Orgulho e Preconceito
Capítulo 50
— Assim que estiver vestida, irei a Mery ton e darei as boas novas a m inha irm ã Philips. E na volta irei à casa de Lady Lucas e de Mrs. Long. Kitty , corra lá em baixo e peça a carruagem . Um pouco de ar m e faria m uito bem . Meninas, querem que eu traga algum a coisa para vocês de Mery ton? Oh, aí vem Hill.
Minha cara Hill, você j á ouviu as boas novidades? Miss Ly dia vai se casar. Você terá que preparar um j arro de punch para o casam ento.
Mrs. Hill com eçou im ediatam ente a exprim ir a sua alegria. Elizabeth, com as outras, recebeu os seus parabéns. Em seguida, cansada de tanta loucura, foi se refugiar no seu quarto para poder refletir à vontade.
Coitada da Ly dia, a sua situação, m esm o assim , era bastante ruim . Mas ainda tinha de dar graças a Deus por não ser pior. E em bora pensando no futuro, não via para a sua irm ã grandes possibilidades de felicidade nem de prosperidade; e ao se lem brar do passado, dos seus tem ores há duas horas apenas, Elizabeth sentiu, entretanto, todas as vantagens que tinham adquirido.
50
Mr. Bennet m uitas vezes se arrependera de nunca ter posto de lado um a som a anual para garantia do futuro das suas filhas e da sua m ulher, em vez de gastar toda a sua renda. Agora se arrependia m ais do que nunca. Se tivesse feito o dever nesse ponto, Ly dia não estaria devendo agora tanto ao seu tio, um a som a tão grande em dinheiro, honra e bom nom e. E a satisfação de obrigar um dos piores rapazes da Grã-Bretanha a se casar com ela lhe teria cabido com o de direito.
Ele estava seriam ente preocupado que um a coisa de tão poucas vantagens para qualquer pessoa tivesse sido conseguida unicam ente a expensas do seu cunhado e resolvera, caso fosse possível, averiguar a im portância exata do seu auxílio e lhe pagar o m ais depressa possível.
Quando Mr. Bennet se casou, j ulgara que era perfeitam ente inútil fazer econom ia, pois naturalm ente ele haveria de ter um filho. Este filho entraria no direito de herdar a propriedade e desse m odo a viúva e as crianças m enores ficariam garantidas. Cinco filhas sucessivam ente vieram ao m undo, m as o filho ainda estava para vir. Muitos anos depois do nascim ento de Ly dia, Mrs. Bennet acreditava que o filho viesse a nascer. Mas afinal tivera que renunciar a essa esperança. Mrs. Bennet não tinha j eito para econom ia e os gostos m origerados do m arido foram a única coisa que os im pediu de gastarem além da renda que possuíam .
Pelo contrato de casam ento, cinco m il libras deviam ser deixadas para Mrs.
Bennet e seus filhos. Mas a partilha devia ser feita de acordo com a vontade dos pais. Em relação a Ly dia, este era um ponto que agora devia ser decidido. E Mr.
Bennet não podia hesitar em aceitar os term os da proposta que lhe tinha sido feita. Em term os precisos, porém cordiais, ele exprim iu a sua gratidão pela bondade do cunhado. Em seguida declarou a sua plena aprovação a tudo o que tinha sido feito, e a sua aceitação aos com prom issos que Mr. Gardiner tom ara em seu nom e. Nunca tinha suposto que fosse possível convencer Wickham a se casar com a sua filha em term os tão convenientes. As cem libras que deveria pagar anualm ente não representavam um deficit real de m ais de dez libras; pois as despesas com o sustento de Ly dia, o dinheiro que lhe dava para as suas despesas e os presentes que lhe chegavam continuam ente às m ãos por interm édio de Mrs. Bennet não som avam ao todo m uito m enos do que aquelas cem libras. Outra surpresa agradável fora a facilidade com que tudo se arranj ara sem lhe dar quase trabalho. Seu desej o agora era preocupar-se com aquilo o m enos possível. O afã com que se lançara à procura da sua filha tinha sido apenas um efeito da cólera. Cessada esta, Mr. Bennet recaiu na sua habitual indolência. A carta foi logo despachada, pois em bora lento na elaboração dos seus proj etos, ele era rápido na sua execução. Pedia a Mr. Gardiner que detalhasse as despesas que
tinha feito, porém não enviou nenhum recado para Ly dia, porque ainda estava ressentido com ela.
As boas notícias espalharam -se rapidam ente pela casa e pelas redondezas. A vizinhança as acolheu filosoficam ente. Decerto teria sido m ais interessante se Miss Ly dia tivesse regressado. Ou então se ela se encontrasse em reclusão nalgum a fazenda distante. Mas o casam ento era um tópico suficiente para a conversação.
As velhas invej osas de Mery ton continuaram a enviar os seus votos de felicidade com o m esm o secreto contentam ento com que anteriorm ente exprim iam as suas condolências, pois com um tal m arido, a desgraça de Ly dia era considerada certa.
Mrs. Bennet passara 15 dias sem sair do quarto. Naquela grande data, tornou a assum ir o seu lugar à cabeceira da m esa. Sua satisfação era extrem a. Nenhum sentim ento de vergonha atenuava o seu triunfo. Desde que Jane com pletara 15
anos, o seu m aior desej o fora ver um a das suas filhas casadas. E agora este desej o estava a ponto de se realizar. Todos os seus pensam entos giravam em torno dos acessórios de um casam ento elegante, tais com o m usselines finas, novas carruagens e criados. Procurava lem brar-se de um a casa das redondezas que servisse para a sua filha e, sem saber qual seria a renda do casal, recusava m uitas das que lhe sugeriam porque seriam dem asiado m odestas e acanhadas.
— Hay e-Park talvez sirva, se os Gouldings consentirem em sair. Aquela casa espaçosa em Stoke tam bém não é m á. Mas a sala de estar é m uito pequena.
Ashworth é m uito distante. Não quero que ela m ore a m ais de dez m ilhas de distância daqui, no m áxim o. Quanto a Pulvis Lodge, as m ansardas são horríveis.
Mr. Bennet deixou que ela falasse sem interrupção, enquanto havia criados na sala. Mas depois que eles saíram , disse:
— Mrs. Bennet, antes que você tom e um a destas casas ou todas elas para a sua filha, é bom chegar j á a um acordo quanto a este ponto. Num a determ inada casa desta redondeza eles nunca serão adm itidos. Eu não encoraj arei a im prudência daqueles dois, recebendo-os em Long bourn.
A esta declaração seguiu-se um a longa disputa. Mas Mr. Bennet se m ostrou firm e. E o assunto logo os conduziu a outro. Mrs. Bennet descobriu com espanto e horror que o seu m arido não adiantaria um a só libra para as despesas do enxoval.
Ele declarou que ela não receberia o m enor sinal da sua estim a por ocasião do casam ento. Mrs. Bennet não podia com preender aquela atitude. Parecia-lhe im possível que ele levasse o ressentim ento ao ponto de recusar à sua filha um dos privilégios sem o qual o casam ento não pareceria válido. Mrs. Bennet era m uito m ais sensível à vergonha de ter casado a sua filha sem roupas novas do que à desonra causada pela sua fuga e pelo fato dela ter vivido 15 dias com Wickham sem ser casada.
Elizabeth se arrependeu m ais do que nunca por se ter deixado levar pela aflição
do m om ento e revelado a Mr. Darcy os seus tem ores quanto ao futuro da sua irm ã; pois com o o casam ento se realizaria em breve, poderiam talvez esconder o fato vergonhoso a todos aqueles que não estavam diretam ente relacionados com a fam ília.
Ela não tinha receio de que o caso se espalhasse por interm édio de Mr. Darcy ; havia poucas pessoas atualm ente em cuj a discrição tivesse m ais confiança. Por outro lado não havia ninguém cuj o conhecim ento da leviandade da sua irm ã a m ortificasse tanto. No entanto não se sentia m ortificada porque tem esse qualquer desvantagem para si própria, pois de qualquer m odo parecia haver um abism o intransponível entre eles. Mesm o que o casam ento de Ly dia tivesse sido concluído da form a m ais respeitável, não era crível que Mr. Darcy quisesse se relacionar com um a fam ília contra a qual tinha tantas obj eções; agora, a estas obj eções se acrescentava outra. Um a aliança que ele, com tanta razão, considerava desprezível.
Não era pois de estranhar que hesitasse. O desej o de obter a consideração de Elizabeth, desej o que ele lhe havia m anifestado no Derby shire, não poderia sobreviver a um tal golpe. Elizabeth se sentiu hum ilhada e ferida. Tinha rem orsos sem saber bem de quê. Invej ava a estim a dele quando não tinha m ais esperança de que essa estim a a beneficiasse. Queria saber notícias suas e não tinha a m enor esperança que ele lhe escrevesse. E agora, que não havia m ais probabilidades de encontrá-lo, estava convencida de que poderia ter sido feliz com ele.
Que triunfo para Mr. Darcy se pudesse saber que as propostas que ela tinha rej eitado tão orgulhosam ente há quatro m eses seriam recebidas agora com alegria e gratidão. Ele era generoso, disto Elizabeth não tinha a m enor dúvida.
Havia poucos hom ens m ais generosos. Para não triunfar agora, entretanto, era preciso que não fosse hum ano.
Elizabeth com eçou a com preender então que Mr. Darcy era o hom em que m ais lhe convinha, tanto pelo seu tem peram ento com o pelas suas qualidades. O seu gênio, em bora diverso do seu, correspondia a todos os seus desej os. Essa união teria sido vantaj osa para am bos. A espontaneidade e a naturalidade de Elizabeth contribuiriam para suavizar o seu espírito, e m elhorar tam bém as suas m aneiras.
Ela, por sua vez, receberia um benefício ainda m aior com a segurança do seu j ulgam ento e a sua experiência do m undo.
Porém , esse m odelo dos casam entos felizes não m ais se realizaria. Mas em breve, um a união de caráter diferente e que excluía a possibilidade do outro seria form ada na sua fam ília.
Não sabia com o Ly dia e Wickham conseguiriam viver em relativo conforto.
Aliás, um casal que se tinha unido por paixões m ais fortes do que a sua virtude tinha dim inutas possibilidades de felicidade duradoura.
* * *
Em breve Mr. Gardiner tornou a escrever para o cunhado. Aos pedidos de Mr.
Bennet, respondeu apenas que estava sem pre disposto a fazer o m áxim o do seu esforço para o bem de qualquer pessoa da fam ília, e concluiu pedindo que nunca m ais se m encionasse o assunto. A finalidade principal da carta era anunciar que Mr. Wickham tinha resolvido sair da m ilícia.
Eu desej ava m uito que ele o fizesse assim que o casam ento fosse m arcado. E
acho que você pensará, com o eu, que esse passo é m uito vantaj oso, tanto para ele com o para m inha sobrinha. Mr. Wickham tenciona entrar no Exército Regular; e alguns dos seus antigos am igos estão dispostos a apoiá-lo.
Prom eteram -lhe um posto de tenente no regim ento do general ***, aquartelado agora no Norte. Há vantagem em que ele fique longe daqui. Prom ete algum a coisa e espero que, entre pessoas estranhas, onde poderão fazer nova reputação, am bos se m ostrarão m ais prudentes. Escrevi para o coronel Forster, a fim de inform á-lo da nossa atual situação e pedindo que tranquilize os vários credores de Mr. Wickham em Brighton e redondezas, com prom essas de rápido pagam ento, pois assum i o com prom isso de pagá-las. Peço que faça o m esm o com os seus credores em Mery ton, dos quais lhe envio a lista, de acordo com as inform ações de Mr. Wickham . Ele confessou todas as suas dívidas. Espero ao m enos que não nos tenha enganado. Haggerton j á recebeu as nossas instruções e tudo ficará pronto dentro de um a sem ana. Eles partirão em seguida para a sede do regim ento, a não ser que você os convide prim eiro a ir a Longbourn. Mrs.
Gardiner m e disse que m inha sobrinha está m uito desej osa de vê-los a todos, antes de partir para o Norte. Ela está bem e pede que eu lhe transm ita os seus respeitos, bem com o a Mrs. Bennet. Seu, etc.
E. Gardiner.
Mr. Bennet e suas filhas com preenderam logo as vantagens da saída de Mr.
Wickham do regim ento da m ilícia, não m enos claram ente do que Mr. Gardiner.
Mas Mrs. Bennet, de m odo algum ficou tão satisfeita. Ly dia ia m orar no Norte, exatam ente quando teria m aior prazer e orgulho na sua com panhia, pois ela não tinha absolutam ente desistido do seu plano de instalar a sua filha no Hertfordshire.
Seu desapontam ento foi grande. Além disso era um a pena que Ly dia fosse afastada de um lugar onde tinha tantas relações.
— Ly dia gosta tanto de Mrs. Forster! — disse ela. — É um a pena m andá-la em bora. E além disso há m uitos rapazes lá que ela aprecia. Os oficiais do regim ento do general *** podem não ser tão am áveis.
A insinuação de Mr. Gardiner podia ser tom ada com o um pedido form al para Ly dia tornar a ser adm itida entre os seus antes da sua partida para o Norte; a princípio Mr. Bennet recusou term inantem ente este pedido. Mas Jane e Elizabeth, que eram da m esm a opinião, desej avam am bas, para bem da sua irm ã, que ela recebesse o apoio de seus pais. Pediram -lhe de um m odo tão insistente, e ao