Orgulho e Preconceito

Jane Austen · Capítulo 4 de 62

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Orgulho e Preconceito

Capítulo 4

— Oh, m eu caro — continuou Mrs. Bennet —, fiquei encantada com ele. É um lindo rapaz e as suas irm ãs são encantadoras. Nunca na m inha vida vi nada tão

elegante quanto os vestidos que elas usavam . A renda do vestido de Mrs. Hurst...

Aí foi ela novam ente interrom pida. Mr. Bennet protestou contra qualquer descrição de toilettes. Mrs. Bennet foi então obrigada a procurar outro aspecto do assunto e relatou com m uita acrim ônia e algum exagero as chocantes m alcriações de Mr. Darcy .

— Mas eu lhe asseguro — acrescentou ela —, que Lizzy não perde m uito por não corresponder às preferências deste hom em , pois ele é desagradável, horrível; pouco adianta cativá-lo. Tão orgulhoso e tão convencido que é im possível aturá-lo. Andava de um lado para outro, pensando na sua própria im portância. Não é suficientem ente sim pático para que se tenha prazer em dançar com ele. Queria que você estivesse lá e lhe desse um a das suas respostas. Detesto aquele hom em .

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Quando Jane e Elizabeth ficaram sozinhas, a prim eira, que anteriorm ente fora m ais discreta nos seus elogios de Mr. Bingley , confessou à sua irm ã quanto o adm irava.

— Ele é exatam ente o que um rapaz deve ser — acrescentou. — Aj uizado, alegre, anim ado. Nunca vi m aneiras tão distintas, tanta espontaneidade e tão boa educação.

— Tam bém é bonito — replicou Elizabeth —, qualidade que um rapaz deve possuir se possível. Assim a sua personalidade se torna com pleta.

— Fiquei m uito lisonj eada por ele m e ter pedido para dançar um a segunda vez.

Não esperava tal galanteio.

— Não? Pois eu o esperava por você. Mas esta é um a das grandes diferenças entre nós. Os galanteios sem pre a surpreendem . A m im , nunca. Nada m ais natural do que ele pedi-la para outra dança. Não podia deixar de reconhecer que você era cinco vezes m ais bonita do que qualquer outra m oça na sala. Não lhe fique grata por isso. Na verdade, ele é m uito agradável, e eu lhe dou licença de gostar dele. Você j á gostou de m uitas pessoas m ais estúpidas.

— Minha querida Lizzy !

— Você bem sabe que tem um a inclinação para gostar em geral das pessoas.

Nunca encontra defeito em ninguém . A seus olhos todos são bons e agradáveis.

Nunca ouvi você falar m al de quem quer que sej a em toda a m inha vida.

— Não desej aria censurar ninguém irrefletidam ente. Mas sem pre digo o que penso.

— Eu sei, e é isso o que m e espanta. Sensata com o você é, deixar-se enganar tão sim ploriam ente pela loucura e pelo absurdo dos outros! A candura afetada é bastante com um ; encontra-se por toda a parte, m as ser cândida sem ostentação ou artifício, ver o lado bom do caráter de todo o m undo, torná-lo ainda m elhor, ignorar o lado m au são coisas que lhe pertencem exclusivam ente. E você gostou tam bém das irm ãs daquele hom em , não é? As m aneiras delas não são tão agradáveis quanto as de Mr. Bingley ...

— Decerto que não. A princípio... Mas são m oças m uito agradáveis quando se conversa com elas. Miss Bingley vai m orar com o irm ão e dirigir a sua casa; se não m e engano, encontrarem os nela um a excelente vizinha.

Elizabeth nada respondeu, m as não ficou convencida. O com portam ento daquelas m oças durante o baile não fora calculado para agradar a todo o m undo.

Dotada de m aior rapidez de observação do que a irm ã e de m enos docilidade de gênio e possuindo, além disso, um a faculdade de j ulgam ento que nenhum a com placência consigo m esm a obscurecia, Elizabeth se sentia pouco disposta a aceitar aquelas pessoas. Eram de fato m oças distintas; não lhes faltava bom hum or quando estavam contentes, nem o poder de agradar quando o desej avam ;

porém eram orgulhosas e convencidas. Além disso eram bastante bonitas e tinham sido educadas num dos principais colégios particulares de Londres.

Possuíam um a fortuna de vinte m il libras, costum avam gastar m ais do que deviam e associar-se com pessoas de classe: tinham portanto as aptidões necessárias para pensar bem de si m esm as e m ediocrem ente dos outros.

Provinham de um a fam ília respeitável do Norte da Inglaterra; coisa que guardavam m ais profundam ente im pressa em sua m em ória do que o fato de sua fortuna, bem com o a do irm ão, terem sido adquiridas no com ércio.

Mr. Bingley herdara do pai um a fortuna calculada em cem m il libras. Este tencionara com prar um a propriedade, m as m orrera antes de realizar o seu proj eto. Mr. Bingley alim entava a m esm a ideia e às vezes escolhia o seu condado; m as com o dispunha agora de um a boa propriedade e da liberdade de um a casa senhorial, m uitos daqueles que lhe conheciam o gênio acom odatício desconfiavam de que acabasse o resto dos seus dias em Netherfield, incum bindo da com pra a próxim a geração.

Suas irm ãs estavam ansiosas para que ele possuísse um dom ínio particular; no entanto, em bora Mr. Bingley estivesse agora estabelecido apenas com o locatário, Miss Bingley de m odo algum se recusava a presidir a sua m esa; e Mrs. Hurst, que se tinha casado m ais pela im portância social do que pela fortuna do m arido, não se encontrava m enos disposta a considerar a casa do irm ão com o a sua própria, desde que a m esm a lhe conviesse. Havia apenas dois anos que Mr.

Bingley atingira a m aioridade, quando, devido a um a recom endação ocasional, se sentira tentado a visitar Netherfield House. E de fato a visitou durante m eia hora, ficando satisfeito com a situação e os quartos principais, ouviu os elogios da proprietária e alugou-a im ediatam ente. Entre ele e Darcy havia um a am izade m uito firm e, apesar dos seus caracteres serem opostos. Bingley era caro a Darcy pela doçura, franqueza e m aleabilidade do seu gênio, em bora essas qualidades contrastassem de m odo absoluto com as suas, e Darcy não parecesse nada descontente com as que lhe tinham cabido por sorte. Bingley confiava cegam ente na força dos sentim entos de Darcy , e tinha a m ais alta opinião das suas ideias. Em inteligência Darcy era superior. Bingley não era de m odo nenhum deficiente em força m ental, m as Darcy era m ais vivo. Era ao m esm o tem po altivo, reservado, desdenhoso, e suas m aneiras, apesar de bem -educado, eram pouco convidativas. A esse respeito, o seu am igo levava grande vantagem : Bingley tinha a certeza de agradar, onde quer que aparecesse. Darcy estava sem pre ofendendo os outros.

A m aneira pela qual eles se referiam ao baile de Mery ton era bastante característica. Bingley dizia que nunca encontrara gente m ais agradável, nem m oças m ais bonitas em toda a sua vida. Todos tinham sido am áveis e atenciosos com ele; não tinha havido form alidade nem friezas e sentira-se logo à vontade com todos na sala; quanto a Miss Bennet não podia conceber que um anj o fosse

m ais belo. Darcy , ao contrário, afirm ava que havia assistido a um a reunião em que não havia beleza nem elegância; não sentira o m enor interesse por nenhum a pessoa e tam pouco recebera a atenção de alguém . Reconhecia que Miss Bennet era bonita, em bora sorrisse dem ais. Mrs. Hurst e a sua irm ã concordaram com isto. Mas ainda assim adm iravam Miss Bennet e declararam que era um a m oça encantadora e que não se oporiam a entrar em relações m ais estreitas com ela.