O Exterminador do Futuro
Hotel Panamá 1:09 a.m.
■ HOTEL PANAMÁ
1:09 A.M.
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Como uma sombra entre as sombras, o Exterminador subiu com passos lentos e pacientes pela saída de
incêndio até sua janela no segundo andar. Ele evitou usar seu punho direito debilitado até determinar a
extensão total do dano que sofreu no combate inicial.
O ciborgue levara quase uma hora do local do acidente até chegar ao seu quarto de hotel.
Ele se locomoveu a pé pelos primeiros três quilômetros, permitindo que os sistemas ficassem
completamente conectados para poder avaliar suas condições. Além do punho, houve oclusão visual
quase total do olho esquerdo. O olho propriamente dito parecia estar funcionando adequadamente. Era o
tecido em volta que estava prejudicando o desempenho.
O Exterminador abriu a janela do quarto do hotel e entrou.
Ele examinou rapidamente o breu do interior. Nada havia sido tocado. Nenhum intruso. Com um só
passo, ele atravessou o minúsculo aposento e acendeu a única lâmpada acima da pia encardida. Com a
luz acesa, ele olhou para si mesmo.
As sobrancelhas haviam sumido, completamente chamuscadas. O que restou do cabelo era pouco mais
do que uma penugem carbonizada. A órbita em torno do olho esquerdo era uma polpa vermelha de fiapos
de carne grudados aleatoriamente. Cacos de vidro estavam incrustados por toda parte. Sete ferimentos de
bala e lacerações cobriam os ombros, tórax e braços, crateras cheias de sangue coagulado e fragmentos
de chumbo calibre 12. Leituras do estado interno indicavam que o dano à estrutura por baixo era
superficial.
O único problema real era o punho. Um tiro de escopeta havia atravessado a camada externa de pele e
perfurado o sistema de controle servoacionado embaixo dela.
Cuidadosamente, ele espalhou suas ferramentas em uma mesa dobrável perto da pia. Os restos
queimados da jaqueta foram rapidamente retirados e jogados em um canto. O Exterminador se sentou e
cautelosamente pôs o braço danificado sobre a mesa.
O braço parecia mal. Muito pior do que realmente estava. Sangue jorrava por cima e em volta dos
restos de pele esburacada que cobriam o ferimento.
O Exterminador não demonstrou qualquer reação. O termo dor era irrelevante. Apenas a diminuição
funcional da eficiência de combate lhe interessava. Com uma expressão de leve concentração, ele pegou
um estilete e tranquilamente fez uma incisão de quinze centímetros ao longo do interior do antebraço.
Atou os retalhos de pele com pinças hemostáticas e olhou para a cavidade exposta.
Ao mexer os dedos, ele podia ver o problema com clareza. Um dos cabos de controle havia se rompido
no complexo emaranhado de mecanismos e sistemas hidráulicos.
O ciborgue enxugou o sangue e, usando seu olho bom, começou a desmontar pacientemente a parte
danificada com uma chave de fenda de joalheiro. Se o Exterminador fosse programado para cantarolar, a
imagem estaria completa.
Em alguns instantes, o cabo foi desconsiderado e a função atribuída a um sistema hidráulico redundante.
A incisão, então, foi costurada para impedir que a pele do antebraço ficasse se deslocando de maneira
grosseira. Isso levaria a uma necrose prematura do tecido, gangrena e a um índice inaceitável de atenção
social.
De pé, acima da pia suja, o Exterminador examinou o olho lacerado. A lente estava boa. A diminuição
da visão se devia à pele esfarrapada em volta. Desobstruí-la não levaria muito tempo.
O estilete se enfiou na órbita ensanguentada e em alguns cortes suaves retirou a esclera destruída e a
córnea. Com um pequeno estalo, ela caiu na bacia da pia e lentamente boiou na água até o fundo,
deixando um rastro rosado.
O Exterminador mexeu na órbita ocular, absorvendo o excesso de sangue. A esfera de liga metálica
ficou claramente visível, suspensa dentro da órbita de metal por minúsculos servomotores, com seu tubo
de vídeo de alta resolução brilhando atrás da lente à prova de choque. Tudo funcionava de forma
aceitável. No entanto, não havia como explicar facilmente aquela aparência radical. Em todo caso, o
Exterminador não era muito de conversa.
Ele pegou um par de óculos de sol da pequena pilha de roupas e equipamentos que havia coletado e os
colocou. Seu olho quase não era visível por baixo das lentes escuras, que tinham um design curvado e
escondiam os estragos até mesmo de lado.
O Exterminador se pôs a trabalhar nos ferimentos do peito e do abdome, puxando o tecido ventilado
por cima da carapaça dentada de sua estrutura torácica de hiperliga, fechando-a e em seguida suturando
grosseiramente com linha doméstica. Foi preciso cavar um pouco nos interstícios do conjunto do ombro,
entre o encaixe do motor de acionamento axial e a conexão clavicular. Ele retirou a maior parte dos
fragmentos de chumbo que impediam o movimento na região. O tecido muscular estava partido e solto,
mas, já que era apenas uma camuflagem superficial e não era responsável pela locomoção, o
Exterminador o enfiou de volta na ferida e a costurou, sem se preocupar muito com destreza cirúrgica.
Com uma nova camiseta, um par de luvas de couro e a gola da jaqueta de couro preto levantada, o
ciborgue parecia quase normal, embora um pouco pálido e lúgubre.
Começando com a letra A, o Exterminador discou rapidamente para todas as delegacias de Los Angeles
até chegar à Divisão de Rampart.
Agora era hora de sair. O alvo estava esperando. O Exterminador virou no chão o colchão manchado e
pegou as ferramentas necessárias para completar a missão – a escopeta automática SPAS-12, um fuzil de
assalto AR-180 de 5,56 mm, com a trava lixada para ficar totalmente automática, e um .38 Special. Só o
essencial.
Com a elegância da precisão servomotora, o Exterminador juntou as armas e desapareceu pela janela
na noite de Los Angeles.