O Exterminador do Futuro
Century City 5:41 p.m.
■ CENTURY CITY
5:41 P.M.
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O sistema nervoso de Reese começou a jorrar suor conforme homens e mulheres limpinhos, com os
cabelos perfeitamente arrumados com spray e trajando roupas impecáveis e passadas com esmero,
começaram a se aglomerar à sua volta na esquina da Pico com a Doheny, esperando o sinal abrir.
As pessoas pareciam uma raça alienígena. Ele não esperava isso. Elas lhe metiam um medo ansioso que
o fazia ficar agitado e de antena ligada. Após seis horas, ele ainda não estava acostumado a elas. Mas por
fora Reese fazia o número da estátua, ficando imóvel, como um Buda favelado, levando em uma mão uma
sacola marrom de compras enquanto a outra segurava o cabo da arma .38 no bolso de seu casaco,
tranquilizando-o. Todos os olhos ao seu redor estavam grudados à luz vermelha, a vinte metros dali.
Reese deu uma fungada no cheiro que eles soltavam no ar – aquele cheiro terrível novamente, aquela
mentira química agridoce dos perfumes. Ele ainda não havia encontrado o aroma reconfortante e pungente
de um ser humano.
Finalmente, o sinal do outro lado da rua ficou verde, o trânsito mudou de direção e o grupo de pessoas,
em suas camuflagens da Calvin Klein, avançou pela faixa de pedestres. Reese ficou para trás, deixando-
os passar, mantendo-os à sua frente, contra o vento.
Ele chegou à esquina sudoeste da Doheny, agora sozinho, e examinou os carros estacionados na rua. O
dia todo ele estivera à procura de um que se adequasse ao perfil da missão. Ele estava atrás de
desempenho, não de forma. Precisava ser pesado, com chassi grande para atravessar fogo, e ter um motor
de bom tamanho, a fim de suportar algo tão grande rapidamente. E também precisava ser discreto.
Sua busca havia se restringido às ruas menores e estacionamentos. As concessionárias não lhe serviam
de nada; ele iria “comprar” seu carro com um cabide. Por duas vezes ele chegou perto; o tipo certo de
veículo, em área segura, longe de civis.
Ele estava quase pegando um Cadillac sujo de lama na Spaulding quando os filhos do dono chegaram
do colégio. Uma hora depois, nas entranhas de uma garagem de concreto, embaixo de um prédio
envidraçado de escritórios, ele chegou a entrar em um Chrysler azul-claro e já começava a procurar a
fiação sob o painel quando um alarme, ajustado em um volume enlouquecedor, passou a gritar com ele.
Reese passou cerca de cinco segundos tentando encontrá-lo, mas não conseguiu e decidiu bater em
retirada. Máquinas escrotas. Odiava perder para elas.
O sol estava quase se pondo quando Reese terminou de vasculhar o quarteirão que ia da Pico até a
Alcott. O efeito das anfetaminas dos técnicos já havia passado horas atrás, deixando em seu rastro uma
ponta de cansaço.
Mexa-se, soldado, ele ordenou a si mesmo. Vasculhe a área. Mantenha-se ocupado. Seus olhos
estavam sondando quadrantes polares, começando por trás. L: rua pavimentada, sem veículos em
movimento. SE a SO: estruturas de dois andares, provavelmente apartamentos, sem movimento detectável
do lado de dentro ou de fora. N: mais ruas, nada em movimento. NO a NE: canteiro de obras. Talvez 20 mil
metros quadrados. Com grades de arame. Dois tratores, uma grua e uma equipe de seis pessoas em
terreno aberto a setenta e cinco ou oitenta metros de distância...
De repente, os pelos de Reese se arrepiaram. Ele ficou paralisado. Suas mãos suavam – havia um gosto
ruim em sua memória. Alarmes silenciosos soaram em sua cabeça. Alguma coisa no entorno. Mas o quê?
Havia medo ali... e... é, mas havia mais. Merda. O que era? Fragmentos de imagens surreais, de corpos e
fogo-fátuo, piscaram freneticamente diante de seus olhos, tentando se sobrepor à paisagem à sua frente.
Reese respirou fundo e ordenou que sua mente se acalmasse. Pense. Nada lhe ocorria. Talvez eu esteja
entrando em Delta Eco, pensou ele.
E então ele se lembrou.
Reese não se mexeu por um segundo. Depois ajustou calmamente a alça da escopeta pendurada debaixo
do casaco, passou a sacola de compras para a outra mão e continuou a andar pela calçada, desejando que
houvesse sido Delírio Extremo, fechando aquela porta de sua memória e tentando trancá-la, observando
os carros pelos quais passava. Reese viu o LTD e o contornou, olhando para os pneus – boa faixa de
rodagem –, conferindo os danos à lataria – insignificantes – e a pintura – ficando opaca, não refletiva,
melhor ainda.
Ele olhou em volta e depois casualmente abriu o capô e o ergueu, deixando a luz da rua chegar ao
compartimento do motor. Debaixo de um monte de porcaria de controle de poluição que ele gostaria de
arrancar, estava um motor 5.8 com carburador de quatro bocas. Muito torque. Uma boa aquisição. Ele
caminhou até o lado do motorista e pegou o cabide de arame que estava dobrado em seu bolso. Vigiando
a área, endireitou uma das pontas e a deslizou para baixo da fresta da porta, acima da maçaneta. Pelo
tato, Reese estava procurando a trava. Ainda nenhum intruso. Com um clique, a trava se abriu. Ele entrou
no carro, pôs a sacola no assoalho e silenciosamente fechou a porta.
O chicote elétrico estava debaixo da coluna de direção. De memória, seus dedos foram direto para o
fio da ignição, desencapando-os, e encostaram o cobre exposto na ponta de arranque; o motor roncou
para a vida. Dois minutos haviam se passado desde que se aproximara do carro.
Ele apertou o pedal, elevando um pouco as rotações por minuto. O tom do motor elevou-se de acordo
com a pressão no acelerador. Nenhum alarme contra roubo ou pós-partida. Nos trinques. Ótimo.
Deixando o motor aquecer um pouco, Reese desamarrou a alça da escopeta do ombro, retirou a arma
que estava sob o casaco e a colocou no assento. Havia uma reverência em seus olhos enquanto analisava
lentamente o luxuoso interior do carro. Um grosso carpete revestia o assoalho. O rádio do painel ligou
quando ele deu a partida. Reese girou o botão até acertar uma transmissão. Os sons sonâmbulos de Jim
Morrison (“Take the highway to the end of the night...”) flutuaram pelos alto-falantes, enchendo o
ambiente pequeno e macio. Em outra estação, um barítono devoto estava denunciando seu bando de
pecadores por não lhe enviarem dinheiro suficiente para continuar denunciando seu bando de pecadores. Reese percorreu as frequências como o convidado de um banquete que não come há semanas. Ele
encontrou uma estação de notícias e ficou ali por um tempo. Nada extraordinário acontecendo. Apenas
onze pequenas guerras ao redor do planeta e três assassinatos na cidade. Ele conferiu a hora em seu
relógio digital roubado de acordo com o horário anunciado pela KFWB. Em sincronia.
Respirando fundo, Reese se deliciou com o leve cheiro de fábrica que ainda emanava dos estofados do
carro. Então é assim que foi um dia, pensou, e aumentou o volume do rádio. Ele ouviu, maravilhado, a
letra tola de uma música sobre o coração partido de uma garota.
Reese se afundou no assento e inclinou a cabeça para trás. Ele sentiu seus músculos, duros pela tensão e
pelo uso, implorando para relaxarem. Uma onda rolou até a orla de sua mente consciente e ofereceu
carona até um lugar quente e pacífico durante algumas horas de sono.
De jeito nenhum. Ele se sentou e esvaziou os bolsos; três caixas de munição Super .38 e mais quatro de
chumbo grosso .00. Aquilo o protegeria, por ora. Ele invadira uma loja de artigos esportivos às 9h15; às
9h16, seus bolsos estavam cheios e o cão de guarda estava triste em vê-lo partir.
Reese se abaixou e pegou a sacola de compras a seus pés. As coisas dentro dela eram de uma pequena
loja de bebidas na Crenshaw. A dona do lugar era uma coreana velha cujos olhos ficavam grudados a
uma tela de tevê de oito polegadas atrás do balcão.
Ele virou a sacola e despejou o conteúdo sobre o banco. Uma revista Cosmopolitan caiu sobre o
assento, junto com duas garrafas de Perrier e catorze barras de Snickers. Chocolate. Ele havia provado
um pouco quando criança, guardando-o até o último floco minúsculo e precioso se derreter e desaparecer
como um sonho na ponta de sua língua. Agora havia um monte deles. Ele enfiou um inteiro na boca e
mastigou, deixando o sabor consumi-lo e pensando no tipo de porcaria que estava acostumado a comer.
Imaginou Willy, um falecido garoto de Tac-Com da sua equipe de tiro, olhando para ele, arregalando os
olhos bem grandes e dizendo: “Caramba, puta merda, sargento. Você realmente comeu catorze?” Reese
engoliu e abriu outro, para Willy.
Ele pegou a revista e a folheou. Alguns artigos. Passou por eles e viu os anúncios. Meu Deus, que
vitrine eles eram. Ele ficou fascinado, hipnotizado. As mulheres que vira na rua mais cedo pareciam
incrivelmente lindas, tão limpas e delicadas. Foi difícil relacioná-las a qualquer coisa que tivesse visto
antes.
Mas aquilo era um nível completamente diferente. Eram mulheres de devaneios – esbeltas, perfeitas,
irreais, com rostos brilhante desprovidos de expressão, a não ser por um beicinho calculado nos lábios
ou um sorriso sedutor pintado pelos pincéis precisos de um maquiador. Seus pescoços longos e braços
magros pareciam fracos, suas unhas tão pouco práticas e decadentes quanto as de um mandarim. Ele se
lembrou que nenhuma daquelas gazelas da alta costura duraria mais do que alguns minutos em sua época
e tal pensamento aliviou um pouco sua dor. Ainda assim, ele viu seus dedos marcados e calejados
contornando aquelas linhas de beleza como as de uma estatueta de porcelana, uma beleza que se tornava
ainda mais dolorosa para ele por sua fragilidade. Uma fragilidade que nunca sobreviveria em seu mundo
crepuscular, com suas regras afiadas de sobrevivência.
Sua cabeça se apoiou na porta. A almofada embaixo dele era sedutora, trazendo-o cada vez mais perto
de seu corpo macio, dizendo-o para descansar, só por um momento. Ele pensou em todas as coisas que
jamais poderia ter e na coisa que ele mais queria, que ele sonhara a vida toda e que agora estava tão
perto – e que ele não poderia ter.
Olhou inexpressivamente pelo para-brisa, através da cerca de arame, para os rastros do aço pesado de
um trator que, lenta e sistematicamente, mastigava a terra arada. O rugido e o barulho de seus pneus
ecoavam bem alto na cabeça de Reese, enquanto seus olhos...
...estavam focados em um par de enormes rodas brilhantes, a quarenta metros de distância, vorazmente
triturando um campo de concreto armado iluminado pela lua, cuspindo vigas mortas, madeira lascada,
pedaços de roupas e ossos.
Milhares de ossos. Montanhas deles.
Os ossos estavam escurecidos e carbonizados por incêndios que já eram lembranças mesmo quando
Reese nasceu. Eles ficavam jogados em pilhas deprimentes, tão comuns que ninguém mais reparava que
os contornos da paisagem eram formados por restos humanos.
Reese assistia calmamente aos crânios passando sob as rodas dos CA s. Ele não conseguia ver expressão
alguma naqueles rostos sem carne que rolavam em direção àqueles dentes de metal achatado até que, por
um segundo, as órbitas vazias de um deles lançaram-lhe um olhar que parecia dizer Você também.
Ele parou de olhar depois disso.
Seu rosto ainda não tinha as cicatrizes que colecionaria nos anos seguintes. Ele havia acabado de
completar dezesseis anos.
Os rolos avançavam rapidamente. Barulhentos. Mais que ensurdecedores. Fora dos limites. O som se
tornou algo sólido, arranhando sua mente, chacoalhando-o, rasgando-o.
Reese viu explosões, um oceano caleidoscópico com as cores do arco-íris piscando no horizonte. Da
piscada para a explosão levava apenas uma fração de segundo. Eles estavam perto. E se aproximando.
Fechando o perímetro com uma tempestade altamente explosiva; rolando, batendo e levantando poeira até
as nuvens. Fazendo a terra se confundir com o céu.
Holofotes varriam a paisagem destruída. Procurando os bolsões espalhados de dor humana. Caçando,
sondando, revistando.
Reese estava deitado de bruços nas ruínas de um prédio de apartamentos bombardeado. O cheiro
pungente de carne queimada e poeira úmida encheu suas narinas. Ele resistiu à enorme vontade de fugir e
tentou se afundar ainda mais nas cinzas fétidas sob si.
Se entrar em pânico, você morre, Reese disse a si mesmo. Não entra em pânico. A tela CRT dentro de
seu capacete não estava funcionando. Ele tentou ajustá-la. Nada. Nenhuma conexão visual com o
Comando. Pelo menos os fones e o microfone de garganta estavam funcionando. Ele podia ouvir os sons
sobrepostos de pedidos urgentes de batalha e as vozes de homens e mulheres, alguns gritando, com
ferimentos mortais, pedindo mais munição, cobertura, médicos e extração.
Por cima do ombro, ele olhou para o membro sobrevivente de seu esquadrão de doze pessoas: cabo
Ferro, uma sapadora magra e ameaçadora. Eram quinze na terça passada e armados até a porra dos
dentes. Ela ficava perto de Reese, ancorada a seu líder de esquadrão como uma sombra.
Ele lançou um olhar para as vigas destroçadas do prédio derrubado e viu um vulto escuro movendo-se
pela noite; era a torreta dos CA s. Seus holofotes percorriam as ruínas. Reese conferiu o nível de “Pulsos
Restantes” em sua Westinghouse M-25. O fuzil só tinha mais um único pulso de plasma. Atira. Cega essa
filha da puta. Reese mirou em seus olhos, as lentes infravermelhas da torre de artilharia.
Reese levantou o visor flexível do fuzil – Merda, mais rápido, mais rápido –, olhou pela mira CRT –
Anda, desgraçado, anda – e lançou uma explosão de plasma de alta energia.
A lente ultrassensível do CA explodiu em uma chuva de vidro e microchips derretidos.
E então o monstro negro brilhante atirou.
Reese e Ferro saltaram do edifício quando o CA pulverizou o que restava dele. Mas Reese o cegara em
um dos lados. Ótimo. E agora eu vou te matar, pensou ele.
Reese estava se movimentando rapidamente, como um gato em modo de matança em alta velocidade.
As imagens estavam jorrando quase rápidas demais para ele registrá-las com clareza. Seus olhos
piscaram sobre o corpo de uma criança, um garoto de uns dez anos, atingido no meio do torso, ostentando
um buraco fumegante, com uma surrada M-16 muito antiga nas mãos, olhando para o nada. Mais corpos.
Alguns de uniforme. Alguns maltrapilhos. Mulheres, velhos, crianças. Mortos.
Houve mais explosões, caindo em padrão de dispersão itinerante, começando ao leste da Rexford até a
Sherborne e eliminando tudo entre elas.
Reese caiu em um bunker escuro. Um buraco de rato. Cheio de humanos segurando armas enlameadas,
aglomerando-se contra a morte lá fora. Alguns estavam chorando. E gritando. O brilho de uma explosão
iluminou seus rostos. Alguns eram crianças.
Soldados em uma guerra de pesadelo.
O que diabos eles ainda estavam fazendo naquele buraco? A zona devia estar evacuada para o time dos
sapadores. Reese queria aquele CA .
“Cadê o líder da sua equipe?”, gritou Reese. A resposta estava escrita no rosto deles – em algum lugar
lá fora. Frito.
“Vamos!”, ele berrou. “Vocês estão atrasando.” Eles não se mexeram. Paralisados. O medo havia
corroído sua capacidade de pensar. Ele os colocou de pé, arrastando-os, quase jogando-os para fora do
bunker.
“Agora mexam-se!”, gritou Reese. “A unidade está se reagrupando no Bunker Doze.” Eles assentiram,
suando medo e sangue, e partiram para a noite. Alguns na direção certa.
Reese ficou sob a sombra do bunker e fez um rápido reconhecimento. Pra onde foi aquele porra do ca?
Em seguida, Ferro mergulhou para dentro da terra.
Uma explosão de plasma do CA atingiu o bunker. Madeira, tijolos e lona esfarrapada foram lançados
para fora, em fragmentos, e depois desapareceram. A onda de vento e escombros levantou Reese e o
atirou contra uma coluna de concreto. Ele caiu de costas em uma cratera fumegante. Lá estava ele.
Reese abriu os olhos. Seu uniforme estava soltando fumaça. Seu corpo tremia por conta do impacto. Ele
gritou. Não de medo, mas de raiva.
Ferro estava ajoelhada ao lado dele, gritando alguma coisa. Mas Reese não conseguia ouvir.
“O quê?”, ele gritou de volta. “Quê?” Seus ouvidos estavam zumbindo.
Ele se sentou, atordoado. Ferro estava apontando para seu capacete, destruído. Ele o arrancou, puxando
os fones sobre seus cabelos emaranhados, partindo-os, e jogou o capacete fora. Agora pega esse
desgraçado. Corre. Vai, vai, vai!
Reese e Ferro pararam atrás de uma parede destruída após se desvencilharem do enorme CA . Suas luzes
azuis piscaram sobre as paredes; seus holofotes vasculhavam os escombros.
E então ele apareceu totalmente – um leviatã cromado sobre rodas, cheio de cicatrizes das explosões.
As enormes armas giratórias rodaram em seu eixo, transformando as ruínas ao redor em destroços
achatados.
Reese desamarrou uma bolsa das costas de Ferro e rapidamente tirou de dentro uma das minas
cilíndricas antitanque e a colocou sobre o joelho. Ferro foi atrás de Reese. Eles podiam ouvir o CA
girando e se aproximando.
Remova a tampa de poeira. Reese estabilizou sua respiração.
Teste o circuito. O enorme monstro estava entrando na mira.
Desengate a bola de segurança. As mãos de Reese suavam, escorregando sobre o revestimento de aço
inoxidável. Pegue a alavanca e gire, em sentido horário, de Seguro para Armado. O círculo em cima da
metade superior da mina acendeu. Ele estava com fome.
Reese espiou por cima da borda do muro. O CA estava a apenas alguns metros à frente, o ronco de seus
motores atingindo o auge. Ele olhou para as rodas, fixando-se nelas.
Agora morre, seu filho da puta!
Ele deu um salto e armou a mina direto no caminho do leviatã. Uma de suas rodas passou bem em cima
da bomba. O monstro parou. As armas e os holofotes giraram. A cabeça se virou, com dificuldade.
Ao se atirar de volta, para trás do muro, Reese viu Ferro se esforçando para manter o equilíbrio,
escorregando nos fragmentos soltos de concreto à sombra do muro. Ela ainda estava segurando a mina,
mas seu tempo estava acabando. “Atira isso logo!”, gritou Reese. Mas ela não conseguia, a não ser que
subisse no muro e se expusesse, e o CA já estava virando novamente.
Ela havia feito merda. Reese e Ferro se entreolharam. Depois ela pulou e atirou. Já estava na metade da
descida, voltando, quando o poderoso raio atingiu seu tronco. Nem um grito. Ela desapareceu em uma
nuvem de vapor rosa. Um pouco dela caiu em Reese. Ele nem se preocupou em se limpar.
Ele pensaria sobre Ferro mais tarde.
A carga de Reese explodiu primeiro, bem debaixo da articulação principal da roda traseira, um dos
poucos pontos fracos na armadura da máquina. O choque levou pedaços da carroceria bem para cima de
seu torso, estraçalhando uma das torretas do ombro. Explosões relacionadas atravessaram as toneladas
de munição enroladas dentro dele, até que finalmente os tanques de combustível detonaram e a jamanta de quinze metros de altura foi engolfada por uma enorme bola de fogo. A carga de Ferro explodiu ali perto,
sem efeito, por ter batido na carapaça de titânio e voltado, mas foi uma boa adição ao incêndio.
O céu inteiro se iluminou conforme o CA desintegrava em meio a uma explosão branca e brilhante,
espalhando-se sobre o campo fétido da morte como se fosse um universo nascendo. Reese olhou por cima
da borda da cratera e assistiu à chuva quente de luzes com uma satisfação intensa e arrebatada.
Logo ele já estava evacuando de volta para o ponto de extração na Doheny. Seus pulmões estavam
sufocando com o cheiro de coisas pegando fogo. Metal. Concreto. Gente. Tudo em chamas.
Reese carregou os dois outros sobreviventes para o VBTP e se pôs atrás do volante. Ele pisou fundo e
engatou a primeira no Camaro. A Aérea já estava indo para cima deles, atirando com suas miras
matriciais, e depois os perdeu de vista naquela confusão de luzes e escuridão das explosões do campo de
batalha.
Reese, disparando o VBTP pelo terreno destruído, dirigia feito um demônio; as ruínas eram um borrão
frenético de imagens pela metade. O garoto colocou o coldre e pregou os olhos no visor a laser da grande
arma de plasma de pulsos. Ele varreu rapidamente o céu procurando a Aérea.
Foi ela que os encontrou. Ela desceu com tudo em um ângulo de quarenta graus, com os holofotes
acesos, os turbos roncando, e atirou uma rajada estrondosa de plasma.
A investida atingiu a lateral do Camaro, amassando-o como uma lata de cerveja. O volante foi
arrancado das mãos de Reese. Outro tiro entrou no VBTP e o fez capotar.
Reese ficou preso nas ferragens, com sangue escorrendo sobre sua testa, caindo em seus olhos. O
homem que estava sentado a seu lado havia desaparecido da cintura para cima. Reese não quis olhar para
aquilo. Ele tentou se mexer. Uma dor lancinante atravessou seu ombro esquerdo. Ele viu chamas subindo
pelo capô, crescendo constantemente até o calor chamuscar seu rosto e mãos. De olhos fechados, ele
tentou desesperadamente se libertar. Sentiu cheiro de cabelo queimado – era seu. Ele ouviu alguém
gritando, um grito incipiente de dor e de raiva. A voz soou familiar. Era dele...
Os olhos de Reese se abriram. Pegou a escopeta sobre o banco e o ferrolho de madeira embaixo do cano
estava batendo de volta enquanto ela era carregada. Ele estava suando, respirando rapidamente, ao
mesmo tempo que aquela pergunta constante de quem acabou de acordar consumia seu ser: Onde estou?
Em um instante, percebeu o interior luxuoso do LTD; a revista, a garrafa de Perrier e as barras de
chocolate em cima do banco; e a estranha cidade do lado de fora das janelas do carro. A missão! Ele
arregaçou a manga de seu casaco e olhou para os números vermelhos de LED em seu relógio. Ele havia
dormido menos de três minutos.
Lentamente, Reese começou a relaxar, deixando a voltagem sobrecarregada sair dele. Ele olhou para o
inofensivo trator Caterpillar se arrastando para lá e para cá na área irregular. O canteiro de obras tinha
apenas minhocas e capim. Por enquanto. Reese afastou as imagens de crânios e corpos fumegantes de sua
mente.