O Exterminador do Futuro
Centro de Los Angeles 4:12 a.m.
■ CENTRO DE LOS ANGELES
4:12 A.M.
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Vinte e quatro minutos depois, na progressão linear de tempo como conhecemos e a quase oito
quilômetros de distância, o ar ficou com aquela carga de eletricidade outra vez.
Aconteceu em um beco fétido, atrás da Broadway com a Seventh Street, e os primeiros habitantes a
perceberem foram os ratos. Eles pararam sua incessante patrulha das pilhas e latas de lixo para farejar o
ar com incerteza. Podiam sentir alguma coisa no limiar da percepção, uma tensão, uma urgência no ar.
Relutantemente, abandonaram suas incursões e correram para se esconder assim que uma luz fraca e
sobrenatural iluminou o beco como o luar no fundo do mar.
Na disputa pela fuga, um dos roedores passou ruidosamente sobre o papelão molhado sob o qual
Benjamin Schantz se encolhia em um torpor alcoólico. Ele xingou e bateu desastradamente nele, depois
se abraçou e se acalmou novamente em seus resmungos inaudíveis.
Através de uma fresta entre os prédios, era possível ver um pedaço dos etéreos cilindros cromados do
Hotel Bonaventure. Parecia uma visão de um mundo utópico e de um tempo inconcebivelmente distante
do seu, embora a distância fosse menos de quatro quarteirões.
Nos raros momentos de lucidez, Ben refletia sobre o funcionamento do fliperama do destino, que o
empurrava pela vida como mendigo através desse purgatório de decadência urbana enquanto seu melhor
amigo do colégio havia se tornado presidente de um grande estúdio de cinema.
No entanto, este não era um dos momentos de lucidez. Na verdade, o vento que vinha do nada e o
zumbido opressivo já estavam aumentando havia algum tempo quando ele os percebeu. O brilho roxo se
intensificou em um brilho de holofote conforme o vento lançava pelo ar pedaços de papel e de coisas que
um dia estiveram inteiras. O chiado se tornou a estática de um grande rádio transistorizado procurando
freneticamente uma estação. O vendaval de papéis, caixas e dejetos rodopiou em uma tempestade.
O abrigo de papelão de Schantz foi levado embora. Ele se encolheu, apertando os olhos em direção ao
brilho, tapando os ouvidos. Feixes roxos da cadeia de raios começaram a dançar em volta das paredes de
tijolinho molhadas, chiando, crepitando, procurando qualquer coisa metálica para em seguida rastejar
sobre ela como uma coisa viva.
Eles lamberam as escadas de incêndio enferrujadas, correram para cima e para baixo ao longo dos
canos de escoamento, ondulando como fogo de santelmo. A estática aumentou de tom, chegando a um
gemido penetrante. Janelas explodiram para dentro, espalhando vidro no interior dos prédios escuros.
Um alarme de roubo acrescentou seu som estridente ao barulho.
Ben já vira coisas bem estranhas, mas nada parecido com isso. Houve uma explosão de luz e som no
meio do ar – um clarão rápido e uma trovoada acompanhada de uma onda de ar implodido.
Quando Kyle Reese atravessou a explosão, ele estava no alto e fora do centro. Seu corpo se estabilizou
nesta dimensão de tempo uns dois metros acima do solo. Ele ficou ali pendurado por um microssegundo;
em seguida, a gravidade chegou e o atirou no chão do beco com uma pancada alta e dura.
Ele ficou lá caído, nu e tremendo, os olhos bem fechados contra a luz ofuscante, os punhos cerrados
contra o peito, joelhos levantados como um feto gigante. Espasmos sacudiam cada músculo de seu corpo.
Após a explosão, a parede sonora cessou, deixando apenas o farfalhar de papéis se acomodando
novamente no chão.
O odor repugnante de cabelo queimado encheu as narinas de Reese, sufocando-o. A dor disparava
através de cada fibra de seu corpo. Eles não haviam lhe contado que seria assim, pensou. Talvez não
soubessem. Mas ai, porra... como doía.
Ele foi devagar, reunindo seus recursos, puxando aos poucos o ar cheio de ozônio até conseguir
respirar de verdade. A sensação de alguém ter chutado suas bolas até a cavidade do peito foi diminuindo.
Um pouco. Ele abriu os olhos e viu fantasmas; imagens residuais de visões que puxavam sua sanidade
como uma bala de caramelo.
As sensações estavam desparecendo. A memória não armazenava aquele tipo de intensidade – o croma
elevado. Qual foi a sensação? Foi como cair de um elevador com um cabo de alta tensão amarrado ao
seu saco, acendendo você como uma lâmpada de mil watts, enfiando explosivos goela abaixo até os
pulmões.
Reese deixou a sensação da chuva que escorria em suas costas ajudá-lo a se concentrar. Ele arrastou os
joelhos por baixo de si, firmando ambas as mãos no chão, e ficou daquele jeito, como um pedinte
curvado, até a calçada parar os movimentos vertiginosos. Ele sentiu pedregulhos afiados entre as palmas
de suas mãos e o asfalto. Onde quer que ele estivesse, era real. Sólido. Nada a ver com aquele turbilhão
do além que ele acabara de atravessar.
Reese olhou rapidamente para cima e percebeu dois olhos espiando de uma pilha de restos de papelão.
Era Schantz, com seu rosto escuro de sujeira e barba espigada transformando-o no conteúdo e textura do
beco, exceto pelos olhos, que piscavam sem compreender.
Reese não viu nenhuma ameaça imediata no homem, reconhecendo-o instintivamente pelo que ele era:
um mendigo inofensivo. Por ora, ele podia ser ignorado.
Ok, hora de se mexer, Reese, ele pensou. Levanta esse rabo e fica de pé, soldado. Vamos lá. Em um
ato de coragem suprema, ele se levantou e cambaleou até o corrimão de uma escada, dissolvendo-se na
segurança das sombras. Apenas minutos haviam se passado desde sua chegada, ele sabia; ainda assim,
ele se atormentou por ter ficado deitado ali, exposto e desamparado, por tanto tempo. Ele analisou os
arredores. Prédios. De tijolos ou concreto. Janelas de vidro. Intactas. Luzes elétricas. Movimento no fim
do beco, luzes brancas e vermelhas passando – automóveis. Definitivamente pré-guerra. Ótimo.
Ele esfregou o braço inconscientemente – um arranhão sangrento onde ele caiu. Os técnicos o enviaram
alto demais. Com tão pouco tempo para se familiarizarem com o equipamento de deslocamento e sua calibração, eles devem ter errado no quesito segurança. Mas ainda era melhor do que se materializar
enterrado na calçada até os joelhos. Certo.
Ao olhar para baixo, Reese percebeu que estava coberto com uma camada de cinzas brancas e fina,
embora uma parte tenha sido lavada pela chuva. Ele passou a mão sobre ela e percebeu que era o resíduo
carbonizado da gelatina de condução que os técnicos passaram em seu corpo.
Ele não questionou nada. Eles mandaram tirar a roupa; ele tirou. Você irá sozinho, eles disseram. Tudo
bem. Nenhuma arma? Não. Merda. Os metais não se deslocam. Foda-se. Ok, ele não era técnico. Apenas
um soldado. Entretanto, ele gostaria de ter tido permissão para levar alguma coisa consigo. Seus dedos
inconscientemente apertaram o formato memorizado do cabo de seu fuzil de plasma Westinghouse M-25.
Ele olhou para cima. Nada além do céu acima dos edifícios altos. Nada de caçadores-assassinos, é
claro. Não na pré-guerra. Olhar, no entanto, era um reflexo, um reflexo que o salvara mais de uma vez.
Mas já não havia algo como os aéreos Mark Seven? Helicópteros? É, acho que sim. Só não tinha certeza.
A história era um borrão para ele. Quando cada coisa foi inventada? Quem poderia saber ao certo? O
pré-guerra era um quebra-cabeça jogado no chão e ele sempre vivera no meio das peças. As peças
chamuscadas.
Ele percebeu com um salto o quanto estava atordoado, para ficar parado pensando no mesmo lugar por
tantos segundos. Ele se forçou a pensar com clareza. Estrategicamente.
Primeiro, roupas. Para se aquecer e para se camuflar.
Segundo, armas. Terceiro...
“Ei, amigo...” As palavras eram um resmungo enrolado, mas Reese se virou, lembrando-se do velho
mendigo.
“Maior tempestade de merda aqui um minuto atrás”, arriscou Schantz. Reese identificou o idioma como
inglês, provavelmente norte-americano, embora as inflexões não fossem familiares. Boa notícia.
Ele disparou até onde o sem-teto estava, esparramado em frente a uma entrada.
“Tira a roupa”, disse Reese, já puxando a jaqueta do velho.
“Hein?”
“Anda logo”, chiou Reese, “agora.” Ele fechou um punho para agilizar a cooperação, mas o velho
percebeu a intensidade na voz de Reese e começou a obedecer.
“Não me bate... não me bate”, choramingou Schantz, sentindo novamente o estupor enquanto seus dedos
sujos se embananavam com a complexidade incontestável de seu zíper.
Reese puxou as calças imundas rapidamente, tirando-as das pernas finas de Schantz. Elas fediam a
urina e sujeira endurecida. Reese mal notou; nem sequer se importou.
Para Schantz, Reese era uma figura que entrava e saía de foco. Ele parecia ser um homem jovem, talvez
25 anos, no máximo, mas havia alguma coisa nele que parecia mais velha. Os olhos – é isso. Olhos de
velho. Viram coisas demais, disse um pensamento especialmente coerente de Schantz, como eu.
Mas não exatamente como Schantz. Algo no olhar de Reese dava um arrepio na barriga do velho. Ele
ficou quieto e esperou sobreviver.
Reese estava vestindo a calça e já ia pegar a jaqueta quando, no limiar de sua consciência, percebeu
problemas. Seus sentidos haviam sido finamente aguçados por anos se escondendo, escutando,
aguardando e observando, absorvendo todos os pequenos sinais e sons que lhe diziam que a morte está na
vizinhança, querendo aparecer de surpresa para sufocar com um beijo de despedida molhado e frio.
Reese girou e se agachou, com os olhos instintivamente focados na rua ao final do beco.
Uma brilhante luz branca foi em sua direção, percorrendo as paredes e em seguida o capturando em seu
feixe como um inseto. Por uma fração de segundo, Reese olhou fixamente para ela, através dela, passando
por ela, até sua origem: um carro de patrulha preto e branco do Departamento de Polícia de Los Angeles
(LAPD, na sigla em inglês), com um holofote instalado na janela e dois homens sentados dentro dele. Reese
soube no mesmo instante o que eles eram. Policiais. Hostis. Se tivesse mais tempo, se amaldiçoaria
novamente por sua lentidão; no lugar de onde veio ele já estaria morto.
Reese estava no automático agora e as decisões vinham em flashes instantâneos. Precisava do que eles
tinham – transporte, armas, rádio –, mas os homens estavam armados e ele não. Não havia possibilidade
de briga.
Evacuar. Ele se virou para longe do raio e dissolveu-se nas sombras.
Evacuar. Evacuar. As palavras ecoaram insistentemente na cabeça de Reese. Quantas vezes já as
ouvira? Mil, talvez? Em quantas vozes? E enquanto esbarrava nos feridos e se virava para fugir, as
palavras surgiam sempre acompanhadas de outros sons atrás de você, sons que se aproximavam para
matar. Desta vez ele ouviu o ruído dos pneus quando o carro preto e branco parou. Reese estava na
metade do caminho do outro lado do beco quando o som enfraqueceu e sumiu.
O sargento Michael Nydefer apontou, em vão, o holofote ao longo do beco, tentando encontrar o jovem
que avistara um segundo atrás. Nossa, esse garoto é rápido, pensou ele.
“Ele está fugindo”, disse Nydefer. “Dê a volta. O beco sai na Seventh.” Seu parceiro recruta, Lewis,
assentiu e engatou a ré. Quando Nydefer saltou, puxando seu calibre 38, a viatura já estava saindo, com a
sirene ligada, um show de luzes azuis e vermelhas.
Nydefer avistou Reese passando por um facho de luz, indo em direção a uma junção onde os becos se
encontravam. Respirou fundo e correu atrás dele.
Reese ouvira o som da viatura sair em disparada e um único par de pés andando em sua direção. Sabia
o que estavam tentando fazer. Ele teve sorte. Apenas um deles corria na sua cola. Um era melhor. Podia
derrubá-lo e conseguir uma arma. Ele se concentrou naquele único objetivo, ignorando o restante. Havia
cacos de vidro espalhados por todo o chão do beco. Ele sentiu dor quando alguns pedaços cortaram seus
pés descalços. Reese rejeitou a dor, enviando-a para longe de sua consciência. O esforço o ajudou a
clarear as ideias.
Uma pilha de lixeiras caídas apareceu, bloqueando seu caminho. Reese as atravessou e continuou a
correr sem diminuir o ritmo, como um rato em um labirinto urbano.
Reese virou uma esquina e desapareceu.
Nydefer instintivamente diminuiu o passo. Quinze anos de café ruim, Taco Bell e cigarros fizeram seus
pulmões chiarem. Mas não era por isso que ele estava mais lento agora. Foi o medo que tomou essa decisão.
O policial balbuciou um xingamento. Ele deixou o suspeito escapar de sua vista. Agora seria mais
perigoso. Filho da puta. Seu estômago se revirava. Eles não te pagam o bastante pra isso. De jeito
nenhum. Ele engatilhou o revólver, foi para o centro do beco e andou lentamente até o cruzamento.
Nydefer olhou para o beco lateral, com uma das mãos segurando a arma diante de si como um escudo e
a outra inconscientemente cobrindo sua barriga. Ele não viu ninguém. Cuidadosamente, começou a andar
pelo corredor quase preto, parando ao se deparar com duas grandes caçambas de lixo. Elas estavam
cheias, até a boca, de papelão achatado e caixas de madeira. Não havia espaço ali. Mas havia espaço
entre elas. Espaço suficiente para uma pessoa.
Ele pôs novamente as duas mãos na arma e a ergueu na altura do peito. Ele olhou dentro do espaço
atentamente. Nada. Apenas algumas ripas de madeira jogadas a esmo.
Mas Reese estava ali, esperando. Nydefer estava olhando bem para ele, mas não viu nada. Apenas a
parede e as tábuas. Reese observava o revólver de Nydefer como um morto de fome observa comida. Era
de um modelo antigo, mas em ótimo estado, provavelmente novo, e Reese o reconheceu imediatamente:
Smith & Wesson especial da polícia, calibre 38 super. Na verdade, já disparara com um modelo daqueles
várias vezes. O recuo era leve e ele era preciso. Não era uma arma séria como a Magnum calibre 44.
Mas ele já teve de usar armas piores antes.
Em seguida, Reese concentrou sua atenção no homem à sua frente: de meia-idade, barrigudo, sem
fôlego e com medo. Reese não podia pedir mais.
Ele saiu voando da escuridão como um sussurro em alta velocidade, com o peso total de cada grama
sólido de matéria de seu corpo focado em um ponto no alto de seu ombro. Mirou naquele ponto do centro
das costas de Nydefer e foi de encontro a ele como um trem de carga. A mão direita de Reese agarrou o
pulso que segurava o revólver e, enquanto Nydefer começava a cair, houve um estrondo ensurdecedor e o
brilho que saiu da boca da arma. Girando com força, Reese conseguiu apanhar o revólver. Com a outra
mão, apoiou-se no chão, parou de rolar e ficou de pé.
Puxando o policial aturdido para cima e jogando-o contra a parede do beco, Reese deu um passo para
trás, ergueu a arma, engatilhou e apontou diretamente para o rosto do homem.
Nydefer olhou além do cano de seu revólver de serviço para os olhos do mais velho garoto que já vira.
Os olhos eram diretos também. Não havia raiva. Apenas intensidade. Era assustador.
Reese tinha mil perguntas que precisavam de resposta: sua localização exata, a localização do alvo, a
quantidade e o estado dos veículos na região. Questões intermináveis. Ele viu “Departamento de Polícia
de Los Angeles” escrito no distintivo de Nydefer e soube que estava na cidade certa. Mas havia uma
pergunta cuja resposta podia tornar todas as outras irrelevantes e Reese sabia que tinha muito pouco
tempo antes de o outro oficial de polícia chegar cantando pneu do outro lado do beco.
“Que horas são?”, gritou Reese.
“Por volta de quatro e meia... da manhã.”
“De que dia?”
“Sexta”, respondeu Nydefer, esperando que de algum modo aquilo acalmasse o maluco. Não acalmou.
Impacientemente, Reese ralhou com ele: “A data!”
Nydefer ficou um pouco confuso. Ele gaguejou: “É dia nove... Nove de março”. Reese olhou ferozmente
para ele e fez a pergunta de um milhão de dólares:
“De que ano?”
Nydefer sentiu o pavor subir do centro de sua barriga e martelar as beiradas de seu cérebro. Ele quer
saber em que anos estamos? Isso é tudo que eu vou ver, pensou ele. O rosto desse garoto insano. Puta
que pariu! Nydefer fechou os olhos e esperou pela bala.
O uivo dos freios sobre o chão molhado ecoou pelas paredes dos prédios. Reese se virou e viu as luzes
piscantes azuis e vermelhas da viatura parando na boca do beco. Lewis saltou de arma em punho. Reese
virou-se para o outro lado e começou a correr em direção à saída da rua, do outro lado, quando viu outra
viatura iluminada parar à sua frente.
Ele estava cercado. Fechado. Ferrado.
Reese analisou o terreno com precisão extremamente rápida. A porta de aço com cadeado estava
apenas a alguns metros de distância. Ele foi para cima dela, concentrado como um aríete, focado no ponto
logo atrás do cadeado. A força do impacto quase o deixou sem ar, mas a porta cedeu e se abriu para a
escuridão atrás dela.
Seus olhos fizeram força para se ajustarem à nova escuridão. Sob seus pés descalços, sentiu a
superfície lisa e fria de um chão azulejado. Ele foi em frente, atravessando os corredores labirínticos e
derrubando pilhas altas de caixas até que, mais à frente, avistou uma fresta horizontal de luz fraca que
indicava uma porta. Ele a atingiu em alta velocidade, abrindo-a com uma pancada.
Reese se viu em um amplo salão rajado de luzes e sombras, correndo através de um emaranhado de
canais abertos entre ilhas de mesas e prateleiras. Ele estava tentando entender o terreno, desejando que
seus olhos se acostumassem logo à escuridão.
O ar tinha um cheiro familiar. Antisséptico. Filtrado. Como o ar que ele havia respirado em bunkers
subterrâneos, um segundo antes de sua equipe de sapadores atear fogo neles. Ele não gostava nem um
pouco daquele cheiro. Seus ouvidos captaram o ruído distante e indefinido dos dutos de ar-condicionado
que circulavam pelo prédio e então, atrás dele, perto da porta que atravessara, o eco agudo e
inconfundível dos passos pesados lhe dizia que não estava mais sozinho no interior escuro.
Reese continuou a correr, mais rápido, quase voando pelo espaço preto ao seu redor, navegando por
instinto, com o som de seus próprios movimentos ecoando e voltando para ele.
Aí sua visão voltou à forma. À frente de Reese havia fileiras e mais fileiras de tesouros fantásticos.
Roupas, móveis, ferramentas. Mesmo enxergando parcialmente, no escuro, era incrível. Uma quantidade
absurda de produtos brilhantes e multicoloridos.
Ele estava em uma loja de departamentos.
Reese saiu rapidamente do corredor para a sombra de uma arara de casacos compridos, prendeu a
respiração e ligou seu radar. Por cima do estrondo do sangue pulsando em seus ouvidos, ele localizou o
som da ameaça. Três deles. Separados. Movendo-se lentamente em sua direção.
Em quadrantes, Reese analisou o salão, procurando uma rota de evacuação. A parede a nordeste era de
placas de vidro. Intactas. Viradas para a rua. Atrás dela, um carro da polícia rondou vagarosamente por
ali e depois sumiu.
Camuflagem. Em silêncio, Reese esticou o braço para a arara acima dele e puxou um dos casacos de
chuva, vestindo-o e percebendo somente naquele momento que estava com frio. Os passos estavam aos
poucos convergindo na direção dele. Um feixe iluminado da lanterna que sondava bateu no assoalho no
corredor ao lado. Vai, vai, vai.
Quieto como uma nuvem de fumaça, Reese deixou a sombra da arara e correu abaixado, como um
caranguejo, pelas beiradas do corredor em direção à vitrine de placas de vidro. Um mostruário a
ocupava, com manequins bem-vestidos virados para a rua com o olhar vazio. Reese passou entre eles,
observando o vidro, procurando uma saída. Ele olhou para cima. Uma faixa de papel estava pendurada
sobre o mostruário. “O LOOK DE 1984.” Perfeito. Ele estava no alvo certo.
De repente, o arco ofuscante de um holofote de polícia percorreu o vidro. Reese ficou paralisado. Isso
não é nada bom, pensou, recuando na direção do centro do prédio. Era possível ouvir vozes abafadas e
passos cuidadosos à sua volta agora. Ele estava passando por uma mesa com sapatos de couro e lona
quando parou com um deslize. Verifique. Movimento? Nenhum. Vazio. Onde vocês estão, seus putos?,
ele se perguntou. Silêncio. Bom, pensou Reese, e pegou um par de sapatos da mesa, comparando-os à
sola de seu pé. Pequenos demais. Outro par. Quase isso. Bom o bastante.
Reese atirou-se corredor abaixo. À frente, mais lanternas aproximavam-se. Ele fez o reconhecimento
das imediações. Aonde ir? Uma cabine de metal, com as cortinas abertas, estava no escuro a alguns
metros dali. As palavras “Fotos para Passaporte” estavam pintadas na lateral. Reese entrou agachado,
fechou a cortina, sentou-se em um banquinho e rapidamente colocou os sapatos.
Todo soldado de infantaria desde os primórdios da história sabe que um bom par de botas é tão
essencial para a sobrevivência quanto as melhores armas. Reese amarrou os sapatos e sentiu como eles
ficaram. Pareciam leves e frágeis, com uma sola fina, o que seria ruim para terrenos irregulares, mas
eram bem-feitos e couberam de forma razoável. A palavra “Nike” estava costurada na lateral. Lembrava
“nuke”, um tipo obsoleto de míssil, até onde sabia.
Por baixo da cortina, um feixe de luz apareceu subitamente, percorreu os arredores e depois se retirou.
Houve uma pausa. Mais sussurros. Reese ficou tenso. As vozes, no entanto, foram enfraquecendo aos
poucos. Reese soltou a respiração e saiu silenciosamente da cabine.
Uma escada rolante estava parada, impassível, na escuridão. Seu mecanismo havia sido desligado
horas antes, o que a reduziu a um lance de degraus metálicos. Reese subiu dois degraus por vez, voando
até o segundo andar. Objetos para a casa. E lingeries para mulheres.
Na parede a sudoeste, Reese encontrou o que estava procurando. Uma saída de incêndio. A porta de
metal liso estava fechada. Um fio descia por sua extremidade, formando um circuito rudimentar de
alarme, e uma placa, pintada em uma barra que percorria a largura da porta, alertava que ela só poderia
ser usada em caso de emergência. Não brinca. Reese apertou a barra e a porta se abriu. Não houve som.
O alarme devia ser silencioso ou ter se queimado pela carga do deslocamento de tempo.
Ele estacou, em silêncio, na grade aberta da saída de incêndio e examinou o beco lá embaixo. Uma
viatura do LAPD estava estacionada bem abaixo dele, com as luzes piscando, vazia.
Reese saltou para o asfalto como um gato e se agachou ao lado da porta do veículo. Rua vazia.
Movimento virando a esquina. Ele tentou a porta. Destrancada. Incrível. Eles deviam estar com muita
pressa, pensou Reese. Ele a abriu e pôs a mão na ignição. Sem chave. Precisava de transporte. Ele
pensou em fazer ligação direta. Foda-se. É bandeira demais. Ele dispensou o veículo e se concentrou no
que estava lá dentro.
Dentro de seu coldre, apoiada no painel, estava uma escopeta Remington 870 novinha de fábrica. Reese
ficou de boca aberta. Ele já vira e carregara várias armas dessas, mas eram peças surradas de museu. A
que encontrou na viatura, como a maioria das maravilhas ao seu redor, parecia nova.
Ele a apanhou e colocou dentro de seu casaco. Segurando-a ali, sob o braço, ficava invisível e não se
molharia. Seria sua amiga.
Em seguida, Reese se virou e se afastou rapidamente do carro. Após dobrar a esquina da rua, ele andou
sem pressa pela calçada. Três minutos e meio atrás ele estava tão nu quanto um recém-nascido. Agora
tinha uma arma, roupas e se misturara à população. Precisaria de dinheiro, mantimentos e transporte. Mas
havia bastante tempo para isso.
Caramba, ele estava aqui. Ele conseguiu. Uma onda de adrenalina tomou conta dele. Reese estava quase
bobo com o prazer intenso de estar vivo, sobrevivendo. Ele olhou para cima, piscando com a chuva que
caía em seus olhos, e examinou a paisagem milagrosa que o rodeava. Estava parado na esquina da Sixth
com a Olive. Do outro lado da rua estava a praça Pershing. Ele percebeu que havia nascido a menos de
dois quilômetros dali. Até brincara ali quando criança. Mas ela nunca foi desse jeito. Prédios de cinco e
seis andares cercavam o pequeno parque. E as luzes. Por toda parte havia luzes acima dele. Reese parou
na sombra de uma entrada, impressionado pela cena maravilhosa.
Quanto tempo atrás foi isso? Reese se perguntou, a apenas minutos de distância de onde estava, quando
passou correndo por aquele corredor de aço com o resto de seu esquadrão de sapadores.
Explosões ensurdecedoras ecoavam atrás dele, destruindo o corredor e seus equipamentos. Seu grupo
estava liquidando o local. Incendiando-o. Matando-o. A sensação de vitória estava no ar como uma
corrente elétrica atravessando os membros da equipe.
E então isto.
Aquilo não parecia incomodar John. Nada incomodava. Isso fazia parte do que o tornou o que ele era.
Ele correu ao lado de Reese, com a mão apertando o ombro do jovem de maneira tranquilizante, gritando
instruções curtas em seu ouvido. Foi decisão de John que Reese deveria ser o escolhido.
Em seguida, ele estava com um grupo de técnicos fazendo calibrações de última hora em uma enorme
quantidade de equipamentos. Reese rapidamente tirou seu uniforme e entregou seu fuzil de pulsos para um
de seus colegas. Os técnicos se amontoavam sobre ele como formigas, fazendo bioleituras, injetando
substâncias químicas em seu organismo. John deu um passo para trás, fixando silenciosamente o olhar
sobre Reese.
As coisas agora estavam acontecendo muito rápidas. Os técnicos o jatearam da cabeça aos pés com
uma gelatina supercondutora grossa e azulada. Seu mau cheiro sufocou Reese. Em seguida, os técnicos o
conduziram a uma pequena câmara e se afastaram. Os olhares de Reese e John se encontraram. Havia
algo incomum no rosto de John. Uma expressão que Reese só vira antes uma vez, havia alguns anos,
quando John o tirou do 132º e o colocou em sua equipe pessoal de Reconhecimento/Segurança.
Reese olhou para os rostos das pessoas à sua volta. Seu povo. Depois houve um clarão horrível e
interminável de luz e dor. E depois o chão do beco.
Agora estava olhando para a praça Pershing, na chuva, e se sentia sozinho como nunca antes na vida.
Era solidão ou euforia. O lugar. Era o mesmo lugar, mas tão diferente. Ele sabia que teria tal aparência.
Mas não sabia que sentiria tal sensação.
Não pense, sua mente ordenou. Não sinta este lugar. Reese desligou todas as sensações, colocou em
um quartinho e trancou a porta.
A missão era tudo. A missão era só o que importava.
Reese andou diretamente para uma cabine telefônica, a um quarteirão e meio de distância, e levantou o
pesado catálogo sobre a estreita prateleira de metal. Ele abriu na seção da letra C e começou a analisar
as páginas. Segundos depois, seu dedo parou ao lado de um nome: Sarah J. Connor.