Orgulho e Preconceito
Capítulo 6
— O seu orgulho não m e ofende tanto — disse Miss Lucas — com o o orgulho em geral, porque existe um m otivo para ele. Não é de adm irar que um rapaz tão distinto, com fam ília, fortuna, tudo a seu favor, tenha de si m esm o um a alta opinião. Se posso exprim ir-m e assim , ele tem o direito de ser orgulhoso.
— Isto é bem verdade — replicou Elizabeth —, e eu perdoaria facilm ente o seu orgulho se Mr. Darcy não tivesse m ortificado o m eu.
— O orgulho — observou Mary , que se gabava da solidez das suas reflexões — é um defeito m uito com um , creio eu. Por tudo o que tenho lido, estou m esm o convencida de que é m uito com um , que a natureza hum ana m anifesta um a tendência m uito acentuada para o orgulho, que são pouquíssim os os que não alim entam esse sentim ento, fundados nalgum a qualidade real ou im aginária! A vaidade e o orgulho são coisas diferentes, em bora as palavras sej am frequentem ente usadas com o sinônim os. Um a pessoa pode ser orgulhosa sem ser vaidosa. O orgulho se relaciona m ais com a opinião que tem os de nós m esm os, a vaidade com o que desej aríam os que os outros pensassem de nós.
— Se eu fosse tão rico quanto Mr. Darcy — gritou um j ovem Lucas, que tinha vindo com as suas irm ãs — não m e im portaria de ser orgulhoso, teria um a m atilha de perdigueiros e beberia um a garrafa de vinho todos os dias.
— Nesse caso você beberia m uito m ais do que deveria — disse Mrs. Bennet. —
E se eu o visse ocupado desse m odo, arrebatar-lhe-ia a garrafa im ediatam ente.
O m enino contestou que ela fizesse tal coisa. Mrs. Bennet continuou a declarar que o faria e a discussão só term inou com a visita.
6
As senhoras de Longbourn breve foram visitar as de Netherfield. A visita foi paga segundo a etiqueta. As m aneiras agradáveis de Miss Bennet increm entaram a boa vontade de Mrs. Hurst e Miss Bingley ; e em bora a m ãe fosse j ulgada intolerável e as irm ãs m ais m oças indignas de atenção, as irm ãs de Mr. Bingley m anifestaram desej o de estreitar relações com as duas filhas m ais velhas dos Bennet. Jane recebeu esta atenção com o m aior prazer, porém Elizabeth continuou a achar desdenhosa a m aneira pela qual elas tratavam todo o m undo, sem excetuar m esm o a sua irm ã e não conseguiu sim patizar com essas pessoas.
A am abilidade com que tratavam Jane se originava provavelm ente na influência que a adm iração de Mr. Bingley exercia sobre as duas irm ãs. Era evidente, sem pre que se encontravam , que ele de fato adm irava Miss Bennet e para Elizabeth era igualm ente evidente que Jane cedia à preferência que Mr. Bingley com eçara a m anifestar por ela desde o início, e que devia estar de certo m odo m uito apaixonada. Elizabeth refletia, com prazer, que não era provável que alguém o descobrisse, pois Jane unia um a grande força de sentim entos a um a discrição de gênio e a um a disposição uniform em ente alegre que a preservaria da suspeita de pessoas im pertinentes. Ela fez essas reflexões à sua am iga Miss Lucas.
— Deve ser talvez agradável — replicou Charlotte — poder enganar o público em tais casos, m as às vezes é desvantaj oso ser tão reservada. Se um a m ulher esconde a sua afeição com igual habilidade àquele que constitui o obj eto dessa afeição, pode perder a oportunidade de conquistá-lo. E neste caso é um parco consolo refletir que os outros perm anecem na m esm a ignorância. Existe tanta gratidão e vaidade em quase todas as afeições que é perigoso abandoná-las à sua sorte — todos podem os com eçar livrem ente, um a ligeira preferência é bastante natural, m as são poucos os que têm o coração bastante firm e para am ar sem receber algum a coisa em troca. Em noventa por cento dos casos, um a m ulher deve m ostrar m ais afeição do que a que ela realm ente sente. É evidente que Bingley gosta da sua irm ã, m as ele pode nunca passar disto se ela não o auxiliar.
— Mas Jane o auxilia tanto quanto a sua natureza o perm ite. Se eu posso perceber a preferência que ela tem por ele, Bingley seria um hom em bem sim plório se não o descobrisse tam bém .
— Lem bre-se, Lizzy , de que ele não conhece o tem peram ento de Jane com o você.
— Mas se um a m ulher m anifesta preferência por um hom em e não se esforça por encobrir os seus sentim entos, ele acabará sabendo.
— Talvez acabe se a vir frequentem ente. Mas em bora Bingley e Jane se encontrem bastante frequentem ente, nunca estão m uitas horas j untos. E com o sem pre se veem no m eio de m uitas outras pessoas, é im possível que estej am a
cada m om ento conversando um com o outro. Jane, portanto, devia tirar o m aior partido de cada m eia hora em que pode dispor da atenção de Bingley . Quando estiver certa dele, haverá tem po bastante para se apaixonar tanto quanto ela o desej a.
— Seu plano é bom — replicou Elizabeth — quando está em j ogo apenas o desej o de se casar bem ; e se eu estivesse decidida a arranj ar um m arido rico, ou um m arido qualquer, seria este o plano que adotaria. Mas estes não são os sentim entos de Jane; ela não está agindo por plano. Por enquanto não tem certeza nem m esm o do grau da sua afeição e nem está segura de que sej a um a coisa razoável. Há 15 dias apenas que o conhece. Dançou quatro vezes com ele em Mery ton e viu-o um a vez na sua própria casa. Além disso, j antou com ele em com panhia de outras pessoas quatro vezes. Não é bastante para form ar j uízo acerca do seu caráter.
— Não com o você conta as coisas. Se tivesse apenas j antado com Bingley , poderia som ente ter descoberto se ele tem bom apetite; m as você deve se lem brar que durante quatro noites seguidas eles estiveram j untos — quatro noites podem levar m uito longe.
— Sim , essas quatro noites lhes perm itiram verificar que am bos preferem o vingt et un ao “j ogo do com ércio” — m as não creio que tenham conseguido descobrir m uita coisa a respeito de outras características im portantes das suas pessoas.
— Bem — disse Charlotte —, desej o a Jane, de todo o coração, o m ais com pleto êxito; e creio que, se se casasse com ele am anhã, teria tanta probabilidade de ser feliz com o se passasse um ano a estudar-lhe o caráter. A felicidade no casam ento é apenas um a questão de sorte. Mesm o que os noivos conheçam m utuam ente as suas tendências, m esm o que essas tendências sej am sem elhantes, isto em nada contribui para a sua felicidade posterior. As diferenças, que se acentuam com o tem po, são sem pre suficientes para que se venha a sofrer o seu quinhão de am argura; é m elhor conhecer o m enos possível os defeitos da pessoa com a qual tem os de passar a vida.
— Você m e faz rir, Charlotte; m as a sua teoria não é sensata. Você sabe que ela não o é e que você nunca adotaria pessoalm ente esses princípios!
Ocupada em observar as atenções de Mr. Bingley para com a sua irm ã, Elizabeth estava longe de suspeitar que estava se tornando o obj eto de algum interesse aos olhos do am igo de Mr. Bingley . A princípio, Mr. Darcy nem sequer tinha concordado com os que achavam que ela era bonita. Olhara-a no baile sem adm iração. E da outra vez em que se encontraram , fitara a m oça apenas para criticá-la. Mas logo que declarara a si m esm o e aos am igos que Elizabeth não possuía um só traço agradável no rosto, com eçou a achar que a bela expressão dos seus olhos negros dava àquele rosto um ar excepcionalm ente inteligente. A esta descoberta sucederam outras igualm ente hum ilhantes. Em bora o seu olhar crítico houvesse descoberto m ais de um defeito na sim etria das suas form as, foi
forçado a reconhecer que as linhas do seu corpo eram de grande pureza; e apesar da sua afirm ação de que as m aneiras dela não eram as do m undo elegante, sentiu-se fascinado pela sua encantadora naturalidade. Elizabeth ignorava tudo isto; a seus olhos Mr. Darcy era apenas o hom em que não sabia ser agradável em parte algum a e que não a achara suficientem ente elegante para dançar com ele. Com eçou a querer conhecê-la m ais intim am ente e, para conseguir conversar pessoalm ente com Elizabeth, com eçou a interessar-se pela palestra dela com os outros. Essa sua atitude atraiu a atenção de Elizabeth. O fato se passou em casa de Sir William Lucas, onde grande núm ero de pessoas estavam reunidas.
— Que m otivo levou Mr. Darcy — perguntou Elizabeth a Charlotte — a vir escutar a m inha conversa com o coronel Forster?
— Esta é um a pergunta que som ente Mr. Darcy poderá responder.
— Mas se continua com este j ogo, eu lhe farei certam ente saber que estou percebendo o que quer com isto. Ele é m uito sarcástico e se eu não com eçar a ser im pertinente tam bém , dentro em pouco terei m edo dele.
Quando Mr. Darcy se aproxim ou pouco depois, em bora sem a intenção aparente de lhes falar, Miss Lucas desafiou a am iga a m encionar diante dele o assunto que estavam discutindo. Aceitando a provocação, Elizabeth se virou para ele e disse:
— O senhor não acha, Mr. Darcy , que ainda agora eu m e exprim i com grande felicidade? Quando eu brinquei com o coronel Forster sobre a possibilidade de ele oferecer-nos um baile em Mery ton?
— Com grande energia. Mas este é um assunto que sem pre infunde energia a um a senhora.
— O senhor nos trata com severidade.
— Breve vai chegar a vez de brincarem com ela — disse Miss Lucas. — Eu vou abrir o piano, Eliza, e você sabe o que lhe espera. — Você é um a estranha am iga; sem pre querendo que eu toque e cante diante de todo m undo. Se a m inha vaidade tivesse tendência m usical, você seria preciosa, m as com o este não é o caso, eu preferia não m e exibir diante de pessoas que estão habituadas a ouvir os m elhores concertistas.
E com o Miss Lucas insistisse, ela acrescentou:
— Muito bem . Se não há outro j eito...
E olhando gravem ente para Mr. Darcy continuou:
— Há um velho provérbio que todos aqui naturalm ente conhecem : “Guarde o seu sopro para esfriar o seu caldo”, eu conservarei o m eu para cantar.
A sua atuação com o cantora foi agradável, em bora de nenhum m odo excepcional. Depois de um a ou duas canções, e antes que ela pudesse responder aos pedidos de várias pessoas que queriam ouvi-la novam ente, Elizabeth teve de ceder o lugar à sua irm ã Mary , que esperava com im paciência, pois, faltando-lhe todos os atrativos, estudara com grande aplicação e estava portanto sem pre
pronta a exibir-se.
Mary não tinha talento, nem gosto. Em bora a vaidade lhe tivesse dado perseverança, dera-lhe igualm ente um ar pedante e m aneiras convencidas, coisas suficientes para obscurecer triunfos m aiores do que aqueles que era capaz de alcançar.
Em bora não tocasse tão bem , Elizabeth agradara m uito m ais, graças à sua naturalidade; e Mary , depois de um longo concerto, pôde considerar-se feliz por alcançar alguns elogios, graças a algum as canções escocesas e irlandesas que executou a pedido das suas irm ãs m ais m oças, que na outra extrem idade do salão tinham entrado evidentem ente na dança, com alguns dos Lucas e dois ou três oficiais.
Mr. Darcy ficou próxim o a eles, cheio de silenciosa indignação, diante de um a m aneira tão grosseira de passar a noite, im possibilitando toda conversação.
Estava tão absorto nos seus pensam entos que só reparou que Sir William se tinha aproxim ado dele no m om ento em que este com eçou a falar:
— Que divertim ento encantador para os j ovens, Mr. Darcy ! Não há nada com o a dança. Eu a considero um a das form as m ais requintadas de divertim ento das sociedades cultas.
— Decerto, Sir William ; e a dança tem tam bém a vantagem de estar em m oda entre sociedades m enos requintadas do m undo. Todos os selvagens sabem dançar.
Sir William apenas sorriu.
— Seu am igo dança m uito bem — continuou, depois de um a ligeira pausa, ao ver Bingley reunir-se ao grupo dos que dançavam —; e eu duvido de que o senhor sej a um adepto dessa arte, Mr. Darcy .
— O senhor deve ter-m e visto dançar em Mery ton.
— É verdade. E tive grande prazer. O senhor dança frequentem ente em St.
Jam es?
— Nunca, Sir William .
— Não acha que seria um a hom enagem digna daquele lugar?
— É um a hom enagem que eu não concedo a nenhum lugar, se puder evitar.
— O senhor tem um a casa em Londres, não é assim ?
Mr. Darcy se inclinou.
— Já tive proj etos de m e fixar tam bém na cidade — prosseguiu Sir William —, pois aprecio m uito a sociedade. Mas tive receio de que o ar de Londres não conviesse a Lady Lucas.
Ele se deteve, com a esperança de que o outro lhe respondesse. Mas o seu com panheiro não estava disposto a isto. E com o Elizabeth se aproxim asse naquele instante, Sir William pensou praticar um ato m uito galante cham ando-a.
— Minha cara Eliza, por que não está dançando? — Mr. Darcy , perm ita-m e apresentar-lhe esta j ovem senhora com o um par bastante desej ável. O senhor,
estou certo, não poderá se recusar a dançar, quando se encontra ante tão grande beleza...
E tom ando a m ão de Elizabeth, Sir William a teria dado a Mr. Darcy , que em bora extrem am ente surpreso não se teria recusado a aceitá-la, quando a m oça recuou subitam ente e disse um pouco bruscam ente para Sir William :
— Sir William , não tenho a m enor intenção de dançar. Suplico-lhe que não suponha que m e dirigi para este lado a fim de arranj ar um par.
Mr. Darcy , com grande am abilidade, pediu-lhe que lhe concedesse a honra da sua m ão; pediu em vão. Elizabeth estava decidida; Sir William tam pouco conseguiu abalar a sua decisão, com a sua tentativa de persuadi-la:
— A senhora dança tão bem , Miss Eliza, que seria cruel negar-m e a felicidade de apreciá-la; e em bora esse gentlem an não aprecie esse divertim ento, em geral, não fará nenhum a obj eção, estou certo.
— Mr. Darcy é m uito am ável — disse Elizabeth, sorrindo.
— De fato; m as considerando a tentação, m inha cara Miss Eliza, não podem os surpreender-nos de que ele se m ostre disposto, pois quem faria obj eção a um par com o a senhora?
Elizabeth lançou-lhe um olhar m alicioso e virou-se. A sua resistência não ofendera Mr. Darcy ; pelo contrário, ele estava pensando na m oça com certa com placência, quando foi abordado por Miss Bingley .
— Creio que conheço o obj eto do seu devaneio.
— Penso que não.
— O senhor está pensando com o seria insuportável passar m uitas noites deste m odo, num a sociedade com o esta. Aliás, estou de acordo com o senhor. Nunca m e aborreci tanto! A insipidez, apesar deste barulho, a futilidade, apesar do ar de im portância de toda esta gente. O que eu não daria para ouvi-lo falar com severidade...
— Asseguro-lhe que a sua conj etura é inteiram ente falsa. Estava pensando em coisas m uito m ais agradáveis. Estive m editando no prazer que nos pode dar um par de belos olhos no rosto bonito de um a m ulher.
Miss Bingley im ediatam ente fixou o seu olhar no rosto de Mr. Darcy , e exprim iu o desej o de que ele dissesse o nom e da senhora que lhe inspirara tais reflexões.
Mr. Darcy respondeu intrepidam ente:
— Miss Elizabeth Bennet.
— Miss Elizabeth Bennet! — repetiu Miss Bingley . — Estou assom brada. Desde quando Miss Elizabeth se tornou a sua favorita? Quando lhe poderei desej ar felicidades?
— Esta é exatam ente a pergunta que esperava da sua parte. A im aginação das m ulheres é m uito veloz. Salta da adm iração para o am or. Do am or para o casam ento, num instante. Sabia que ia m e desej ar felicidades.