escorrendo por cada centímetro visível de suas roupas rasgadas.

Reese pegou a UZI no chão e a examinou. Estava inutilizada. Um dos cartuchos havia atravessado o

receptor superior. Ele a jogou fora e olhou para Sarah ali embaixo. Devia estar entrando em choque,

pensou ele. Hora de ir embora.

Ele puxou a garota morta para fora e pegou a mão de Sarah. Ela se encolheu como um animal

aterrorizado. Depois Reese olhou para fora da vidraça da frente e percebeu que as coisas eram ainda

piores do que pensava – não era um setecentos. Rapidamente, ele se ajoelhou ao lado de Sarah e pegou o

braço dela. Sua voz estava cheia de urgência. “Venha comigo se quiser viver”, disse ele.

Sarah balançou a cabeça, resistindo. Então ela viu o que Reese já sabia. Do lado de fora da vidraça, o

Exterminador estava se levantando, instavelmente, ficando de pé. Estilhaços de vidro caíam dele como água. Ela nunca vira um homem morto antes. Mas Sarah sabia que eles não deviam se levantar.

Um raio de terror, maior do que qualquer coisa que pudesse imaginar, pulsou no seu peito. Ela olhou,

estupefata por um momento, para aquela torre da morte fumegante, ensanguentada, e que se erguia à sua

frente, fixando os olhos sobre ela como uma sentença.

“Meu Deus”, ela sussurrou.

“Venha!” Reese puxou Sarah para ficar de pé, pegou sua mão e a segurou com força. Ela não estava

mais resistindo. Não importava que provavelmente fosse um louco assassino ou que cinco minutos atrás

ela estivesse morrendo de medo de pensar em estar no mesmo recinto que ele. Agora ele era alguém que

queria afastá-la daquela coisa na vidraça e quando Reese puxou a mão de Sarah ela estava pronta para ir.

Com Reese abrindo caminho, eles correram feito loucos para os fundos da boate, tropeçando sobre os

corpos esparramados de dois dançarinos que não foram rápidos como deveriam. O barulho rítmico e

inconfundível dos pés do grandalhão ecoou atrás deles.

Reese chegou à porta da cozinha a toda velocidade, abrindo-a com um estrondo e arrastando Sarah sem

parar. A porta do outro lado da cozinha bagunçada estava escancarada, como a deixara o cozinheiro

coreano que a usara quando ouviu o primeiro tiro. Reese fez Sarah passar por ela, depois se virou e a

bateu, colocando o trinco no lugar, e em seguida encarou Sarah de novo e a puxou com brutalidade.

Um instante mais tarde, o Exterminador chegou à porta. A chapa de metal fraquejou, as dobradiças

quase pularam para fora, mas o trinco se segurou. O homem enorme deu um passo para trás e se chocou

novamente contra ela. Desta vez, o trinco de aço de meia polegada se curvou como se fosse um alfinete e

o Exterminador prosseguiu para o corredor.

Reese e Sarah já estavam do outro lado, correndo em direção à porta que dava para o beco traseiro.

Sarah escorregou, mas Reese a puxou de pé ferozmente e continuou a correr.

A porta do beco se abriu e eles saíram para o asfalto molhado. Sarah começou a ficar mais lenta, sem

fôlego. Reese brutalmente bateu a palma aberta nas costas dela e a empurrou para a frente. “Continue!”,

gritou ele.

Então ouviram as batidas dos pés do Exterminador sobre o chão cheio de vidro.

Velozmente chegaram ao primeiro cruzamento de becos; Sarah estava sem fôlego, desesperada,

agarrando-se a Reese. Eles viraram a esquina do outro lado.

Enquanto corria com tudo, Reese pegou um cartucho em seu bolso, soltando a mão de Sarah, e tentou

carregar a Remington. Sarah começou a ficar para trás. Reese grosseiramente a empurrou para a frente.

“Vai logo, porra!” Ele colocou outro cartucho no carregador.

Ainda em seu encalço, o Exterminador virou a esquina e avançou na direção deles, ganhando terreno.

Sarah o ouviu se aproximar; em algum lugar dentro de si ela conseguiu encontrar algumas gotas de

energia reserva e as utilizou para movimentar as pernas. Cartuchos da escopeta caíram no asfalto e Reese

desistiu de recarregar a arma. Quando Sarah chegou perto de um LTD cinza, o último carro da fileira,

Reese deu um tapa nas costas dela, arremessando-a de frente para o chão áspero. Depois, girando para

trás, ele abriu a porta do LTD e se agachou atrás de Sarah, apontando a escopeta para o tanque de gasolina de um Impala 1967 mais para trás. Assim que o Exterminador estava prestes a chegar ao Chevrolet,

Reese disparou.

O tiro apenas resvalou no tanque de gasolina, sob a traseira do carro, tirando faíscas da mola do

amortecedor traseiro. Merda! Resta um cartucho. Segura firme. O Exterminador estava lado a lado com

o carro, encurtando a distância em passos largos e poderosos. O ângulo era ruim. Reese moveu a

escopeta, abaixando a coronha quase até o chão. Se isso não funcionasse, o Exterminador enfiaria o fuzil

vazio em sua garganta em aproximadamente dois segundos. Ele puxou o gatilho. Estilhaços do chumbo

grosso, em brasas, atingiram o tanque frio. Ele entrou em erupção, uma explosão tremenda de gás em

expansão. A bola de fogo imediatamente preencheu o espaço entre os becos vazios e em seguida subiu ao

céu da noite. O Exterminador escorregou até parar diante da muralha viva de calor e luz. Ele sabia que

sua presa estava segura do outro lado e que precisava agir rápido. Por uma fração de segundo, ele

analisou suas opções.

Reese não queria perder tempo. Ele enfiou Sarah no banco da frente do LTD cinza, depois passou por

cima dela até o lado do motorista e bateu a porta. A bola de fogo ainda estava bloqueando o beco quando

ele pegou os fios da ignição e fez o motor do sedã despertar.

De repente, a silhueta de uma figura surgiu em meio ao fogo e se atirou, em chamas, por cima do teto do

carro. O Exterminador, com os cabelos e as roupas consumidos pelo fogo, caiu sobre o capô do LTD de

Reese fazendo um estrondo. Reese pôs o carro em marcha a ré e enterrou o pé no acelerador. Os pneus

gritaram e soltaram fumaça conforme o veículo se movimentava para trás pela ruela. Sarah ficou sentada,

boquiaberta, em choque; o homem no capô olhava diretamente para os olhos dela através do para-brisa,

os punhos cerrados.

Reese lutava com o volante do carro quando o Exterminador esmurrou o para-brisa. Vidro quebrado foi

lançado no interior do veículo. Sarah abriu os olhos e viu a mão ensanguentada surgir através do buraco,

aproximando-se de seu pescoço. Ela gritou quando o Exterminador a puxou pela blusa em sua direção.

Aquela mão estava prestes a arrastá-la por cima do painel e pelo vidro quando o LTD saiu da ruela e

avançou, ainda de ré, para a Pico Boulevard.

Reese girou o volante com força e o grande sedã derrapou de lado, os quatro pneus fumegantes, e em

seguida continuou a atravessar a rua na direção da outra calçada.

O oficial Nick Delaney, que havia acabado de passar por Crescent Heights, indo na direção leste da

Pico, recebeu um chamado a respeito de um tiroteio no Tech Noir e estava pegando o rádio da viatura

para responder quando viu o LTD sair com tudo do beco. Algum babaca estava agachado no capô, usando-

o como prancha de surfe, o que já era bastante esquisito – mas o babaca também estava em chamas. Ele

observou, espantado, o sedã bater de lado em um carro estacionado e o surfista flamejante voar por cima

do teto para bater com força na calçada. Morreu na hora, Delaney soube instintivamente. Ele travou os

freios de sua viatura e derrapou até parar de frente para a calçada. O motor do LTD acelerou e o veículo

girou cento e oitenta graus na rua, depois saiu cantando pneu pela Pico, em direção ao oceano.

Delaney saiu do carro rapidamente, gritando pelo rádio enquanto olhava para o corpo imóvel na

calçada.

“Aqui é 1-L-19. Estou com um delito de atropelamento e fuga!” Tentando obter uma descrição do sedã

que estava rapidamente desaparecendo, desviou o olhar do corpo inerte fumegante. Ele não o viu tremer,

depois lentamente ficar de pé e olhar em volta. Quando terminou de dar a descrição do carro de Reese e

finalmente se virou, a visão que ele teve tirou alguns anos de sua vida. O grandalhão estava caminhando

em sua direção. Delaney largou o rádio e foi pegar seu revólver de serviço. A arma nunca havia saído do

coldre. O Exterminador bateu com força a porta atrás da qual Delaney estava. O oficial escutou seu braço

direito se quebrar e soube que algo muito ruim estava prestes a lhe acontecer. Morreu na hora, ele disse

a si mesmo instintivamente. No segundo seguinte, o Exterminador bateu a cabeça do policial na janela e

atirou o corpo sem vida na rua. Depois ele se pôs ao volante e saiu pela rua.

Lá na frente, na Pico, passando pela La Cienega, Sarah estava paralisada no LTD. Seu rosto estava

pálido. Ela começou a tremer, sem compreender os acontecimentos dos últimos minutos nem o borrão do

mundo que estava do lado de fora de sua janela. O sedã se movia como um demônio da noite, de faróis

apagados, e Reese afundou o acelerador até eles estarem atravessando as sombras a 140 km/h.

Os olhos dele olhavam para o espelho, depois de novo para a estrada, e então sobre o ombro para

depois voltar. Sem olhar para Sarah, Reese gritou “Segure-se!” e lançou o sedã em uma exímia derrapada

controlada, dobrando a esquina da Oakhurst Avenue. Ele correu até a Whitworth e virou à esquerda,

enfiando o LTD entre um Toyota lerdo e uma picape que estava vindo, e depois mergulhou para a Rexford,

deslizando para vencer mais uma esquina. O trânsito lento feito uma lesma fez Reese, sem hesitar e sem a

menor preocupação, subir no meio-fio e correr pela calçada a cem por hora.

Felizmente não havia pedestres.

Em um único movimento, gracioso, impressionante e completamente horripilante, ele saltou direto da

calçada para a faixa rápida da Olympic Boulevard antes que alguém pudesse reagir.

Parecia não haver mais ninguém na sua cola agora. Provavelmente não seria possível se tentasse. Ele

olhou para Sarah e percebeu que ela estava entrando em choque.

“Você está ferida?”, gritou ele, secamente, em tom militar. “Você foi baleada?” Sem resposta. Ela

olhava fixamente para a frente. Reese passou a mão pelos braços, pernas e tronco de Sarah. Ele foi

direto, impessoal, como um médico no campo de batalha. Procurou indícios de ferimentos,

metodicamente. Ela parecia estar intacta.

Sarah se retraiu. A vaga sensação de estar sendo tocada ficou mais clara. Percebeu que a mão de Reese

estava em cima dela e o ressentimento dessa violação repugnante a energizou. Ela empurrou a mão de

Reese e procurou a maçaneta da porta em uma reação cega de pânico. A porta então se abriu fazendo um

enorme barulho.

Reese a puxou de volta e fechou a porta. Depois, sem tirar os olhos da estrada, deu um tapa no rosto

dela com as costas da mão. Com força. Ela ficou completamente imóvel enquanto sua mente voltava à

consciência racional. Em seguida, Reese falou: “Faça exatamente o que eu disser. Exatamente. Não se

mova, a menos que eu mande. Não faça um som sequer, a menos que eu mande. Você está entendendo?”

Com o velocímetro marcando 136 km/h, ele calmamente passou o braço sobre Sarah e travou a porta, depois afivelou o cinto de segurança dela, ajustando-o bem-apertado, com os mesmos movimentos

metódicos da sua busca corporal. Sarah não respondeu, não balançou a cabeça, não se mexeu.

“Você está entendendo?”, repetiu ele, gritando.

“Sim”, respondeu Sarah, com a voz trêmula. “Por favor, não me machuque.”

“Eu estou aqui para ajudá-la”, ele lhe informou. Sua voz estava menos ameaçadora, mas ainda assim

seca e firme. “Meu nome é Reese. Sargento/Tec Com DN38416.” Houve um momento de silêncio

atrapalhado. Então Reese fez a única coisa que lhe veio à mente naquele segundo. Sarah olhou atordoada

para sua mão estendida. Com entusiasmo zero, ela a apertou automaticamente.

“Eu fui designado para protegê-la”, disse Reese. “Você é alvo de extermínio.”

Catorze quadras atrás deles, viajando tranquilamente pelo trânsito noturno, estava a viatura do LAPD 1-L-

19. O Exterminador vasculhou a rua em uma série contínua de varreduras perfeitamente simétricas. Ele

escutou o falatório do rádio, filtrando transmissões irrelevantes, procurando alguma coisa sobre o sedã

cinza roubado. Finalmente ouviu o que estava procurando. “Veículo suspeito avistado na esquina da

Motor com a Pico, sentido sul”, disse o rádio. “Unidades 1-A-20 e 1-A-7, tentem interceptar. Unidade 1-L-

19, responda.”

Tendo registrado o número da unidade quando dito pelo antigo proprietário do carro, o Exterminador

entendeu que o chamado precisava ser respondido. Ele reproduziu as poucas sílabas que havia gravado e

armazenado na hora e sintetizou digitalmente uma resposta. Com uma voz da qual nem a mãe do policial

Delaney desconfiaria, o Exterminador calmamente disse: “Aqui é 1-L-19. Sentido oeste na Olympic perto

da Overland”. Ele não estava, na verdade; estava correndo pela Pico, na direção da Motor. Na direção

de Sarah.

“Isso não tá acontecendo”, disse Sarah, tentando tornar aquilo real ao dizê-lo. “É um erro. Eu não fiz

nada.”

“Não. Ainda não”, respondeu Reese, “mas fará.” Ele a olhou nos olhos. “É muito importante que você

viva.” Sarah desviou o olhar e fez tudo que pôde para rejeitar tudo aquilo, mas toda vez que abria os

olhos ela ainda estava no LTD.

“Não é verdade. Aquele homem. Ele estava morto. Como ele pôde levantar após você ter...”

“Não é um homem”, interrompeu Reese. “É uma máquina. Um Exterminador. Da Cyberdyne Systems.

Série oitocentos. Modelo um zero um.”

“Uma máquina?”, repetiu Sarah, incrédula. “Tipo um robô?”

“Não um robô. Um ciborgue.” Reese esticou o pescoço para trás e viu dois pares minúsculos de faróis

lá embaixo na rua atrás deles. “Organismo cibernético.”

“Não!”, gritou Sarah. “Ele estava sangrando.”

“Só um segundo”, disse Reese. “Abaixe a cabeça.”

Os pares de faróis deram um salto na rua e se aproximaram deles. O primeiro carro do LAPD surgiu ao

lado deles e ligou seu holofote, iluminando o sedã surrado, verificando-o, e os rostos de Reese e Sarah.

Reese bateu na porta da viatura. O policial tentou desviar, mas a 100 km/h um carro simplesmente não

se comporta direito. A viatura derrapou de lado, rodou e atravessou uma banca de revista, batendo em um táxi estacionado. Fim da história.

Sarah olhou para a viatura do LAPD parada e depois se abaixou em seu assento, tentando desaparecer.

Reese entrou em um beco perto da Glendon. A outra viatura de polícia foi atrás, bem na cola do LTD, a

centímetros do para-choque, e juntos os dois carros percorreram o corredor estreito e escuro. Faíscas

voavam como fogos de artifício conforme eles raspavam as paredes e ziguezagueavam pelas caçambas

protuberantes. Reese, de repente, tirou o pé do acelerador e pisou no freio; o policial também tentou frear

a viatura, mas vacilou e virou o volante – só uma fração de um centímetro, mas o bastante para bater de

frente em uma parede de tijolos. Instantaneamente, o carro ficou de lado e emperrou no corredor estreito.

Reese parou abruptamente, deu marcha a ré no LTD e pisou fundo, arrastando o sedã danificado para trás

na direção do carro preto e branco. Ele bateu na viatura a 60 km/h, transformando-a em uma parte

permanente do beco. Em seguida, Reese acelerou de volta para a Pico.

Sarah se sentou e olhou em volta, e em seguida para Reese, ainda digerindo a última informação que

recebera. Eles estavam fugindo de um ciborgue?

Ela deu uma boa olhada em Reese. Barbudo e imundo, tinha um olhar intenso e perigoso – muito

provavelmente de um louco.

Reese suavemente entrou em um edifício-garagem de quatro andares na Colby. A grade do LTD

atravessou a cancela de madeira pintada que bloqueava a entrada e o sedã subiu para o primeiro andar.

Tudo estava quieto agora. Sarah desviou o olhar de Reese, com medo da nova calmaria e do que ele

poderia lhe fazer. A imagem daquele homem grande, o homem que tinha de estar morto, levantando-se e

correndo atrás deles havia se cristalizado para sempre em sua mente. Não importava quão louco o cara

ao seu lado fosse – pelo menos não era aquele homem.

Reese ainda estava alerta, passando pelos corredores de carros estacionados com cuidado. Ao longe,

ouviu o som de sirenes de dúzias de carros de polícia à sua caça.

Ele precisava tirá-la da cidade. Algum lugar seguro. Seria melhor se ela o ajudasse. Se entendesse. Ele

a protegeria contra a própria vontade dela, se necessário. Mas seria melhor de outra maneira.

Reese olhou para Sarah. Só de ficar tão perto dela, tudo dentro dele se agitou até parar por completo.

Por um segundo, ele não conseguiu falar. Estava impressionado com o fato de a presença dela, bem ali no

assento ao lado, fosse tão casual. Ali estava ela. E tão normal. E assustada. De alguma maneira, não

havia lhe ocorrido que ela estaria assustada.

Reese virou para outro corredor, permanecendo no andar de baixo, e continuou rondando o

estacionamento, procurando sinais de problemas, sem encontrar nenhum.

“Ok, agora me escuta”, disse calmamente, ainda olhando para os dois lados. “O Exterminador é uma

unidade de infiltração. Parte homem, parte máquina.” A intensidade de suas palavras indicava que estava

dizendo, infelizmente, a mais pura verdade. Sarah virou-se na sua direção e escutou.

“Por baixo”, continuou ele, “há uma estrutura de combate de hiperliga metálica. Controlada por

microprocessador. Totalmente blindada. Muito resistente. Mas do lado de fora é tecido humano vivo.

Carne, pele, cabelo... sangue. Tudo produzido para os ciborgues...” Ele começou a falar mais rápido.

Ouvia as palavras, mas elas não faziam sentido. Aquela explicação só estava piorando as coisas.

“Olha, Reese, eu sei que você quer ajudar, mas...”, disse Sarah, tentando fazer sua voz ficar calma para

que ele não se irritasse. Não deu certo.

“Presta atenção!”, ele gritou, virando a cabeça na direção dela.

“A série seiscentos tinha pele de borracha. Nós as identificávamos facilmente. Mas a oitocentos é nova.

Eles parecem humanos. Suor, mau hálito, tudo. Se tocá-los, você sentirá o calor do corpo. Só que a essa

altura você já estaria morta. Muito difíceis de identificar. Todas as pessoas naquele lugar...” Reese

hesitou, pego em uma emoção paralela. “Tive de esperar que ele fosse pra cima de você antes de reagir.

Só assim consegui identificá-lo. Eu não sabia que aparência ele tinha.”

Sarah percebeu que ele estava se referindo a pessoas que foram feridas ou mortas no Tech Noir. Havia

insegurança no jeito com que falou delas. Depois disse em voz alta um duro pensamento que então lhe

ocorreu: “Elas teriam morrido na guerra, de qualquer maneira”.

Reese não estava fazendo o menor sentido agora e Sarah pensou que ele talvez estivesse enlouquecendo

completamente diante de seus próprios olhos. Guerra? Que guerra? E ciborgues que suam?

Sarah balançou a cabeça. “Eu não sou burra, sabia? Eles não conseguem fazer essas coisas ainda.”

Reese assentiu. “Não”, disse ele, “ainda não. Não nos próximos quarenta anos.”

Não grite, disse uma das Sarinhas em sua mente maltratada.

“Eu preciso me livrar deste carro”, disse Reese com a voz distraída. Ele colocou o ltd em uma vaga

vazia.

Algo muito ruim estava inegavelmente acontecendo. Uma história de terror sobre dois pés estava

andando pela cidade, obcecada por matá-la. Mesmo se Reese não tivesse todos os parafusos no lugar, ele

havia salvado sua vida. Ela queria acreditar nele. Queria mesmo. Mas isso era demais.

“Você está me dizendo que ele é do futuro?”, perguntou Sarah, enfim, quase incapaz de formar a

palavra.

“Um futuro possível, do seu ponto de vista”, disse Reese pausadamente, como se lidasse com um

conceito para o qual nem ele tinha as palavras para descrever. “Eu não sei coisas técnicas”, acrescentou

ele, um pouco na defensiva.

“E você é do futuro também?”

“Isso mesmo.”

“Certo”, respondeu Sarah. Ela decidiu que ele não estava só sem alguns parafusos – não havia

parafuso, porca, nada. Um segundo depois, ela destrancou a porta do passageiro, puxou a maçaneta e já

estava com metade do corpo para fora quando Reese percebeu. Ele se inclinou e pegou o braço dela,

apertando-o até a pele ficar branca, e a puxou, resistindo aos chutes, de volta para o LTD.

Em pânico, Sarah recorreu a seus instintos animais. Com toda a sua força, ela enterrou os dentes no

pulso de Reese. Ela mordeu com força, o máximo que conseguiu, mas ele não a largou.

Lentamente, ele passou o braço por ela e fechou a porta do passageiro. Sarah olhou para cima, com os

dentes ainda presos, e olhou para o rosto de Reese. Não havia reação ali. Nada de dor. Nenhuma raiva.

Nada. Calmamente ela recuou. Havia sangue em sua língua. Ela olhou para o pulso dele. Um pequeno

filete de sangue saía das marcas, em formato de meia-lua, que ela deixara ali.

“Ciborgues não sentem dor”, disse Reese friamente. “Eu sinto. Não... faça isso... de novo.”

“Por favor”, implorou Sarah, “me deixa ir embora.”

Reese balançou a cabeça. Aquilo não estava indo bem. Nada bem.

“Escuta”, disse ele, tentando outra vez, com a voz lenta, determinada, intensa. “Por favor, vê se entende.

O Exterminador está lá fora. Não dá pra argumentar com ele. Não dá pra negociar com ele. Ele não sente

pena, nem remorso, nem medo.” Chegou bem perto do rosto dela. Ela sentiu aquela respiração quente em

sua pele. Suas palavras martelaram dentro da cabeça de Sarah.

“E ele não vai parar de maneira alguma. Jamais. Até você estar morta.”

Sarah sabia que tudo aquilo que acabara de ouvir era uma enorme bobagem. Mas e aquele massacre

bem nítido do qual ela havia acabado de ser arrancada? E aquele homem que havia saltado pelo fogo

com olhos de demônio morto vidrados nela, que com os cabelos em chamas deu um soco no vidro do

carro e tentou tirá-la dali de dentro? Ela. A pequena Sarah Connor. E aquelas outras Sarahs Connors que

alguém esteve matando o dia inteiro. Tinha de haver uma explicação racional e perfeitamente razoável

para toda aquela loucura. Mas a lógica e a racionalidade foram jogadas pela janela e estavam bem lá

atrás, abandonando-a. Porque...

...Ele estava morto e se levantou calmamente...

Pense, Sarah, obtenha uma resposta.

...jorrando sangue dos buracos de bala...

Porque se não conseguir

...ele veio atrás...

você é que vai ficar louca...

...atrás de você, Sarah.

Como ele pôde fazer aquilo a não ser que... a não ser que... Talvez Reese não fosse tão louco quanto

parecia.

Sarah se recostou no banco. Houve um momento de silêncio; depois perguntou com muita calma: “Você

pode detê-lo?”

“Talvez”, respondeu Reese. “Com estas armas, eu não sei.”