Orgulho e Preconceito
Capítulo 42
— A senhora, que conhece tão bem os m eus sentim entos para com Mr. Darcy , há de com preender quanto eu m e alegro sinceram ente de que ele assum a, pelo m enos, a aparência de j ustiça. Nisso o orgulho dele pode ser útil, senão para ele próprio, pelo m enos para os outros, pois o im pedirá de com eter tão flagrantes inj ustiças com o as que eu tive de sofrer. Tem o apenas que essas precauções, às quais, im agino, a senhora acaba de aludir, sej am apenas adotadas durante as visitas em casa da sua tia, de cuj a opinião e j ulgam ento ele tem o m aior respeito.
O m edo que a sua tia lhe causa sem pre atuou sobre ele, quando estão j untos; e um a grande parte disto deve ser atribuída ao desej o que tem de favorecer o seu proj etado casam ento com Miss de Bourgh, pois sei com certeza que ele leva isto m uito a sério.
Elizabeth não pôde deixar de sorrir, m as respondeu apenas com um ligeiro aceno de cabeça. Com preendeu que ele desej ava arrastá-la para o assunto das suas m ágoas e não estava disposta a tolerá-lo. Durante o resto da noite, Wickham procurou se m ostrar alegre e despreocupado com o sem pre, porém cessou as suas atenções para com Elizabeth. Separaram -se com m útua cortesia e possivelm ente um desej o igual de nunca m ais se encontrar.
Quando chegou a hora das visitas se retirarem , Ly dia regressou com Mrs. Forster para Mery ton, de onde deveriam partir no dia seguinte de m anhã cedo. A separação entre ela e o resto da fam ília foi m ais ruidosa do que patética. Kitty foi a única que chorou, m as as suas lágrim as eram de hum ilhação e invej a. Mrs.
Bennet foi eloquente nos seus desej os de felicidade para a filha, e nas suas inj unções para que ela não perdesse nenhum a oportunidade de se divertir, conselho que, tudo levava a crer, seria seguido à risca. E no m eio dos clam ores com que Ly dia exprim ia a sua felicidade, os adeuses m enos ruidosos das suas irm ãs quase não foram ouvidos.
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Se as opiniões de Elizabeth se originassem do exem plo dado pela sua própria fam ília, a sua ideia da felicidade conj ugal e de conforto dom éstico não poderia ser das m ais lisonj eiras. Seu pai, cativado pela m ocidade, beleza e aparência de bom hum or que a j uventude em geral confere às m ulheres, tinha se casado com um a pessoa de débil com preensão e de ideias estreitas; m uito pouco tem po depois do casam ento, esses defeitos haviam extinguido toda a afeição sincera que tinha por ela. O respeito, a estim a, a confiança, tinham -se desvanecido para sem pre. E todos os seus anseios de felicidade dom éstica foram destruídos. Mas Mr. Bennet não era desses hom ens que procuram se consolar das desilusões causadas pelas suas próprias im previdências entregando-se a esses prazeres em que os infelizes procuram um a com pensação para as suas loucuras e os seus vícios. Ele gostava do cam po e dos livros; disso tirava as suas principais distrações, e quanto à sua m ulher, pouco m ais lhe devia do que os divertim entos que o espetáculo da sua ignorância e a sua falta de senso lhe tinham proporcionado. Essa não é a espécie de felicidade que os hom ens em geral desej am encontrar no casam ento. Mas na falta de outros dons, o verdadeiro filósofo se contentará com os poucos que lhe são dados.
Elizabeth, no entanto, nunca fora cega aos defeitos de seu pai com o m arido.
Aquilo sem pre lhe doera, m as adm irando as suas qualidades e grata pela m aneira afetuosa com que a tratava, Elizabeth se esforçava por esquecer o que não podia deixar de perceber e bania dos seus pensam entos essas contínuas irregularidades de conduta conj ugal que, expondo a sua m ãe ao desprezo das suas próprias filhas, era portanto altam ente repreensível. Mas nunca sentira tão fortem ente com o agora as desvantagens que devem sofrer os filhos de um casal tão pouco unido, nem com preendera antes tão claram ente os m ales provenientes de um a defeituosa aplicação de talentos; talentos que, bem -em pregados, poderiam proteger a respeitabilidade das suas filhas, m esm o se não conseguissem alargar a m entalidade da sua esposa.
Após o alívio que lhe causara a partida de Wickham , Elizabeth encontrou m enos prazer do que esperava na partida do regim ento. As reuniões em que tom ava parte eram m enos variadas do que antes. E em casa tinha um a m ãe e um a irm ã cuj as continuas lam entações sobre o tédio da vida que levavam proj etavam um a tristeza real sobre o círculo da fam ília. E em bora Kitty se m ostrasse às vezes m ais sensata, pois as causas que perturbavam o seu cérebro tinham sido rem ovidas, em com pensação, Ly dia, cuj as tendências eram m ais perigosas, m orando agora num lugar tão im próprio, a um tem po caserna e balneário, acentuaria provavelm ente os seus defeitos e a sua inconsciência. Em sum a, portanto, descobriu, com o anteriorm ente j á m uitas vezes acontecera, que os acontecim entos esperados com im paciência não produziam , ao se realizarem ,
toda a satisfação que deles esperava. Era portanto necessário m arcar um outro período para o com eço da sua verdadeira felicidade, ter outros pontos de apoio para os seus desej os e esperanças. E consolava-se atualm ente com o prazer de antecipar futuras felicidades. A sua viagem para os lagos constituía agora o obj eto dos seus pensam entos m ais felizes. Era o seu m elhor consolo para as horas desagradáveis que o descontentam ento de Kitty e de sua m ãe tornavam inevitável. E para tornar o seu plano perfeito, só faltava incluir nele Jane.
“Felizm ente eu tenho algum a coisa a desej ar”, pensou Elizabeth. “Se tudo no m eu plano fosse perfeito, a m inha decepção seria certa. Mas assim , levando com igo um a fonte contínua de tristeza, a saudade de m inha irm ã, posso razoavelm ente esperar que todas as m inhas expectativas de prazer se realizem .
Um plano perfeito nunca pode ser realizado.”
Ly dia, ao partir, prom eteu que escreveria frequentem ente e m inuciosam ente para sua m ãe e para Kitty . Mas as cartas, ansiosam ente esperadas, eram sem pre m uito curtas. As que eram dirigidas a Mrs. Bennet continham pouco m ais do que fatos com o estes: tinham acabado de regressar da biblioteca, onde tais ou quais oficiais as haviam acom panhado e onde tinham visto toaletes de enlouquecer; tinham visto um vestido novo ou um a nova som brinha que ela desej aria descrever com m ais detalhes, m as não podia, devido à grande pressa que tinha, pois Mrs. Forster a estava cham ando; deviam passear para os lados do acam pam ento. As cartas de Kitty não eram m ais inform ativas, em bora m ais longas; a m aior parte do sentido estava contido nas entrelinhas.
Depois das três prim eiras sem anas de ausência de Ly dia, a saúde, o bom hum or e a alegria recom eçaram a aparecer em Longbourn. Tudo tom ou um aspecto m ais agradável. As fam ílias que tinham ido passar o inverno em Londres com eçaram a regressar. Reiniciaram -se os divertim entos de verão. Mrs. Bennet voltou à sua volubilidade habitual e no m eio de j unho, Kitty havia m elhorado tanto que j á lhe era possível entrar em Mery ton sem chorar, acontecim ento tão prom issor que deu a Elizabeth a esperança de que no próxim o Natal ela tivesse j uízo suficiente para não m encionar o nom e de um oficial m ais de um a vez por dia, a não ser que, por um a ordem m aliciosa e cruel do Departam ento de Guerra, outro regim ento viesse acam par em Mery ton.
A data fixada para a sua viagem pelo Norte estava se aproxim ando rapidam ente.
Faltavam apenas 15 dias quando chegou um a carta de Mrs. Gardiner, que ao m esm o tem po adiava a partida e abreviava a duração do passeio. Os negócios im pediam Mr. Gardiner de sair de Londres até 15 dias depois da data m arcada. E
ele era obrigado a regressar dentro de um m ês. Esse período era curto dem ais para que fossem m uito longe e vissem tudo o que tinham planej ado. Pelo m enos im pedia que visitassem tudo com o vagar e o conforto que haviam ideado.
Portanto eram obrigados a desistir de vez dos lagos. Era preciso fazer um circuito m ais reduzido. De acordo com o novo plano, não iriam além do Derby shire.
Naquele condado havia m uita coisa a ver e isto dava para encher as três sem anas que tinham . E para Mrs. Gardiner esse plano possuía um encanto particular.
Julgava a cidade onde passara alguns anos da sua vida tão digna de atenção quanto a célebre região dos lagos.
Elizabeth ficou extrem am ente desapontada. Tinha um grande desej o de ver os lagos e continuava a pensar que havia tem po suficiente.
Mas Elizabeth era resignada e certam ente tinha bom gênio. Em breve essa decepção tinha passado.
Muitas ideias estavam associadas a esse condado do Derby shire.
Era im possível ler a palavra sem pensar em Pem berley e no seu proprietário.
Mas certam ente, pensou, poderei penetrar naquela região sem que ele m e vej a.
O período de expectativa fora agora duplicado. Ela teria de esperar quatro sem anas até a chegada de seus tios. Mas estas sem anas passaram , e Mr. e Mrs.
Gardiner apareceram finalm ente em Longbourn, acom panhados dos quatro filhos. As crianças, duas m eninas de seis e oito anos de idade e dois m eninos m enores, seriam entregues aos cuidados da prim a Jane, que era a grande favorita. O seu bom senso, a doçura de seu gênio, pareciam destiná-la à m issão de cuidar das crianças.
Os Gardiner ficaram apenas um a noite em Longbourn, e partiram na m anhã seguinte com Elizabeth, em busca de aventuras. Um prazer pelo m enos era certo: o de ter bons com panheiros de viagem , com saúde, bom gênio para suportar pequenos contratem pos, bom hum or para realçar todos os prazeres, afeição e inteligência capazes de sugerir novas distrações, caso lhes adviessem decepções no cam inho.
Não tem os a intenção de fazer a descrição do Derby shire, nem dos vários lugares notáveis por que passaram no cam inho. Oxford, Blenheim , Warwick, Kenilworth, Birm ingham , etc. são suficientem ente conhecidos. Um a pequena parte do Derby shire é o que nos interessa. Eles se dirigiram para a pequena cidade de Lam bton, onde Mrs. Gardiner residira. Recentem ente descobrira que ainda se encontravam lá alguns dos seus velhos conhecidos. E aí Elizabeth soube da sua tia que Pem berley ficava situada a cinco m ilhas de Lam bton. Pem berley não ficava na estrada direta que deviam tom ar, m as a um a ou duas m ilhas dessa estrada. Na véspera, ao conversarem sobre o itinerário, Mrs. Gardiner tornou a m anifestar o desej o de rever a propriedade. Mr. Gardiner concordou e perguntaram a Elizabeth se aprovava a ideia.
— Meu bem , você gostaria de ver esse lugar de que tanto j á ouviu falar? —
perguntou sua tia. — Um lugar onde m uitos conhecidos seus j á m oraram ?
Wickham passou lá toda a sua m ocidade, com o você sabe.
Elizabeth ficou em baraçada. Com preendia que não tinha nenhum interesse em ver Pem berley e foi obrigada a m anifestar a pouca disposição que sentia.
Declarou que estava cansada de ver grandes casas.
Depois de percorrer tantas, não encontrava m ais nenhum prazer em belos tapetes ou cortinas de cetim .
Mrs. Gardiner zom bou da sua ingenuidade.
— Se Pem berley fosse apenas um a casa ricam ente m obiliada — disse —, eu tam pouco faria questão de ir. Mas o parque é lindíssim o, e os bosques são dos m ais belos do país.