Orgulho e Preconceito
Capítulo 48
Elizabeth perguntou então quais eram os planos do seu pai para a descoberta de Ly dia.
— Creio que tencionava ir a Epsom , lugar onde os fugitivos trocaram os cavalos, falar com os postilhões e ver se poderia obter deles algum a inform ação. O seu obj etivo principal era descobrir o núm ero do coche de aluguel que os trouxe de Clapham . Ele tinha trazido um freguês de Londres. É possível que ao trocarem de carro alguém os tivesse visto, por isso papai tencionava fazer indagações em Clapham . Se ele conseguisse descobrir a casa onde o cocheiro foi levar o freguês, faria indagações lá e talvez não fosse im possível descobrir o posto e núm ero do coche. Não sei se papai tem outros proj etos em m ente. Ele estava com tanta pressa de partir, tão inquieto e deprim ido, que tive grande dificuldade em arrancar-lhe o que eu estou agora lhe dizendo.
48
A fam ília tinha esperança de receber um a carta de Mr. Bennet no dia seguinte.
Mas o correio chegou sem trazer sequer um a sim ples linha da sua parte. A fam ília sabia que norm alm ente ele era um péssim o correspondente. Mas num m om ento daqueles, tinham tido esperança de que fizesse um esforço. Foram obrigados portanto a concluir que ele nada tinha de favorável a com unicar, m as m esm o quanto a isto, desej avam ter certeza. Mr. Gardiner tinha esperado pela carta. Com o não viesse nenhum a, partiu im ediatam ente.
Daí por diante, com a chegada de Mr. Gardiner a Londres, tinha pelo m enos certeza de receber inform ações constantes do que se estava passando. E ao despedir-se, Mr. Gardiner prom eteu que insistiria com Mr. Bennet para que voltasse a Longbourn o m ais cedo possível, coisa que m uito consolou Mrs.
Bennet. Ela via neste regresso a única possibilidade do seu m arido escapar de ser m orto em duelo. Mrs. Gardiner e as crianças deveriam perm anecer no Hertfordshire m ais alguns dias, pois Mrs. Gardiner achou que a sua presença poderia ser de algum a utilidade para as suas sobrinhas. Ela as aj udou a tom ar conta de Mrs. Bennet e foi um grande consolo para as m oças nas suas horas de liberdade. Sua outra tia tam bém veio frequentem ente, e sem pre, com o dizia, com o propósito de lhes infundir coragem e confiança, em bora nunca chegasse sem trazer um novo exem plo da extravagância e da leviandade de Wickham . E
raram ente partia sem as deixar m ais desanim adas do que quando chegara.
Mery ton inteira parecia se esforçar por denegrir o hom em que três m eses antes fora quase com o um anj o de bondade. Diziam que ele devia dinheiro a todos os com erciantes do lugar e que as suas aventuras, que receberam todas o título de
“seduções”, se tinham estendido às fam ílias de vários com erciantes. Todo m undo declarou que ele era o rapaz m ais perverso do m undo e todos com eçaram a descobrir que sem pre haviam desconfiado dele, apesar da sua aparência de distinção.
Elizabeth, em bora só acreditasse em m etade do que diziam , achava aquilo suficiente para tornar ainda m ais certos os seus antigos prognósticos quanto à desgraça de sua irm ã. E até Jane, que acreditava ainda m enos do que Elizabeth nas coisas de que falavam , perdeu quase todas as esperanças, sobretudo porque chegara agora o m om ento de receber notícias ou cartas deles, caso tivessem ido para a Escócia, coisa de que nunca desesperara inteiram ente.
Mr. Gardiner saiu de Longbourn no dom ingo. Na terça-feira, a sua m ulher recebeu um a carta dele. Dizia que tinha encontrado im ediatam ente Mr. Bennet e o tinha convencido a ir para Gracechurch Street.
Mr. Bennet j á estivera em Epsom e Clapham , m as não tinha conseguido nenhum a inform ação satisfatória, Estava decidido agora a fazer indagações em todos os principais hotéis da cidade, pois achava possível que eles se houvessem
instalado num daqueles lugares logo depois da sua chegada a Londres, antes de procurar novas acom odações. Mr. Gardiner, pessoalm ente, não esperava que este plano obtivesse êxito. Mas com o Mr. Bennet insistia naquilo, estava resolvido a aj udá-lo. Acrescentava que Mr. Bennet não se encontrava agora nada disposto a sair de Londres, e prom etia escrever de novo m uito breve. Havia tam bém um postscriptum que dizia o seguinte:
Escrevi igualm ente para o coronel Forster pedindo que ele indagasse, se possível, entre os am igos m ais íntim os de Wickham , no regim ento, se este tinha quaisquer parentes ou relações que pudessem saber em que parte da cidade ele se escondera. E se entre essas pessoas houvesse algum a de quem se pudesse com algum a probabilidade obter um a tal inform ação, isto seria de um a im portância talvez essencial. Até o m om ento nada tem os para nos guiar. Estou certo de que o coronel Forster fará tudo o que estiver em seu poder para nos aj udar, m as em últim a análise, talvez Lizzy , m elhor do que qualquer outra pessoa, saiba se ele tem parentes vivos.
Elizabeth com preendeu im ediatam ente de onde provinha aquela deferência pela sua autoridade. Infelizm ente não possuía inform ações que a j ustificassem .
Nunca ouvira dizer que tivesse parentes, exceto o pai e a m ãe, e am bos j á falecidos há m uitos anos. Era possível, entretanto, que alguns dos seus com panheiros do regim ento pudessem dar inform ações m ais substanciais. E
em bora não tivesse grandes esperanças a esse respeito, aquela m edida não era para se desdenhar.
Cada dia em Longbourn era agora um dia de ansiedade. Mas o m ais angustioso dos m om entos era o da chegada do correio. As cartas eram esperadas todas as m anhãs, com a m aior im paciência. E cada dia aguardavam notícias de im portância.
Antes de receberem nova carta de Mr. Gardiner, chegou um a para Mr. Bennet da parte de Mr. Collins. E com o Jane tinha recebido instruções para que abrisse toda a correspondência dirigida ao pai na sua ausência, ela leu a carta. E
Elizabeth, que sabia com o as cartas de Mr. Collins eram curiosas, se debruçou sobre a sua irm ã e leu tam bém .
Dizia o seguinte:
Meu caro senhor: sinto-m e obrigado pelo nosso parentesco e pela m inha situação na vida a apresentar-lhe as m inhas condolências pela grande aflição que agora está sofrendo e da qual fom os inform ados ontem por um a carta do Hertfordshire.
Fique certo, m eu caro senhor, que Mrs. Collins e eu próprio nos solidarizam os sinceram ente com o senhor e toda a sua respeitável fam ília no seu atual sofrim ento, que deve ser dos m ais agudos, porque provém de um a causa que o tem po não pode rem over. Para lhe aliviar tão grande infelicidade, não faltarão
argum entos da m inha parte. Desej o consolá-lo nesse transe, que deve ser de todos o m ais duro para o coração de um pai. A m orte da sua filha seria um a bênção em com paração com o que sucede agora. E isto é ainda m ais para lam entar quando sabem os que existem razões de supor, com o a m inha cara Charlotte m e inform ou, que esta licenciosidade de conduta da parte de sua filha foi devida a um a excessiva e culposa indulgência; ao m esm o tem po, para o seu próprio consolo e o de Mrs. Bennet, estou inclinado a acreditar que as tendências da sua filha devem ser naturalm ente perversas. Sem o que, ela j am ais seria capaz de com eter tão grande crim e com tão pouca idade. Sej a com o for, o senhor nos m erece a m aior com paixão, e nisto sou acom panhado não só por Mrs.
Collins, com o igualm ente por Lady Catherine e sua filha, a quem eu contei a história e que são da m esm a opinião. Elas concordam com igo quanto às apreensões que sinto, que este m au passo de um a das suas filhas será prej udicial para o futuro de todas as outras; na verdade, quem , com o Lady Catherine pessoalm ente condescende em dizer, quem quererá se relacionar com um a tal fam ília? E esta consideração m e conduz além disso a refletir com a m aior satisfação num certo acontecim ento do m ês de novem bro passado, pois de outro m odo eu estaria envolvido em todas estas tristezas e desgraças. Perm ita que o aconselhe, pois, m eu caro senhor, a se consolar a si próprio o m ais que puder, a expulsar para sem pre a sua filha indigna da sua afeição, e deixá-la colher os frutos do seu odioso crim e. Seu, caro senhor, etc.
Mr. Gardiner não tornou a escrever senão depois que recebeu um a resposta do coronel Forster; e quando o fez, nada tinha de agradável a com unicar. Não se sabia de um só parente com quem ele m antivesse relações e era certo que Wickham não tinha nenhum parente próxim o que estivesse vivo. Seus conhecim entos antigos eram num erosos, m as desde que entrara na m ilícia parecia que j á não m antinha relações com nenhum deles. Não havia ninguém portanto a quem se pudesse dirigir e obter notícias a seu respeito. No estado precário das suas finanças, o casal tinha um m otivo poderoso para a sua reclusão, além do m edo que Wickham tinha de ser descoberto pelos parentes de Ly dia.
Haviam sabido que ele tinha deixado grandes dívidas no j ogo; o coronel Forster acreditava que seria preciso m ais de m il libras para cobrir todas as despesas que o oficial deixara em Brighton. Ele devia m uito na cidade, m as suas dívidas de honra ainda eram m uito m aiores. Mr. Gardiner não procurou esconder esses detalhes da fam ília de Longbourn. Jane os ouviu com horror.
— Um j ogador! — exclam ou ela. — Isto eu não esperava...
Mr. Gardiner acrescentava na sua carta que eles podiam contar com o regresso de seu pai no dia seguinte, que era um sábado. Abatido pelos insucessos dos seus esforços, ele se rendera às persuasões do cunhado, para que voltasse para j unto da fam ília e deixasse a seu cargo tudo o que parecesse aconselhável para
continuação das pesquisas. Ao ser inform ada do fato, Mrs. Bennet não exprim iu toda a satisfação que as suas filhas esperavam , dada a ansiedade que m anifestara pela vida do m arido.
— O quê? — exclam ou. — Então ele vai voltar sem trazer a nossa Ly dia?
Decerto Mr. Bennet não vai sair de Londres antes de ter encontrado os fugitivos...
Quem vai brigar com Wickham e forçá-lo a se casar com ela?
Mrs. Gardiner com eçou a ter saudades de casa. Ficou com binado que ela e as crianças voltariam para Londres enquanto Mr. Bennet viria para Longbourn. A carruagem levou-as portanto até m etade da j ornada, e trouxe de volta Mr.
Bennet a Longbourn. Mrs. Gardiner partiu, tão perplexa a respeito do caso de Elizabeth e de Mr. Darcy , com o viera desde o Derbshire. O nom e dele não fora m encionado voluntariam ente nem um a vez pela sobrinha. E a vaga esperança que tinha Mrs. Gardiner de que Elizabeth receberia logo um a carta de Darcy não fora correspondida. Desde o seu regresso, Eliza beth não tinha recebido nenhum a carta que parecesse vir de Pem berley . Os atuais dissabores da fam ília tornavam desnecessária outra escusa para a depressão de Elizabeth. Ninguém podia portanto desconfiar de coisa algum a. Mas Elizabeth, que conhecia regularm ente os seus sentim entos, sabia bem que se não tivesse renovado as suas relações com Darcy teria suportado a m ágoa pela infâm ia de Ly dia com m uito m aior facilidade. E não perderia um a noite de sono em cada dois dias.
Mr. Bennet chegou e todos repararam que aparentem ente conservava toda a sua serenidade filosófica. Falou m uito pouco, com o era seu hábito. Não m encionou o assunto que o levara a Londres e só m uito tem po depois as suas filhas tiveram coragem de se referir a isto.
Foi só à tarde, à hora do chá, que Elizabeth se aventurou a falar sobre o assunto.
Com eçou exprim indo os seus sentim entos pelas aflições que o pai deveria ter passado. Ele respondeu:
— Não fale m ais nisto. Quem deveria sofrer senão eu m esm o? Foi tudo por m inha culpa, sou obrigado a reconhecê-lo.
— Não deve ser severo dem ais para consigo próprio — replicou Elizabeth.
— É bom que você m e previna contra este erro. A natureza hum ana tem tendência a cair nele. Não, Lizzy , deixe que por um a vez na vida eu sinta o peso da m inha responsabilidade. Não tenho m edo de ser esm agado pela im pressão.
Tudo isto não tardará a passar.
— Acha que eles estão em Londres?
— Sim , em que outro lugar poderiam se esconder?
— E Ly dia sem pre desej ou ir para Londres — acrescentou Kitty .
— Então ela deve estar contente — acrescentou o pai, secam ente.
— Provavelm ente residirá lá m uito tem po.
Em seguida, depois de curto silêncio, continuou:
— Lizzy , eu não lhe guardo rancor pelo conselho que você m e deu no m ês de
m aio passado; considerando o que aconteceu, isto m ostra a largueza da sua visão.