Orgulho e Preconceito
Capítulo 18
Elizabeth ficou desolada. Ela tencionava com prom eter-se com Mr. Wickham para estas danças e agora tinha que trocá-lo por Mr. Collins. O seu contentam ento não poderia ter sido m ais inoportuno. Mas não havia m ais rem édio. A felicidade de Mr. Wickham e, portanto, a sua própria, teria de ser adiada. E a proposta de
Mr. Collins foi aceita com a m aior dose de am abilidade de que pôde dispor. E
outra ideia que aquela galanteria lhe sugeriu não foi de natureza a aum entar o seu contentam ento. Elizabeth com preendeu pela prim eira vez que havia sido escolhida entre as suas irm ãs para ser a esposa do reitor de Hunsford e para aj udar a com pletar um a m esa do j ogo de quadrille em Rosings, na falta de visitas m ais im portantes. A ideia logo se transform ou em certeza, quando observou as crescentes am abilidades com que Mr. Collins a cercava e as frequentes tentativas de elogiar o seu espírito e vivacidade. E em bora ela ficasse m ais surpresa do que contente com esses inesperados efeitos dos seus encantos, sua m ãe não tardou a dar a entender que a probabilidade daquele casam ento lhe era extrem am ente agradável. Elizabeth no entanto resolveu ignorar a indireta, com preendendo que qualquer recusa seria a causa de um a violenta disputa. Talvez Mr. Collins nunca fizesse a proposta. E até que o fizesse, era inútil brigar por sua causa.
Se não fossem os preparativos para o baile de Netherfield, as duas irm ãs m ais m oças se encontrariam num estado lam entável naquele dia, pois, desde a m anhã do convite até o dia do baile, houve um a tal sucessão de dias chuvosos que nem um a só vez puderam ir a Mery ton. Nem tia, nem oficiais, nem novidades...
Até Elizabeth se sentiu aborrecida. O m au tem po im pedia inteiram ente o progresso das suas relações com Mr. Wickham e, a não ser a perspectiva da festa na terça-feira, nada poderia ter tornado suportável para Kitty e Ly dia a m onotonia de um a sexta, de um sábado, de um dom ingo e de um a segunda-feira de chuva.
18
Até o m om ento em que Elizabeth entrou na sala, em Netherfield, e procurou em vão Mr. Wickham entre os grupos de túnicas verm elhas ali reunidas, nem um a só vez a dúvida de que ele pudesse não estar presente atravessara o seu espírito.
Nenhum a das lem branças que razoavelm ente a poderiam ter alarm ado tinha destruído a certeza de encontrá-lo ali. Vestira-se com cuidado especial e se preparara com o m elhor dos espíritos para a conquista de tudo aquilo que ainda não fora subm etido no coração de Mr. Wickham , certa de que naquela noite encontraria ocasião de vencer todos os obstáculos. Mas naquele instante levantou-se nela a horrível suspeita de que o seu nom e fora propositalm ente om itido nos convites enviados por Bingley aos oficiais, para fazer a vontade de Mr. Darcy . E
em bora o caso não fosse exatam ente aquele, o fato irreparável da sua ausência foi anunciado por seu am igo Mr. Denny , a quem Ly dia se dirigiu avidam ente e que lhe disse ter sido Wickham obrigado a partir para Londres, no dia anterior, em viagem de negócios, e que ainda não voltara; acrescentando, com um sorriso significativo:
— Não acredito que tais negócios o tivessem afastado daqui exatam ente neste m om ento, se não desej asse evitar um certo cavalheiro aqui presente.
Estas palavras, que Ly dia não ouviu, foram percebidas por Elizabeth e com o lhe dem onstravam que Darcy não era m enos responsável pela ausência de Wickham do que no caso de ser j usta a sua prim eira hipótese, todos os seus sentim entos de descontentam ento para com Mr. Darcy foram de tal m odo exacerbados pelo súbito desapontam ento que apenas conseguiu responder com fria civilidade às am áveis perguntas que aquele cavalheiro pouco depois lhe dirigiu. Toda atenção, tolerância e paciência que dem onstrasse para com Darcy significavam um a inj úria para com Wickham . Resolveu não entrar em conversação de nenhum a espécie com ele e não conseguiu esconder de todo o seu m au hum or, nem m esm o ao falar com Mr. Bingley , cuj a cega parcialidade a irritava.
Mas Elizabeth não era feita para ficar m uito tem po de m au hum or e, em bora todas as suas esperanças para aquela noite tivessem sido destruídas, em breve aquela nuvem se dissipou do seu espírito. Tendo desabafado todas as suas m ágoas com Charlotte Lucas, com a qual não estivera durante um a sem ana, m udou espontaneam ente de assunto e cham ou a atenção da sua am iga para as esquisitices do seu prim o. As duas prim eiras danças, no entanto, renovaram o seu desânim o. Mr. Collins, desaj eitado e solene, pedindo desculpas em vez de prestar atenção e dando frequentes passos errados sem perceber, trouxe-lhe toda a vergonha e infelicidade que pode causar um par desagradável durante duas danças seguidas. No m om ento em que conseguiu ver-se livre dele, o seu alívio não teve lim ites. Dançou em seguida com um oficial e teve o consolo de falar
em Wickham e de ouvir dizer que ele era apreciado por todos. Term inadas aquelas danças, ela voltou para perto de Charlotte Lucas e conversava com esta quando foi abordada subitam ente por Mr. Darcy , que a convidou para dançar.
Tom ada de surpresa sem saber bem o que fazia, Elizabeth aceitou. Logo depois, Mr. Darcy se afastou, dando tem po assim a Elizabeth para lam entar a sua falta de presença de espírito. Charlotte procurou consolá-la.
— Você o achará m uito agradável.
— Deus não perm ita tal coisa. Seria a m aior infelicidade de todas! Achar agradável um a pessoa que decidim os odiar! Não m e desej e esse m al.
Entretanto, quando a m úsica recom eçou e Darcy se aproxim ou, Charlotte não pôde se im pedir de prevenir a am iga, em voz baixa, que não tivesse a sim plicidade de perm itir que o seu entusiasm o por Wickham a tornasse desagradável aos olhos de um hom em dez vezes m ais im portante. Elizabeth não respondeu e tom ou o seu lugar na fila, espantada com a honra de ter sido a escolhida para ficar defronte de Mr. Darcy , lendo igual surpresa nos olhos das suas vizinhas. Durante algum tem po não se falaram e ela com eçou a pensar que aquele silêncio ia se prolongar durante as duas danças. A princípio resolveu ficar calada. Mas de súbito, im aginando que seria ainda m aior castigo obrigar o seu com panheiro a conversar, fez algum as ligeiras observações sobre a dança. Ele respondeu e calou-se. Dez m inutos depois dirigiu-se novam ente a ele e disse:
— Agora é a sua vez de dizer algum a coisa, Mr. Darcy . Falei a respeito da dança e o senhor devia fazer algum as observações sobre o tam anho da sala e sobre o núm ero dos pares.
Ele sorriu e afirm ou que diria tudo o que desej asse.
— Muito bem , a resposta basta para o m om ento. Talvez a propósito eu possa observar que os bailes particulares são m uito m ais agradáveis do que os bailes públicos. Agora podem os ficar calados.
— Então a senhora fala por princípio, quando está dançando?
— Às vezes, é preciso falar um pouco, não acha? Pareceria estranho ficar em silêncio durante m eia hora. No entanto, para servir às preferências de certas pessoas, a conversação deveria ser entabulada com o m enor núm ero possível de palavras.
— Está falando a respeito de seus sentim entos no caso presente? Ou im agina que está j ustificando os m eus?
— As duas coisas — replicou Elizabeth, m aliciosam ente. — Já notei que tem os grandes sem elhanças de espírito. Am bos som os de feitio antissocial, taciturno, e não gostam os de falar senão para dizer algum a coisa capaz de causar assom bro a toda a sala e ser transm itida à posteridade com o brilho de um provérbio.
— Estou certo de que isto é um a im agem m uito fiel do seu próprio caráter —
disse ele. — Mas não posso dizer até que ponto sej a do m eu. Sem dúvida a senhora acha que é um a descrição fiel?
— Não devo j ulgar a m inha própria argúcia.
Ele não respondeu e ficaram novam ente em silêncio até que, term inada a dança, Mr. Darcy perguntou se as suas irm ãs não costum avam ir frequentem ente até Mery ton. Ela respondeu afirm ativam ente e, sem poder resistir à tentação, acrescentou:
— Quando nos encontrou lá outro dia, acabávam os de fazer um a nova relação.
O efeito foi im ediato. A expressão de altivez se acentuou no rosto de Darcy , m as ele nada respondeu. E Elizabeth, m aldizendo a sua própria fraqueza, não teve forças para continuar. Afinal Darcy falou, constrangido:
— Mr. Wickham é dotado de m aneiras tão agradáveis que lhe é fácil fazer am igos. Mas não é tão certo que sej a capaz de retê-los.
— Ele teve a infelicidade de perder a sua am izade — replicou Elizabeth, com ênfase. — E em circunstâncias que o farão provavelm ente sofrer durante toda a vida.
Darcy não respondeu e m ostrou desej o de m udar de assunto. Naquele m om ento Sir William Lucas se aproxim ou, com a intenção de atravessar a sala. Vendo porém Mr. Darcy , parou e, inclinando-se, cum prim entou-o pelo fato de estar dançando e pelo seu par.
— Acredite que fiquei m uito satisfeito. Não é com um ver-se dançar tão bem . O
senhor é um perito. Perm ita dizer-lhe, porém , que o seu belo par não lhe fica atrás. Espero que esse prazer se repita, especialm ente quando um certo acontecim ento m uito desej ável acontecer, m inha cara Miss Eliza.
E dizendo isto, olhou para Jane e Bingley .
— Com o afluirão os parabéns! — continuou ele. — Apelo para Mr. Darcy . Mas não quero interrom pê-los. E além disso, Mr. Darcy , não desej o privá-lo da conversa agradável desta m oça, cuj os belos olhos estão tam bém m e censurando.
A últim a parte da tirada foi m al-ouvida por Darcy , m as a alusão de Sir William a seu am igo Bingley pareceu im pressioná-lo. Seus olhos se voltaram para Bingley e Jane que dançavam j untos. Mas, voltando a si rapidam ente, virou-se para Elizabeth e disse:
— A interrupção de Sir William m e fez esquecer o assunto sobre o qual falávam os.
— Acho que não estávam os falando. Sir William não poderia ter interrom pido duas pessoas que tivessem m enos o que dizer nesta sala. Já tentam os dois ou três assuntos sem êxito; não sei do que podem os falar agora.
— Que pensa dos livros? — disse ele, sorrindo.
— Livros? Estou certa de que não lem os os m esm os livros. E nunca os encaram os com os m esm os sentim entos.
— Sinto que diga isto, m as se este é o caso, pelo m enos não haverá falta de assunto. Podem os com parar as nossas opiniões.
— Não, não posso falar em livros num salão de baile. Minha cabeça está cheia
de outras coisas.
— Sem pre a preocupa o que está acontecendo em torno de si, não é? — disse ele, com um a expressão de dúvida.
— Sim , sem pre — replicou ela, sem saber o que dizia, pois o seu pensam ento tinha voado para longe.
E, pouco depois, exclam ou, subitam ente:
— Lem bro-m e de que j á ouvi o senhor dizer, Mr. Darcy , que dificilm ente perdoava. E que o seu ressentim ento, um a vez despertado, j am ais se aplacaria.
Portanto, deve tom ar precauções para que ele não sej a despertado.
— É verdade — disse, com voz firm e.
— E nunca se deixa influenciar por j uízos antecipados?
— Espero que não.
— É particularm ente im portante para aqueles que nunca m udam de opinião ter a certeza de j ulgar com j ustiça desde o início.
— Posso indagar qual é a finalidade destas perguntas?
— Apenas inform ar-m e sobre o seu caráter — disse ela, procurando dissipar o seu ar de gravidade. — Estou tentando com preendê-lo.
— E tem conseguido?
Ela sacudiu a cabeça.
— Não consigo form ar um a im agem que m e satisfaça. Ouço tantas coisas contraditórias a seu respeito que isto m e interessa extraordinariam ente.
— Acredito que as inform ações a m eu respeito sej am grandem ente contraditórias — respondeu ele, com gravidade. — Eu desej aria, Miss Bennet, que não tentasse desenhar o m eu caráter neste m om ento, pois tenho razões para acreditar que o resultado não seria m uito lisonj eiro.
— Mas se não o tom ar com o um m odelo agora, pode ser que nunca m ais encontre outra oportunidade.
— De m odo algum desej aria perturbar o seu prazer — disse ele, friam ente.
Elizabeth se calou e a segunda dança decorreu sem que trocassem outras palavras. Ao se separarem , am bos estavam descontentes, em bora em grau diferente, pois havia em Darcy um sentim ento m uito forte em relação a Elizabeth que o levou im ediatam ente a perdoá-la e a dirigir o seu m au hum or contra outra pessoa.
Não havia m uito que se tinham separado, quando Miss Bingley se aproxim ou de Elizabeth e com um a expressão am ável de desdém abordou-a da seguinte m aneira:
— Então, Miss Eliza, ouvi dizer que tinha ficado encantada com George Wickham ? Sua irm ã m e falou a respeito dele e m e fez m il perguntas. E eu soube que o rapaz se esqueceu de dizer, entre outras coisas, que era o filho do velho Wickham , o intendente do falecido Mr. Darcy . Deixe que lhe recom ende no entanto, com o am iga, que não dê inteira fé a todas as suas afirm ações, pois é
perfeitam ente falso que Mr. Darcy o tenha tratado m al. Ao contrário, sem pre foi m uito bondoso para com Mr. George Wickham , em bora este tenha correspondido da m aneira m ais infam e. Não conheço os detalhes, m as sei m uito bem que Mr. Darcy não tem culpa nenhum a, que ele não pode suportar Mr.
George Wickham , nem ouvir falar nessa pessoa e, em bora o m eu irm ão achasse que não podia om itir o seu nom e na lista dos oficiais convidados, ficou satisfeito por ele se encontrar ausente. Acho um a insolência sem nom e da parte de Mr.
Wickham ter-se m udado para cá e não sei com o teve tam anha ousadia. Sinto m uito ter de falar m al do seu favorito, Miss Eliza, m as considerando a fam ília de que ele descende, acho que as suas incorreções não são de estranhar.
— Sua culpa e sua origem m odesta parecem significar aos seus olhos a m esm a coisa — respondeu Elizabeth, enfurecida —, pois a única acusação que lhe fez foi de ser o filho do intendente de Mr. Darcy , e quanto a isto, posso lhe assegurar que ele foi o prim eiro a m e inform ar.
— Desculpe — replicou Miss Bingley , com expressão de despeito. — Perdoe a m inha interferência. Foi bem -intencionada.
“Que insolente”, disse Elizabeth para si m esm a. “Está m uito enganada se espera m e influenciar com ataques tão m esquinhos. Nada encontro neles a não ser a sua ignorância voluntária e a m alícia de Mr. Darcy .”
Em seguida Elizabeth procurou a sua irm ã m ais velha, que tinha pedido a Bingley inform ações sobre o m esm o assunto. Jane lhe dirigiu a palavra com um sorriso agradável e um a expressão feliz, que m ostrava o quanto estava satisfeita com as ocorrências daquela noite.
— Eu queria saber — disse Elizabeth, com um a expressão não m enos sorridente que a irm ã — o que você soube a respeito de Mr. Wickham . Mas talvez você achasse a com panhia tão agradável que não se tenha lem brado de um a terceira pessoa. Neste caso pode estar certa do m eu perdão.
— Não — replicou Jane —, não m e esqueci dele. Mas nada tenho de satisfatório a lhe com unicar. Mr. Bingley não sabe a história toda, nem conhece as circunstâncias que Mr. Darcy achou ofensivas; m as ele garante a boa conduta, a probidade e a honra do seu am igo Mr. Darcy . Está inteiram ente convencido de que Mr. Wickham não é de m odo algum um rapaz respeitável. Creio que ele foi m uito im prudente e m ereceu perder a estim a de Mr. Darcy .
— Mr. Bingley conhece Mr. Wickham pessoalm ente?
— Não. Nunca o tinha visto antes daquele nosso encontro em Mery ton.
— Então essas inform ações são as que recebeu de Mr. Darcy . Estou satisfeita.
Mas o que é que diz a respeito do posto?
— Não se lem bra exatam ente das circunstâncias, em bora Mr. Darcy lhe tenha falado nisto m ais de um a vez. Mas acredita que o posto tenha sido deixado apenas condicionalm ente.
— Não duvido da sinceridade de Mr. Bingley — disse Elizabeth com ênfase. —
Mas você m e desculpará de não poder m e contentar apenas com esta sim ples afirm ação. Não duvido que Mr. Bingley tenha defendido o seu am igo brilhantem ente, m as j á que ele desconhece m uitos lados da história e ouviu o resto do próprio Mr. Darcy , continuo a pensar exatam ente com o antes a respeito de am bos os cavalheiros.
Em seguida Elizabeth m udou para outro assunto m ais agradável, no qual não havia lugar para divergências. Ouviu com prazer o relato que Jane lhe fez das felizes, em bora m odestas esperanças que ela alim entava a respeito de Mr.
Bingley e respondeu procurando anim á-la nessas esperanças. Logo que Mr.
Bingley se j untou a elas, Elizabeth se dirigiu para sua am iga Miss Lucas, que lhe perguntou com o tinha achado o seu par. E antes que Elizabeth pudesse term inar a sua resposta, Mr. Collins se aproxim ou e disse, m uito entusiasm ado, que tinha feito um a notável descoberta.
— Descobri por um singular acaso — disse ele — que existe nesta sala um parente m uito próxim o da m inha protetora: ouvi este cavalheiro m encionar para a j ovem senhora que faz as honras desta casa os nom es da sua prim a, Miss de Bourgh, e de Lady Catherine. Estranho com o estas coisas ocorrem : quem pensaria encontrar aqui um sobrinho de Lady Catherine? Estou contente por ter descoberto isto a tem po de apresentar m eus respeitos a este cavalheiro, pedindo-lhe que m e desculpe não o ter feito antes. Espero que a m inha total ignorância desse parentesco sej a o suficiente para m e fazer perdoar.
— O senhor não vai se apresentar pessoalm ente a Mr. Darcy !?
— Decerto. Pedirei desculpas por não o ter feito antes. Acredito que ele sej a o sobrinho de Lady Catherine. Estarei realm ente em situação de lhe afirm ar que Sua Senhoria ia m uito bem quando a deixei.
Elizabeth tentou dissuadi-lo da sua resolução, dizendo que Mr. Darcy consideraria o fato de alguém se dirigir a ele sem apresentação com o um a im pertinência.
Que não era absolutam ente necessário para am bos que eles travassem conhecim ento e que cabia a Mr. Darcy , em virtude da sua situação superior, qualquer iniciativa a este respeito.
Mr. Collins ouviu o que ela dizia, com ar de quem estava decidido a seguir as suas próprias inclinações, e quando ela cessou de falar, respondeu da seguinte form a:
— Minha cara Miss Elizabeth, tenho o m aior respeito pela sua opinião em tudo o que se refere a assuntos da sua com petência, m as perm ita-m e dizer-lhe que existe um a larga diferença entre as fórm ulas de cerim ônia usadas pelos leigos e aquelas que regulam as relações com as pessoas do clero. Dê-m e licença de observar que eu considero o m ister sacerdotal equivalente em dignidade aos dos m ais altos titulares do reino, desde que ao m esm o tem po se m antenha a devida hum ildade de conduta. Perm ita-m e, pois, seguir os ditam es da m inha consciência e realizar o que considero um dever. Perdoe-m e m enosprezar os seus conselhos que em todas as dem ais circunstâncias eu consideraria com o um precioso guia.
Mas no caso presente eu m e acho m ais capaz, pela educação e pelo estudo, para j ulgar o que é direito e o que é errado, do que um a j ovem com o a senhora.
E fazendo um a profunda reverência, deixou-a para ir abordar Mr. Darcy .
Elizabeth observou com atenção a acolhida que este prodigalizava a Mr. Collins.
A surpresa de ver-se assim interpelado era visível em Mr. Darcy .
Seu prim o iniciou a sua tirada com um a solene reverência. Em bora ela não pudesse ouvir nenhum a palavra, sentiu o que se passava com o se estivesse escutando. E distinguiu, pelo m ovim ento dos seus lábios, as palavras —
“desculpas”, “Hunsford” e “Lady Catherine de Bourgh”. — Sentia-se desapontada de ver o seu prim o ridicularizar-se assim diante daquele hom em .
Mr. Darcy o considerava com um espanto pouco contido e quando, afinal, Mr.
Collins lhe concedeu um a ocasião de falar, respondeu com ar distante de am abilidade. Mr. Collins entretanto não desanim ou e voltou à carga, enquanto o desprezo de Mr. Darcy parecia crescer rapidam ente com a extensão da segunda tirada. No fim ele apenas fez um ligeiro cum prim ento e se afastou. Mr. Collins voltou então para perto de Elizabeth.
— Asseguro-lhe que não tenho nenhum m otivo para ficar descontente com a acolhida que recebi. Mr. Darcy pareceu ficar m uito satisfeito com a atenção.
Respondeu-m e com a m aior am abilidade e m e fez até a honra de observar que estava tão convencido do discernim ento de Lady Catherine que tinha a certeza que ela nunca concederia os seus favores a quem não os m erecesse. Foi realm ente um belo pensam ento. Estou m uito satisfeito com ele.
Com o Elizabeth não tinha m ais nenhum interesse especial naquela festa, voltou a sua atenção inteiram ente para a sua irm ã e Mr. Bingley . As agradáveis reflexões a que conduziram as suas observações tornaram -na quase tão feliz quanto Jane.
Na sua im aginação, viu-a instalada naquela casa, gozando toda a ventura que um casam ento realm ente feliz pode dispensar. E sentiu-se até capaz, em tais circunstâncias, de procurar gostar das duas irm ãs de Bingley . Viu que os pensam entos da sua m ãe se dirigiam para o m esm o lado e resolveu não se aproxim ar dela para não ouvi-la falar dem ais. Quando se sentaram para a ceia, Elizabeth considerou um a grande falta de sorte, quase um a perversidade, ter sido colocada perto de sua m ãe. Lady Lucas é que estava sentada entre Mrs. Bennet e Elizabeth e esta ficou profundam ente desapontada ao ver que sua m ãe falava a Lady Lucas abertam ente da sua esperança de ver em breve Jane casada com Mr. Bingley . Era um assunto interessante do qual Mrs. Bennet j am ais se cansaria.
E não se fatigava de enum erar as vantagens daquela aliança. Ele era um rapaz encantador, era rico e vivia apenas a três m ilhas de distância. Estes eram os três prim eiros pontos pelos quais se felicitava. E depois, era um grande conforto ver com o as duas irm ãs de Mr. Bingley gostavam de Jane e ter a certeza de que estas pessoas desej avam o casam ento tanto quanto ela. Além disso era um a coisa m uito im portante para as suas filhas m ais m oças, pois o casam ento de Jane com
um hom em de tão elevada posição as conduziria a conhecer partidos ricos. E
finalm ente era um grande conforto, na sua idade, poder confiar as suas filhas solteiras aos cuidados da irm ã casada. Isto a dispensaria da obrigação de frequentar a sociedade, na escala em que era agora obrigada a fazer.
Naquelas circunstâncias era necessário, por um a questão de etiqueta, fazer esta últim a observação. Mas ninguém m enos do que Mrs. Bennet encontrava prazer em ficar em casa. Ela concluiu desej ando que Lady Lucas tivesse a m esm a felicidade, em bora fosse evidente que acreditasse que não havia nenhum a possibilidade de acontecer tal coisa.
Elizabeth procurou em vão reprim ir o fluxo das palavras de sua m ãe e persuadi-la a descrever a sua felicidade num tom m ais discreto, pois viu com inexprim ível desapontam ento que Mr. Darcy , sentado defronte delas, ouvia quase todas as suas palavras. Sua m ãe até ralhou com ela por ser tão absurda.
— Que m e im porta Mr. Darcy ? Que m otivo tenho para ter m edo dele? Estou certa que não lhe devem os um respeito tal, que nos obrigue a nada dizer que possa descontentá-lo.
— Pelo am or de Deus, m am ãe, fale m ais baixo. Qual a vantagem de ofender Mr. Darcy ? Não é desta m aneira que se fará estim ar pelo seu am igo.
Nada do que disse, entretanto, teve a m enor influência. Sua m ãe continuou a expressar as suas opiniões no m esm o tom . Elizabeth enrubescia repetidam ente de vergonha e desapontam ento. Não podia deixar de lançar de vez em quando um rápido olhar a Mr. Darcy , em bora cada vez se convencesse m ais de que estava se realizando o que ela m ais tem ia, pois em bora Mr. Darcy não olhasse continuam ente para a sua m ãe, a sua atenção estava invariavelm ente presa ao que ela estava falando. A expressão do seu rosto m udou gradualm ente, do desprezo para a indignação e desta para um a severa gravidade.
No entanto, chegou um m om ento em que Mrs. Bennet nada m ais teve a dizer. E
Lady Lucas, que j á bocej ava há algum tem po, com a repetição dos prazeres que ela não tinha probabilidade de com partilhar, procurava se consolar com presunto frio e galinha. Elizabeth sentiu-se reviver. Mas não durou m uito tem po a sua tranquilidade, pois acabado o j antar falaram em m úsica. E ela teve a m ortificação de ver Mary , depois de ligeira insistência, se preparar para responder ao apelo dos convidados. Tentou por olhares significativos e m udos apelos im pedir que a irm ã desse essa prova de boa vontade. Mas em vão. Mary não com preendia os seus sinais. Um a tal oportunidade de exibir-se era-lhe deliciosa e ela com eçou a cantar. Os olhos de Elizabeth se fixaram nela com os m ais dolorosos sentim entos. Ouviu as várias estrofes com um a im paciência m uito m alcontida, pois Mary , ao perceber entre os agradecim entos a sugestão de que ela pudesse ser instada a renovar o prazer que estava dando aos seus ouvintes, recom eçou a cantar, depois de um a pausa de m eio m inuto. As forças de Mary não estavam absolutam ente à altura de um tal feito; sua voz tornou-se
fraca, seus gestos afetados. Elizabeth sofria torturas. Olhou para Jane a fim de ver com o é que ela suportava aquilo, m as Jane conversava discretam ente com Bingley . Olhou para as suas duas outras irm ãs e viu que faziam sinais um a para a outra, caçoando de Mary . Darcy continuava, porém , im penetravelm ente grave.
Elizabeth olhou para o pai, a fim de suplicar a sua interferência, caso Mary se propusesse cantar a noite inteira. Ele com preendeu o seu gesto e quando Mary acabou de cantar pela segunda vez, disse, em voz alta:
— Isto basta, m inha filha. Você cantou m uito bem e nos deleitou a todos. Agora deixe as outras m oças brilharem .
Mary , em bora fingisse não ouvir, ficou um tanto perturbada. Elizabeth, penalizada por ela e descontente com a sem -cerim ônia de seu pai, teve m edo de que a sua ansiedade tivesse sido inútil. Outras m oças foram convidadas.
— Se eu tivesse a sorte de saber cantar — disse Mr. Collins —, estou certo de que teria o m aior gosto de dar aos ilustres presentes o prazer de um a ária, pois considero a m úsica um passatem po m uito inocente e perfeitam ente com patível com a profissão de um sacerdote. Não quero afirm ar entretanto que sej a j usto dedicar todo o nosso tem po à m úsica, pois existem , é claro, outros deveres. O
reitor de um a paróquia tem m uito o que fazer. Em prim eiro lugar deve fazer um acordo sobre as contribuições, sem ser m uito pesado ao seu protetor. Ele deve escrever os seus próprios serm ões e o tem po que lhe sobra não será m uito para os deveres da paróquia e para o cuidado e conservação da sua casa, que deve tornar tão confortável quanto possível. E não creio que sej am de pouca im portância os cuidados que tom a para m ostrar-se atencioso e benévolo para com todo o m undo, especialm ente para aqueles a quem deve a sua situação. Não m e posso exim ir desta obrigação, nem posso estar de acordo com um hom em que faltasse à ocasião de apresentar os seus respeitos a qualquer m em bro da fam ília dos seus protetores.
E com um a reverência a Mr. Darcy , ele concluiu assim a sua tirada, pronunciando-a tão alto que m etade da sala o ouviu: m uitos o olharam surpresos e m uitos sorriram , m as ninguém pareceu se divertir m ais do que o próprio Mr.
Bennet, enquanto a sua m ulher, m uito séria, dava parabéns a Mr. Collins por ter falado tão sensatam ente e observou, num m eio sussurro a Lady Lucas, que ele era um rapaz notavelm ente inteligente e distinto. Elizabeth pensou que se toda a sua fam ília houvesse entrado em acordo para se expor ao ridículo naquela noite, não poderia ter desem penhado o seu papel com m ais espírito, nem com m aior êxito. E achou que Bingley e sua irm ã tinham sido bastante afortunados, pois parte daquela exibição escapara à atenção do prim eiro. Felizm ente os sentim entos de Bingley não eram de natureza a serem facilm ente alterados pelas loucuras que ele devia ter presenciado. Bastava que as suas duas irm ãs e Mr.
Darcy tivessem tido um a oportunidade de ridicularizar os seus parentes. E ela não sabia dizer qual das duas atitudes era m ais intolerável: se o desprezo silencioso do cavalheiro ou o sorriso insolente das dam as.
O resto da noite trouxe-lhe poucas distrações. Mr. Collins, que perseverava ao seu lado, em bora não a obrigasse a dançar novam ente, im pediu que outros a tirassem . Em vão Elizabeth lhe suplicou que convidasse outra m oça. Chegou m esm o a se oferecer para apresentá-lo a qualquer das m oças que estavam na sala. Ele lhe assegurou que a dança propriam ente lhe era inteiram ente indiferente e que o seu fim era conquistar as boas graças de Elizabeth por m eio de pequenas atenções e que, portanto, considerava um dever ficar ao lado dela durante toda a noite. Não havia argum entos que o dem ovessem de um tal intento.
Se ela teve algum alívio foi graças a Miss Lucas que, para socorrer a sua am iga, procurou conversar com Mr. Collins.
Elizabeth se viu livre afinal da afronta que as atenções de Mr. Darcy lhe causariam . Em bora ele chegasse várias vezes a pouca distância da m oça, não se aproxim ou para conversar. Elizabeth sentiu que isto era devido provavelm ente às referências que fizera à pessoa de Mr. Wickham e sentiu um certo prazer.
A fam ília de Longbourn foi a últim a a partir. Graças a um a hábil m anobra, Mrs.
Bennet conseguiu retardar a sua carruagem durante 15 m inutos depois que todos os outros tinham partido. Isto deu ensej o a que Elizabeth constatasse que várias pessoas da fam ília ansiavam cordialm ente pela partida dos últim os convidados.
Mrs. Hurst e a sua irm ã só abriram a boca para se queixar do cansaço. Estavam im pacientes para terem a casa vazia. Repeliram todas as tentativas de Mrs.
Bennet, que desej ava conversar, e isto lançou um torpor em toda a sala, que nem m esm o as longas tiradas de Mr. Collins conseguiram dissipar. Mr. Collins deu parabéns a Mr. Bingley e às suas irm ãs, pela elegância da festa, pela hospitalidade e polidez com que tinham tratado os seus convidados. Darcy ficou calado. Mr. Bennet, igualm ente silencioso, contem plava a cena com prazer. Mr.