Orgulho e Preconceito

Jane Austen · Capítulo 40 de 62

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Orgulho e Preconceito

Capítulo 40

Ser-lhe-ia extrem am ente penoso encontrar-se com Wickham e estava resolvida a evitá-lo o m ais que pudesse. A próxim a partida do regim ento era um im enso consolo para ela. Daí a 15 dias partiriam os oficiais e esperava ficar livres deles para sem pre.

Poucas horas depois de chegar em casa, Elizabeth descobriu que o plano de

Brighton a que Ly dia aludira na hospedaria estava frequentem ente em discussão entre os seus pais. Viu im ediatam ente que o seu pai não tinha a m enor intenção de ceder. Mas as suas respostas eram ao m esm o tem po tão vagas e equívocas que sua m ãe, em bora m uitas vezes desanim ada, ainda não tinha perdido as esperança de triunfar afinal.

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Elizabeth não conseguiu refrear por m ais tem po a im paciência em que estava para contar a Jane o que tinha acontecido. E afinal, resolvendo om itir todos os detalhes que dissessem respeito à sua irm ã, e prevenindo-a de que ia ficar surpresa, contou-lhe na m anhã seguinte a m aior parte da cena que se tinha passado entre Mr. Darcy e ela própria.

A surpresa de Miss Bennet a princípio foi grande, m as aos poucos com eçou a achar natural o que tinha acontecido, pois j ulgava que todos deviam com partilhar a adm iração que sentia por Elizabeth. Era realm ente lam entável que Mr. Darcy tivesse m anifestado os seus sentim entos de um a form a que os recom endava tão pouco. Mas o que m ais a entristeceu foi o desgosto que a recusa de sua irm ã lhe devia ter causado.

— A certeza que ele tinha do seu êxito era falsa — disse Jane. — E sobretudo não devia ter transparecido. Mas não se esqueça de que isto torna ainda m ais cruel o seu desapontam ento.

— Realm ente — disse Elizabeth —, eu sinto m uito por ele. Mas Mr. Darcy tem outros sentim entos que provavelm ente expulsarão dentro de m uito pouco tem po a adm iração que tem por m im . Mas você não m e censura por tê-lo recusado?

— Censurar você? Oh, não...

— Mas você m e censura por ter tom ado tão a peito o partido de Wickham ?

— Não, não sei o que haveria de errado no que você disse.

— Mas você saberá, depois que lhe contar o que aconteceu no dia seguinte.

Elizabeth falou então na carta, repetindo tudo o que ela continha, na parte que se referia a George Wickham . Foi um grande choque para a pobre Jane, que de bom grado passaria pelo m undo sem saber que existia nele todo tanta m aldade, com o a que se concentrava aqui num só indivíduo. Nem m esm o a j ustificação de Darcy , grata aos seus sentim entos, era suficiente para a consolar de um a tal descoberta. Com a m aior seriedade, Jane procurou provar que havia um a possibilidade de erro, tentando inocentar um deles sem acusar o outro.

— Isto não pode ser — disse Elizabeth —; você nunca conseguirá fazer com que am bos tenham razão. Faça a sua escolha, m as é preciso que se contente com um deles. As qualidades dos dois reunidas chegam apenas para fazer um hom em bom . Ultim am ente as situações se têm invertido várias vezes. Quanto a m im estou inclinada a acreditar em Mr. Darcy , m as você pode escolher o que quiser.

Passou-se algum tem po, entretanto, antes que um sorriso aparecesse no rosto de Jane.

— Não m e lem bro j am ais de ter sofrido um tão grande desapontam ento — disse ela. — Wickham é tão ruim assim ? É quase inacreditável! E coitado de Mr.

Darcy ... Pensa, Lizzy , em tudo o que ele deve ter sofrido. Que decepção! E ficou sabendo o que você pensa dele... E ter de contar um a coisa daquelas da sua

própria irm ã! É realm ente m uito triste. Creio que você deve sentir a m esm a coisa.

— Oh, não, m inha com paixão e m eu arrependim ento se dissipam quando vej o você toda cheia dos m esm os sentim entos! Tenho tanta certeza que você lhe fará toda a j ustiça, que cada vez m e sinto m ais despreocupada e indiferente. A sua generosidade dispensa a m inha. E se você continuar a lam entá-lo m uito m ais tem po, m eu coração ficará tão leve com o um a pena.

— Pobre Wickham ! O rosto dele exprim e tanta bondade... Suas m aneiras são tão francas e am áveis...

— Houve certam ente um grande erro na educação desses dois rapazes. Um tem todas as qualidades e outro todas as boas aparências.

— Eu nunca achei que as aparências de Mr. Darcy eram tão m ás assim .

— E no entanto, ao tom ar partido tão violentam ente contra ele, sem nenhum a razão, eu m e vangloriava da m inha agudeza. Um a antipatia tão forte com o a que eu tinha por ele é um grande incentivo para a inteligência e para a ironia. A gente pode falar m al de um hom em continuam ente, sem nada exprim ir de j usto, m as não se pode rir a vida inteira de alguém , sem de vez em quando se esbarrar num a coisa espirituosa.

— Lizzy , estou certa de que quando leu a carta pela prim eira vez não encarava as coisas do m esm o m odo.

— Realm ente, eu não podia. Estava m uito perturbada. Posso dizer até infeliz. E

depois eu não tinha ninguém com quem falar, não tinha Jane para m e consolar, assegurando-m e que eu não tinha sido tão fraca e leviana quanto eu sabia que realm ente fora. Oh, com o eu desej ava que você estivesse j unto de m im .

— Foi pena que você tenha usado de expressões tão fortes falando de Wickham para Mr. Darcy . Pois agora vê-se claram ente que foram im erecidas.

— Certam ente. Mas a infelicidade de falar am arguradam ente é um a consequência natural da parcialidade de que m e tinha tornado culpada. Há um ponto sobre o qual eu quero o seu conselho. Quero saber se devo ou não revelar aos nossos conhecidos qual é o caráter real de Wickham .

Miss Bennet fez um a pequena pausa e depois respondeu:

— Acho que não há m otivo para um a tão terrível denúncia. Que pensa você?

— Acho que isto não deve ser feito. Mr. Darcy não m e autorizou a tornar públicas as suas declarações; pelo contrário, ele m e recom endou que guardasse exclusivam ente para m im todos os detalhes relativos à sua irm ã. E se eu não m encionar este fato central, quem m e acreditará? A m á vontade geral contra Mr. Darcy é tão violenta que m etade dos habitantes de Mery ton m orreria se eu tentasse colocá-lo sob um a luz m ais favorável. Não tenho forças para isto.

Wickham dentro em pouco partirá. E portanto, pouco im porta que ninguém aqui saiba o que ele é realm ente. Algum dia será descoberto, e então nós poderem os rir da estupidez dos outros por não terem adivinhado há m ais tem po. No

m om ento eu não direi nada.

— Tem toda a razão. Se denunciarm os publicam ente os seus erros, podem os arruinar a sua vida para sem pre. Talvez estej a arrependido do que fez e ansioso em refazer a sua reputação. Não devem os fazê-lo desesperar.

Esta conversação aj udou Elizabeth a pôr em ordem os seus tum ultuosos pensam entos. Ela se tinha libertado de dois segredos que lhe haviam pesado durante 15 dias. Tinha a certeza de que Jane a tornaria a ouvir com a m esm a boa vontade, quando desej asse falar novam ente. Mas ainda havia outra coisa que se escondia na som bra e que a prudência de Elizabeth im pedia de desvendar. Não ousava relatar a Jane a outra m etade da carta de Mr. Darcy , nem lhe revelar que Bingley correspondera sinceram ente ao seu afeto. Aí estava um segredo que ninguém podia com partilhar. E ela com preendia que só o restabelecim ento da m ais perfeita com preensão entre eles poderia desobrigá-la desse silêncio. E

refletiu que se este acontecim ento tão pouco provável ocorrese, tudo o que poderia fazer era repetir o que o próprio Bingley diria de um a form a m uito m ais agradável. “Só ficarei livre desse segredo”, pensou Elizabeth, “quando ele tiver perdido todo o valor.”

Agora, instalada em casa, tinha toda a oportunidade de observar o estado real dos sentim entos de sua irm ã. Jane não estava feliz. Ela conservava m uito viva a sua afeição por Bingley . Com o nunca anteriorm ente ela se im aginara apaixonada, esses sentim entos tinham todo o calor e toda a frescura do prim eiro am or, e devido ao seu caráter e idade, m aior firm eza do que essas prim eiras paixões em geral possuem . Cultuava com tanto fervor a lem brança de Bingley e de tal m odo o preferia a qualquer outro hom em , que precisava lançar m ão de todo o seu bom senso e de toda a sua consideração dos sentim entos alheios para dom inar aquelas tristezas que poderiam se tornar prej udiciais para a sua própria saúde e para a tranquilidade dos seus am igos.

— Bem — disse Mrs. Bennet um dia para Elizabeth —, que é que você pensa agora desse insucesso de Jane? Quanto a m im , estou decidida a não falar m ais nisto com ninguém . Foi o que disse à m inha irm ã Philips no outro dia. Mas eu não consigo saber se Jane se avistou com ele em Londres. Bem , é um rapaz m uito pouco m erecedor. E não creio que haj a a m enor probabilidade de Jane reavê-lo.

Nada se fala a respeito da sua volta a Netherfield no verão. Eu j á indaguei de todas as pessoas que poderiam saber.

— Eu creio m esm o que nunca virá a Netherfield.

— Ah, bem , ele fará o que quiser. Ninguém desej a que volte. Mas eu continuaria a dizer que foi m uito desleal para com a m inha filha. E se eu fosse ela, não teria suportado isto; m as o m eu consolo é que Jane m orrerá de desgosto. E ele então se arrependerá do que fez.

Mas com o Elizabeth não via nenhum consolo neste prognóstico, nada respondeu.

— Bem , Lizzy — continuou a sua m ãe, pouco depois. — Os Collins vivem lá

m uito confortavelm ente, não é? Bem , bem , eu só desej o que isto dure. E com o é a m esa deles? Charlotte é um a excelente dona de casa. Se é tão econôm ica quanto a m ãe, deve estar pondo dinheiro de lado. Não há extravagância nenhum a na casa dos pais dela.

— Não, nenhum a.

— A boa adm inistração de um a casa depende principalm ente disto. Sim , sim , aqueles não correm o risco de gastar m ais do que têm . Nunca terão atrapalhações de dinheiro. Bem , que sej am felizes. E naturalm ente fazem m uitos planos a respeito de Longbourn depois que o seu pai m orrer, não? Já consideram isto naturalm ente com o um a propriedade sua.

— Foi um assunto que nunca m encionaram na m inha frente.