O Exterminador do Futuro
Tikki Motel 11:28 p.m.
■ TIKKI MOTEL
11:28 P.M.
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Sarah abriu os olhos e viu os desenhos de luz se agitando na parede.
Reese estava dormindo ao seu lado, com o peito subindo e descendo de satisfação profunda. Seu rosto
era tão doce em repouso. Relembrando a coisa toda, percebeu como ele era infantil e quanto aquela
experiência havia mudado os dois. Antes de se encontrarem, ela era uma garçonete presa em suas
próprias inseguranças. Ele era uma criança-soldado, fazendo de sua vida apenas guerra. Mas agora que
haviam se cruzado e se tornado um só, ambos eram pessoas novas.
A solenidade desse pensamento fez seu coração quase parar. Ela rolou para perto de Reese e o abraçou
com força. Ele se mexeu, mas não acordou. Isso era uma espécie de triunfo. Ele estava seguro nos braços
dela. Havia uma bolha impenetrável em volta deles agora e nada, nem mesmo um Exterminador, poderia
atravessá-la.
Ela beijou delicadamente o rosto de Reese, que gemeu. Ele havia afastado a morte e ela estava lhe
dando a vida. Os dois eram professores. O conhecimento era igualmente importante para a sobrevivência
deles. Amor e guerra. Prazer e dor. Vida e morte. E resistência. Sim...
Mas eles não estavam sós no universo. Sarah percebeu o barulho da civilização do lado de fora.
Trânsito. Murmúrios do quarto ao lado. O assovio alto de um jato militar passando ali em cima. Um
cachorro latindo. Resistir era necessário quando se estava sendo perseguida por uma máquina implacável
empenhada em destruí-la. Era o tipo de vida que estava diante deles. Fugir de algo que jamais desistiria
de procurar, que continuaria a ir atrás deles até que ambos estivessem mortos. Aquilo dava à palavra
implacável uma dimensão quase física. As dimensões de um Exterminador.
Ela sabia que tinham de mudar a estratégia. Reese evidentemente só estava ali para impedir que o
Exterminador a matasse, para escondê-la bem até a guerra e ajudá-la a emergir com seu filho, reunindo o
movimento de resistência para virar o jogo. Mas como eles poderiam sobreviver enquanto o
Exterminador estivesse por aí? Reese havia tentado destruí-lo antes, no Tech Noir. A polícia o havia
crivado de balas. E ele ainda estava atrás deles.
Agora tinham as bombas caseiras. E algo mais poderoso do que uma simples astúcia animal. Eles
tinham um sentimento tão forte que impulsionaria sua determinação e talvez tornasse possível voltar e
esperar o Exterminador. Preparar uma recepção especial e em seguida eliminar o desgraçado. Devia
haver um jeito. Reese saberia.
Ela se sentou e começou a acordá-lo, mas os olhos dele já estavam abertos. Ele estava se concentrando
em algo muito distante.
“Ouça os cachorros”, disse ele, e o tom de sua voz fez um arrepio gelado a atravessar. Ela se virou
para a janela e ouviu o latido distante de cães. Dois, depois três. Outro uivou. Eles estavam a quarteirões
de distância, alguns talvez a oitocentos metros, soando o alarme em quintais e varandas, com a química
de seus corpos à flor da pele pelo que eles farejavam no vento. Um cachorro, sentindo um mundo que nós
não vemos, podia olhar nos olhos de um homem e saber se o que olhava de volta era humano. Em
seguida, o pastor alemão acorrentado do lado de fora do hotel soou o alarme.
O que quer que fosse, aquilo não passou pela inspeção canina e estava vindo na direção deles. Ao
saltarem simultaneamente para pegar suas roupas, o tempo começou a acelerar.
O Exterminador passou pela recepção na direção do alvo, ignorando o bicho que rosnava, contido
apenas pela corrente e tentando atacá-lo, avançando a cada passo repleto de energia crescente, conforme
os microprocessadores chegavam à velocidade de ataque. Os detalhes de seus arredores ficaram
cristalinos e tão densos com informações que nenhum cérebro humano conseguiria reter tudo. O peso da
gravidade, a textura e a temperatura do asfalto. A distância de todos os objetos em relação a ele. A
velocidade do vento. O som do oceano passando por seus sensores. Os movimentos dos corpos
aquecidos por trás das paredes de estuque. As dimensões exatas e características de todas as coisas
dentro da área de contato do Exterminador eram medidas, cronometradas e inseridas na equação
constantemente atualizada de movimento e massa.
Eles não tinham a menor chance.
O Exterminador parou em frente à porta deles e ergueu a AR-180. Com um estalo de sua perna, a porta
desabou, explodindo em três tábuas grandes e pontudas.
A máquina entrou no quarto e o pulverizou eficientemente com tiros automáticos. Balas atravessaram a
mesa vazia, destruindo-a, a poltrona, lançando chumaços de enchimento, e encontraram a cama,
arruinando-a até que a carcaça fumegante de colchão e armação de metal não parecesse um objeto
reconhecível.
O Exterminador recarregou e em seguida olhou ao redor.
Um erro havia sido cometido. Sua visão digitalizada do interior revelou o contorno de todos os objetos
em relevo – todos os objetos menos o alvo. Número do quarto verificado novamente. Opção?
Redirecionamento. Negativo. Examine mais.
O ciborgue rapidamente andou pelo quarto e olhou em volta. Ele viu a porta traseira aberta e ouviu os
passos correndo simultaneamente.
Herb Rossmore diminuiu a velocidade do Ford Bronco e olhou sonolentamente para a placa luminosa
do Tikki Motel. Ele precisava dormir um pouco, antes que apagasse como uma lâmpada na rodovia e
caísse em uma cerca divisória. Por engano, havia tomado a saída anterior e parado no estacionamento
traseiro, de frente para as portas dos fundos dos quartos. Praguejando em voz baixa, ele engatou a marcha
a ré e estava prestes a tirar o pé da embreagem quando o que viu o fez deixar o motor morrer.
Um casal saiu pela porta dos fundos de um dos quartos e se moveu em silêncio, mas rapidamente, ao
longo da parede. Os dois estavam descalços e o cara ainda estava se enfiando em um casaco longo, sem camisa por baixo. A garota estava com a malha do lado avesso e carregando uma sacola de náilon que
parecia pesada.
Ao levantar a cabeça, o cara avistou Herb e começou a correr descalço pelo estacionamento na direção
do Bronco. Herb reagiu rapidamente ao perceber o que aconteceria em seguida. Ele bateu o trinco da
porta e lutou com a manivela da janela, tentando desesperadamente colocar alguma coisa entre ele e
aquele lunático. Mas Reese já estava em cima dele, enfiando a mão no espaço entre o vidro e a porta e
pressionando os dedos de ferro no pescoço de Herb, que lutou sem sucesso com o braço de Reese e
depois aquiesceu ao ver a pistola na outra mão. Ele destravou a porta.
Houve um som alto de estrondo do outro lado do prédio, seguido rapidamente dos tiros repetidos da AR-
180 do Exterminador.
“Sarah!”, gritou Reese ao jogar Herb no chão. Ela estava do outro lado do Bronco, já subindo, com o
pavor distorcendo seu rosto. Reese girou a chave na ignição ao mesmo tempo que o Exterminador passou
pela porta.
Herb só teve tempo de rolar para sair do caminho conforme o louco em seu carro acelerou o motor V-8,
fazendo-o gemer, e soltou a embreagem. Ele ouviu o barulho do metal com um desprezo confuso, quando
o Bronco bateu de frente com alguma coisa e a imprensou contra o prédio do motel.
Era um homem.
Horrorizado, Herb se encolheu quando seu Bronco fez os pneus gritarem e se lançou de ré para sair do
estacionamento. O carro girou em círculo e roncou mecanicamente ao entrar em primeira marcha e sair
noite afora. Aquilo foi bem ruim, pensou Herb, mas o que era pior se levantou ali perto.
O grandalhão achatado contra o prédio que deveria estar morto rapidamente pegou a arma caída,
observou a direção em que o Bronco saiu, e depois se virou e fugiu pela porta dos fundos arruinada.
Um momento depois, Herb ouviu uma motocicleta explodir em rotações altas. Dois segundos depois,
ele a viu passando pela calçada no fim do motel. Ela arrancou pela rua atrás do Bronco roubado. Quando
Herb se levantou, com as pernas bambas, ele foi tomado por uma única conclusão sã em um turbilhão de
pensamentos caóticos – ele não reaveria seu Bronco. E estava certo.
Eles quase haviam morrido.
Sarah se agarrava ao painel do Bronco, com o coração martelando, enquanto os pontos dos postes
iluminados da rua passavam como um borrão, tendo um déjà vu de cortar a alma. Eles quase haviam
morrido nus e abraçados. A máquina tentara aniquilá-los, cega e estupidamente, sem motivo algum, até
onde ela sabia, a não ser pelas instruções de outra máquina. E agora Sarah podia vê-la indo atrás deles,
um único farol cada vez mais próximo no retrovisor, quase como um tumor crescendo ali para explodir na
cabine do Bronco. Ela o odiava.
Reese inspirava e expirava em ritmo regular, mecânico, para controlar seu corpo. Ele puxou o volante e
Sarah se chocou contra a porta conforme o Bronco saiu da estrada e deu um salto violento para a rampa
de acesso à rodovia. Em seguida, ela foi lançada para trás quando Reese pisou fundo no acelerador.
A perseguição foi muito diferente desta vez. Ela observava Reese agir agora com uma mistura de medo
por ele e de orgulho. Ele manobrou o Bronco até a pista rápida em um instante.
O trânsito estava leve naquela hora, àquela distância do litoral. Uns poucos caminhões pesados e menos
carros ainda, rumando para o sul até San Diego. Reese passou por eles habilidosamente, como se fossem
objetos estacionários.
Mas seu perseguidor também o fez. Na verdade, o Exterminador continuou ganhando terreno,
aproximando-se aos poucos. Sarah olhou para trás e se assustou. O Exterminador estava bem atrás deles,
bem mais perto agora que não era distorcido artificialmente pelo espelho. A coisa estava abaixada por
cima do guidão para reduzir a resistência do ar, com o acelerador à toda, e se preparava para apanhar o
fuzil de assalto. Contra a rajada de vento, o ciborgue ergueu a arma com uma das mãos. O cano estava
firmemente apontado na direção dela.
“Se abaixa, Sarah!”, gritou Reese ao ver a arma levantada, mas ela já estava se abaixando. Um segundo
depois, o vidro traseiro do Bronco se estilhaçou com o impacto das balas. Um tiro perdido ricocheteou
pela cabine e se embutiu no painel acima de Sarah. Por pouco.
Reese desviou o Bronco, protegendo-se em volta de um reboque.
O Exterminador se inclinou bastante, bem atrás deles, inexoravelmente fechando o cerco, por
milímetros quase batendo na traseira do caminhão.
Reese tirou os pneus da superfície da rodovia ao costurar feito um fantasma pelo trânsito lento.
As pessoas mal tinham tempo de registrar os objetos que zuniam ao redor. Era uma loucura total. E
ficou pior.
Pneus cantaram quando a traseira de uma van em movimento se agigantou à frente deles. A carne
sintética e os joelhos de metal se enterraram na estrada, mantendo o equilíbrio em uma inclinação de
trinta graus.
Reese fintou para a direita, depois para a esquerda, derrapando na direção de um ônibus Greyhound
travando as quatro rodas.
O Exterminador atirou com o fuzil de assalto novamente. Desta vez, as balas atingiram a mureta onde o
Bronco estivera. Um erro claro!
O Bronco deslizou em volta de dois caminhões paralelos e acelerou pelo estreito espaço deixado por
uma equipe noturna trabalhando na cerca divisória. O Exterminador viu que teria que desacelerar e
mudar de faixa para acompanhar. Ele não queria reduzir – queria acelerar, então escolheu um caminho
diferente.
Ele arrancou com a moto, passando um motor-home descendo uma rampa de saída, e, sem reduzir,
atravessou um sinal vermelho no cruzamento e subiu novamente pela rampa de acesso. Houve alguns
acidentes por onde o ciborgue passou, com os carros batendo uns nos outros para não atingirem o
motoqueiro louco. Nada daquilo importava. Apenas o Exterminador e Sarah.
Reese viu o Exterminador subindo com tudo na rodovia, aquele clarão ciclópico e errante do farol da
Kawasaki, em um caminho que levaria ao Bronco.
“Muda de lugar!”, gritou Reese por cima do ronco dos pistões do V-8. Ela deslizou por baixo dele
enquanto ele mantinha o pedal colado ao chão. Sarah pegou o volante e pôs o pé sobre o acelerador.
“Não diminui a velocidade!”, disse Reese.
“Pode deixar”, respondeu ela, e havia convicção em sua voz, um tom novo e de alguma forma bastante
confortante. Por um instante, Reese e Sarah cruzaram olhares e o tempo parou.
Mas então o Bronco resvalou em um Datsun 240-Z, arrancando seu retrovisor lateral, e o tempo
explodiu em fragmentos gritantes. Sarah endureceu os braços e virou o volante da maneira que Ginger
faria, pondo o Bronco de volta em seu percurso. Reese começou a vasculhar a bolsa de náilon para pegar
as armas. Ele confiou a direção a ela. Suas vidas estavam nas mãos um do outro, literalmente.
O Exterminador disparou por um espaço aberto no tráfego e atirou uma rajada curta e disciplinada no
Bronco. Balas se alojaram no painel traseiro. Uma arrancou um pedaço de borracha do pneu traseiro
esquerdo, mas as tiras de aço seguraram. Viam-se faíscas intermitentes. O Exterminador acelerou a moto.
Reese pegou a primeira bomba caseira e segurou um isqueiro Bic sob o estopim.
Sarah guinou o utilitário para o acostamento central, a centímetros da cerca, fazendo uma careta
conforme lutava para segurar o Bronco em um trajeto equilibrado, como Matt faria. Pela primeira vez em
sua vida, ela estava controlando seu próprio destino – a 158 km/h.
Reese acendeu o estopim e saiu pela janela do passageiro. Ele observou o pavio crepitar e soltar
fumaça no vento, queimando espasmodicamente até a tampa, e depois atirou a bomba na estrada.
Bem no caminho do Exterminador.
A estrada explodiu, jorrando fogo e fumaça abruptamente. Por um momento, nada aconteceu. Depois,
quase simultaneamente, a concussão jogou para trás os cabelos de Reese e o Exterminador saiu rugindo
da nuvem ascendente, intacto. Cedo demais.
Reese pegou outra bomba.
A AR-180 trepidou novamente, dilacerando o Bronco.
Sarah fintou para a esquerda, depois para a direita, e seu estômago protestava a cada movimento
radical.
Reese saiu pela janela e esperou o estopim se queimar até um centímetro acima da tampa. Depois
soltou.
A bomba caiu no asfalto e rolou como um pino de boliche, passando pelo ciborgue. Houve outra
explosão, muito atrás do Exterminador, que só serviu para aterrorizar os motoristas no rastro do combate
urbano improvisado. Um Corvette preto rodou, parando transversalmente em sua pista, apenas para
explodir em fragmentos de fibra de vidro por causa de um caminhão derrapante.
Adiante, o trânsito estava se desbastando. Isso era ruim. Menos cobertura.
O Exterminador pendurou a AR-180, usando sua mão livre para pegar o último pente. Com um rápido
movimento, ele enfiou o carregador no fuzil de assalto e preparou a arma novamente já na posição de
tiro.
Enquanto isso, Reese pegou outra bomba.
O Bronco se apressou em torno de um caminhão-tanque e acelerou até um viaduto longo e ladrilhado.
Ao entrarem no túnel de luzes fluorescentes, Reese arremessou outra bomba. Ela bateu no chão e voltou
para o alto, perdendo velocidade rapidamente. A explosão trovejou naquele espaço fechado. Uma parede
de fumaça se formou atrás deles. Eles ouviram o uivo, como se fosse um dinossauro assustado, da buzina
a ar do reboque, um coral de pneus derrapando, e em seguida uma motocicleta fez um buraco na fumaça.
O Exterminador atirou neles. O espelho lateral explodiu. Balas perfuraram o Bronco, choramingando
ameaçadoramente. Duas delas encontraram Reese.
Ele urrou de dor, surpreso, conforme as duas dolorosas pancadas atingiram seu peito e o braço. O cano
em sua mão caiu, com o estopim apagado, inutilizado. Ironicamente, ele acabou entrando na perna do
Exterminador, arrancando um pedaço de sua panturrilha. Reese se atirou por cima da janela, com metade
do corpo para fora da cabine.
“Kyle! Meu Deus, não...”
Sarah saltou para pegá-lo, puxando-o de volta para o banco, com isso batendo com o Bronco na parede
do outro lado do túnel. Instintivamente, ela tirou o pé do acelerador e já ia pisar no freio, mas, em vez
disso, lutou com o volante e arrastou o veículo pela parede por um momento, lixando a pintura até a
lataria numa chuva de faíscas. Sarah, escutando uma nova voz nascida de sua união com Reese, pisou no
acelerador novamente. O V-8 sugou combustível e Sarah foi jogada para trás quando o Bronco saiu
agitado pela estrada, rapidamente alcançando 140 km/h. Mas aí já era tarde demais.
O Exterminador não havia reduzido a velocidade; ele estava a pouco mais de dez metros atrás deles.
Ele apontou a AR-180 diretamente para a cabeça de Sarah e apertou o gatilho.
As balas só não arrancaram a cabeça de Sarah do pescoço porque o pente da AR-180 havia se esgotado.
Sem parar, o Exterminador largou o fuzil de assalto. Antes que ele batesse no chão, o Exterminador
sacou o pequeno revólver .38 niquelado de sua jaqueta, apontou para a parte de trás da cabeça de Sarah e
disparou.
Mas Sarah escolheu aquele momento para desviar à esquerda. A bala destroçou o espelho do lado dela,
enchendo-a de estilhaços. Ao se sobressaltar, ela perdeu o controle. O Bronco ziguezagueou, começando
a derrapar, mas Sarah conseguiu endireitá-lo em uma onda de pânico controlado. Só que agora o
Exterminador estava se aproximando pelo lado, apontando a enorme pistola para ela, observando-a
através daqueles óculos escuros, com o olho vermelho exposto, piscando sob a lente. Ele atirou outra
vez. A bala tiniu pela cabine e passou perto de sua orelha, estraçalhando o para-brisa.
O Exterminador era seu inimigo. Ele havia atirado em seu amado. Ele queria sua morte. E o medo
dentro de Sarah foi repentinamente despejado pela explosão de raiva que se irrompeu, correndo por seus
braços. Uma expressão muito humana de fúria assassina desfigurou o rosto de Sarah quando ela tirou o pé
do acelerador, pisou com tudo no freio e girou o volante.
Ela atirou a motocicleta contra a mureta, que caiu batendo no asfalto, capotando várias vezes e
deslizando. Em algum momento ali o ciborgue se soltou.
O Bronco e a moto saíram como um raio do túnel a 130 km/h. Alguma coisa saiu mais lentamente,
rolando fora de controle e depois abrindo os braços e as pernas para se estabilizar: o Exterminador. Sarah tentava ver onde ele estava quando derrapou até a divisória, travou o volante na direção errada e
capotou o utilitário.
O mundo ficou de cabeça para baixo, dando cambalhotas em volta da cabine, enquanto Sarah e Reese
estavam pressionados um contra o outro e contra o teto do carro. O medo de Sarah voltou, mas seu grito
foi abafado pelo barulho do Bronco batendo no concreto e parando de ponta-cabeça.
O Exterminador bateu em um poste da mureta e caiu por cima da divisória central. Ele bateu do outro
lado, rolando até parar à sombra de um viaduto. Sua jaqueta de couro estava fumegante, com pedaços de
sua pele se descolando, revelando a carne viva, como se ele tivesse passado em um ralador de queijo.
Mas a máquina se mexeu e em seguida se sentou.
O ciborgue se virou ao ouvir o rugido demoníaco de uma buzina a ar. Em seguida, foi atingido por um
caminhão Kenworth, que colidiu com ele a 110 km/h como um enorme ferro de passar. O Exterminador
desapareceu sob o veículo, mesmo quando os freios começaram a cantar. As rodas do caminhão travaram
em meio a nuvens de fumaça conforme o ciborgue tombava, ricocheteando furiosamente entre a
carroceria fora de foco acima e o chão embaixo dele.
O motorista não vira nada em sua pista. A sombra absoluta do viaduto havia escondido aquela massa
em forma de homem até seus faróis estarem em cima dele, mas a essa altura já era tarde demais. Ele
acionou os freios em um instante, cortando o motor e soltando o pedal aos poucos para que a jamanta não
se dobrasse ao meio e sua carga de vinte e dois mil litros de gasolina premium não acabasse cobrindo
meio hectare de rodovia. Seu parceiro foi atirado para a frente, acordando com um susto desagradável.
“Filho da puta!”, eles gritaram, quase em uníssono.
O reboque de dois tanques girou e derrapou como um trem descarrilhando.
Merda, eu tô perdendo o controle, pensou o motorista.
O corpo se levantou por um instante chocante antes de cair novamente no asfalto. Eles podiam ouvi-lo
batendo lá embaixo, chocando-se, e podiam sentir os baques do que eles pensavam serem ossos na
carroceria. Ouviram e sentiram tudo isso por cima do grito agudo dos pneus travados no asfalto, por cima
do estrondo do caminhão se arrastando até parar.
Os dois homens soltaram a respiração lentamente, ousando acreditar que de alguma maneira o motorista
havia conseguido parar a máquina feroz. Eles se entreolharam, pálidos; vinte e dois mil litros de premium
– caralho!
“Fica aqui”, disse o motorista, e desceu pela porta. Seu parceiro apenas olhava para a frente, segurando
o painel.
O motorista não quis olhar. Mas nunca se sabe, pensou ele. Talvez o cara ainda esteja vivo. Minha
nossa, isso sim seria horrível: um caso perdido agonizante, pulverizado, que ele havia provocado. Ao
chegar ao segundo tanque, ele reduziu o passo. Estava mais à frente na estrada. Uma mancha de sangue. E
aquilo ali era um pedaço de roupa ou de corpo?
O ímpeto o levou a passar do final do segundo tanque e cair nas mãos do ciborgue.
Quando o Exterminador foi atingido pelo caminhão-tanque, seu corpo bateu sob a boleia e ele se
segurou no cano de escapamento, sendo arrastado por um momento antes de se soltar. Posicionou-se estrategicamente e estimou corretamente o ângulo de salto. Ao ricochetear sob o caminhão, ele se agarrou
à cobertura do eixo e, lentamente, o homem-máquina fez seu caminho de volta até o disco de conexão,
atrás da cabine. Mas o caminhão freou repentinamente e o ímpeto acarretou um erro no cálculo do
alcance seguinte. O Exterminador se soltou, batendo no fundo do primeiro tanque, e depois rolou até
parar perto dos pneus traseiros do caminhão.
Ele imediatamente rastejou para sair e analisar o veículo. Considerando suas opções, decidiu confiscar
o caminhão para continuar a perseguição. Quando começou a andar, sua tela interna exibiu os relatórios
dos danos. Os backups começaram a entrar em ação no sistema hidráulico combalido, mas nada podia ser
feito com relação à articulação do tornozelo esquerdo. Era uma avaria à estrutura principal que exigiria
total atenção mais tarde, se necessário. Mas na verdade isso só fazia a máquina mancar. E ele não
poderia mais correr até a velocidade de 35 km/h. Mas ainda podia andar. Ao dar a volta no último
tanque, ele se chocou com o motorista e imediatamente o aniquilou. Os dedos poderosos do Exterminador
arrancaram a garganta do homem e em seguida ele foi em direção à cabine, soltando o corpo sem vida no
asfalto, que caiu como uma massa de gelatina e gravetos quebrados.
O parceiro estava sentado do lado do passageiro na boleia, tremendo de choque. O horror do que havia
acontecido estava apenas começando a ser absorvido quando uma aparição terrível abriu a porta do outro
lado e se sentou ao volante.
O parceiro se encolheu com o que viu: o rosto estraçalhado pela estrada, com a pele pendurada em um
retalho em carne viva, a órbita ocular rasgada com alguma coisa brilhando diabolicamente lá dentro,
como um olho alienígena, e um talho jorrando sangue ao longo do braço forte.
Ele olhou para os controles do painel e parecia estar pensando sobre eles. Em seguida, olhou nos olhos
de Wayne e falou: “Saia”.
Não precisou pedir duas vezes. Ele abriu a porta com tudo e pulou para o asfalto, rachando a canela,
depois correu, mancando, o mais rápido que podia para se afastar daquela coisa que eles haviam
acabado de matar e que o olhara bem no olho.
O Exterminador examinou a disposição dos controles da enorme cabine, cruzando os dados da memória
com a marca do caminhão, o padrão das marchas, a configuração de transmissão e as especificações do
motor. Quando seus dedos ensanguentados se fecharam sobre a alavanca de câmbio, ele sentiu a enorme
máquina de transporte como se fosse uma extensão de si mesmo. Engatou a segunda reduzida e soltou a
embreagem.
O Exterminador girou o volante e acelerou o motor a diesel. Lentamente, o caminhão-tanque moveu-se
em um grande círculo. As máquinas estavam voltando atrás de Sarah.
Sarah acordou da semiconsciência claustrofóbica. Ela lutou para respirar e começou a ver as imagens.
O mundo então voltou a ela em raios de luz e retalhos intermitentes de realidade. Eles estavam de cabeça
para baixo no carro, deitados no teto, olhando para os pedais. Reese estava debaixo dela, desacordado e
imóvel. Ela tentou se desvencilhar dele, mas suas pernas estavam entrelaçadas. Finalmente, ela se
libertou e olhou para Reese. Havia sangue em seu peito e em seu braço. Seu rosto estava branco feito leite e havia olheiras profundas sob os olhos. Um leve tom de azul começou a colorir sua palidez e ela
percebeu, chocada, que ele não devia estar respirando. Ela o pegou pela gola e o sacudiu.
“Reese!”
Um buraco negro se abriu diante dela, vendo-o ser lentamente arrancado de sua vida. Ela tentou trazê-lo
de volta da beira do abismo, arrastar aquele ser inanimado de volta à existência. Ela beijou o rosto dele.
Ela chorou, o acariciou e pediu docemente, e, finalmente, chegando a um comportamento pragmático por
predefinição, soprou ar para dentro dos pulmões dele. Ela percebeu como uma espuma vermelha
borbulhou através de um buraco em seu peito. Instintivamente, ela botou a palma da mão em cima do
buraco e continuou. Ele tossiu e abriu os olhos. Erguendo a mão ensanguentada, Reese a empurrou sem
força para trás, tentando se levantar. Tentando protegê-la. Continuar a missão. Ficaria tudo bem se apenas
pudesse... apenas pudesse... E ele caiu para trás, arquejando.
Em seguida, Sarah olhou para cima e viu o Exterminador ser morto. Ela viu o caminhão derrapar até
parar, a cerca de setenta e cinco metros dali, e semicerrou os olhos quando o motorista desceu e andou
até a traseira do tanque. Ela se sobressaltou quando um vulto mancou sob a luz da rua e assassinou o
motorista, e piscou sem compreender quando a coisa calmamente olhou para ela, depois para a cabine,
entrou e começou a fazer o longo e lento arco da morte na direção de Sarah.
O caminhão se arrastou por três marchas, chegando a 76 km/h, depois virou para cima da cerca
divisória, achatando-a, e atravessou para o lado da rodovia em que Sarah estava. O pesadelo não iria
acabar. Pelo contrário, o pesadelo havia crescido até ficar do tamanho de um caminhão-tanque, com as
luzes de seus faróis se estendendo, passando sobre o Bronco capotado, clareando o interior, ficando mais
fortes a cada segundo, com o motor roncando pela noite.
Sarah se pôs a agir bruscamente, chutando até abrir a porta amassada e puxando o corpo de Reese,
tentando fazer os dois saírem do carro antes que o caminhão o aplainasse.
Mas Reese estava se agarrando ao pouco de vida que lhe restava e precisava de cada gota de força
para permanecer ali. Ele não podia ajudá-la nem um pouco.
Sarah resmungou, saiu de baixo do Bronco e passou os braços sob Reese a fim de erguê-lo e arrastá-lo.
Ele era tão pesado!
Os faróis já a perfuravam e os motores gritavam mortalidade. Ela estava ofuscada e seus ouvidos
zumbiam. Sarah não conseguia ver Reese. Ela não conseguia ouvir seu próprio grito. Ela só conseguia
senti-lo em seus braços. Ela então o puxou.
A perna dele estava presa. Era esse o problema. Em algum lugar da cabine, a perna de Reese estava
presa. Virou o corpo dele e a perna se desprendeu, mas agora o caminhão estava tão perto que ela podia
sentir seu estrondo. Ela desviou o olhar, para que o único sinal que ele fizesse em sua cabeça fosse o dos
dois sóis brilhando no asfalto atrás dela. Sarah estava sem fôlego e sem força. A gravidade fez o resto.
Ela caiu para trás na rua e o caminhão atingiu o Bronco.
Metal se chocou contra metal e o aço rígido foi instantaneamente arrancado e esmagado, assumindo
novos formatos. Não houve explosão, apenas sons – um estrondo e um guincho agudo quando o Bronco se
dobrou na frente da grade do reboque, hesitou pelo tempo que as leis de conservação de energia permitiam e depois voou pelos ares ao mesmo tempo que Sarah caiu para trás – e as pernas de Reese se
libertaram da cabine.
Um momento depois, o Exterminador travou os freios e o caminhão continuou adiante, com a carga
completa de gasolina se comprimindo até a parte dianteira, pressionando o metal ali. O Bronco havia
sido lançado em um arco alto e, quando voltou ao solo, capotou quatro vezes, balançando de lado, e
parou. Em um instante, ele havia sido promovido – de veículo à escultura moderna.
Sarah olhou para trás quando o enorme caminhão se arrastou até parar e depois virou. Os faróis
estavam rastejando pela estrada, fazendo a curva, procurando por ela.
Sarah pôs Reese de pé com um puxão desgastante. Ele estava murmurando alguma coisa no ouvido
dela.
“Continue sem mim. Continue...”
Ela deu um tapa no rosto de Reese, com força. Foi um reflexo. Tudo que estava fazendo agora era
reflexo, porque a maior parte dela havia sido colocada em espera. As Sarinhas não tinham nada a dizer;
haviam sido arrancadas e jogadas fora. Ela bateu em Reese novamente. As pálpebras dele se abriram. A
dor pungente cortou a dor maçante em seu peito e no braço. Parecia haver dois pesos de cinco toneladas
em cima de seu corpo e ele mal podia se mexer, mas quando Sarah o esbofeteou Reese pôde colocar tudo
aquilo em perspectiva, focar no rosto dela, ver os faróis refletidos ali simultaneamente com o medo,
saber que ela morreria se ele não a acompanhasse. Já que não queria que ela morresse, Reese deu um
passo. Foi um enorme triunfo. Mas estava fora de proporção com a jamanta vindo para cima deles. Um
passo era uma gota no balde.
Eles precisavam correr.
Sarah jogou o braço dele em volta de seu ombro e eles começaram a se mexer.
O caminhão estava ganhando velocidade, roncando.
Reese estava procurando alguma reserva de força para fazer suas pernas se moverem. Ele pensou em
Sarah morta, sangrando, e encontrou a força necessária.
E eles correram.
Fugiram a passos lentos, irregulares, mas era melhor do que andar e certamente melhor do que se
arrastar. Mas o caminhão entrou na quarta marcha, com o motor acelerado, chegando a 77 km/h.
Dentro da cabine, o Exterminador estimou o ponto de contato em oito segundos.
Mas Sarah estava puxando Reese pela lateral da rodovia, na direção da cerca divisória. O
Exterminador fez ajustes na estimativa de contato. Ele puxou o volante e chiou em outra curva, agora
estabelecendo o ponto de contato em nove segundos.
Sarah viu a carreta se balançando na beira da estrada e descendo ruidosamente pela ladeira incrustada
de hera na direção deles. Ela puxou Reese para passar por cima da cerca, quase atirando-o aos arbustos
do outro lado. Os faróis iluminavam o caminho à frente, atormentando e zombando ao se aproximarem do
casal. Mas Sarah agora estava pulando a cerca e puxando Reese para se levantar.
O Exterminador perdeu tração e o caminhão começou a escorregar na hera molhada. Ele bateu na cerca
divisória a mais ou menos um metro de Sarah e Reese.
O caminhão atravessou a cerca de arame, atravessou arbustos e depois rolou até uma rua residencial.
Quando o Exterminador conseguiu colocar a transmissão em primeira novamente para virar o caminhão,
Sarah e Reese já estavam cinquenta metros à frente, correndo por um estacionamento.
O Exterminador e o caminhão ganharam velocidade, batendo de lado em uma fileira de carros
estacionados.
Sarah e Reese cambalearam e correram rua abaixo em direção ao único abrigo por perto – um parque
industrial. Enquanto corriam pela rampa de entrada dos carros, ouviram o ronco do motor do caminhão-
tanque do Exterminador logo atrás.
Reese sabia que suas pernas estavam cedendo. Ele não conseguiria ir muito além. Seu corpo inteiro
estava se fechando para o inverno, o longo e frio inverno, mas antes de isso acontecer...
“Vai embora!”, ele gritou para Sarah. Ela balançou a cabeça violentamente, até que viu a bomba caseira
na mão dele e Reese a empurrou brutalmente para a frente.
Ela compreendeu e agiu, continuando a correr, movendo-se mais lentamente para o meio da pista entre
vários carros estacionados. O caminhão troou atrás dela. Sarah viu Reese se atirar para uma sombra
intensa, engatinhar para a frente e enfiar a bomba no cano de descarga do caminhão que passou.
O Exterminador estava mudando de marcha e passando com tudo por um carro estacionado apenas
quarenta metros atrás dela, rapidamente se aproximando. Sarah desviou de uma árvore e disparou,
correndo com toda a força, a cabeça inclinada para trás, a fim de escapar das garras da morte, mas o
caminhão estava descendo com tudo, estilhaçando a árvore, e os pistões estavam gritando o nome dela.
Ela correu mais rápido – trinta metros.
Ela correu mais rápido – vinte e cinco metros.
Suas pernas eram borrões. Seus pulmões estavam morrendo. Vinte... Luz e calor se acenderam atrás
dela. Ela se atirou ao chão e rolou. Ao olhar para trás, viu a mais linda destruição que jamais poderia
imaginar: uma bola de fogo cresceu do cano de descarga até a cabine, rolando em ondas amarelas e
brilhantes de gasolina superoxigenada, com o líquido soltando furiosamente sua energia. Um oceano de
chamas encobriu completamente o caminhão, que saltou para a frente, pelo ar, se autodestruindo
raivosamente em alta velocidade. Sarah ficou deitada atrás da quina do prédio quando um choque
concussivo a atingiu como um tapa, tirando o fôlego de seus pulmões. Ela ouviu o metal se rasgando
conforme os fragmentos do caminhão caíam de volta no asfalto e rolavam até parar. Ela precisava ver
aquela coisa fritando nos destroços, precisava saber que havia acabado de uma vez por todas. Ela se
inclinou para fora, na quina do prédio.
Chamas engolfavam o caminhão, jorrando para cima como folhas bruxuleantes, apagando as estrelas
com espessas nuvens de fumaça. Alguma coisa se mexeu na cabine retorcida: o Exterminador. Ele se
jogou para fora dos escombros tortos, carbonizado, disforme, se atirando no chão. Caiu e rolou de costas,
como uma tocha em movimento. Será que sentia dor? Sarah protegeu o rosto do calor, olhando através
dos dedos. Mesmo daquela distância, era como olhar para dentro de uma fundição de aço. O asfalto
estava derretendo e borbulhando em volta dos detritos flamejantes, também pegando fogo. O
Exterminador continuou a rastejar, sem dor aparente. Ele estava emaranhado nos destroços retorcidos, já sem cabelos e roupas, e a carne remanescente chiando como bacon na chapa de seu próprio endosqueleto
superaquecido.
Lenta e relutantemente, a coisa em chamas parou de se mover até apenas sua cabeça se virar, travando
em tal posição que seus olhos estavam na direção dela. Mesmo morrendo, ele a observava. Sarah soube
ali que sobreviveria pelo resto de seus dias. Ela havia sobrevivido. Mas aquele rosto enegrecido como
uma caveira a assombraria todas as noites de sua vida. Ela o viu queimar por muito tempo até ele ficar
obscurecido por destroços que caíram. Uma leve sensação de triunfo surgiu, mas foi rapidamente
apagada quando se lembrou de Reese.
Ficando de pé, Sarah se esqueceu do Exterminador ardendo nos escombros. Ela cambaleou pelo ar
escaldante, dando a volta no caminhão, tentando ver além das chamas para a caçamba do outro lado. Mas
o fogo estava em seu caminho. E o calor era uma muralha física que ela não podia penetrar. Seu rosto
estava se esticando, tenso, perdendo a umidade.
“Reese!”
Ela teve um vislumbre da caçamba através das chamas que diminuíam. A queima do gás havia formado
um rastro de luz até ela, agora rodeada de fumaça. Será que Reese havia saído? Sarah precisava saber se
ele estava vivo, mais do que queria viver. Ela começou a andar na direção das chamas quando Reese
chamou seu nome.
Ele estava lá, aparecendo através de um bolsão momentâneo entre as labaredas, impedido, como ela
também estava, de atravessar. Agora eles foram para os braços um do outro. Havia fumaça saindo das
roupas de Reese. Sangue empapado em sua pele. Ele gemeu, fraco, quando ela o abraçou, mas Sarah não
conseguiu ser delicada naquele momento. O corpo dela ainda estava reagindo, quase por vontade própria,
apertando-o contra seu peito, beijando seu rosto, murmurando seu amor.
Eles caíram de joelhos no asfalto, presos em um abraço diante do incêndio furioso que consumia o
caminhão e o ciborgue.
“Nós conseguimos”, disse Sarah, embalando-o agora, fazendo o tempo ficar lento, afastando o calor
com seu corpo, protegendo-o das chamas, de sua própria mortalidade, se possível, retribuindo o favor de
seu amor e proteção. Os amantes estavam agarrados e não viram os destroços se mexerem, não
perceberam o tinido do metal quando o aço retorcido foi empurrado do caminho. Não viram o
Exterminador se levantar do fogo como uma fênix.
A máquina havia se desligado temporariamente para permitir o máximo isolamento de calor. Quando a
pele se queimou e a superliga de seu esqueleto começou a brilhar, vermelha, ele ficou novamente on-line,
com sua potência interna crescendo em parcelas cada vez maiores. Ele estava usando o fogo para
fortalecer sua reserva de energia, esperando a cobertura de carne destruída ser expulsa para poder
continuar a missão com mais liberdade de movimentos.
E agora ele se ergueu, fumegante, purificado de sua camada exterior, mais claramente revelando o que
realmente era – um esqueleto cromado com músculos hidráulicos e tendões de cabos flexíveis.
Sarah agora viu o ciborgue por cima do ombro de Reese. Ela o levantou e o puxou em direção ao
prédio. O Exterminador foi atrás, com a perna ruim. Se a articulação do tornozelo não houvesse sido danificada debaixo do caminhão-tanque, poderia facilmente alcançá-los.
Sarah chegou à porta. Trancada. Ela olhou para o chão, procurando alguma coisa, e encontrou um
pedaço de metal quente. O Exterminador, aproximando-se implacavelmente, estava apenas vinte passos
atrás. Ela bateu com o metal na porta e ficou surpresa quando ele bateu no vidro temperado sem quebrá-
lo. Ela bateu novamente, colocando toda a força de seus 48 quilos, e o vidro enfim se rompeu.
Eles pisaram nos cacos e entraram em um corredor. O Exterminador estava chegando mais perto,
aumentando o ritmo de seu manquitolar metálico.
Sarah bateu a porta do corredor atrás de si e conduziu Reese através de cubículos de divisória. O
Exterminador bateu na porta com força, arrancando-a de suas dobradiças, e entrou, cambaleando, para
avistá-los, enquanto Sarah arrastou Reese em volta de uma longa parede de vidro que separava os
escritórios de um corredor de aparência mais industrial.
Havia uma grande porta de metal do outro lado do corredor. As outras salas eram abertas ou tinham
portas baratas de madeira – barreiras inúteis contra seu perseguidor. Sarah foi em direção à porta de
metal. O Exterminador retinia atrás, ganhando velocidade, uma máquina de destruição.
Sarah chegou à porta de incêndio e a empurrou. Reese já estava quase desabando nos braços dela
quando ela o puxou.
Lutou com o peso da porta de incêndio, mas ela não se movia rápido o bastante. A máquina veio para
cima deles. Reese caiu contra a porta e arquejou, batendo-a em seu batente. Ele bateu o ferrolho da porta,
trancando-a um instante antes de o Exterminador a atingir do outro lado.
Sarah e Reese cambalearam para trás. Eles estavam em uma fábrica. Enormes formas sombreadas de
robôs de linha de montagem, desativada durante a noite, estavam paradas. O local parecia quase
totalmente automatizado. O Exterminador se chocou na porta atrás deles e ela se abalou. Reese
cambaleou até um grande painel de disjuntores, abrindo-o.
“O que você tá fazendo?”, gritou Sarah.
“Proteção”, gritou Reese de volta, ligando todas as chaves. Então ela entendeu. Depois que o ciborgue
atravessasse a porta, obviamente sua audição hipersensível poderia detectá-los no labirinto escuro.
Uma a uma, as máquinas adquiriram vida. A esteira começou a se mover com um gemido. Rolos
guincharam, braços de robôs apertavam em vão o ar e pinças mecânicas giravam, conduzindo uma
orquestra irracional controlada por computador, em uma cacofonia de barulhos e rangidos. “O
Exterminador não pode nos rastrear!”, gritou ela.
Ele assentiu, pegou a mão dela e se movimentaram pelo salão cavernoso. Desviando-se de um braço de
aço giratório, correram por fileiras de mecanismos estranhamente animados.
Novamente, a porta atrás deles trovejou quando a coisa do outro lado usou o próprio corpo como
aríete. Mais uma vez, e a porta estremeceu, com a placa de metal se estufando para dentro com aquela
força tremenda.
Quando Reese tropeçou e caiu, Sarah se agachou ao lado dele.
“Levanta, Reese!”
O corpo dele não obedeceu. Sua mente gritava para ir com ela, mas seu corpo já havia ultrapassado o
sofrimento em direção à dormência. Sua única chance seria prosseguir sozinha, deixando-o ali como uma
medida protelatória.
O Exterminador abriu um buraco na porta com um rangido do metal torturado. A luz entrou na fábrica e
caiu sobre a máquina acima de suas cabeças. Sarah olhou na direção da origem e viu o Exterminador
enfiando a mão na fenda para abrir o trinco.
Ela tentou levantar Reese novamente, mas ele estava ficando lento e pesado com a proximidade da
morte. O ciborgue estava arrancando o trinco e entrando. Sarah gritou bem perto do ouvido de Reese:
“Levanta, soldado! Vai, anda! Vê se mexe esse rabo! Mexa-se, Reese!” E de alguma maneira ele
respondeu, quase totalmente por reflexo, às palavras e tons de comando. Ele deixou de lado o peso e
espantou o estupor do choque para pegar a mão estendida de Sarah. Eles se moveram em direção às
máquinas.
O Exterminador atirou a porta de incêndio destruída para o lado e entrou no recinto, analisando. Seu
sistema ótico não podia usar o infravermelho, que havia se sobrecarregado completamente no fogo, então
ele usou uma varredura panorâmica lenta com nitidez aprimorada.
Havia movimento por toda parte, mas nenhum se adequava ao perfil do alvo. Ele andou pela linha de
montagem, mesclando-se completamente aos sibilos e à textura reluzente da fábrica, aparentado aos
mecanismos cegos à sua volta, mas alheio à ironia de que aqueles robôs idiotas foram seus antecedentes
primitivos.
Ele fez a varredura metodicamente, paciente até a eternidade.
Sarah e Reese se moveram agachados ao longo de uma passarela levemente elevada, perdidos entre o
emaranhado de tubos e painéis de controle. Reese pegou um pequeno pedaço de tubo grosso em uma
mesa de trabalho. Momentos depois, enquanto Sarah subia por um duto de exaustão, seu joelho
acidentalmente esbarrou em um botão vermelho em um pequeno painel preto ao lado. Com um ronco
repentino, a chapa de estamparia de uma enorme prensa hidráulica desceu a dois centímetros de sua mão.
Assustada, ela caiu na passarela.
Os sensores auditivos do Exterminador haviam filtrado todos os sons arrítmicos e identificado seus
padrões como insetos e ratos, água pingando de encaixes ruins de tubulação e o alvo se mexendo no
maquinário à frente. Ele girou sua cabeça sobre os rolamentos de precisão e foi em direção ao som.
Reese e Sarah correram até o fim da passarela e deram de cara com uma porta trancada. Praguejando,
Reese deu meia-volta, com Sarah acompanhando rapidamente.
O Exterminador andou em volta de uma unidade de compressores, bloqueando-os, uma silhueta
esquelética na escuridão profunda. Sarah cambaleou para trás. Reese ergueu o pedaço de cano,
segurando-o com as duas mãos, como um taco de beisebol, embora seu braço esquerdo estivesse quase
inutilizado.
“Corre, Sarah!”, gritou para ela, afastando-a.
“Não!” A voz dela saiu como um grito, histérico, incapaz de aceitar o que estava prestes a acontecer.
O Exterminador avançou. O homem-humano só tinha um braço bom e um cano de quatro centímetros
como defesa. O homem-máquina não teve pressa, desviando-se de um golpe e batendo no maxilar de
Reese, quebrando-o. Reese voou para trás contra uma grade de proteção, mas rebateu e voltou
balançando a barra. Acertou o Exterminador bem na têmpora cromada. A cabeça do ciborgue balançou
para trás e depois se voltou para Reese, sem expressão. Os dentes de metal da caveira estavam
reluzentes, no entanto, em um sorriso perpétuo de ódio.
Atacando com a velocidade de um raio, ele esmurrou o braço ruim de Reese. Aquilo acordou Reese
para o estado de alerta mais lúcido que jamais havia sentido. Todo o resto de sua vida parecia um sonho
comparado àquele sofrimento. Ele caiu para trás, urrando. O Exterminador deu um passo para a frente, a
fim de acabar com ele e depois prosseguir para o alvo primário desprotegido, cujo vulto mantinha em seu
campo de visão. Ela estava apoiada contra o trilho da passarela, a cerca de um metro do chão. Não havia
para onde ir, a não ser para a próxima vida. Reese estava tremendo com a última e horrível explosão de
energia interna que ele teria. Procurou em seu casaco a última bomba caseira, ocultando-a da vista do
ciborgue. O isqueiro Bic estava escorregadio em sua mão destruída, mas se acendeu imediatamente
quando ele girou a pedra. No momento seguinte, o estopim já estava queimando e Reese rolou e ficou de
costas, usando toda a sua força quando o ciborgue se abaixou na direção dele.
“Sarah”, gritou ele, “se abaixa!”
Ela viu a bomba acesa na mão dele e percebeu em um instante hiper-real que ele não tinha intenção de
atirá-la. Gritando como um animal atormentado e cego, ela se virou e correu.
O Exterminador estava fechando o punho para enterrá-lo no crânio de Reese quando sentiu a bomba ser
enfiada em sua caixa torácica. Ele tentou retirá-la, mas já era tarde. Sarah bateu nos trilhos, às pressas, e
caiu por cima deles, despencando em direção ao concreto, quando o Exterminador explodiu.
Ela bateu no chão e rolou. Partes de matéria quente passaram voando. A concussão da explosão a atirou
ao chão e ela apagou por um segundo interminável. Quando nadou desesperadamente de volta à
superfície da consciência, viu que o Exterminador estava em pedaços à sua volta. Uma perna lá, um
pistão hidráulico aqui e um pé acolá. Partículas fumegantes de cabos carbonizados e pedaços oleosos de
liga salpicavam o chão. Sucata metálica.
Acabou, finalmente.
Ela se sentou e gritou. A dor atravessou sua perna e Sarah a tateou, às cegas. Estava torcida debaixo
dela, com a panturrilha perfurada, jorrando um sangue grosso. Alguma coisa havia se enterrado em sua
perna. Ela arrastou a perna mole e viu que foi um pedaço afiado do Exterminador que havia sido lançado
diretamente no músculo de sua panturrilha, exatamente entre o tornozelo e o joelho. Mesmo morrendo, o
ciborgue tentara matá-la. Ele estava dentro dela agora, invadindo sua carne, em uma espécie de violação
fria. Sarah queria arrancá-lo de si e puxou o estilhaço. Aquilo doeu mais ainda, mas ela duplicou a
pressão e, num estalo repentino, o pedaço de aço saiu. Ela o largou e ofegou. Quando a dor começou a
passar um pouco, ela abriu os olhos e viu Reese.
Antes que tivesse a chance de registrar uma emoção, soube que ele estava morto. A explosão o atirara a
uma parede e agora seu corpo estava caído no chão, com os olhos virados para ela, mas sem enxergá-la. Havia uma expressão estranha no rosto dele. Uma que jamais poderia ter enquanto estava vivo, pois nem
dormindo ele parecia tão em paz. O soldado havia completado sua missão.
Sarah se arrastou pelo chão na direção dele. Passou por um pedaço grande de metal e só depois que ele
estendeu a mão e pegou seu tornozelo é que ela percebeu se tratar do Exterminador. Ou o que restou dele.
Ele se ajeitou para ficar na posição vertical. Sarah olhou para trás e gritou. Cabos se arrastavam atrás
dele pelo buraco aberto na parte inferior da coluna, onde as articulações dos quadris costumavam ficar.
Mas ele tinha dois braços, um tronco e uma cabeça. Os olhos se fixaram no alvo e ele começou a rastejar
na direção dela. Com sua perna livre e sem ferimentos, ela chutou a coisa, se contorceu e se libertou. Ele
continuou atrás dela.
Sarah não podia mexer a perna quebrada, então se esgueirou pelo chão. Mas não conseguia fugir,
porque agora eles eram iguais, mutuamente aleijados, se arrastando por destroços, o caçador e a caça,
desempenhando seus papéis.
Ela rastejou até uma esteira rolante em movimento. A máquina foi atrás, rolando cerca de três metros
atrás dela. Enquanto a esteira os carregava, os dois se mantiveram parados, se entreolhando, procurando
ganhos estratégicos.
Em seguida, Sarah rolou para o chão e ele reagiu bem mais lentamente do que de costume, caindo atrás
dela a cerca de quatro metros de distância. Ela estava com a vantagem agora e se arrastou na direção do
seu alvo – um alvo adquirido recentemente.
O Exterminador calculou a trajetória dela e se inclinou para interceptá-la. Ele não sabia para onde ela
estava indo e não se importava.
Sarah percebeu que ele chegaria às escadas da passarela mais ou menos ao mesmo tempo. Ela podia se
virar e procurar outro caminho, talvez até mesmo engatinhar mais rápido que ele até a segurança lá fora.
Talvez. Mas ela queria acabar com aquilo. Ela. Não outra pessoa ou outra coisa. Ela ouviu a raspagem
rítmica e constante do aço sobre o metal enquanto o Exterminador a seguia. Ela desceu da passarela em
uma selva escura de máquinas. Mal podia se mover ali, espremida entre dois grandes retângulos de
metal. Sua pele, coberta de suor, a fazia escorregar várias vezes, perdendo terreno. O Exterminador
entrou rastejando atrás dela.
Sarah viu o alvo adiante e se puxou para a frente. O barulho, a raspagem e o zumbido atrás aceleraram.
Ela sentiu aqueles dedos de metal rasparem os pés dela e se encolheu, recuando para longe da coisa.
Devia estar bem perto agora, mas Sarah não tinha mais tempo de olhar para trás, só para a frente.
Ela chegou até a ponta final do espaço para rastejar e se atirou para cima da passarela. Suas pernas
acompanharam a parte superior de seu corpo mais lentamente, derretendo atrás dela em câmera lenta,
enquanto um braço de metal tentava agarrá-la. Ela estendeu a mão para alcançar um portão deslizante de
aço, quando o Exterminador rastejou até o fim e tentou pegá-la. O portão desceu e travou, fazendo um
barulho. O ciborgue se debateu contra o portão de segurança, como um martelo reverberando um enorme
sino.
Sarah caiu para trás, ofegante, olhando para o homem-máquina se pressionando contra a barreira. Ele
estava enfiando o braço pelo estreito espaço entre as barras. O Exterminador fixou o olhar em Sarah, mirando seu pescoço pulsante, e acionou o conjunto hidráulico de seu bíceps. O aço gritou em protesto
conforme o braço se estendeu para agarrar o pescoço dela, com os dedos esticados, flexionando-se,
ávidos por contato. Sarah recuou o máximo que podia contra o maquinário da fábrica que a confinava. O
ciborgue abalroou o portão com o ombro e seus dedos agarraram sua clavícula.
Ela estendeu a mão para o painel de controle que vira antes, esticando o braço ao máximo. Seus dedos
oscilaram no ar a meio centímetro do botão.
O Exterminador se esforçou para a frente, apertando-a com mais força. Ela gritou de raiva, frustração e
um terror devorador, depois deu um impulso para cima, batendo a mão em cima do botão. O botão
vermelho.
O tempo parou.
No silêncio repentino, Sarah viu claramente o Exterminador olhando para ela e sentiu os dedos gelados
se fechando em sua traqueia assim que a prensa hidráulica desceu com quarenta toneladas de pressão e
esmagou o ciborgue entre as chapas de metal. Com grande satisfação, ela observou a prensa lentamente
se fechando no espaço em que o Exterminador estava preso.
O ciborgue estendeu o braço, transferindo todo o poder disponível para aquela mão. Os olhos arderam
na direção dela e os sensores de seu chassi registraram deformações repentinas em grande escala. Nem
mesmo a hiperliga podia resistir ao peso total da prensa, que fazia barulho e soltava vapor, irracional e
implacável, como um Exterminador.
O tronco estava lentamente desabando e seus circuitos altamente protegidos começaram a se esfarelar
em uma poeira de silicone. A força foi interrompida em todas as partes e redirecionada para rotas
alternativas que depois também foram despedaçadas. O microprocessador do cérebro se sobrecarregou,
distorcendo a percepção do Exterminador. A última coisa que ele viu, assim que a prensa achatou um de
seus sensores óticos e seus dedos se fecharam em volta do pescoço do alvo, foi a expressão de agonia e
medo de Sarah dar lugar a um triunfo absoluto, selvagem – e muito humano.
Quando a prensa se arrastou até parar, um pouco antes de sua distância predefinida automaticamente, o
olho remanescente do ciborgue piscou e depois se apagou para sempre.
“Você foi exterminado, filho da puta!”, disse Sarah, sombriamente.