Orgulho e Preconceito

Jane Austen · Capítulo 7 de 62

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Orgulho e Preconceito

Capítulo 7

— Se fala tão seriam ente, considerarei o assunto absolutam ente decidido. Terá

um a encantadora sogra e naturalm ente ela há de estar sem pre em Pem berley consigo.

E enquanto ela se divertia desse m odo, Mr. Darcy a ouvia com perfeita indiferença; e com o a sua tranquilidade a convencesse de que nada estava perdido, Miss Bingley deu livre curso à sua ironia.

7

A fortuna de Mr. Bennet consistia quase que exclusivam ente num a propriedade que lhe rendia duas m il libras por ano. Infelizm ente para as suas filhas, esta propriedade estava legada a um parente distante, pois não havia herdeiros m asculinos diretos; e a fortuna da sua m ãe, em bora suficiente para a sua situação na vida, m al bastava para suprir as deficiências da fortuna de seu pai. O pai de Mrs. Bennet tinha sido um advogado em Mery ton e lhe deixara quatro m il libras.

Ela tinha um a irm ã casada com um certo Mr. Philips, que fora em pregado de seu pai e lhe sucedera no negócio. Tinha igualm ente um irm ão estabelecido em Londres com um respeitável ram o de com ércio.

A aldeia de Longbourn distava apenas um a m ilha de Mery ton. Essa distância convinha perfeitam ente às m oças, que gostavam m uito de passear nesta últim a localidade, três ou quatro vezes por sem ana, para visitar a tia e a loj a de um a m odista, que ficava situada no cam inho. As m ais j ovens da fam ília, Katherine e Ly dia, eram as que m ais frequentem ente faziam aquele traj eto; tinham m enos coisas que as preocupassem e quando nada m ais interessante se oferecia, necessitavam de um a cam inhada até Mery ton, a fim de preencher as horas da m anhã e fornecer assunto para as conversações da noite. E por m ais insuficientes que fossem as novidades que encontrassem pelo cam inho, conseguiam sem pre extrair algum as da sua tia. Presentem ente, aliás, elas se encontravam bem -

supridas, quer de notícias, quer de felicidade, graças à chegada recente de um regim ento da m ilícia. O regim ento deveria perm anecer em Mery ton durante todo o inverno, e lá estava a sede do com ando. As visitas das m eninas a Mrs.

Philips eram agora bem divertidas. Cada dia acrescentava novas inform ações ao que j á sabiam acerca dos nom es dos oficiais e das suas relações. O lugar onde esses oficiais residiam não perm aneceu m uito tem po em segredo. E, finalm ente, elas com eçaram a travar conhecim ento com os próprios oficiais. Mr. Philips os visitou a todos e isto abriu para as suas sobrinhas as portas de um a felicidade até então desconhecida.

Não falavam de outro assunto; e a grande fortuna de Mr. Bingley , tem a que invariavelm ente despertava um a grande anim ação no m eio das m oças, era indiferente aos olhos de Katherine e de Ly dia, perto dos assuntos que se referissem ao regim ento.

Depois de ouvir, certa m anhã, as suas efusivas discussões sobre isso, Mr. Bennet observou, friam ente:

— Pelo que eu deduzo das suas conversas, vocês devem ser duas das m oças m ais tolas do país. Já o suspeitava, m as agora estou convencido.

Katherine ficou em baraçada e não deu resposta; m as Ly dia, com perfeita indiferença, continuou a exprim ir a adm iração que sentia pelo capitão Carter e a esperança que tinha de vê-lo ainda naquele dia, pois ele devia partir para Londres

na m anhã seguinte...

— Espanta-m e, m eu caro — disse Mrs. Bennet —, a facilidade com que você diz que as suas próprias filhas são tolas. Se eu quisesse m enoscabar os filhos de algum a pessoa, não escolheria decerto os m eus.

— Se m inhas filhas são tolas, espero nunca m e iludir a este respeito.

— Sim , m as acontece que todas são m uito inteligentes.

— Este é o único ponto — e disto eu m e gabo — sobre o qual não estam os de acordo. Eu tinha tido esperança de que os nossos sentim entos coincidissem em tudo, porém , sou obrigado a diferir de você neste ponto. Acho que as nossas duas filhas m ais m oças são excepcionalm ente tolas...

— Meu caro Mr. Bennet, você não deve esperar que as m eninas tenham o m esm o j uízo que o pai e a m ãe. Quando elas atingirem a nossa idade, eu lhe asseguro que não pensarão m ais em oficiais. Lem bro-m e do tem po em que eu gostava tam bém de um a túnica verm elha e, aliás, no fundo do coração, ainda gosto. E se algum j ovem coronel com cinco ou seis m il libras por ano pedir um a das m inhas filhas, eu não lha recusarei; achei o coronel Forster m uito distinto no seu uniform e, no dia em que estive na casa de Sir William .

Não é? — gritou Ly dia. — Minha tia contou que o coronel Forster e o capitão Carter não estão m ais indo tão frequentem ente em casa de Miss Watson, com o o faziam logo depois que chegaram . Minha tia os vê agora frequentem ente na livraria do Clarke.

A entrada de um criado que trazia um bilhete para Miss Jane im pediu que Mrs.

Bennet respondesse. O bilhete vinha de Netherfield, e o criado esperava um a resposta. Os olhos de Mrs. Bennet brilhavam de prazer e ela perguntava repetidam ente, enquanto sua filha lia:

— Bem , Jane, de quem é o bilhete? De que se trata? Que é que diz o bilhete?

Vam os, Jane, leia depressa e nos conte. Depressa, m eu bem .

— É de Miss Bingley — respondeu Jane.

Em seguida leu a m issiva, em voz alta:

Minha cara am iga: se você não tiver pena de nós e não vier j antar com igo e com Louisa hoj e à noite, correrem os o risco de nos odiarm os pelo resto da vida, pois duas m ulheres não podem passar um dia inteiro em tête-à-tête sem brigar.

Venha assim que tiver recebido o presente bilhete. Meu irm ão e os outros senhores vão j antar com os oficiais. Sua am iga de sem pre, Caroline Bingley .

— Com os oficiais! — gritou Ly dia. — Por que será que a m inha tia não nos disse isto?

— Vão j antar fora —, disse Mrs. Bennet —; isto é realm ente um a pena.

— Posso usar a carruagem ? — perguntou Jane.

— Não, m eu bem , é m elhor você ir a cavalo, pois parece que vai chover; e neste caso você terá que pernoitar lá.

— Seria um bom plano — disse Elizabeth — se a senhora tivesse a certeza de que eles não se ofereceriam para acom panhá-la de volta.

— Oh, m as os cavalheiros terão que usar a carruagem de Mr. Bingley para ir até Mery ton; e os Hursts não possuem cavalo para a sua.

— Eu preferia ir de carro.

— Mas, m eu bem , seu pai não pode dispensar os cavalos. Eles são necessários para o serviço da fazenda, não são, Mr. Bennet?

— Eles são precisos para a fazenda m uito m ais vezes do que consigo obtê-los.

— Mas se precisar hoj e — disse Elizabeth — o proj eto de m inha m ãe estará realizado.

E ela conseguiu afinal extorquir do pai um atestado de que os cavalos estavam ocupados. Jane foi obrigada a ir a cavalo e sua m ãe a acom panhou até a porta, com m uitos prognósticos alegres de m au tem po. Suas esperanças foram correspondidas. Não havia m uito que Jane tinha partido quando com eçou a chover fortem ente. Suas irm ãs ficaram inquietas por Jane, m as a m ãe ficou radiante. A chuva continuou toda a noite sem parar. Jane decerto não podia voltar.

— Foi um a feliz ideia que eu tive — disse Mrs. Bennet m ais de um a vez, com o se lhe coubesse tam bém a glória de ter feito chover. Entretanto, foi só na m anhã seguinte que com preendeu até que ponto o seu plano tinha sido feliz. Mal term inara o café da m anhã, quando o criado de Netherfield trouxe o seguinte bilhete para Elizabeth:

Minha querida Lizzy : Sinto-m e m uito indisposta esta m anhã, e creio que isto é devido ao fato de ter m e m olhado m uito ontem à noite. Meus am igos se recusam a deixar-m e partir enquanto não estej a m elhor. Insistem tam bém para que eu cham e Mr. Jones. Portanto, não se alarm em se ouvirem contar que ele veio verm e. E a não ser dor de garganta e dor de cabeça, não tenho nada de m ais. Sua, etc.

— Bem , m inha cara m ulher — disse Mr. Bennet, depois que Elizabeth acabou de ler o bilhete em voz alta —, se a sua filha caísse gravem ente doente, se m orresse, seria um conforto saber que foi tudo para conquistar Mr. Bingley e por ordem sua.

— Oh, não tenho m edo que ela m orra. Ninguém m orre de um pequeno resfriado. Ela será bem -tratada. Enquanto estiver lá, tudo vai m uito bem . Eu iria vê-la se pudesse usar a carruagem .

Elizabeth, sentindo-se realm ente ansiosa, tinha decidido ir ver a irm ã, em bora a carruagem não pudesse ser usada. Mas com o não sabia m ontar, a única alternativa era ir a pé.

— Que tolice — gritou a m ãe —, ir a pé com toda esta lam a! Você chegará lá num estado lam entável.

— Chegarei lá em estado de ver Jane e isto é tudo o que desej o.

— Isto é um a indireta para m im — falou o pai —, para que eu m ande buscar os cavalos?

— Não, de nenhum m odo. Não m e im porto de ir a pé. A distância é curta quando se tem um bom m otivo; apenas três m ilhas. Estarei de volta para o j antar.

— Adm iro a atividade da sua benevolência — observou Mary . — Mas cada im pulso ou sentim ento devia ser guiado pela razão. E no seu m odo de ver as coisas, o esforço devia sem pre ser relativo ao fim que a gente se propõe alcançar.

— Irem os j untas com você até Mery ton — disseram Katherine e Ly dia.

Elizabeth aceitou a com panhia e as três m oças partiram j untas.

— Se andarm os m ais depressa — disse Ly dia enquanto cam inhava —, talvez ainda cheguem os a tem po de ver o capitão Carter antes da sua partida.

Em Mery ton as m oças se separaram . As duas m ais j ovens se dirigiram para a residência da esposa de um dos oficiais e Elizabeth continuou a andar sozinha, atravessando cam po após cam po, pulando cercas e saltando por sobre poças d’água, com im paciência, e afinal encontrou-se a pouca distância da casa, com os tornozelos doídos, as m eias suj as e o rosto corado pelo exercício.

Foi introduzida num a sala de alm oço onde todos estavam reunidos com exceção de Jane. O seu aparecim ento causou bastante surpresa. Mrs. Hurst e Miss Bingley acharam incrível que ela tivesse cam inhado três m ilhas tão cedo, com tanta um idade e sozinha; e Elizabeth ficou convencida que elas a desprezaram por isto.

Receberam -na, entretanto, m uito am avelm ente. Quanto ao irm ão dessas senhoras, havia nas suas m aneiras m ais do que sim ples polidez; havia bom hum or e bondade. Mr. Darcy falou m uito pouco e Mr. Hurst não disse nada. O prim eiro estava em dúvida sobre se devia adm irar as belas cores que o exercício em prestara ao rosto da m oça ou se refletir que o m otivo talvez não j ustificasse a sua vinda sozinha, de tão longe. O segundo pensava apenas no seu café da m anhã.

As perguntas que Elizabeth fez a respeito da sua irm ã não foram favoravelm ente respondidas. Miss Bennet tinha dorm ido m al, e em bora estivesse de pé, sentia-se m uito febril e não podia sair do quarto. Elizabeth disse que gostaria de vê-la im ediatam ente; e Jane, a quem apenas o m edo de causar incôm odo e de produzir inquietude im pedira de exprim ir no seu bilhete o quanto ansiava por um a visita, ficou encantada ao ver a irm ã entrar. Não estava entretanto em estado de conversar m uito e quando Miss Bingley as deixou, j untas, Jane pouco m ais pôde exprim ir além da gratidão que sentia pela extraordinária bondade com que era tratada. Elizabeth a ouviu em silêncio.

Depois que o café da m anhã estava term inado, as irm ãs de Mr. Bingley

entraram no quarto; e Elizabeth com eçou a sim patizar com elas quando viu com quanta afeição e solicitude tratavam Jane. O farm acêutico veio e, tendo exam inado a paciente, disse, com o era de supor, que ela tinha apanhado um violento resfriado, e que necessitava de tratam ento. Aconselhou que voltasse para a cam a e prom eteu que lhe enviaria rem édios. O conselho foi seguido, pois os sintom as da febre se agravaram , bem com o a dor de cabeça. Elizabeth não saiu nem um a só vez do quarto; nem as outras senhoras tam pouco ficaram m uito tem po ausentes: com o os cavalheiros estivessem fora, não tinham de fato outra coisa a fazer. Quando o relógio bateu três horas, Elizabeth sentiu que devia partir.