Orgulho e Preconceito

Jane Austen · Capítulo 49 de 62

Páginas do PDF

Orgulho e Preconceito

Capítulo 49

Foram interrom pidos por Jane, que vinha buscar o chá da sua m ãe.

— Isto é um a dem onstração que conforta a gente — exclam ou ele. — Dá um ar elegante ao infortúnio. Um dia desses eu farei o m esm o. Ficarei sentado na m inha biblioteca, de cam isola e touca de dorm ir, e darei aos outros o m aior trabalho possível. Ou m elhor, vou deixar isto até que Kitty tam bém se resolva a fugir.

— Eu não vou fugir, papai — disse Kitty , inquieta. — Se m e deixassem ir a Brighton, eu m e com portaria m elhor do que Ly dia.

— Você ir a Brighton? Eu não a deixarei ir nem a Eastborn aqui ao lado. Nem por cinquenta libras. Não, Kitty , pelo m enos aprendi a ser prudente e você há de sentir os efeitos disso. Nenhum oficial tornará j am ais a entrar na m inha casa, nem m esm o para atravessar a aldeia. Os bailes serão absolutam ente proibidos a não ser que você fique de pé o tem po todo, com um a das suas irm ãs. E nunca sairá por esta porta até m e provar, todos os dias, que passou dez m inutos de m aneira sensata.

Kitty , que levara todas aquelas am eaças a sério, com eçou a chorar.

— Deixe disso — ralhou ele —, não fique triste. Se for um a boa m enina nesses próxim os dez anos, levarei você para ver um a parada.

49

Dois dias depois da chegada de Mr. Bennet, Jane e Elizabeth estavam passeando j untas no pequeno bosque atrás da casa quando viram a criada que se aproxim ava em direção a elas. E concluindo que vinha a m andado de Mrs.

Bennet a fim de cham á-las, foram ao seu encontro.

— Desculpe interrom pê-las, m as creio que chegaram boas notícias da cidade e por isto tom ei a liberdade de vir cham á-las.

— Que é que você quer dizer, Hill? Não recebem os nenhum a carta da cidade...

— Minha querida senhora — exclam ou Mrs. Hill, espantada —, então não sabe que chegou um expresso da parte de Mr. Gardiner para o patrão? Ele está aqui há m eia hora e trouxe um a carta para Mr. Bennet.

As m eninas não perderam tem po em responder e saíram correndo.

Atravessaram o vestíbulo, a sala de alm oço e foram desse m odo até a biblioteca.

Mas não encontraram o pai. Estavam a ponto de subir para procurá-lo no quarto de Mrs. Bennet, quando o m ordom o se dirigiu a elas e disse:

— Se estão procurando o patrão, ele está cam inhando em direção ao pequeno bosque.

Tendo recebido esta inform ação, as m eninas tornaram a passar pelo hall e atravessaram o gram ado em busca do pai, que se dirigia para um dos pequenos bosques que havia de um dos lados do j ardim .

Jane, que não era tão leve nem tinha tanta prática de correr, ficou para trás, enquanto sua irm ã alcançava Mr. Bennet e exclam ava, quase sem fôlego:

— Oh, papai, que foi que aconteceu, recebeu um a carta do tio?

— Sim , recebi um a carta dele pelo expresso.

— E que notícias traz, boas ou m ás?

— Que é que se pode esperar de bom ? — disse ele, tirando a carta do bolso. —

Mas talvez você queira ler.

Elizabeth tom ou a carta, im paciente, enquanto Jane se aproxim ava.

— Leia em voz alta — disse Mr. Bennet. — Pois eu m esm o não sei de que se trata.

Gracechurch Street, segunda-feira, 2 de agosto.

Meu caro irm ão:

Afinal posso lhe enviar notícias da m inha sobrinha. Notícias que, em sum a, acho que lhe agradarão. Pouco depois de sua partida no sábado, tive a boa sorte de descobrir em que parte de Londres o casal estava. Quanto aos detalhes, deixo para quando nos encontrarm os. Basta que saiba agora que eles estão descobertos.

Já estive com am bos.

— Então tudo se passou com o eu esperava — exclam ou Jane —: eles estão casados!

Elizabeth continuou:

Estive com am bos. Eles não estão casados e não encontrei neles a m enor intenção de fazê-lo. Mas se estiver disposto a cum prir o com prom isso que eu tom ei a liberdade de aceitar por você, espero que se casarão m uito breve. Tudo o que é exigido da sua parte é assegurar à sua filha, por acordo, parte das cinco m il libras destinadas a serem repartidas entre as suas filhas depois da sua m orte e da da sua m ulher. E além disso, com prom eter-se a dar à sua filha, enquanto viver, a quantia de cem libras por ano. Estas são as condições que, pensando bem , não hesitei em aceitar, sentindo-m e autorizado a fazê-lo. Enviarei esta carta por expresso para que a sua resposta m e chegue sem perda de tem po. Você com preenderá facilm ente por estes detalhes que a situação de Mr. Wickham não é tão m á quanto se supunha. Quanto a isto, os rum ores que corriam eram falsos.

E alegra-m e dizer que sobrará ainda um pouco de dinheiro, m esm o depois de pagas todas as dívidas do m arido para instalação do casal, sem falar no dinheiro de Ly dia. Se você m e delegar plenos poderes para agir em seu nom e, coisa da qual não tenho a m enor dúvida, darei instruções im ediatam ente a Haggerston para preparar um contrato. Não há a m enor necessidade de você tornar a vir a Londres. Portanto, fique sossegado em Longbourn e conte com os m eus cuidados e diligências. Mande a sua resposta o m ais breve possível e tenha o cuidado de escrever claram ente. Nós acham os m elhor que a m inha sobrinha se casasse em m inha casa, coisa que espero você aprovará. Ela virá hoj e. Tornarei a lhe escrever assim que houver novas decisões. Seu, etc.

Edw. Gardiner.

— Será possível? — exclam ou Elizabeth, assim que term inou a carta. — Será possível que se case com ela?

— Wickham não é tão m au então com o nós pensávam os — disse Jane. — Meu pai, eu lhe dou os parabéns.

— E o senhor j á respondeu à carta? — perguntou Elizabeth.

— Não, m as é coisa que precisa ser feita im ediatam ente.

Elizabeth suplicou então que não perdesse m ais tem po.

— Oh, papai — exclam ou ela —, volte e escreva sem dem ora! Pense na im portância que cada m om ento tem num caso desses...

— Deixe-m e escrevê-la para o senhor — disse Jane —, este trabalho lhe desagrada.

— Desagrada-m e m uito — replicou ele —, m as precisa ser feito.

E dizendo isto virou-se e voltou com as m oças em direção à casa.

— E posso saber qual é a resposta? — perguntou Elizabeth. — Suponho que os term os devem ser aceitos.

— Aceitos? Só tenho vergonha que ele peça tão pouco.

— E é preciso que eles se casem . No entanto Wickham é um hom em tão

ordinário...

— Sim , sim , é preciso que se casem . Não há outra alternativa. Mas há duas coisas que eu desej aria m uito saber: um a delas é quanto dinheiro o seu tio deve pagar para arranj ar isto. E a segunda é com o poderei reem bolsá-lo.

— Dinheiro? Meu tio? — exclam ou Jane. — Que é que quer dizer com isto?

— Quero dizer que nenhum hom em , no seu j uízo perfeito, se casaria com Ly dia recebendo em troca um a com pensação tão pequena. Cem libras por ano durante a m inha vida e cinquenta depois que eu m orrer!

— É verdade — disse Elizabeth. — Não m e tinha ocorrido antes. Havia as suas dívidas a serem pagas e devia ainda sobrar dinheiro. Deve ter sido m eu tio quem arranj ou isto. É hom em generoso e bom . Mas tenho m edo que ele se tenha posto em situação difícil. O dinheiro que gastou não deve ter sido pouco.

— Não — disse Mr. Bennet. — Wickham seria um idiota se a aceitasse com m enos de dez m il libras. De outro m odo, sentiria ter de pensar m al dele logo no com eço das nossas relações.

— Dez m il libras? Deus não perm ita tal. Com o poderíam os pagar um a tal som a?

Mr. Bennet não respondeu. E todos, m ergulhados nas suas reflexões, continuaram em silêncio até chegarem em casa. Mr. Bennet foi então até à biblioteca para escrever e as m oças entraram na sala de alm oço.

— Então eles vão se casar? — exclam ou Elizabeth, assim que se viu sozinha com Jane. — Com o isto é estranho! Ainda por cim a, tem os de nos considerar m uito felizes! Tem os de dar graças a Deus que tal aconteça, em bora sej am tão dim inutas as possibilidades de Ly dia ser feliz, e Wickham tenha um caráter tão ruim ... Oh, Ly dia!

— Eu m e consolo pensando que decerto ele não se casaria com Ly dia se não tivesse afeição por ela — replicou Jane. — Em bora acredite que nosso tio tenha feito algum a coisa por ele, não posso crer que tenha gasto dez m il libras nem coisa parecida. Ele tem os seus próprios filhos e ainda pode ter outras preocupações. Com o poderia gastar dez m il libras?

— Se pudéssem os saber quais eram as dívidas de Wick ham ... E com quanto ele dotou nossa irm ã... Saberia exatam ente o que Mr. Gardiner fez, pois Wickham não tem um tostão de seu. A bondade dos nossos tios é um a coisa que nunca poderá ser paga. Eles a levaram para casa e lhe deram toda a sua proteção e apoio m oral. Isto é um sacrifício que anos de gratidão não podem com pensar.

Nesse m om ento, ela está em casa deles. Se um a tão grande bondade não lhe der a consciência da falta que praticou, é que ela não m erece nunca ser feliz.

Im agina a sua cara quando chegar diante da m inha tia!

— Devem os nos esforçar para esquecer tudo o que se passou — disse Jane. —

Confio e espero que serão felizes. Creio que o fato dele consentir em se casar com ela é um a prova de que tom ou j uízo. A afeição que têm um pelo outro lhes dará estabilidade. E eu tenho a esperança de que se estabeleçam tranquilam ente

na sua nova vida, e vivam de um a m aneira tão aj uizada que com o tem po a im prudência que fizeram sej a esquecida.

— A conduta deles foi de tal ordem — replicou Elizabeth — que nem você, nem eu e nem ninguém poderá j am ais esquecê-la. É inútil falar nisto.

As m eninas então se lem braram que sua m ãe provavelm ente ainda ignorava tudo o que se passava. Dirigiram -se, pois, à biblioteca e perguntaram a seu pai se não desej ava que elas lhe fossem transm itir a notícia. Ele estava escrevendo. E

sem levantar a cabeça respondeu, friam ente:

— Com o quiserem .

— Podem os levar a carta do m eu tio e ler para ela?

— Levem o que vocês quiserem e vão em bora.

Elizabeth tom ou a carta de cim a da m esa e as irm ãs subiram j untas. Mary e Kitty estavam am bas com Mrs. Bennet. A m esm a com unicação serviria portanto para todas. Depois de um a ligeira preparação para as notícias que traziam , a carta foi lida em voz alta. Mrs. Bennet não pôde conter os seus sentim entos.

Assim que Jane leu o trecho em que Mr. Gardiner exprim ia a esperança de que Ly dia em breve se casasse, Mrs. Bennet com eçou a m anifestar a sua alegria, e cada frase subsequente a tornava ainda m ais expansiva. A sua alegria era tão ruidosa e violenta com o anteriorm ente os seus receios e o seu desespero. Bastava saber que a sua filha se casaria. Nenhum receio quanto à felicidade de Ly dia, nenhum a lem brança da sua falta a perturbava. — Oh, m inha querida Ly dia — exclam ou ela. — Isto é realm ente estupendo! Ela se casará! Eu tornarei a vê-la! Ela se casa com 16 anos! Que bom irm ão eu tenho! Bem sabia que ele ia arranj ar tudo! Que vontade de vê-la! E o m eu querido Wickham tam bém ! Mas as roupas, o enxoval! Vou escrever para m inha irm ã Gardiner im ediatam ente! Lizzy , m eu bem , corra lá em baixo e pergunte a seu pai quanto ele dará à Ly dia para o enxoval. Não, fique, fique, irei eu m esm a!

Toque a cam painha, Kitty , cham e Hill, eu m e vestirei num instante. Oh, m inha querida Ly dia! Com o nos sentirem os felizes quando estiverm os todos j untos!

Jane procurou abrandar a violência das suas expansões, lem brando-lhe quantas obrigações deviam a Mr. Gardiner pelo que ele tinha feito.

— Devem os atribuir a feliz conclusão desta história em grande parte à bondade do nosso tio — acrescentou Jane. — Estam os convencidas de que ele se em penhou para auxiliar Mr. Wickham com dinheiro.

— Bem — exclam ou Mrs. Bennet —, está certo, quem o faria se não fosse o seu tio? Se ele não tivesse fam ília, nós é que seriam os os seus herdeiros. E é a prim eira vez que recebem os qualquer coisa dele, a não ser alguns presentes.

Sinto-m e tão feliz, em breve terei um a filha casada! Mrs. Wickham ! Com o soa bem ... E ela fez apenas 16 anos em j unho! Jane, estou tão nervosa que não posso escrever. Vou ditar e você escreve por m im . Mais tarde com binarem os com seu pai a respeito do dinheiro. Mas é preciso encom endar as coisas im ediatam ente.

Mrs. Bennet com eçou então a fazer um a lista de todas as peças de tecidos estam pados, m ousseline e cam braia, e teria feito dentro em pouco um a grande encom enda, se Jane não a tivesse persuadido, com algum a dificuldade, que esperasse até poder consultar o seu pai. Um dia de atraso, observou ela, seria de pouca im portância. E Mrs. Bennet sentia-se feliz dem ais para ser obstinada com o de costum e. Outros planos vieram ocupar os seus pensam entos.