Orgulho e Preconceito

Jane Austen · Capítulo 15 de 62

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Orgulho e Preconceito

Capítulo 15

As duas irm ãs m ais velhas disseram a Ly dia que calasse a boca. Mas Mr. Collins, m uito ofendido, pôs o livro de lado e disse:

— Já observei com o as m eninas se interessam pouco por livros sérios, escritos aliás para o seu benefício. Confesso que isto m e espanta, pois certam ente nada

pode haver de m ais vantaj oso para elas do que a instrução. Mas não im portunarei m ais a m inha j ovem prim a.

Em seguida, virando-se para Mr. Bennet, ofereceu-se para parceiro de gam ão.

Mr. Bennet aceitou o desafio, observando que ele fazia bem em deixar as m eninas se ocuparem com as suas futilidades. Mrs. Bennet e as suas filhas se desculparam com toda a civilidade pela interrupção de Ly dia, e prom eteram que isto não aconteceria novam ente, caso ele quisesse recom eçar a leitura. Mas Mr.

Collins, depois de lhes assegurar que não guardava rancor contra a sua j ovem prim a, e j am ais consideraria a sua conduta com o um insulto, sentou-se diante de outra m esa com Mr. Bennet e se preparou para a partida.

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Mr. Collins não era um hom em sensato e as deficiências da sua natureza não tinham sido com pensadas pela educação ou pelo m eio; a m aior parte da sua vida tinha decorrido sob a direção de um pai ignorante e avarento. Em bora tivesse cursado um a das universidades, tinha apenas feito os cursos necessários, sem travar nenhum a relação vantaj osa. A suj eição em que seu pai o m antivera dotara-o, a princípio, de grande hum ildade de gênio, m as isto tinha sido em parte com pensado pela tola presunção do seu espírito fútil, pelo isolam ento e pela sua súbita e prem atura prosperidade. Um acaso feliz fizera com que fosse recom endado a Lady Catherine de Bourgh no m om ento em que a reitoria de Hunsford estava vaga e o respeito que ele sentia pela posição social daquela senhora, a veneração que sentia pela sua protetora, de m istura com a sua vaidade, a sua autoridade com o clérigo e os seus direitos com o reitor tinham -no tornado um m isto de orgulho e servilidade, presunção e hum ildade.

Dispondo agora de um a boa casa e de um rendim ento m ais que suficiente, Mr.

Collins tencionava casar-se; e a sua intenção, ao se reconciliar com a fam ília de Longbourn, era j ustam ente escolher um a das filhas de seu parente, caso fossem tão bonitas e am áveis com o se dizia. Estas eram as reparações que tencionava oferecer em troca da sua futura apropriação de Longbourn. Achava esse plano excelente, conveniente, excessivam ente generoso e desinteressado da sua parte.

O contato com as m eninas não o fez alterar o seu plano. O lindo rosto de Miss Jane o confirm ou até nas suas intenções; e as suas preferências quadravam aliás com as severas noções que tinha do direito de prim ogenitura. E desde o prim eiro m om ento, a sua escolha recaiu sobre Jane. A m anhã seguinte, entretanto, trouxe um a alteração. Durante um a conversa tête-à-tête com Mrs. Bennet pelo espaço de um quarto de hora da prim eira refeição, a palestra que se iniciou acerca do seu presbitério conduziu-o naturalm ente a confessar as suas esperanças de encontrar um a dona de casa em Longbourn. Mrs. Bennet, entre sorrisos am áveis e outros encoraj am entos, procurou dissuadi-lo da escolha que parecia recair sobre Jane. Quanto às suas filhas m ais m oças, não podia responder positivam ente, m as não sabia ao certo de nenhum im pedim ento da parte delas.

Em relação à sua filha m ais velha, porém , sentia-se na obrigação de avisar que provavelm ente ficaria noiva dentro de pouco tem po. Mr. Collins, com a m aior naturalidade, transferiu o seu proj eto de Jane para Elizabeth. E isto foi logo feito, enquanto Mrs. Bennet falava sobre o assunto.

Elizabeth, que vinha logo em seguida a Jane, em idade e beleza, era a sua sucessora natural.

Mrs. Bennet registrou a alusão, e nutriu esperanças de que em breve teria duas filhas casadas. E o hom em cuj o nom e ainda na véspera a enfurecera, conquistou um alto lugar nas suas boas graças.

O proj eto do passeio até Mery ton não foi esquecido. Todas as irm ãs concordaram , com exceção de Mary . E Mr. Collins, a pedido de Mr. Bennet, que estava ansioso para se ver livre dele, e dispor à vontade da sua biblioteca, prontificou-se a acom panhar as m eninas. Depois do café da m anhã, Mr. Collins acom panhara o dono da casa à biblioteca e lá continuaria, indefinidam ente, ocupado aparentem ente em exam inar um dos grandes in-folios da coleção, m as na verdade falando sem cessar sobre a sua casa e o seu j ardim de Hunsford, se Mr. Bennet não tivesse sugerido aquele passeio com as m eninas. Estas invasões dos seus dom ínios irritavam Mr. Bennet extraordinariam ente. Na sua biblioteca ele se sentia sem pre seguro da sua tranquilidade e um a vez declarara a Elizabeth que, em bora estivesse sem pre certo de encontrar a loucura e a vaidade em todos os dem ais quartos da sua casa, ali podia se considerar livre do espetáculo dessas fraquezas. A sua am abilidade, portanto, levou-o facilm ente a convidar Mr.

Collins a acom panhar suas filhas no passeio que elas haviam planej ado. E Mr.

Collins, que tinha m uito m aior vocação para andar do que para ler, ficou extrem am ente satisfeito, fechou o seu grosso volum e e partiu.

Entre pequenas frases pom posas da sua parte e am áveis assentim entos da parte de suas prim as, o tem po passou até que chegaram em Mery ton. Aí Mr. Collins foi obrigado a desistir dos seus esforços para atrair a atenção das suas duas prim as m ais m oças. Im ediatam ente os olhares destas com eçaram a percorrer as ruas, à procura de oficiais e, a não ser um chapéu m uito elegante ou um novo corte de m ousseline num a vitrine, nada m ais seria capaz de atrair novam ente a sua atenção.

Aliás todos os olhares foram atraídos im ediatam ente por um rapaz que nunca tinham visto antes e que parecia extrem am ente distinto e elegante. Vinha com um oficial do outro lado da rua. O oficial era aquele Mr. Denny , cuj o regresso de Londres Ly dia viera investigar. Ao passar, ele cum prim entou-as. Todas ficaram im pressionadas com o aspecto do desconhecido. A curiosidade era enorm e. Kitty e Ly dia, resolvidas a investigar o caso, fizeram o grupo passar para o outro lado da rua, sob pretexto de um a com pra a fazer num a loj a fronteira. Por sorte, apenas tinham pisado a calçada do outro lado, os dois rapazes, voltando sobre seus passos, chegaram ao m esm o lugar. Mr. Denny se dirigiu im ediatam ente para as m oças e pediu perm issão para apresentar o seu am igo, Mr. Wickham , que viera com ele de Londres no dia anterior e que aceitara um a com issão no seu regim ento. Isto era realm ente a coisa desej ável, pois só lhe faltava um uniform e para ser o m ais encantador dos rapazes. Logo depois de apresentado, ele se pôs a conversar, pois era desem baraçado e ao m esm o tem po perfeitam ente correto e respeitoso. Todo o grupo se encontrava ainda na m esm a posição, conversando m uito agradavelm ente, quando se ouviu um rum or, e Darcy e Bingley apareceram a cavalo. Ao avistar as senhoras, eles im ediatam ente se adiantaram para o grupo e as cum prim entaram com as

cortesias de costum e. Bingley se dirigiu logo a Miss Bennet. Estava, explicou, a cam inho de Longbourn, a fim de saber notícias dela. Mr. Darcy confirm ou com um a reverência e estava a ponto de tom ar a resolução de não olhar para Elizabeth, quando a presença do estranho lhe cham ou a atenção. Elizabeth, que olhava para o rosto de am bos, viu com espanto que quando os seus olhos se encontraram , um corou e o outro em palideceu. Mr. Wickham , depois de alguns instantes tocou o seu chapéu: um a saudação que Mr. Darcy apenas se dignou responder. Que poderia significar aquilo? Era im possível saber, m as era im possível tam bém não sentir grande curiosidade.

Poucos m inutos depois Mr. Bingley , em bora sem parecer notar o que tinha se passado, despediu-se e partiu com o seu am igo.

Mr. Denny e Mr. Wickham acom panharam as m oças até a porta da casa de Mr.

Philips e aí fizeram as suas reverências, apesar das insistências de Miss Ly dia para que entrassem , e m esm o das instâncias de Mr. Philips em pessoa, que abriu de súbito um a das j anelas e confirm ou enfaticam ente o convite.

Mrs. Philips via sem pre com prazer as suas sobrinhas, especialm ente as duas m ais velhas, cuj a ausência se fizera sentir recentem ente. Ela exprim iu avidam ente a surpresa que lhe causara a notícia do seu súbito regresso de Netherfield e disse que de nada teria sabido se não tivesse encontrado por acaso o m enino da farm ácia que lhe dissera que não estavam m ais enviando rem édios para Netherfield porque as irm ãs Bennet tinham ido em bora. Nesse m om ento Jane cham ou a sua atenção para Mr. Collins, que ela desej ava lhe apresentar.

Mrs. Philips recebeu-o com a m aior am abilidade e esta lhe foi retribuída em dose ainda m aior. Mr. Collins se desculpou por ter vindo visitá-la sem apresentação prévia, coisa que no entanto se j ustificava plenam ente pelo seu parentesco com as j ovens senhoras que o tinham apresentado. Mrs. Philips ficou espantada com tal excesso de boa educação, m as o seu em bevecim ento diante do recém -chegado foi em breve interrom pido pelas exclam ações e perguntas a respeito do outro estranho. Quanto a este últim o, entretanto, só podia dizer às sobrinhas o que j á sabiam : que tinha chegado de Londres com Mr. Denny e que ia receber o posto de tenente com issionado no condado de X. Observara-o, explicou, durante a últim a hora, enquanto ele passeava de cim a para baixo na rua. Se Mr. Wickham tivesse reaparecido, Kitty e Ly dia a teriam substituído nessa ocupação, m as infelizm ente ninguém passou pela j anela, e não ser alguns oficiais, que, em com paração com o estranho, se tinham tornado suj eitos