Orgulho e Preconceito

Jane Austen · Capítulo 10 de 62

Páginas do PDF

Orgulho e Preconceito

Capítulo 10

Ly dia se declarou satisfeita. — Oh, sim , seria m uito m elhor esperar até que Jane estivesse restabelecida, e nesse dia, provavelm ente, o capitão Carter j á estaria em Mery ton novam ente.

— E depois que o senhor tiver dado o seu baile — acrescentou — eu insistirei para que os oficiais lhe ofereçam um tam bém . Direi ao coronel Forster que será um a vergonha se eles não o fizerem .

Mrs. Bennet e suas filhas partiram e Elizabeth voltou im ediatam ente para perto de Jane, deixando a sua própria conduta e a da sua fam ília à m ercê das críticas das duas senhoras da casa e de Mr. Darcy ; este últim o, porém , não pôde ser persuadido a j untar as suas às censuras que faziam a Elizabeth na sala, apesar de todas as ironias com que Miss Bingley se referia aos seus belos olhos.

10

O dia decorreu quase exatam ente com o o anterior. Mrs. Hurst e Miss Bingley passaram algum as horas da m anhã com a enferm a, que, em bora lentam ente, continuava a m elhorar. E à noite Elizabeth veio reunir-se ao grupo na sala de estar. Nesse dia, porém , não houve m esa de loo. Mr. Darcy estava escrevendo, e Miss Bingley , sentada a seu lado, observava os progressos da carta que ele estava escrevendo, desviando continuadam ente a sua atenção, com as observações que transm itia para a sua irm ã. Mr. Hurst e Mr. Bingley estavam j ogando piquet, e Mrs. Hurst observava o j ogo.

Elizabeth fazia um trabalho de agulha; divertia-se com o que se estava passando entre Darcy e a sua com panheira. Os contínuos elogios da m oça, a respeito da letra, da igualdade das linhas, ou do com prim ento da carta, em contraste com a perfeita indiferença com que o outro os recebia, form avam um curioso diálogo, confirm ando exatam ente a opinião que Elizabeth tinha a respeito de am bos.

— Miss Darcy vai ficar encantada com a carta!

Ele não respondeu.

— Escreve m uito depressa!

— Está enganada, escrevo até devagar.

— Quantas cartas o senhor não escreverá por ano! Cartas de negócios tam bém .

Penso que deve ser odioso escrevê-las!

— Felizm ente para a senhora, é a m im que incum be escrevê-las.

— Não se esqueça de dizer à sua irm ã que eu tenho m uitas saudades dela.

— Já o disse um a vez, a seu pedido.

— Acho que o senhor não está gostando da sua pena. Deixe-m e apará-la para o senhor. Eu sei aparar penas m uito bem .

— Obrigado. Mas eu sem pre aparo as m inhas próprias penas.

— Com o consegue escrever tão regularm ente?

Darcy ficou em silêncio.

— Diga à sua irm ã que estou radiante de saber que ela tem feito progressos na harpa. Escreva-lhe tam bém que fiquei encantada com o lindíssim o desenho que fez para um a m esa e que o acho infinitam ente superior ao de Miss Grantley .

— A senhora m e dará licença de deixar os seus entusiasm os para a próxim a carta? No m om ento não tenho espaço para exprim i-los condignam ente.

— Oh, não tem im portância, eu a verei em j aneiro. Mas o senhor sem pre escreve cartas assim tão longas e encantadoras para a sua irm ã, Mr. Darcy ?

— Em geral as m inhas cartas são longas, m as não m e cabe j ulgar se são encantadoras.

— Considero com o regra que um a pessoa que escreve um a carta longa com facilidade não pode escrever m al.

— Isto não serve com o elogio para Darcy , Caroline — exclam ou seu irm ão —,

pois ele não escreve com facilidade. Ele se esforça dem ais para encontrar quatro sílabas, não é verdade, Darcy ?

— O m eu estilo é m uito diferente do seu.

— Oh — gritou Miss Bingley —, Charles escreve da m aneira m ais descuidada, escreve as coisas pela m etade e depois risca o resto.

— As ideias m e ocorrem tão rapidam ente que não tenho tem po de exprim i-las. É

por isso que, às vezes, as m inhas cartas não transm item nenhum a ideia aos m eus correspondentes...

— Sua hum ildade, Mr. Bingley — disse Elizabeth —, deve desarm ar toda censura.

— Nada é m ais enganoso do que a aparência da hum ildade — disse Darcy . —

Às vezes é apenas pouco caso e, outras vezes, um a m aneira indireta de se gabar.

— E qual dessas duas explicações você acha que cabe à m inha m odéstia, neste caso?

— A m aneira indireta de se gabar. Na realidade você se orgulha realm ente das suas deficiências no escrever, porque considera que esses defeitos procedem de um a rapidez de pensam ento e descuido na execução, coisas que você acha, se não estim áveis, pelo m enos altam ente interessantes. A capacidade de fazer as coisas rapidam ente é sem pre m uito apreciada pelo possuidor, que frequentem ente não repara nas im perfeições da execução. Quando você disse a Mrs. Bennet esta m anhã que se algum dia resolvesse deixar Netherfield partiria em cinco m inutos, estava fazendo um a espécie de panegírico ou de elogio a si m esm o. E no entanto, não há nada m uito louvável num a precipitação que acarretaria, forçosam ente, a necessidade de deixar coisas im portantes inacabadas, e não pode trazer nenhum a vantagem real, nem para você próprio, nem para ninguém m ais.

— Isto é dem ais — respondeu Bingley —; lem brar-se, de noite, de todas as tolices que eu disse de m anhã! No entanto dou-lhe a m inha palavra de que falei sinceram ente e de que ainda neste m om ento acredito no que lhe disse. Pelo m enos, portanto, eu não m e atribuí esse traço de precipitação inútil apenas para m e gabar diante das senhoras.

— Acredito na sua sinceridade; m as não estou absolutam ente convencido de que se resolveria a partir com tanta rapidez. Sua conduta estaria tão à m ercê do acaso com o a de qualquer outro hom em ; e se no m om ento, no instante de m ontar a cavalo, um am igo lhe dissesse: “Bingley , é m elhor você ficar até a próxim a sem ana”, você aceitaria im ediatam ente o conselho. E se lhe fizessem outra sugestão, ficaria provavelm ente um m ês.

— Com isto apenas prova que Mr. Bingley não fez j ustiça ao seu próprio caráter.

O senhor o pintou com m uito m ais exatidão do que ele próprio.

— Sinto-m e extrem am ente grato — disse Bingley — pela sua m aneira de converter o que o m eu am igo disse num elogio à doçura do m eu gênio, m as creio

que está atribuindo àquele senhor um a intenção que ele não tinha, pois ele decerto pensaria que, em tais circunstâncias, eu deveria recusar certam ente a sugestão e partir im ediatam ente, com o tinha resolvido.

— Consideraria, Mr. Darcy , a precipitação da sua decisão original com pensada pela sua obstinação em aderir a ela?

— Dou-lhe a m inha palavra que não posso explicar exatam ente o que ele quis dizer. Darcy deve falar por si m esm o.

— A senhora está querendo que eu j ustifique um a opinião que resolveu m e atribuir, e a qual não subscrevo. Aceitando, porém , o caso tal com o a senhora o coloca, é preciso que não se esqueça, Miss Bennet, de que o suposto am igo que desej ou que Bingley ficasse em casa e adiasse os seus planos contentou-se em exprim ir o seu desej o sem oferecer nenhum argum ento que j ustificasse o seu pedido.

— Ceder facilm ente, prontam ente, à persuasão de um am igo não é, então, um m érito aos seus olhos?

— Ceder sem convicção não depõe a favor do bom senso de nenhum a dessas pessoas.

— Mr. Darcy , o senhor não m e parece conceder nenhum a im portância à influência da am izade e da afeição. A consideração por um am igo faz com que a gente ceda prontam ente a um pedido, m esm o que esse am igo não ofereça argum entos em apoio do que pede. Não estou considerando, particularm ente, o caso em discussão. Devem os esperar, talvez, até que ele ocorra, para discutir o acerto do seu procedim ento. Mas em geral, nos casos com uns entre am igos, quando um deles é solicitado pelo outro para que altere um a decisão de pouca m onta, pensa o senhor que aquela pessoa que cedeu, sem exigir outros argum entos, procedeu realm ente m al?

— Não será preferível, antes de continuar no assunto, que determ inem os com m ais precisão o grau de im portância real do pedido? Bem com o o grau de intim idade existente entre as partes?

— Sem dúvida — exclam ou Bingley —; vam os particularizar, e não esqueçam os a estatura com parativa dos am igos, pois isto tem m ais im portância do que supõe Miss Bennet. Asseguro-lhe que se Darcy não fosse tão alto em relação à m inha pessoa, eu não o trataria com tanta deferência. Declaro que não conheço nada m ais tem ível do que Darcy em certas ocasiões e em determ inados lugares; especialm ente na sua própria casa e num a noite de dom ingo, quando ele não tem nada a fazer.

Mr. Darcy sorriu, m as Elizabeth acreditou perceber que ele tinha ficado ofendido e por isso conteve a sua risada. Miss Bingley , ressentida com o ridículo que o outro sofrera, censurou violentam ente o irm ão pelas tolices que dissera.

— Eu com preendo a sua intenção, Bingley — disse o am igo —, você detesta discussões e quer acabar com esta.

— Talvez. As discussões se assem elham às disputas. Se você e Miss Bennet quiserem adiar a sua até que eu saia da sala, ficarei m uito agradecido. Depois poderão falar o que quiserem a m eu respeito.

— O que o senhor pede — disse Elizabeth — não é um sacrifício da m inha parte, e quanto a Mr. Darcy , acho que precisa acabar a sua carta.

Mr. Darcy aceitou o conselho e term inou a carta.

Finda esta ocupação ele pediu a Miss Bingley e a Elizabeth que fizessem um pouco de m úsica. Miss Bingley se dirigiu alegrem ente para o piano e depois de um am ável oferecim ento a Elizabeth para que ela com eçasse, oferecim ento que a outra rej eitou, com a m esm a am abilidade e m aior ênfase, sentou-se e com eçou. Mrs. Hurst cantou com a irm ã e, enquanto isto, Elizabeth, que folheava cadernos de m úsica, que estavam sobre o piano, não pôde deixar de observar que os olhos de Mr. Darcy se voltaram frequentem ente na sua direção. Não podia supor que fosse um obj eto de adm iração para um hom em tão im portante. No entanto, achava ainda m ais estranho que ele a estivesse olhando por antipatia.

Acabou im aginando, entretanto, que o que atraía a sua atenção era algo errado e repreensível que existia na sua pessoa, e que contrastasse, aos olhos de Mr.

Darcy , com as qualidades dos outros presentes. A suposição não a penalizou.

Darcy lhe era indiferente dem ais para que desej asse a sua aprovação.

Depois de tocar algum as canções italianas, Miss Bingley atacou um a alegre canção escocesa e pouco depois Mr. Darcy , aproxim ando-se de Elizabeth, disselhe:

— A senhora não se sente inclinada a aproveitar esta oportunidade para dançar?

— perguntou.

Ela sorriu, porém não disse nada. Repetiu a pergunta, um pouco espantado com o seu silêncio.

— Oh — disse Elizabeth —, ouvi o que perguntou antes, m as não pude determ inar im ediatam ente o que deveria responder. O senhor queria que eu o fizesse afirm ativam ente para ter o prazer de desprezar as m inhas preferências; m as eu sem pre gosto de perturbar esses estratagem as e roubar às pessoas o lance que prem editam . Resolvi portanto responder-lhe que não desej o absolutam ente dançar; e agora despreze-m e, se ousar.

— Asseguro-lhe que não ouso.

Elizabeth, que tencionava ofendê-lo, ficou espantada com a sua am abilidade.

Mas havia no tom de Elizabeth um m isto de doçura e de m alícia que dificilm ente ofenderia alguém . E Darcy nunca se sentira tão fascinado por um a m ulher com o estava por aquela. Acreditava realm ente que se não fosse a inferioridade das relações de Elizabeth encontrar-se-ia certam ente em perigo.

Miss Bingley viu, ou suspeitou o bastante para se encium ar, e a sua grande ansiedade pelo restabelecim ento da sua querida am iga Jane crescia com o desej o de se ver livre de Elizabeth. Tentava frequentem ente provocar a antipatia

de Darcy pela sua hóspede, falando no seu suposto casam ento e planej ando a felicidade que Darcy encontraria num a tal aliança.

— Espero — disse ela, enquanto passeavam j untos, no dia seguinte, pelo pequeno bosque —, espero que dê a entender à sua sogra, quando tiver lugar este desej ável acontecim ento, a vantagem de ser m enos tagarela; e se o puder, tam bém , cure as m eninas m ais m oças da m ania de perseguir os oficiais. E se m e perm ite abordar um assunto tão delicado, procure reprim ir aquele pequeno toque de pretensão e im pertinência que a sua dam a possui.

— Tem algum a outra proposta a fazer em prol da m inha felicidade dom éstica?

— Oh, sim , faça pendurar os retratos do seu tio e da sua tia Philips na sua galeria de Pem berley . Ponha-os ao lado do seu tio-avô, o j uiz. São da m esm a profissão, se bem que trabalhem em ram os diferentes. Quanto ao retrato da sua Elizabeth, nem deve tentar m andar pintá-lo, pois, que pintor poderia fazer j ustiça àqueles belos olhos?

— Não seria realm ente fácil reproduzir a sua expressão, m as a cor, o desenho, os cílios, tão delicados, podem ser copiados.

Neste m om ento encontraram -se com Mrs. Hurst e Elizabeth, que vinham por outro cam inho.