O Exterminador do Futuro

James Cameron · Capítulo 6 de 52

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O Exterminador do Futuro

Bairro Miracle Mile 8:31 a.m.

■ BAIRRO MIRACLE MILE

 

8:31 A.M.

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Conforme Reese percorria o labirinto de becos e ruelas esquecidas do centro de Los Angeles, houve

vezes naquelas horas da madrugada em que ele não tinha certeza se estava mesmo no pré-guerra. Alguns

daqueles pequenos corredores sujos e abandonados ainda estavam de pé em seu tempo. Ele corria para

um cruzamento, deslizava a escopeta para cima, dava uma espiada do outro lado da esquina, só para

garantir, e lá estava aquela avenida pré-guerra, brilhante como um parque de diversões, tão inacreditável

e exótica quanto um sonho.

Foi assim a manhã toda.

Ele não conseguia se livrar completamente da sensação esquisita de estar em dois lugares ao mesmo

tempo. Sabia que podia se proteger se ficasse apenas na rua, mas isso seria um erro tático. A rua estava

vazia; era difícil se misturar à população quando ela estava dormindo. De repente, Reese pensou que

talvez seu cérebro tivesse se embaralhado ao atravessar para o passado. Ou as anfetaminas que os

técnicos injetaram nele estavam tendo um efeito colateral desastroso. Se alguma coisa atrapalhasse o

objetivo da missão, seria o fim da linha para todo o mundo. Ele não queria nem se imaginar fazendo

alguma merda. Um pequeno espasmo de pânico fez um teste dentro de sua cabeça. Por força do hábito e

do instinto de sobrevivência, ele estrangulou aquela sensação até matá-la.

Ainda havia muito tempo, tempo suficiente. John o informara de que a conquista do alvo ocorreria às

20h19 na Jasmine Street, 656, em Palms. Sarah J. Connor estaria lá, deixando o local. Como John sabia,

Reese não conseguia nem imaginar. Mas, se John disse, era verdade. Podia botar o seu na reta.

Ele decidiu continuar a pé, sentindo a região, verificando rotas primárias e alternativas. Ele repassou

sua lista mental de compras. Para conseguir realizar sua façanha, precisaria de mais munição, para

começar. Muito mais. O medo da morte, que sentiu muitas vezes ao entrar em combate, desta vez foi

completamente eclipsado pelo medo de fracassar. Sua morte seria insignificante. Sarah J. Connor era

outra história. Sua morte seria importante.

Reese estava passando ao lado de uma parede em um trecho especialmente nojento de um beco atrás da

Oficina de Importados Gajewski, na Wilshire – “Garantia de devolver a potência a seu carango!” –,

quando o ronco de um motor surgiu atrás dele. Abrigo! Abrigo! Abrigo! O corpo de Reese estava se

movendo antes de seu cérebro. Ele saltou para o outro lado onde havia diversas lixeiras, empilhadas

contra o tijolo em decomposição, rolou e se entocou atrás delas. Um caminhão de entrega entrara pelo

beco um pouco rápido demais, cantando os pneus no asfalto molhado enquanto o motorista sonolento

pisava no freio para não bater na parede. Reese carregou um cartucho na escopeta, com os nervos agitados como cabos de alta-tensão, e a ergueu enquanto o caminhão de entrega passou se arrastando.

Lentamente, ele foi soltando a pressão sobre o gatilho e abaixou a escopeta. O motorista sonolento nem

viu Reese e nunca saberia que estivera a apenas um triz de deixar sua esposa criar seus filhos sozinha.

O coração de Reese estava batendo forte. Ele olhou para cima, para a pequena faixa de céu acima do

topo dos prédios à sua volta. Já estava claro.

Não adianta mais ficar nos becos, pensou Reese. Melhor se misturar à população. Ele estava

carregando sua escopeta sob o casaco, presa entre o braço e o corpo, mas isso não passaria despercebido

pelas pessoas à luz do dia. Hora de adaptar a arma ao modo de briga de rua. Ele vasculhou a lata de lixo

ao seu lado – partes velhas de carros, segmentos de tubulação e lascas de metal engorduradas. De

repente, encontrou o que estava procurando – uma lâmina enferrujada, mas usável, de serra tico-tico.

Reese não entendia por que materiais perfeitamente bons eram jogados fora aqui. Ele poderia construir

um carregador de combate apenas com o que encontrou em uma lixeira.

Reese pôs a lâmina sobre o cabo da escopeta, logo atrás do alojamento do gatilho, deixando madeira

suficiente para servir de punho de pistola improvisado. Ele cavou mais fundo na lixeira, mas não teve

sorte; não havia nada para fazer um estilingue.

Foi na quarta tentativa, em uma das lixeiras mais afastadas da parede, que encontrou um pedaço de

corda desfiada. Ao amarrar uma das pontas ao cabo encurtado da arma, Reese fez um coldre deslizante

para o ombro. Quando chegasse a hora, ele poderia sacar a arma de maneira suave e rápida. E o disfarce

era excelente. Ele teria de ser revistado antes que alguém percebesse que estava armado. Mas aí as

pessoas já saberiam.

Reese abotoou seu casaco longo até em cima, embora o céu estivesse claro e sem nuvens, atipicamente

quente para o mês de março.

Ele nunca se sentira tão sozinho em toda a sua vida – o homem, que ainda nem nascera, na linha de

frente de um exército. Movendo-se com cuidado até a entrada do beco, ele deu uma olhada feroz para a

Wilshire Boulevard e, da maneira mais casual possível, deu um passo em sua direção. Seus nervos

vibravam com alerta máximo enquanto ele começava a fazer o reconhecimento do território ao seu redor.

As pessoas já estavam saindo para as ruas. Algumas eram habitantes do mundo dos becos. Mas a

maioria era de trabalhadores, esperando o ônibus na esquina ou descendo de um, com uma pressa cheia

de propósito em seus passos e um copo de café esfriando rapidamente.

Reese não conseguia nem começar a entender o ritmo da vida urbana pré-guerra; ele estava acostumado

a uma escala de intensidade completamente diferente. Passear à vontade à luz do dia não era uma maneira

de se continuar vivo no mundo dele. Eles controlavam o dia. Você tinha a noite para brincar. Apesar de a

mente de Reese lhe dizer que era seguro, seus instintos gritavam com ele. Ele teve de se forçar a sair da

segurança da sombra do edifício para o redemoinho multicolorido de movimento que passava por ele.

Com seu casaco escondendo as cicatrizes enrugadas com laser que pontilhavam seu corpo compacto,

Reese não parecia muito diferente das outras pessoas na Wilshire, mas estava fora de sincronia. Feroz e

sério demais até mesmo para a parte perigosa da cidade, como uma pantera selvagem largada no meio de

um zoológico claro, espalhafatoso e decadente.

Ele andou cuidadosamente pela calçada, analisando os rostos que balançavam e se cruzavam na sua

direção. Havia uma qualidade ali que ele nunca vira antes. Uma espécie de virgindade ou inocência, uma

falta de informação que fazia até os mais velhos parecerem jovens. Um garoto usando um jeans

desbotado, empoleirado em cima de uma tábua de sessenta centímetros sobre rodas, cruzava

graciosamente o curso de obstáculos de pedestres. Seu corpo se movia e se agitava ao som de “Born in

the USA”, de Bruce Springsteen, com a música explodindo na rua, vinda de um enorme rádio que o garoto

carregava sobre o ombro.

As calçadas eram uma babilônia de vitrines, cada uma reunindo uma quantidade incrível de tesouros.

Rádios, luminárias, aparelhos de som, televisores – fileiras deles, montes deles, com três ou quatro

aparelhos empilhados. Uma vitrine continha apenas televisores, todos ligados no mesmo canal. Bryant

Gumbel e Jane Pauley conversavam entre si em quarenta telas ao mesmo tempo. Reese estava hipnotizado

com a vulgaridade daquela ostentação.

Para onde quer que olhasse, seus olhos eram ameaçados com uma sobrecarga visual. Um grotesco

palhaço, daqueles que pulam inadvertidamente de uma caixa, ria do outro lado da rua, sob a marquise

amarela e rosa do Teatro Pussycat. Outdoors com os rostos gigantescos de belos homens e mulheres

sorriam para ele lá embaixo, exaltando as maravilhas do Caesar’s Palace e do Golden Nugget. Um

homem de aparência vigorosa, de quinze metros de altura, vestindo um casaco de couro de carneiro,

convidava Reese a ir para o mundo de Marlboro, para onde está o sabor. Reese nunca ouvira falar em tal

lugar. Mas a placa o fez pensar em comida. Ele percebeu que estava com fome.

Descendo a rua, havia uma pequena e suja birosca de comida para viagem. Uma placa desbotada

orgulhosamente alardeava que era possível comprar fatias de pizza a qualquer hora do dia. Reese não

sabia o que era pizza, mas soube pelo cheiro que devia ser algo decente para se comer. Ele pairou perto

do local, prestando atenção, tentando entender como o sistema funcionava, sem dar bandeira. Reese

observou um homem gordo com uma camisa xadrez berrante se aproximar da janela. “Me vê uma fatia

com tudo, menos anchovas”, disse ele. O homem atrás da janela entregou um triângulo fumegante ao

homem da camisa xadrez. O homem da camisa xadrez então passou algumas notas verdes ao homem atrás

da janela e foi embora. Reese observou atentamente a transação.

Ele ouvira falar de dinheiro, mas não tinha nenhum consigo. Rapidamente, vasculhou os bolsos da calça

que era de Schantz. Nada. O cheiro da pizza estava fazendo coisas com seu estômago; ele roncou

exigentemente. Foda-se, pensou Reese, e foi até a janela. Lentamente, o homem atrás do vidro ergueu os

olhos do jornal com uma expressão irritada.

“Sim?”, perguntou o balconista, com indiferença. Reese repetiu a cantilena.

“Me vê uma fatia com tudo, menos anchovas”, disse ele.

O homem colocou uma fatia daquele negócio quente e fumegante no balcão, a centímetros do nariz de

Reese, e se virou para o caixa. “É um dólar e sessenta”, ele disse por sobre o ombro. Ao se virar

novamente, Reese havia sumido. Furioso, o balconista pôs metade do corpo para fora da janela, com os

olhos vasculhando a rua de um lado e de outro. Mas Reese não estava lá. “Seu filho da puta!”, ele gritou

para ninguém e para todo o mundo.

Reese voou pela calçada, entrou no primeiro beco que encontrou e depois se agachou atrás de uma

pilha de caixas descartadas, longe da vista, envolvendo as sombras ao seu redor como um manto de

proteção.

Ele olhou em volta furtivamente, ainda escondendo a pizza quente dentro de seu casaco. O cheiro

exótico e condimentado havia tomado conta dele, da maneira que o aroma de sangue fresco consome a

mente de um animal selvagem. Quando teve certeza de estar sozinho, ele a pegou e a devorou, deleitando-

se com o sabor, quase sem perceber que o queijo queimou seu céu da boca.

Mal havia engolido a pizza, ele ouviu o rosnado grave de um cachorro atrás de si. Reese virou-se

rapidamente. Um vira-lata de aparência desagradável estava agachado à sombra de uma entrada, olhando

ansiosamente para a borda da massa em sua mão.

Reese começou a levar a borda até os lábios, depois parou. Porra, ele pensou, e abaixou a mão.

Rejeitar um cachorro com fome era um crime. Eles eram parceiros na sobrevivência. Lentamente,

estendeu a mão na direção do animal. O vira-lata saiu cuidadosamente da entrada e, mantendo os olhos

grudados no homem, com desconfiança, pegou a borda.

Para dar sorte, Reese gentilmente passou a mão no pelo entre as orelhas do cachorro até a cauda do

bicho começar a balançar para lá e para cá, até ele se deitar no asfalto a seus pés.

Deixando o vira-lata faminto com seu desjejum, Reese caminhou de volta até a beirada da rua. As

pontadas de fome agora haviam passado e o sol estava subindo bem mais no céu da manhã. Ele parou na

quina da parede do beco e observou a procissão de carros passando. Precisaria de um em breve. E de

muitas outras coisas também.

Hora de se mexer, ele disse a si mesmo.