Orgulho e Preconceito

Jane Austen · Capítulo 27 de 62

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Orgulho e Preconceito

Capítulo 27

Mas Elizabeth, m enos arguta neste caso do que no de Charlotte, não censurou a Wickham o seu desej o de independência. Nada, ao contrário, poderia ser m ais natural. E em bora tivesse razões para supor que Mr. Wickham não renunciara a ela sem algum as lutas, estava pronta a adm itir que aquela renúncia era um a m edida sensata e desej ável para am bos. E queria sinceram ente a felicidade do seu antigo adm irador.

Tudo isto foi com unicado a Mrs. Gardiner; e depois de relatar estas circunstâncias continuou da seguinte m aneira:

Estou convencida, agora, m inha cara tia, de que nunca m e apaixonei realm ente.

Pois se eu tivesse experim entado essa paixão pura e elevada, detestaria agora a sim ples m enção do seu nom e. E desej aria a Mr. Wickham todos os m ales. Mas não só os m eus sentim entos continuam cordiais para com ele, m as são até m esm o im parciais para com Miss King. Não consigo encontrar em m im nenhum ódio para com ela e continuo a pensar que ela é um a m oça m uito decente. Em tudo isto não pode haver am or. Minha intenção foi coroada de êxito. Em bora eu m e tornasse um obj eto de m aior interesse por todos os m eus conhecidos, caso estivesse perdidam ente apaixonada, não posso dizer que lam ente a m inha com parativa insignificância. A im portância custa às vezes um preço dem asiado elevado. Kitty e Ly dia tom am essa traição m uito m ais a sério do que eu. São ainda m uito ignorantes acerca dos cam inhos do m undo e não chegaram ainda à m ortificante convicção de que os belos rapazes precisam tanto de dinheiro para viver quanto os m enos favorecidos pela beleza.

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E sem m aiores acontecim entos na fam ília de Longbourn, j aneiro e fevereiro, algum as vezes frios e não raro lam acentos, passaram sem outras diversões senão passeios ocasionais a Mery ton. Março deveria levar Elizabeth para Hunsford. Ela não tinha encarado a princípio com m uita seriedade a possibilidade de ir, m as Charlotte contava com ela e aos poucos Elizabeth se habituou a pensar na visita com m ais interesse, bem com o com m ais certeza. A ausência aum entara o desej o de rever Charlotte e enfraquecia a sua repugnância por Mr. Collins. Havia tam bém o sabor da novidade. E além disso, com a m ãe que tinha, e irm ãs tão pouco cam aradas, a sua casa não seria um lugar m uito divertido. Além disso a viagem lhe daria a oportunidade de se avistar com Jane. Em sum a, à m edida que o dia se aproxim ava, m enos desej ava adiar a partida. Tudo pois ficou com binado de acordo com os planos de Charlotte. E Elizabeth iria em com panhia de Sir William e da sua segunda filha. Ao plano prim itivo acrescentou-se um novo detalhe: eles passariam a noite em Londres.

Elizabeth sentia apenas ter de deixar o seu pai, que certam ente sentiria a sua falta; e que, chegado o dia, se m ostrou tão pouco satisfeito com a sua partida, que recom endou à filha que lhe escrevesse e quase prom eteu responder a sua carta.

A despedida entre Elizabeth e Mr. Wickham foi perfeitam ente cordial. E da parte dele, ainda m ais do que isto. Os seus planos atuais não o faziam esquecer que Elizabeth fora a prim eira a despertar e a m erecer a sua adm iração. A prim eira que o ouvira e se com padecera dele; e quando disse adeus a Elizabeth, desej ou-lhe todos os prazeres, lem brou-lhe a descrição que fizera de Lady Catherine de Bourgh e disse que esperava que a opinião de am bos a respeito daquela senhora, bem com o sobre todas as outras pessoas, coincidisse. Em todas as suas palavras transpareciam , enfim , solicitude e interesse. Elizabeth sentiu que esses sentim entos sem pre a uniriam a ele num a sincera afeição. E separou-se de Mr.

Wickham convencida de que, casado ou solteiro, ele sem pre representaria a seus olhos o ideal de um a pessoa agradável e sedutora.

Os seus com panheiros de viagem não eram capazes de fazer em palidecer a lem brança de Mr. Wickham . Sir William Lucas e sua filha Maria, m oça bem -

hum orada m as de cabeça tão oca quanto o pai, nada tinham a dizer que fosse digno de atenção, e o que eles falavam produzia em Elizabeth o m esm o prazer que o arrastar de um a cadeira. Elizabeth gostava de observar os ridículos, m as conhecia Sir William dem asiado bem . Nenhum a das m aravilhas que contava a respeito do seu título e de sua apresentação na Corte eram novidades para ela. E

as suas am abilidades eram tão gastas quanto as suas inform ações.

Era um a viagem de 24 m ilhas apenas. E eles partiram tão cedo que chegaram a Gracechurch Street ao m eio-dia. Ao se aproxim arem da casa de Mr. Gardiner, avistaram Jane na j anela da sala. Quando chegaram na entrada, ela estava lá

para saudá-los. Elizabeth, perscrutando ansiosam ente a fisionom ia da irm ã, teve o prazer de constatar que o seu rosto continuava saudável e lindo com o sem pre.

Sobre os degraus da escada, estavam vários m eninos e m eninas, que não tinham podido resistir à tentação de ver a sua prim a chegar e não tinham tido a paciência de esperar na sala. Mas, tím idos, pois há um ano não a viam , não ousavam descer. Tudo foi alegria e doçura. O dia passou da form a m ais agradável. De m anhã, fizeram com pras e à noite foram ao teatro.

Afinal Elizabeth conseguiu conversar com a sua tia. O seu prim eiro assunto foi Jane. E sentiu m ais tristeza do que espanto, ao ouvir, em resposta às suas m inuciosas perguntas, que em bora Jane sem pre lutasse para conservar a sua coragem , atravessava períodos de depressão. Era razoável no entanto acreditar que não durariam m uito tem po. Mrs. Gardiner deu tam bém os detalhes da visita de Miss Bingley . E repetiu conversas que ela, Mrs. Gardiner, tinha tido com Jane, e que provavam que esta últim a tinha renunciado de coração àquelas relações.

Mrs. Gardiner, então, gracej ou com a sobrinha a respeito da deserção de Wickham e deu-lhe os seus parabéns por suportá-la tão bem .

— Mas, m inha querida Elizabeth — acrescentou ela —, que espécie de m oça é Miss King? Ficaria triste de pensar que o nosso am igo é interesseiro.

— Por favor, m inha tia, diga-m e qual é a diferença para os negócios m atrim oniais entre os m otivos interesseiros e os m otivos da prudência? Até onde vai a discrição e onde com eça a cobiça? No Natal passado, a senhora tinha m edo de que Wickham se casasse com igo porque seria um a im prudência. E agora quer achá-lo interesseiro porque ele está tentando conquistar um a m oça que tem dez m il libras de fortuna.

— Se você m e disser que espécie de m oça é Miss King, eu saberei o que pensar.

— É um a m oça m uito boa, creio eu; nada sei de m al a seu respeito.

— Mas Wickham não lhe deu a m enor atenção, até que a m orte do avô a tornou herdeira da sua fortuna.

— Não, nada m ais natural. Se não lhe era perm itido conquistar a m inha afeição porque eu não tinha dinheiro, por que iria ele fazer a corte a um a m oça de quem não gostava e que era igualm ente pobre?

— Mas parece pouco delicado da parte dele ter-se lançado a isto tão pouco tem po depois de lhe ter feito a corte.

— Um hom em em situação desesperada não tem tem po para todas essas delicadezas elegantes que outros podem m anter. Se ela não se im porta, por que nos im portarem os nós?

— O fato dela não se im portar não o j ustifica. Mostra apenas que lhe falta tam bém algum a coisa. Bom senso ou delicadeza de sentim entos.

— Bem — exclam ou Elizabeth —, faça a sua escolha. Ele é interesseiro e ela doida.

— Não, Lizzy , isto é o que eu não escolho. Muito m e entristeceria, você sabe,

pensar m al de um rapaz que viveu tanto tem po no Derby shire.

— Oh, se isto é tudo, tenho um a fraca opinião a respeito dos rapazes que m oram no Derby shire. E seus íntim os am igos que m oram no Hertfordshire não são m uito m elhores. Estou farta deles todos. Graças a Deus irei am anhã para um lugar onde não encontrarei nenhum hom em am ável e de belas m aneiras. Os hom ens estúpidos são os únicos que vale a pena conhecer.

— Cuidado, Lizzy , essas suas palavras cheiram fortem ente a despeito.

Antes que o fim da peça a que assistiam os separasse, Elizabeth teve o prazer inesperado de receber um convite para acom panhar os seus tios num a excursão de recreio que eles se propunham fazer no verão.

— Ainda não decidim os onde term inará o nosso passeio — disse Mrs. Gardiner.

— Mas talvez irem os até os lagos.

Nenhum plano poderia ter sido m ais agradável a Elizabeth e o seu aceite ao convite foi pronto e entusiasta.

— Minha querida tia — exclam ou ela, deliciada. — Que encanto, que felicidade!