O Exterminador do Futuro

James Cameron · Capítulo 34 de 52

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O Exterminador do Futuro

Dia2

■ LAPD

DIVISÃO DE RAMPART

1:06 A.M.

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Sarah olhava atentamente para o tecido que cobria o braço do sofá em que estava sentada na sala de

Traxler. Ao fundo, ela ouvia o tráfego de pés e o falatório ao telefone que vinham do restante da

delegacia. Os objetos da sala pareceram brilhar momentaneamente quando outra rodada de lágrimas

brotou e derramou sobre seus cílios.

Ela não queria pensar no que o tenente Traxler lhe dissera uma hora atrás. Mas secretamente ela sabia

que iria pensar naquilo pelo resto de sua vida.

Traxler entrou, precariamente segurando dois copos de café. Atrás dele estava outro homem. Um

homem gordo, careca e rosado, cujos olhos brilhavam com uma observação minuciosa, distante e

perturbadora.

Traxler se dirigiu lentamente a Sarah. Ele podia ver, mesmo do outro lado da sala, os olhos vermelhos e

a expressão de choque que ainda pairavam em torno dela.

“Como você está, Sarah?”

Sarah fez um pequeno aceno com a cabeça, tentando não olhar para ninguém. “Aqui, tome um pouco”,

disse Traxler.

Ela obedientemente bebeu um gole de café e depois olhou para o nada.

“Tenente”, perguntou ela com a voz vazia, “você tem certeza de que são eles?”

Agora foi a vez de Traxler assentir silenciosamente. Sarah olhou nos olhos dele, procurando algum

sinal que lhe dissesse que ele estava na dúvida.

“Talvez eu devesse ver os... os corpos. Sabe... talvez não seja...”

“Eles já foram identificados.” Traxler não gostava dessa parte. Não gostava mesmo. “Não há dúvida”,

acrescentou ele, como sempre fazia.

Por trás de seus olhos, na janela de cinema da sua imaginação, Sarah viu os corpos brutalizados de

Ginger e Matt, seus únicos amigos, “sua família”, deitados em um oceano de sangue no chão da sala de

casa. Eles estavam mortos. Horrivelmente arrancados dela, para sempre. O impacto total daquilo ainda

estava sendo absorvido e então ela sentiu uma dor física.

“Meu Deus... Ginger... garota.” Sua voz parecia sair de muito longe. “Eu sinto muito.”

Traxler pegou o copo de café da mão de Sarah quando seu braço ficou mole, ameaçando entornar o

líquido fumegante em seus joelhos.

“Sarah”, ele disse suavemente, apontando para o homem careca e corpulento perto da porta, “este é o

doutor Silberman.”

“Oi, Sarah”, disse Silberman, com uma cadência amigável que lhe pareceu muito superficial. Sarah

olhou para ele com os olhos turvos.

“Eu gostaria que contasse a ele tudo que Reese lhe disse”, continuou Traxler. “Você poderia fazer isso

por mim?”

“Acho que sim.” A voz dela estava quase inaudível. “Você é médico?”

“Psicólogo criminal”, respondeu o homem. Sarah o observou ali, se balançando perto da porta, e

decidiu que não gostava nem um pouco dele. Mas talvez ele soubesse o que estava fazendo, pensou ela, e

o que mais precisava no momento era de respostas. Ela precisava saber por que sua vida normal e

tranquila tinha ido pelos ares. Por que Ginger e Matt estavam mortos no chão da sala. Por que alguém

estava tentando matá-la. Ela precisava saber se era possível que Reese estivesse certo, se era realmente

por causa dela e não por uma intromissão aleatória da insanidade.

“Reese é louco?”, perguntou Sarah, com os olhos atentamente analisando o rosto inócuo de Silberman.

“Bem”, ele disse pausadamente com a voz distante, “é isso que nós vamos descobrir, não é mesmo?”

 

Os braços de Reese estavam puxados para trás com força e algemados às pernas traseiras da cadeira. À

sua frente, havia uma mesa simples de madeira sobre a qual jazia um cinzeiro de plástico preto. Atrás

dele, um grande espelho falso na parede o observava de volta.

A dor estava se acumulando entre as escápulas de Reese já havia bastante tempo então. Ele não ligava.

Na verdade, até gostava. A dor não era insuportável e o ajudava a concentrar seus pensamentos longe das

perguntas que lhe eram feitas pelo homem alto e esguio andando pelo recinto.

Vukovich parou bem atrás do prisioneiro. Olhou para a nuca de Reese, sabendo que ele devia estar com

dor, mas sem ver o menor esforço nos músculos do pescoço, que indicaria sua existência. O filho da puta

é resistente, pensou Vukovich. Ele continuou lentamente em volta da mesa até encarar o jovem

carrancudo. Não havia nenhuma expressão no rosto de seu prisioneiro. Nada. Zero. Isso era um pouco

estranho. Nossa, como eu odeio os esquisitos, pensou Vukovich.

“Ok, garoto”, disse ele, “vamos começar do início. Há quanto tempo você conhece Sarah Jeanette

Connor?” Reese olhou para a parede atrás da cabeça de Vukovich, contando os buraquinhos em um dos

azulejos. Havia 138 até agora.

“Reese, Kyle A.”, ele repetiu de maneira monótona e pausada, “sargento Tec/Com DN38...”

“...416”, disse Vukovich, terminando em uníssono.

“Tá certo, cara, eu já sei a porra do número.” Ele se sentou na cadeira oposta a Reese e se inclinou

sobre a mesa até ficar a centímetros do rosto do rapaz.

“Vamos parar com essa merda de guerra. Nós sabemos que você não é militar – não há nenhum registro

seu em qualquer ramo do serviço. Não há registro seu em lugar algum... Até agora.”

Vukovich acendeu um Camel. “Eu não estou gostando disso. Não estou mesmo. Isso quer dizer que nós

vamos passar muito tempo nesta sala e quando isso acontece eu fico de mau humor.”

Reese estava apenas escutando pela metade o discurso de Vukovich. Sua mente estava em outro lugar.

Na missão. Em Sarah. Ele podia ver que esses caras iriam fazer merda até que só restasse enterrá-la. Isso

era inadmissível.

“Onde está Sarah Connor?”, perguntou Reese repentinamente. Foi a primeira vez que ele disse alguma

coisa que não fosse para se identificar.

“Não se preocupe com ela. Preocupe-se com você”, disse Vukovich em sua melhor voz de cara durão.

Mas era óbvio para ambos que o cara mais durão naquele recinto estava algemado a uma cadeira.

“Onde... está... ela?”, rosnou Reese.

“Ela está segura.”

“Ela está morta”, disse Reese, sem rodeios, e se virou novamente para o azulejo atrás da cabeça de

Vukovich. Vukovich sentiu que havia acabado de perder alguma coisa, mas não tinha certeza do que era.

A raiva tomou conta de suas emoções.

“Escuta aqui, babaca...”, começou ele. Mas parou abruptamente quando a porta se abriu.

Era Silberman. O psicólogo olhou para os dois homens na sala, sentindo a hostilidade, e estampou um

sorriso no rosto.

“Estão se divertindo, senhores?”, perguntou ele, e depois olhou para Vukovich. “Eu continuo daqui em

diante, sargento.”

“É todo seu”, disse Vukovich, com desgosto, e saiu da sala.

Traxler estava esperando por ele no corredor.

“Como foi?”, perguntou Traxler.

“Difícil pra caralho.”

“É?”, respondeu Traxler, sem surpresa. Ele colocou outro chiclete na boca e acendeu um Pall Mall.

“Vamos ver o que acontece.”

Eles entraram em uma sala anexa, escura e minúscula feito um armário. No canto, havia um velho

videocassete em um carrinho, ligado a uma câmera apontada para Reese e Silberman através do espelho

falso. Aquilo era usado para gravar confissões e depoimentos, mas com esse tal de Reese provavelmente

seria um desperdício de fita. Os dois detetives pararam diante do espelho e começaram a assistir ao

espetáculo.

Por fora, Reese deu pouca atenção ao homem gordo. Ele deve estar no comando, pensou Reese,

sabendo que nunca se vê de imediato o homem mais importante em uma cadeia hierárquica.

Silberman sentou-se pesadamente na outra cadeira. Ele pegou um maço de Marlboro e bateu a caixinha

ruidosamente na mesa três vezes, que era o sinal para começar a gravar. Vukovich ligou o videocassete.

“Reese, Kyle A.”, ele pensou em voz alta. “Posso chamá-lo de Kyle?”

Reese não respondeu.

“Eu sou o doutor Peter Silberman.” Ele fez uma pausa e em seguida sorriu comiseradamente. “Você teve

uma noite agitada. Quer que eu lhe traga alguma coisa?”

Ele ofereceu um cigarro a Reese, segurando-o na frente dos seus olhos. Nada. Nem mesmo um piscar de

olhos. Interessante, pensou Silberman. Ele desviou o olhar para a ficha.

“Estou vendo que você é militar. Sargento Tec/Com. Número de série DN38416...”

“Não me subestime, imbecil!”, vociferou Reese.

Silberman rapidamente levantou o olhar. Havia muita raiva nos olhos do garoto. Talvez fosse esse o

caminho.

“Ok. Vamos começar de novo. Todas as pessoas aqui parecem pensar que você é louco.”

“Isso é problema delas.”

“Não, seu idiota. Isso é problema seu.”

Reese lançou uma pequena bola de ódio para Silberman. Ótimo, pensou Silberman. “O que você

queria?”, disse ele. “Coloque-se na situação dessas pessoas.”

“Eu não estou na situação delas”, Reese respondeu calmamente. “Estou na minha.”

“Tudo bem”, disse Silberman racionalmente, “convença-me de que elas estão erradas.”

Reese se virou e começou a contar os buracos no azulejo outra vez.

Silberman tentou novamente. Tentaria trabalhar com um pouco da história que aquela menina, Connor,

havia lhe contado; talvez puxá-lo por esse lado.

“Ok”, disse ele, “vamos falar sobre sua missão. Eu diria que você fracassou. Em alguns minutos ela

sairá daqui. Mas você não. Você fica aqui. Você está fora do jogo.” Ele fez uma pausa e olhou para o

rosto soturno que não o olhava de volta. “É melhor você pensar um pouco nisso.”

“Qual o propósito?”, perguntou Reese friamente.

“O propósito, meu amigo, é que você não pode ajudá-la amarrado a uma cadeira.”

Silberman viu que estava tendo sucesso. A chave era trabalhar dentro do contexto do delírio do garoto.

Ele lançou uma expressão de preocupação paternal em seu rosto e se inclinou na direção de Reese.

“Fale comigo”, disse ele. “Talvez eu possa fazê-los tomar as precauções certas. Se você me ajudar, eu

posso te ajudar.”

“Você não pode protegê-la”, anunciou Reese, de forma categórica.

“E você pode?”

O rosto de Reese ficou vermelho ao voltar o olhar para o psicólogo gordo outra vez. Lentamente, a

raiva se transformou em culpa. Reese percebeu que o que o homem dissera era verdade – ele realmente

havia estragado tudo. Silberman continuou a perseguir sua presa como um falcão treinado.

“Se você me esconder alguma coisa, poderá arriscar a única chance dela. Ajude-nos.”

Reese assentiu lentamente. Era lógico que tinha de concordar; se ele conseguisse convencê-los, talvez o

ajudassem a deter o Exterminador.

“Eu vou contar o que posso”, disse ele, resignado.

“Então. Você é um soldado”, disse Silberman com um sorrisinho de vitória. “Lutando por quem?”

“Com o 132º, sob o comando de Perry. De ’21 a ’27.”

Silberman interrompeu. Ele estava ficando animado. Isto era melhor do que ele esperava. “O ano

2027?”, perguntou ele.

Na sala de observação, do outro lado do espelho, Traxler estava absorto em pensamentos, tentando

colocar todas as peças do quebra-cabeça em uma espécie de ordem. Vukovich estava apenas se divertindo; era como se estivesse olhando para o chuveiro das garotas. “O ano 2027?”, eles ouviram o

psicólogo perguntar pelo monitor.

Traxler parou de mastigar seu chiclete e inclinou-se na direção do vidro. “Isso é bom pra caralho!”,

disse Vukovich, rindo.

Reese olhou para o espelho, de onde ele sabia que estava sendo observado, e depois se voltou para

Silberman.

“Sim”, respondeu ele. “Até o fim dos ataques de Oregon e Novo México. Depois fui designado para

Reconhecimento/Segurança, nos últimos dois anos, sob John Connor.”

“E quem era o inimigo?”, perguntou Silberman.

“Skynet. Um sistema de defesa computadorizado. Construído para a Sac-Norad pela Cyberdyne

Systems.”

“Entendo.” Silberman assentiu seriamente, rabiscando anotações. Isso era melhor que ótimo, pensou

ele. Isso era um bilhete premiado.

“Eles mandaram de volta uma unidade de infiltração, um Exterminador, para impedir John Connor”,

explicou Reese.

“De fazer o quê?”, perguntou Silberman.

“De nascer.”

Silberman coçou a bochecha, pensativo. Ele olhou para o relatório e revisou os pedaços fragmentados

da história que Sarah lhe contara.

“E este... computador pensa que pode vencer matando a mãe de seu inimigo. Matando-o, na verdade,

antes mesmo de ser concebido. Uma espécie de aborto retroativo?”

“Sim.”

Atrás do espelho, Vukovich riu baixinho.

“Esse Silberman me mata de rir.” Balançando a cabeça maravilhado, ele se virou pensativo para seu

chefe.

“Ele estava com um cara aqui semana passada que tacou fogo no próprio cachorro. Trepou com o bicho

primeiro, depois ateou...”

“Cala a boca”, resmungou Traxler, desembrulhando um novo chiclete. No outro recinto, Reese

continuou sua história.

“Ele não teve escolha”, ele dizia. “A rede de defesa foi destruída. Nós explodimos os mainframes. Nós

vencemos. Acabar com Connor ali não faria a menor diferença. A Skynet precisava dizimar toda a sua

existência.”

Reese fez uma pausa. Silberman levantou o olhar de suas anotações, alarmado. Não pare, ele suplicou

em silêncio. Mas por fora ele sorriu e gentilmente disse: “Continue”.

“Nós apreendemos o complexo de laboratórios”, prosseguiu Reese com a voz cansada, lembrando-se

dos segundos efêmeros de vitória, “encontramos o – sabe-se lá como se chama – o equipamento de

deslocamento temporal.”

“O Exterminador já havia atravessado. Eles me mandaram para detê-lo e depois detonaram o complexo

todo.”

“E como você vai voltar?”

“Não posso voltar”, respondeu Reese com uma intensidade calma. “Ninguém volta pra casa. Ninguém

mais atravessa. Somos só eu e ele.”