Orgulho e Preconceito

Jane Austen · Capítulo 33 de 62

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Orgulho e Preconceito

Capítulo 33

Nos planos afetuosos que às vezes fazia para Elizabeth, pensava em casá-la com o coronel Fitzwilliam ; ele era, sem com paração, o m ais agradável dos dois. Era evidente que sentia adm iração por Elizabeth, e a sua situação na vida era das m elhores; m as para contrabalançar as suas vantagens, Mr. Darcy tinha um a influência considerável na igrej a, e seu prim o não podia ter nenhum a.

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Mais de um a vez, durante os seus passeios pelo parque, Elizabeth teve a surpresa de se encontrar com Mr. Darcy . Ela percebeu a perversidade do acaso, que o trazia aonde ninguém m ais costum ava aparecer. E para im pedir que isto tornasse a suceder, deu-se ao trabalho de preveni-lo de que aqueles passeios constituíam um dos seus hábitos favoritos. Achou m uito estranho portanto que o acaso se repetisse um a segunda vez, e m esm o um a terceira. Parecia o efeito de um a vontade m aléfica, ou então de um a voluntária m ortificação, pois nessas ocasiões Mr. Darcy não se lim itava a fazer sim ples perguntas de cortesia, e depois de um a pequena pausa em baraçosa ir em bora; ele voltava sobre os seus passos e a acom panhava. Falava pouco e Elizabeth não se dava ao trabalho de ouvi-lo com m uita atenção. Mas da terceira vez, Mr. Darcy lhe fez um as perguntas estranhas e desconexas, sobre o prazer de estar em Hunsford, o gosto que ela parecia encontrar naqueles passeios solitários, e a opinião de Elizabeth sobre a felicidade do casal Collins; e disse tam bém que, por falar em Rosings, e j á que parecia que ela não com preendia bem aquela casa, esperava que quando voltasse novam ente para o Kent fosse hospedar-se lá tam bém . Era isto que as suas palavras pareciam subentender. Estaria ele pensando no coronel Fitzwilliam ? Elizabeth pensou que se aquilo fosse um a indireta tal seria o seu sentido m ais provável. Ficou um pouco perturbada e deu graças a Deus porque naquele instante estavam se aproxim ando do portão da reitoria.

Certo dia em que Elizabeth estava cam inhando, relendo a últim a carta de Jane, especialm ente um determ inado trecho que parecia provar que Jane estava deprim ida, viu, ao levantar os olhos, que se encontrava diante do coronel Fitz william , e não de Mr. Darcy , com o ela tinha suposto. Guardando a carta im ediatam ente e forçando um sorriso, disse:

— Eu não sabia que o senhor costum ava passear por esses lados.

— Estive fazendo a volta do parque — respondeu ele —, com o o faço todos os anos, e tencionava encerrá-la com um a visita à reitoria. Tenciona ir m ais adiante?

— Não, eu ia voltar logo.

E dizendo isto virou-se. Juntos voltaram até a casa.

— Está m esm o decidido a deixar o Kent sábado? — perguntou Elizabeth.

— Sim , a m enos que Darcy torne a adiar a partida. Estou a seu dispor. Ele que decida com o lhe aprouver.

— Ele parece ter grande prazer em exercer a faculdade de escolha. Não conheço ninguém que pareça ter tanto prazer em fazer as suas vontades com o Mr. Darcy .

— É verdade, ele gosta m esm o de fazer o que quer — respondeu o coronel Fitzwilliam . — Mas todos nós gostam os. Som ente, ele tem em geral m ais m eios

de realizar os seus desej os do que o com um dos hom ens. Falo com sinceridade.

Com o filho caçula, tenho que estar preparado para o sacrifício e a obediência.

— Na m inha opinião o filho m ais m oço de um nobre pouco sabe a respeito dessas virtudes. Agora fale seriam ente, que é que o senhor sabe a respeito do sacrifício e da obediência? Quando foi o senhor im pedido, por falta de dinheiro, de se locom over livrem ente ou de obter as coisas que desej ava?

— Isto são perguntas privadas. E talvez eu não possa dizer que tenha experim entado m uitas dificuldades desta natureza, m as em outras questões de im portância, é possível que eu sofra falta de dinheiro. Os filhos m ais m oços não podem se casar com o desej am .

— A não ser que se apaixonem por m ulheres ricas e eu creio que m uitas vezes isto acontece.

— O hábito que tem os de gastar dinheiro nos torna dependentes dem ais. E não há m uitos na m inha situação que se podem casar sem considerar a questão m onetária.

“Será isto um a indireta para m im ?” — pensou Eliza beth. E esta ideia fê-la enrubescer; m as, dom inando-se, disse, num tom alegre:

— E diga-m e, qual é o preço usual para o filho m ais m oço de um nobre? A não ser que o irm ão m ais velho sej a m uito doente, não creio que possam exigir além de cinquenta m il libras.

Ele respondeu no m esm o tom e o assunto m orreu. Para interrom per um silêncio que poderia fazer crer ao coronel que ela se sentira afetada pelo que acabavam de dizer, Elizabeth disse, pouco depois:

— Im agino que o seu prim o deve tê-lo trazido consigo com o intuito principal de ter alguém à sua disposição. Não sei por que não se casa. Teria desse m odo um a pessoa sem pre à sua disposição. Mas talvez a sua irm ã preencha esses requisitos no m om ento. E com o ela se encontra sob os seus cuidados exclusivos, Mr. Darcy pode fazer com ela o que quiser.

— Não — disse o coronel Fitzwilliam —, esta é um a vantagem que tem que com partilhar com igo. Exerço j untam ente com ele a tutela de Miss Darcy .

— Ah, sim ? Diga-m e, que espécie de tutores são os senhores? A sua tutelada lhes dá m uito trabalho? As m oças naquela idade são às vezes difíceis de governar. E

se ela possui o verdadeiro espírito dos Darcy , deve ser voluntariosa.

Enquanto falava, Elizabeth via que o coronel estava olhando para ela seriam ente e pela m aneira com que lhe perguntou pouco depois por que é que supunha que Miss Darcy lhes pudesse causar preocupações, ficou convencida de que tinha chegado próxim o à verdade.

Elizabeth respondeu diretam ente:

— Não precisa se assustar. Nunca ouvi nada de m al a seu respeito. E ouvi dizer até que é um a das pessoas m ais tratáveis do m undo. Duas senhoras m inhas conhecidas gostam m uito dela: Mrs. Hurst e Miss Bingley . Penso que j á ouvi o

senhor dizer que tam bém as conhece.

— Conheço-as um pouco. O irm ão delas é um cavalheiro m uito agradável e bem -educado. É um grande am igo de Darcy .

— Oh, sim — disse Elizabeth, secam ente. — Mr. Darcy é m uito atencioso para com Mr. Bingley . Tem um cuidado realm ente prodigioso com ele.

— Sim , acredito realm ente que Darcy cuide de certas coisas dele que na verdade precisam de cuidados. Por um fato que ele citou durante a nossa viagem para cá, tenho razões para pensar que Bingley deve m uita coisa a Darcy . Mas tenho de desculpar-m e com ele, pois não tenho o direito de pensar que Bingley sej a a pessoa a que se refere a história. E um a sim ples conj etura.

— Qual é essa história?

— É um caso que Darcy naturalm ente não pode desej ar que se espalhe, pois se chegasse aos ouvidos da fam ília da m oça poderia ser um a coisa desagradável.

— Pode ficar certo de que nunca falarei a este respeito.

— E lem bre-se que não tenho m uitas razões para supor que esta pessoa sej a Bingley . O que ele m e contou foi apenas o seguinte: que se felicitava a si m esm o por ter salvo um am igo dos inconvenientes de um casam ento dos m ais im prudentes, m as sem m encionar nom es ou outros quaisquer detalhes. E eu suspeitei que fosse Bingley , apenas porque acredito que é desses rapazes que se m etem em aventuras dessa espécie e porque sei que eles estiveram j untos durante todo o verão passado.

— E Mr. Darcy apresentou os m otivos dessa interferência?

— Com preendi que havia obj eções m uito fortes contra a m oça.

— E de que artifícios usou para separá-los?

— Ele não m e falou a respeito dos artifícios que tinha usado — disse Fitzwilliam sorrindo. — Disse-m e apenas o que acabo de lhe contar.

Elizabeth não respondeu e continuou a andar, com o coração repleto de indignação. Depois de observá-la durante alguns instantes, Fitzwilliam perguntou-lhe por que estava tão pensativa.

— Estive pensando no que acaba de m e contar — disse ela. — A conduta do seu prim o não se coaduna com os m eus sentim entos. Por que é que ele se arrogou o direito de j ulgar?

— Parece que a senhora está disposta a considerar a interferência dele inoportuna.

— Não sei com que direito Mr. Darcy pode decidir a respeito da legitim idade das inclinações do seu am igo, ou baseado apenas no próprio j ulgam ento determ inar de que m aneira aquele am igo poderia ser feliz. Mas — continuou, voltando a si

—, com o não conhecem os as circunstâncias, não é j usto condená-lo. Não suponho que existisse grande afeição naquele caso.

— A suposição não é im provável — disse Fitzwilliam —, porém dim inui bastante o triunfo do m eu prim o.

Estas palavras foram ditas em tom de gracej o; m as pareceu a Elizabeth que traçavam um retrato tão j usto de Mr. Darcy que resolveu refrear a sua resposta.

E portanto, m udando abruptam ente de assunto, falou de coisas indiferentes até que chegaram à reitoria. Aí, logo depois que o visitante partiu, ela se trancou no quarto para pensar sem interrupção em tudo o que tinha ouvido. Não era de supor que fossem outras as pessoas envolvidas. Não poderiam existir no m undo dois hom ens sobre os quais Mr. Darcy exercesse um dom ínio tão absoluto. Nunca duvidara de que ele tivesse tido a sua parte nas m edidas que tinham sido adotadas para separar Mr. Bingley de Jane. Mas sem pre atribuíra a Miss Bingley a iniciativa do plano e a parte m ais im portante da execução. Se ele não tivesse sido portanto iludido pela sua própria vaidade, Mr. Darcy , com o seu orgulho e seu capricho era a causa de tudo o que Jane tinha sofrido. Ele tinha arruinado por algum tem po todas as esperanças de felicidade para o coração m ais afetuoso e m ais generoso do m undo. E ninguém poderia dizer quão duradouro era o m al que tinha causado.

Havia obj eções m uito fortes contra a m oça, tais tinham sido as palavras do coronel Fitzwilliam . E estas fortes obj eções eram provavelm ente as seguintes: o fato dela ter um tio que era advogado no cam po e outro que era com erciante em Londres. “Contra Jane em pessoa”, pensou, “não poderia haver possibilidade de obj eção. Ela é toda doçura e bondade. É inteligente, educada e suas m aneiras são cativantes. Nada pode ser obj etado tam pouco contra m eu pai, que em bora um pouco excêntrico, tem qualidades que nem Mr. Darcy pode desdenhar. E um a respeitabilidade que ele provavelm ente nunca alcançará.” Quando pensava na sua m ãe, com efeito a sua confiança declinava um pouco. Mas não era crível que quaisquer obj eções desse gênero pesassem aos olhos de Mr. Darcy , cuj o orgulho, pensou Elizabeth, seria m ais facilm ente ferido pela falta de im portância das relações do seu am igo do que pela falta de senso dessas m esm as pessoas. E