Orgulho e Preconceito

Jane Austen · Capítulo 29 de 62

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Orgulho e Preconceito

Capítulo 29

— É só isto? — exclam ou Elizabeth. — Eu supus no m ínim o que os porcos tinham entrado no j ardim . E nada vej o a não ser Lady Catherine e sua filha.

— Oh — exclam ou Maria, escandalizada com o engano. — Não é Lady Catherine; aquela senhora é Mrs. Jenkinson, que m ora com eles. A outra é Miss de Bourgh. Olha para ela, com o é pequena, quem im aginaria que pudesse ser assim tão m iúda e tão m agra?

— Eu acho um a grande falta de cortesia da parte dela obrigar Charlotte a ficar lá fora com esse vento. Por que é que ela não entra?

— Charlotte disse que quase nunca entra. É o m aior favor que pode conceder.

— A sua aparência m e agrada — disse Elizabeth, a quem outros pensam entos tinham ocorrido. — Ela parece doentia e triste. Sim , serve para ele m uito bem .

Convém -lhe perfeitam ente com o esposa.

Mr. Collins e Charlotte estavam am bos em conversa com as senhoras. E para alegria de Elizabeth, Sir William estava postado na porta de entrada, absorto pela grandeza que tinha diante de si, e inclinando-se constantem ente, cada vez que Miss de Bourgh olhava para aquele lado.

Finalm ente a conversação se esgotou; o carro partiu e os outros voltaram para casa. Assim que Mr. Collins avistou as duas m oças, pôs-se a cum prim entá-las pela sorte que tinham ; Charlotte explicou que todos tinham sido convidados para j antar em Rosings no dia seguinte.

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O triunfo de Mr. Collins com aquele convite foi com pleto. A possibilidade de m ostrar a grandeza da sua protetora e a am abilidade com que Lady Catherine o tratava, bem com o a sua esposa, era exatam ente o que tinha desej ado. O que m ais lhe agradava, lançando-o num a adm iração sem lim ites, era a condescendência que Lady Catherine m ostrara, convidando-os tão cedo.

— Confesso — disse ele — que eu não teria ficado surpreso se Lady Catherine nos convidasse para tom ar chá e passar a tarde em Rosings no sábado. A experiência que tenho da sua afabilidade m e autorizava a fazer essa suposição.

Mas quem poderia ter previsto tam anha atenção? Quem poderia ter im aginado que iríam os receber um convite para j antar, um convite aliás que abrange todo o grupo, tão im ediatam ente depois da vossa chegada?

— A m im não m e surpreende tanto — replicou Sir William —, pois eu conheço os hábitos dos grandes, graças à m inha situação na vida. Na corte, por exem plo, essas coisas não são raras.

Durante o resto do dia, e na m anhã seguinte, não se falou quase em outro assunto.

Mr. Collins teve a precaução de lhes descrever as m aravilhas que os esperavam para que o espetáculo dos salões, dos inúm eros criados e do opulento j antar não os ofuscasse inteiram ente.

Antes das senhoras se retirarem para os seus quartos a fim de se preparar, ele disse a Elizabeth:

— Não fique inquieta, m inha cara prim a, a respeito da sua toalete. Lady Catherine está longe de exigir de nós a elegância que ela e sua filha ostentam . Eu lhe aconselho apenas a pôr o seu vestido m ais elegante. Não é necessário m ais do que isto. Lady Catherine não ficará aborrecida de vê-la vestida com sim plicidade. Ela gosta de m anter as distinções de classe.

Enquanto as m oças se vestiam , Mr. Collins veio bater duas ou três vezes em cada porta, para recom endar que se apressassem , pois Lady Catherine não gostava que a fizessem esperar para o j antar. Maria Lucas, que tinha pouca prática da sociedade, estava assustada com as form idáveis descrições da suntuosidade de Lady Catherine e do seu estilo de vida. E a sua apreensão não era m enor do que a que seu pai sentira antes da sua apresentação em St. Jam es.

Com o o tem po estava bom , o passeio através do parque foi m uito agradável.

Todos os parques têm as suas belezas e as suas perspectivas. Elizabeth o achou bonito, em bora não visse m otivos para os êxtases de Mr. Collins. A enum eração que este fez das j anelas da fachada da frente e a sua revelação da som a que tudo aquilo custara a Sir Lewis de Bourgh a im pressionaram pouco.

Enquanto subiam as escadas para o hall, a em oção de Maria crescia a olhos vistos. E m esm o Sir William não parecia perfeitam ente calm o. A coragem de Elizabeth não lhe faltou. Pelo que ouvira falar a respeito de Lady Catherine, não

acreditava que ela im pusesse graças a talentos extraordinários ou virtudes m iraculosas. E acreditava poder contem plar sem desfalecer a sim ples pom pa do dinheiro e da ostentação social.

Do hall de entrada, cuj as belas proporções e ricos ornam entos Mr. Collins fez ressaltar com ar extático, as visitas acom panharam os criados através de um a antecâm ara até um a sala onde estavam Lady Catherine, sua filha e Mrs.

Jenkinson. Ao vê-los entrar, Lady Catherine, com grande condescendência, levantou-se para recebê-los. E com o Mrs. Collins tinha com binado com o m arido que a form alidade das apresentações deveria ficar a cargo da esposa, a cerim ônia decorreu corretam ente, sem todas aquelas desculpas e agradecim entos que Mr. Collins teria j ulgado necessários.

Apesar de j á ter sido recebido em St. Jam es, Sir William estava tão im pressionado que se lim itou a fazer profundas reverências e a sentar na sua cadeira sem dizer um a palavra. E sua filha, quase fora de si de m edo, sentou na beirada da sua cadeira, sem saber para que lado olhar. Elizabeth não se sentiu absolutam ente perturbada e pôde observar serenam ente as três dam as à sua frente.

Lady Catherine era um a senhora alta, bastante gorda, com traços fortem ente m arcados, que outrora deveriam ter sido bonitos. O seu ar não era conciliador, nem a sua m aneira de receber as visitas era tal que lhes fizesse esquecer a sua inferioridade social. Os seus silêncios não a tornavam form idável, m as tudo o que ela dizia era pronunciado num tom tão autoritário que revelava a sua pretensão; Elizabeth lem brou-se im ediatam ente da descrição de Mr. Wickham . E achou que Lady Catherine deveria ser exatam ente com o ele a tinha descrito.

Quando, depois de exam inar a m ãe, em cuj o rosto e gestos percebeu logo um a forte parecença com Mr. Darcy , voltou os olhos para a filha, achou-a tão m irrada que quase lhe escapou dos lábios a m esm a exclam ação de espanto que Maria tivera. Não havia a m enor sem elhança entre a m ãe e a filha, nem no tipo nem no rosto. Os traços de Miss de Bourgh, em bora não fossem desagradáveis, eram insignificantes. Falava m uito pouco e só em voz baixa para Mrs. Jenkinson, cuj a aparência nada tinha de excepcional e que se ocupava exclusivam ente em ouvir o que ela dizia e em colocar um quebra-luz em situação conveniente diante dos olhos da m oça.

Depois de ficarem sentados durante alguns m inutos, eles se dirigiram até a j anela para adm irar a vista; Mr. Collins se encarregava de lhes detalhar as belezas enquanto Lady Catherine tinha a bondade de inform ar a seus convidados que a vista era m uito m ais bela no verão.

O j antar foi dos m elhores. Mr. Collins não tinha exagerado o núm ero de pratos e de criados. Com o previra igualm ente, ele se sentou na extrem idade da m esa, por desej o expresso de Lady Catherine, m as a sua atitude era a de um hom em a quem nada de m elhor na vida pudesse suceder. Serviu-se, com eu e elogiou tudo

com deliciada alegria; e todos os pratos foram louvados, prim eiro por ele, em seguida por Sir William que, agora m ais tranquilo, repetia tudo o que o seu genro dizia, com o um eco, de tal m odo que Elizabeth perguntou a si m esm a se Lady Catherine não o acharia cacete. Mas Lady Catherine parecia satisfeita com a adm iração excessiva dos seus hóspedes e sorria da m aneira m ais graciosa, especialm ente quando era servido algum prato que eles não conheciam . Os outros conversavam pouco. Elizabeth estava sem pre pronta para falar quando encontrava um a ocasião. Estava sentada entre Charlotte e Miss de Bourgh. A prim eira seguia com atenção as palavras de Lady Catherine, e a segunda não deu um a palavra durante todo o j antar. Mrs. Jenkinson fiscalizava o apetite de Miss de Bourgh, e se m ostrava preocupada porque ela com ia tão pouco, insistindo para que provasse dos vários pratos e tem erosa de que Miss de Bourgh estivesse indisposta. Maria nunca se atreveria a falar. E os cavalheiros nada m ais faziam senão com er e adm irar.

Em seguida as senhoras voltaram para a sala. E até a hora do café tiveram que ficar ouvindo Lady Catherine falar. Ela falava sem interrupção, dando a sua opinião sobre cada assunto, com um a segurança que m ostrava que não estava habituada a que lhe contestassem as palavras. Fez perguntas a Charlotte a respeito de assuntos dom ésticos, com fam iliaridade e m inúcia. E deu-lhe m uitos conselhos; disse-lhe com o tudo deveria ser regulado num a fam ília pequena com o a sua e ensinou-lhe a cuidar das vacas e das aves dom ésticas. Elizabeth verificou que nenhum assunto, por m ais hum ilde que fosse, escapava à atenção de Lady Catherine, contanto que encontrasse neles um a oportunidade para doutrinar. Nos intervalos das recom endações a Mrs. Collins, fazia um a série de perguntas a Maria e Elizabeth, especialm ente a esta últim a, que conhecia m enos e que, observou ela para Mrs. Collins, era um a m ocinha m uito gentil e bonita.

Perguntou-lhe várias vezes quantas irm ãs tinha, se eram m ais m oças ou m ais velhas do que ela, se era provável que algum a se casasse, se eram bonitas, onde tinham sido educadas, qual era a situação do seu pai e qual o nom e de solteira de sua m ãe. Elizabeth sentiu toda a im pertinência contida nessas perguntas, m as respondeu com grande sim plicidade. Lady Catherine então observou:

— A propriedade do seu pai está destinada, pela sucessão, a cair nas m ãos de Mr.

Collins. Alegro-m e por sua causa — continuou ela, virando-se para Charlotte. —

Mas não vej o a necessidade de privar a descendência fem inina do direito de herdar propriedades. Na fam ília de Sir Lewis de Bourgh, isto não foi j ulgado necessário. Sabe tocar piano e cantar, Miss Bennet?

— Um pouco.

— Então, um dia destes precisa nos dar este prazer. O nosso instrum ento é dos m elhores. Provavelm ente superior ao... Precisa experim entá-lo qualquer dia. As suas irm ãs tam bém sabem tocar e cantar?

— Um a delas sabe.

— Por que as outras tam bém não aprenderam ? Deviam todas saber m úsica. As irm ãs Webb todas sabem tocar. E o pai delas não tinha tanto rendim ento quanto o seu. Sabe desenhar?

— Não, senhora.

— O quê? Nenhum a de vocês?

— Nenhum a.

— Isto é m uito curioso. Mas com certeza não tiveram oportunidade. Sua m ãe devia ter levado vocês todas as prim averas para a cidade, para tom ar lições.

— Minha m ãe não faria obj eção a isto, m as m eu pai detesta Londres.

— A sua governanta foi despedida?

— Nós nunca tivem os governanta.

— Nunca tiveram governantas? Com o é isto possível! Educar cinco filhas sem um a governanta! Nunca ouvi tal coisa! Sua m ãe deve ter ficado escravizada à educação de vocês!

Elizabeth não pôde deixar de sorrir ao responder que este não fora o caso.

— Então quem ensinou a vocês? Quem se encarregou da sua educação? Sem um a governanta, ela deve ter sido relaxada.

— Em com paração com a de certas fam ílias, acredito que sim . Mas lá em casa, às m eninas que quiseram aprender nunca lhes faltou m eios para isto. Sem pre nos encoraj aram a ler e tivem os todos os professores necessários. Mas às que preferiram não estudar foi-lhes feita a vontade.

— Sem dúvida, m as isto j ustam ente é o que um a governanta teria evitado. Se tivesse conhecido a sua m ãe, eu a teria aconselhado com m uita insistência a que tom asse um a governanta. Eu sem pre digo que não é possível fazer nada em educação sem um a instrução constante e regular, e só um a governanta pode fazer isto. É espantoso o núm ero de fam ílias para as quais eu arranj ei governantas. É sem pre com prazer que eu coloco um a m oça bem-educada.

Graças aos m eus cuidados, quatro sobrinhas de Mrs. Jenkinson foram m agnificam ente colocadas. E outro dia m esm o eu recom endei outra j ovem cuj o nom e ouvi apenas acidentalm ente e a fam ília ficou m uito satisfeita com ela. Mrs.

Collins, eu j á lhe contei que Lady Metcalf veio m e visitar ontem para m e agradecer? Ela acha Miss Pope um tesouro. “Lady Catherine”, disse ela, “a senhora m e deu um tesouro.” Algum a das suas irm ãs m ais m oças j á foi apresentada à sociedade, Miss Bennet?

— Sim , m inha senhora, todas.

— O quê? Todas cinco de um a vez? É m uito estranho. E você é apenas a segunda! As m ais m oças j á frequentam a sociedade antes das m ais velhas se casarem ! Suas outras irm ãs são m uito m oças?

— A m ais m oça ainda não fez dezesseis anos. Talvez sej a um pouco cedo dem ais para fazer vida social. Mas realm ente, m inha senhora, eu acho que seria um a crueldade recusar-lhes a sua parte de distrações e sociedade, só porque a

m ais velha não teve os m eios ou a inclinação para se casar m ais cedo. As m ais m oças têm os m esm os direitos aos prazeres da m ocidade que as m ais velhas. E

trancá-las em casa, creio que não seria um bom m eio de prom over a afeição fraternal ou delicadeza de sentim entos.

— Sob m inha palavra — disse Lady Catherine —, você dá a sua opinião m uito decididam ente para um a pessoa de tão pouca idade. Diga-m e, quantos anos tem ?

— Com três irm ãs m ais m oças j á crescidas — replicou Elizabeth —, Vossa Senhoria não pode esperar que eu lhe dê um a resposta.

Lady Catherine pareceu ficar atônita com a resposta e Elizabeth suspeitou que ela tinha sido a prim eira pessoa que j am ais ousara fazer pouco de um a tão pom posa im pertinência.

— Você não pode ter m ais de vinte anos, portanto não precisa esconder a sua idade.

— Ainda não fiz 21 anos.

Depois do chá, quando os cavalheiros se reuniram a elas, as m esas de j ogo foram colocadas. Lady Catherine, Sir William , Mr. e Mrs. Collins sentaram -se para j ogar quadrille. E com o Miss de Bourgh preferisse j ogar casino, as duas m oças e Mrs. Jenkinson tiveram a honra de form ar um a segunda m esa com ela.

Esta m esa foi extrem am ente cacete.

Não se ouviu um a sílaba que não se referisse ao j ogo, exceto quando Mrs.

Jenkinson exprim ia os seus receios de que Miss de Bourgh estivesse agasalhada dem ais ou de m enos ou que a luz estivesse deficiente ou em excesso. A outra m esa era m uito m ais anim ada. Lady Catherine em geral estava sem pre falando, apontando os erros dos três outros, ou contando algum caso a respeito de si m esm a. Mr. Collins estava ocupado em concordar com tudo o que Lady Catherine dizia, agradecendo-lhe cada ponto que ganhava e pedindo desculpas se achava que estava ganhando dem ais. Sir William pouco dizia. Ele estava sondando na sua m em ória anedotas e nom es nobres que conhecia.

Quando Lady Catherine e sua filha se fartaram de j ogar, as m esas foram carregadas, a carruagem foi oferecida a Mrs. Collins, aceita com gratidão e im ediatam ente cham ada. Todos se reuniram em torno da lareira para ouvir Lady Catherine lançar os seus oráculos sobre o tem po que faria no dia seguinte.

A chegada da carruagem a interrom peu.

E depois de m uitas tiradas de agradecim entos da parte de Mr. Collins e outras tantas reverências de Sir William , partiram . Mal tinham passado a porta, Mr.