Orgulho e Preconceito
Capítulo 17
— Creio que é am bas estas coisas no m ais alto grau — replicou Wickham . — Há m uitos anos que não a vej o, m as lem bro-m e perfeitam ente que nunca sim patizei com ela e que as suas m aneiras eram autoritárias e insolentes. Ela tem fam a de ser extraordinariam ente sensata e esperta. Mas creio que essas habilidades são parte devidas à sua situação social e à sua fortuna, às suas m aneiras autoritárias e em parte tam bém ao orgulho do seu sobrinho, que j ulga só poder se dar com pessoas im portantes.
Elizabeth concordou que tinha tudo explicado m uito razoavelm ente e eles continuaram a conversar com m útua satisfação, até que o j antar pôs fim às partidas de cartas, cabendo às dem ais senhoras a sua quota nas atenções de Mr.
Wickham . Durante o j antar, o barulho foi tão grande que não se podia conversar; m as as m aneiras de Mr. Wickham agradaram a todo m undo. Tudo o que dizia era bem -dito e fazia tudo com graça. Elizabeth partiu m uito entusiasm ada com ele. Durante todo o cam inho para casa não podia pensar noutra coisa a não ser em Mr. Wickham e nas palavras que ele lhe dissera; m as não encontrou nenhum a ocasião de m encionar o seu nom e, pois nem Ly dia nem Mr. Collins calaram a boca um só instante. Ly dia falou ininterruptam ente no j ogo de peixe que tinha perdido e sobre o que ganhou. E Mr. Collins não cessou um só instante de descrever a am abilidade de Mr. e de Mrs. Philips, declarando que não se im portava absolutam ente com suas perdas no j ogo, enum erando todos os pratos do j antar, desculpando-se continuam ente por estar incom odando as suas prim as no assento estreito da carruagem . Estava longe de esgotar todos os seus assuntos, quando a carruagem parou diante da casa de Longbourn.
17
Elizabeth relatou a Jane, no dia seguinte, tudo o que se tinha passado entre ela e Mr. Wickham . Jane ouviu a irm ã com espanto e atenção. Não podia acreditar que Mr. Darcy fosse tão indigno da am izade de Mr. Bingley . E no entanto não estava na sua natureza duvidar da sinceridade de um rapaz tão bem -apessoado com o Wickham . A ideia de que ele tivera de suportar realm ente tanta ingratidão era suficiente para despertar-lhe todos os sentim entos ternos; e portanto nada lhe restava fazer senão pensar bem de am bos, defender a conduta dos dois e levar à conta do acaso e do erro tudo aquilo que não podia ser explicado de outra m aneira.
— Am bos foram enganados — disse ela — de um m odo ou de outro, em circunstâncias das quais não podem os ter nenhum a ideia. Pessoas interessadas se interpuseram talvez entre eles com as suas intrigas. Enfim , é-nos im possível conj eturar as causas ou circunstâncias que possam tê-los afastado um do outro, sem que a culpa recaia sobre nenhum a das partes.
— Muito bem , e agora m inha querida Jane, que é que você tem a dizer a favor dessas pessoas interessadas que provavelm ente se envolveram no assunto? Acha tam bém que são inocentes? Ou devem os atribuir a culpa a alguém ?
— Pode rir quanto quiser, m as não m e fará desistir das m inhas opiniões. Minha querida Lizzy , pensa só na horrível situação em que ficaria Mr. Darcy se ele tivesse tratado de um a tal m aneira o favorito de seu pai, um rapaz a quem o pai prom etera a sua proteção. E im possível. Nenhum hom em dos m ais indiferentes sentim entos, ninguém que tivesse estim a pelo seu caráter seria capaz disto.
Poderiam os seus m ais íntim os am igos se enganar a este ponto a seu respeito?
Oh, não.
— É m ais fácil eu acreditar que Mr. Bingley está sendo iludido do que supor que Mr. Wickham tenha inventado a história que m e contou ontem à noite. Nom es, fatos, tudo m encionado sem cerim ônia. Se não for verdade, Mr. Darcy que o contradiga. Além disso, ele parecia sincero.
— É de fato difícil; a gente não sabe o que pensar.
— Desculpe, a gente sabe exatam ente o que pensar.
Mas Jane via apenas com clareza um único ponto: que caso Mr. Bingley tivesse sido iludido, teria m uito que sofrer, quando aqueles fatos se tornassem públicos.
Nesse m om ento as duas m oças, que passeavam no pequeno bosque, foram cham adas devido à chegada de um daqueles a respeito de quem estavam falando. Mr. Bingley e suas irm ãs vieram convidar pessoalm ente as m eninas para o tão esperado baile em Netherfield, cuj a data fora fixada para a próxim a terça-feira. As irm ãs de Mr. Bingley declararam que estavam m uito satisfeitas de falar com a sua querida am iga, pois não tinham ocasião de vê-la há m uito tem po. Perguntaram várias vezes o que é que ela fizera desde o seu regresso de
Netherfield. Ao resto da fam ília m al prestaram atenção. Evitaram Mrs. Bennet o m ais que puderam , falaram um pouco com Elizabeth e ignoraram a presença das outras pessoas. Partiram logo, levantando-se das cadeiras com um a energia que surpreendeu o irm ão e apressando-se com o se desej assem se ver livres das am abilidades de Mrs. Bennet. A perspectiva do baile em Netherfield era extrem am ente agradável para todas as m oças da fam ília. Mrs. Bennet achou que devia considerar o baile com o um a hom enagem à sua filha m ais velha e ficou extrem am ente lisonj eada pelo convite que recebera pessoalm ente de Mr.
Bingley , em vez de um sim ples e cerim onioso cartão. Jane im aginou a noite agradável que passaria em com panhia de suas duas am igas e as atenções que receberia de Mr. Bingley . Elizabeth encarava com prazer a perspectiva de dançar m uitas vezes com Mr. Wickham e de ler a confirm ação de tudo o que sabia no rosto e nas m aneiras de Mr. Darcy . A felicidade que Katherine e Ly dia antecipavam não dependia de determ inada pessoa ou acontecim ento, pois, em bora com o Elizabeth tencionassem dançar m etade da noite com Mr.
Wickham , este não era de nenhum m odo o único par que as poderia satisfazer e para elas um baile era de qualquer m aneira um grande acontecim ento. E até Mary assegurou à fam ília que não se desinteressava da festa.
— Contanto que eu possa ter as m anhãs livres — disse ela —, é o que m e basta.
Não acho que sej a um sacrifício dedicar ocasionalm ente um a noite às diversões sociais. A sociedade tem certos direitos sobre nós. Sou da opinião daqueles que consideram certos intervalos de recreação e divertim ento desej áveis para todo o m undo.
Elizabeth sentia-se de tão bom hum or que, em bora não dirigisse m uitas vezes a palavra a Mr. Collins, exceto quando a isto era obrigada, não pôde deixar de perguntar se ele tencionava aceitar o convite de Mr. Bingley e se j ulgava apropriado tom ar parte naquele divertim ento m undano; com grande surpresa ficou sabendo que Mr. Collins não tinha o m enor escrúpulo a esse respeito e que nem de longe tem ia um a repreensão do arcebispo ou de Lady Catherine de Bourgh por tom ar parte num a dança.
— Sou de opinião — disse ele — que um baile desta espécie, oferecido por um rapaz de caráter a pessoas respeitáveis não pode ter nenhum a consequência m á.
Estou tão longe de fazer qualquer obj eção à dança, que m e sentirei honrado em dançar com todas as m inhas belas prim as, durante aquela noite. E aproveito a oportunidade de solicitar a sua m ão, Miss Elizabeth, para as duas prim eiras danças, preferência que, espero, a m inha prim a Jane atribuirá à sua verdadeira causa e não a qualquer desrespeito para com a sua pessoa.