Orgulho e Preconceito
Capítulo 11
— Não sabia que estava passeando — disse Miss Bingley , confusa, tem erosa de que as suas palavras pudessem ter sido ouvidas.
— Você nos tratou abom inavelm ente — disse Mrs. Hurst —, saindo assim sem nos avisar.
E tom ando o braço de Mr. Darcy , deixou Elizabeth sozinha. O cam inho dava apenas para três pessoas. Mr. Darcy percebeu a grosseria e disse im ediatam ente:
— Este cam inho não é suficientem ente largo para nós todos. Seria m elhor passearm os na avenida.
Mas Elizabeth, que não tinha a m enor vontade de ficar com eles, respondeu, com um sorriso:
— Não, não, fiquem onde estão. Form am assim um grupo encantador. Um a quarta pessoa estragaria o pitoresco. Adeus...
Em seguida ela se afastou correndo, satisfeita com a ideia de que daí a um ou dois dias estaria novam ente em casa. Jane estava tão m elhor que tencionava sair do quarto, naquela noite, durante algum as horas.
11
Quando as senhoras se retiraram depois do j antar, Elizabeth correu para perto da irm ã e, agasalhando-a contra o frio, conduziu-a até a sala, onde a convalescente foi saudada pelas suas duas am igas com grandes dem onstrações de alegria.
Elizabeth nunca vira aquelas senhoras se portarem tão am avelm ente com o durante a hora que decorreu antes de os cavalheiros aparecerem . Elas sabiam conversar adm iravelm ente, sabiam descrever um baile com todos os detalhes, contar um episódio com graça e caçoar espirituo sam ente dos seus conhecidos.
Mas quando os cavalheiros entraram , Jane deixou de ser o centro das suas atenções. Os olhos de Miss Bingley se voltaram im ediatam ente para Darcy ; e encontrou logo o que dizer. Ele se dirigiu logo para Miss Bennet, dando-lhe am avelm ente os parabéns; Mr. Hurst tam bém se inclinou ligeiram ente e afirm ou que estava m uito contente. Mas Bingley foi o único que m ostrou realm ente entusiasm o e efusão. Cercou Miss Bennet de todas as atenções possíveis. Passou a prim eira m eia hora aum entando o fogo na lareira, para que ela não sofresse a diferença de tem peratura; fê-la m udar para o outro lado da lareira, para que ficasse o m ais distante possível da porta. Em seguida sentou-se a seu lado e conversou quase que exclusivam ente com ela. Elizabeth, que fazia o seu trabalho no canto oposto da sala, via tudo isto com grande prazer. Depois do chá, Mr.
Hurst sugeriu, em vão, à sua cunhada, que fizessem um a m esa de j ogo. Ela sabia que Mr. Darcy não desej ava j ogar. E a proposta pública de Mr. Hurst tam bém foi rej eitada. Miss Bingley lhe assegurou que ninguém queria j ogar. E o silêncio geral que acom panhou estas palavras pareceu j ustificá-las. Mr. Hurst não teve portanto outra coisa a fazer senão se estender num dos sofás da sala e dorm ir.
Darcy escolheu um livro para ler. Miss Bingley o im itou. E Mrs. Hurst, ocupada principalm ente em brincar com os seus braceletes e anéis, tom ava de vez em quando parte na conversa entre Miss Bennet e o seu irm ão.
Miss Bingley estava tão ocupada em observar os progressos da leitura de Mr.
Darcy quanto em ler o seu próprio livro; a todo m om ento fazia um a pergunta ou olhava a página do livro de Mr. Darcy , sem conseguir, entretanto, travar conversação. Ele se lim itava a responder às suas perguntas e continuava a ler.
Afinal, exausta da tentativa de se distrair com o seu próprio livro, que escolhera apenas porque era o segundo volum e da obra que Darcy lia, deu um grande bocej o e disse...
— Com o é agradável passar a noite desse m odo... Declaro que não há divertim ento m elhor do que a leitura. A gente se cansa m enos facilm ente de um livro do que de qualquer outra coisa. Quando eu tiver um a casa própria, sentir-m e-ei infeliz enquanto não possuir um a grande biblioteca.
Ninguém respondeu. Ela tornou a bocej ar, pôs o seu livro de lado e relanceou o olhar pela sala, procurando outro divertim ento. Ouvindo o seu irm ão falar para
Miss Bennet acerca de um baile, virou-se subitam ente para ele e disse:
— Por falar nisto, Charles, você está realm ente resolvido a dar um baile em Netherfield? Aconselho-o, antes de tom ar qualquer decisão, a consultar os desej os dos presentes. Ficaria m uito surpreendida se não existisse um a pessoa aqui presente para quem um baile fosse antes um castigo do que um prazer.
— Se você se refere a Darcy — exclam ou Bingley —, ele pode ir para a cam a, se quiser, antes do baile com eçar. Mas quanto ao baile, é um a coisa decidida; e assim que Nicholls tiver feito os seus preparativos culinários, enviarei os m eus convites.
— A m eu ver, os bailes seriam infinitam ente m ais divertidos se fossem organizados de um a m aneira diferente; m as com o são feitos, em geral, há sem pre neles algo de insuportavelm ente enfadonho. Seria m uito m ais racional que, em vez de dança, a conversação estivesse na ordem do dia.
— Muito m ais racional, talvez, m inha cara Caroline, m as nem de longe tão divertido.
Miss Bingley não respondeu e pouco depois se levantou e saiu da sala. Sua figura era elegante, sabia andar bem ; m as Darcy , a quem se dirigiam essas exibições, continuava inflexivelm ente absorto no seu livro. Desesperada, resolveu tentar um últim o esforço e, virando-se para Elizabeth, disse:
— Miss Eliza Bennet, deixe-m e persuadi-la a seguir o m eu exem plo. Venha dar um a volta pela sala. Asseguro-lhe que é m uito agradável depois de ter ficado tanto tem po na m esm a posição.
Elizabeth ficou surpreendida, m as concordou im ediatam ente. Miss Bingley alcançou o que realm ente tencionava com aquela am abilidade; m as Mr. Darcy levantou os olhos, não m enos surpreendido do que Elizabeth com a inesperada cortesia da sua inim iga, e inconscientem ente fechou o livro. Im ediatam ente foi convidado a reunir-se ao grupo, m as recusou, observando que só podia im aginar dois m otivos que j ustificassem aquela cam inhada pela sala, e que, com qualquer um deles, a sua presença só poderia interferir. Que quereria Darcy dizer com isto? — perguntou Miss Bingley a si m esm a. Em seguida perguntou a Elizabeth se ela com preendia aquilo.
— Absolutam ente — respondeu a outra. — Mas pode ficar certa de que ele nos quis criticar e a m elhor m aneira de desapontá-lo será não lhe pedir nenhum a explicação.
Miss Bingley , entretanto, sentia-se incapaz de desapontar Mr. Darcy e portanto insistiu para que explicasse os dois m otivos que invocara.
— Não faço a m enor obj eção — respondeu Darcy . —Se escolheram este m étodo de passar a noite, é porque têm com certeza algum a confidência a fazer, algum assunto secreto a discutir, ou então porque acham que andando exibem da m elhor m aneira as suas graciosas figuras; no prim eiro caso, eu m e tornaria indiscreto se aceitasse o seu convite, e no segundo posso adm irá-las m uito m elhor
na posição em que estou.
— Oh — exclam ou Miss Bingley —, nunca ouvi nada tão abom inável. Com o poderem os castigá-lo?
— Nada m ais fácil, se esta é a sua intenção — respondeu Elizabeth. —
Provoque-o, caçoe dele. Íntim os com o são, deve saber um m eio de fazê-lo.
— Juro-lhe que não sei. Asseguro-lhe que a m inha intim idade nunca m e ensinou tal coisa. Provocar pessoas im perturbáveis, dotadas de um a tal presença de espírito! Não, não! Acho que ele pode nos desafiar neste terreno. E quanto a caçoar dele, não vam os nos expor ao ridículo de rir sem m otivo.
— É im possível rir de Mr. Darcy ! — gritou Elizabeth. — Ele possui um a virtude m uito rara, que é de ser im perm eável ao ridículo. Espero que continue a ser rara, pois eu consideraria um a grande infelicidade possuir m uitas relações desse gênero. Gosto m uito de rir.
— Miss Bingley m e descreveu m elhor do que sou — respondeu Darcy . — O
m elhor e o m ais sábio dos hom ens, e m esm o a m ais sábia e a m elhor das ações pode ser ridicularizada por quem faz da ironia o seu único fim na vida.
— Existem certam ente pessoas assim — replicou Elizabeth. — Mas espero que eu não sej a um a delas. Espero que nunca hei de ridicularizar o que é sábio e bom . Loucuras e absurdos, m anias e inconsistências de fato m e divertem . E eu rio delas quando posso. Mas isto, penso eu, são coisas de que o senhor carece precisam ente.
— Talvez isto sej a im possível para qualquer um , m as sem pre m e esforcei por evitar estas fraquezas, capazes de expor ao ridículo um a grande inteligência.
— Tais com o a vaidade e o orgulho.
— Sim , a vaidade é de fato um a fraqueza, m as o orgulho pode ser bem -
controlado, quando existe um a verdadeira superioridade de inteligência.
Elizabeth se virou para esconder um sorriso.
— Presum o que o exam e a que subm eteu Mr. Darcy estej a term inado — disse Miss Bingley . — E qual é o resultado?
— Fiquei perfeitam ente convencida de que Mr. Darcy não tem defeitos. Ele, aliás, não esconde a opinião que tem de si próprio.
— Não — disse Darcy —, não tenho tal pretensão. Possuo bastantes defeitos, m as não de com preensão, assim o espero. Quanto ao m eu gênio, não garanto que sej a m uito bom , creio que é um pouco ríspido dem ais. Sim , certam ente ríspido dem ais para as conveniências do m undo. Não consigo esquecer as loucuras e os vícios dos outros tão rapidam ente com o devia. Nem as ofensas que m e fazem .
Meus sentim entos não se inflam am ao m enor esforço ou tentativa. Meu tem peram ento pode ser cham ado rancoroso. Um a vez perdida a boa opinião que tenho de um a pessoa, está perdida para sem pre.
— Isto é realm ente um defeito — exclam ou Elizabeth. — O ressentim ento im placável é um traço que m arca um caráter. O senhor soube escolher bem o
seu defeito. Realm ente, não posso m e rir dele. Não precisa ter m edo de m im .
— Acho que existe em todos os tem peram entos um a tendência para determ inada form a do m al, um vício natural que nem m esm o a m elhor educação pode extinguir.