Orgulho e Preconceito

Jane Austen · Capítulo 46 de 62

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Orgulho e Preconceito

Capítulo 46

Mrs. Gardiner e Elizabeth, ao regressarem , conversaram a respeito de tudo o que tinha acontecido durante essa visita, exceto sobre o que lhes interessava particularm ente. Discutiram a atitude e a palavra de todos, m enos da pessoa que havia m ais fortem ente atraído a sua atenção. Falaram em sua irm ã, seus am igos, sua casa, suas frutas, em tudo a não ser nele próprio. No entanto Elizabeth ansiava por saber o que Mrs. Gardiner pensava dele. E Mrs. Gardiner teria ficado m uito satisfeita se Elizabeth tivesse introduzido o assunto.

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Elizabeth ficara m uito desapontada ao chegar em Lam b ton, por não encontrar um a carta de Jane. E este desapontam ento fora renovado cada m anhã desde que aí se encontrava. Mas no terceiro dia, a sua expectativa foi recom pensada, pois recebeu duas cartas de Jane ao m esm o tem po, num a das quais estava escrito que tinha sido enviada para outro lugar por engano. Elizabeth não ficou surpreendida, pois Jane tinha escrito o endereço de m aneira quase ilegível. Estavam se preparando para passear quando as cartas chegaram . Seu tio e sua tia, querendo que ela ficasse à vontade para ler, partiram sozinhos. A carta extraviada devia ser lida prim eiro. Fora escrita cinco dias antes. O com eço continha um relato de todas as pequenas reuniões e divertim entos da fam ília com as últim as novidades da região. Mas a segunda m etade, que estava datada do dia subsequente e fora evidentem ente escrita em grande agitação, trazia notícias m ais im portantes. Dizia assim :

Querida Lizzy , desde que com ecei esta carta, aconteceu um fato inesperado e m uito sério. Tenho m edo de assustá-la. Pode ficar certa de que todos estão bem .

O que eu tenho a contar diz respeito a nossa pobre Ly dia. Um m ensageiro chegou ontem à noite, quando j á estávam os todos deitados. Era do coronel Forster e dizia que Ly dia tinha partido para a Escócia com um dos seus oficiais.

Para falar a verdade, foi com Wickham ! Im agina a nossa surpresa. Para Kitty , entretanto, não parece um a coisa tão inesperada. Estou triste. Acho que é um casam ento m uito im prudente para am bos. Mas quero esperar o m elhor e fazer o possível para acreditar que o caráter dele foi m alcom preendido. Creio que ele sej a leviano e indiscreto. Mas este ato não m e parece revelar um m au coração.

Sua escolha por Ly dia é desinteressada; pois ele não deve ignorar que papai nada pode dar à sua filha. Nossa pobre m ãe está m uito desgostosa, m eu pai suporta as coisas m elhor. Que sorte não term os contado a Ly dia nada do que sabíam os contra ele. Precisam os tam bém esquecer estas coisas. Partiram sábado m ais ou m enos à m eia-noite, ao que parece, m as a sua ausência não foi notada senão ontem de m anhã às oito. O m ensageiro foi m andado im ediatam ente. Minha querida Lizzy , eles devem ter passado a dez m ilhas de distância daqui. O coronel Forster diz que tem m otivos para esperar brevem ente o regresso de Wickham .

Ly dia deixou algum as linhas para Mrs. Forster, inform ando-a acerca da sua resolução. E preciso concluir, pois não posso m e afastar m uito tem po da m inha pobre m ãe. Espero que você com preenda esta carta, pois eu nem sei bem o que escrevi.

Sem tom ar tem po para refletir, sem saber quais eram exatam ente os seus sentim entos, Elizabeth, ao acabar esta carta, abriu im ediatam ente a outra, com a m aior im paciência, e leu o que se segue (a carta fora escrita um dia depois da

conclusão da prim eira):

Ao receber esta, m inha querida irm ã, você j á deve ter recebido a m inha prim eira carta. Faço votos para que a segunda sej a m ais inteligível, pois, em bora não estej a prem ida pelo tem po, m inha cabeça está tão confusa que não m e responsabilizo pela coerência das m inhas palavras. Minha querida Lizzy , eu nem sei o que vou escrever; tenho m ás notícias para você e não posso adiar esta com unicação. Por im prudente que sej a o casam ento de Mr. Wickham com a nossa pobre Ly dia, estam os agora ansiosos para obter a confirm ação de que tenha sido realm ente realizado, pois existem bons m otivos para acreditar que eles não foram para a Escócia. O coronel Forster chegou aqui ontem , tendo saído de Brighton no dia anterior, poucas horas depois de ter enviado o expresso. Em bora o bilhete de Ly dia para Mrs. Forster desse a entender que eles tinham ido para Gretna Green, correu que em Brighton Denny dissera que na sua opinião Wickham não tencionava absolutam ente ir para a Escócia nem se casar com Ly dia. Chegando isto aos ouvidos do coronel Forster, ele ficou alarm ado e saiu im ediatam ente de Brighton, com o intuito de ir no encalço dos fugitivos.

Conseguiu descobrir facilm ente o cam inho que tinham tom ado até Clapham , m as daí por diante não havia sinais da sua passagem , pois naquele lugar tinham tom ado um coche de aluguel e deixado o carro que os trouxera de Epsom . Tudo o que se sabe deles depois disso é que foram vistos na estrada de Londres. Não sei o que pensar. Depois de fazer todas as indagações possíveis daquele lado, o coronel Forster voltou para o Hertfordshire, detendo-se em todas as encruzilhadas e hospedarias, em Barnet e Hatfield, m as sem nenhum resultado. Ninguém os tinha visto passar. Preocupado, por nossa causa, ele veio atenciosam ente a Longbourn e nos revelou as suas apreensões de um a form a m uito honrosa para o seu caráter. Estou sinceram ente penalizada por ele e por Mrs. Forster, m as ninguém os poderá acusar de nada. A nossa aflição é grande, m inha querida Lizzy ; papai e m am ãe acreditam no pior, m as eu não posso crer que ele sej a assim tão perverso. E m uito possível que Ly dia e ele tenham j ulgado m ais conveniente realizar o casam ento em segredo em Londres e desistido do seu prim itivo proj eto; e m esm o que ele tenha desígnios tão perversos contra um a m oça bem -relacionada com o Ly dia, o que não é provável, não posso crer que Ly dia tenha perdido todo o j uízo. Im possível! Lam ento no entanto dizer que o coronel Forster não acredita no casam ento. Ele sacudiu a cabeça quando eu lhe exprim i as m inhas esperanças e disse que tem ia que Wickham não fosse um hom em de confiança. Nossa pobre m ãe está realm ente doente, e não pode sair do quarto. Seria m elhor se ela fizesse um esforço, m as isto não é m uito provável; quanto a papai, nunca na m inha vida o vi tão perturbado. Ele se zangou m uito com a pobre Kitty porque escondeu aquele nam oro, m as com o era um segredo, acho essa atitude natural da sua parte. Estou contente, m inha querida Lizzy , que

algum as dessas cenas penosas lhe tenham sido poupadas, m as agora não posso m e im pedir de dizer que espero com ansiedade o seu regresso. Não terei entretanto o egoísm o de pedir m uita pressa, se não lhe for conveniente. Até breve. Tom o novam ente a m inha pena para fazer o contrário do que acabo de lhe dizer, m as as coisas estão de tal m odo que não posso deixar de lhe suplicar que vocês todos venham o m ais cedo possível. Conheço o m eu caro tio e a m inha tia tão bem , que não tenho m edo de fazer este pedido. Ao prim eiro, tenho outro pedido para fazer. Meu pai vai partir para Londres com o coronel Forster im ediatam ente, a fim de procurar os fugitivos. Num a circunstância com o esta, os conselhos e o auxilio do m eu tio seriam inestim áveis. Ele com preenderá im ediatam ente o que eu sinto. Confio na sua bondade.

— Oh, onde está m eu tio — exclam ou Elizabeth, dando um salto da cadeira, na sua ansiedade de ir ter com ele sem perda de um m inuto; m as ao chegar à porta, esta foi aberta por um criado e Mr. Darcy apareceu. A palidez do rosto de Elizabeth e os seus gestos agitados o assustaram . E antes que ele pudesse voltar a si e falar, ela, que tinha em m ente acim a de tudo a situação de Ly dia, exclam ou apressadam ente:

— Sinto m uito m as tenho que deixá-lo. Preciso encontrar Mr. Gardiner im ediatam ente. O assunto é urgente, não tenho um instante a perder.

— Meu Deus, que terá acontecido — exclam ou ele, com m ais inquietude do que polidez. Mas voltando a si, acrescentou:

— Não a deterei um só m inuto. Mas deixe-m e ir cham ar Mr. e Mrs. Gardiner ou m andar o criado. No estado em que está, não pode ir pessoalm ente.

Elizabeth hesitou, m as os seus j oelhos trem iam tanto que ela com preendeu que não poderia ir m uito longe. Cham ando o criado, ela o encarregou de ir im ediatam ente cham ar o seu patrão e a sua patroa, e dizer-lhes que voltassem para casa.

Depois que o criado saiu, Elizabeth sentou-se, incapaz de se suster nas pernas. O

seu estado era tão lam entável que Darcy com preendeu que era im possível deixá-la. E não pôde se im pedir de dizer, num tom de doçura e piedade:

— Deixe-m e cham ar a sua criada. Quer tom ar algum a coisa? Posso lhe oferecer um copo de vinho? Parece que está se sentindo m al.

— Não, obrigada — replicou ela, procurando dom inar-se. — Eu não tenho nada.

Estou m e sentindo bem . Apenas estou m uito aflita por causa de m ás notícias que acabo de receber de Longbourn.

Ao aludir àquele fato, ela com eçou a chorar e durante alguns m inutos não pôde falar. Mr. Darcy , penalizado e aflito, pôde apenas exprim ir vagam ente a sua preocupação e observá-la num silêncio piedoso. Afinal ela tornou a falar.

— Acabo de receber um a carta de Jane, com terríveis notícias. Não é possível escondê-las de ninguém . Minha irm ã m ais m oça abandonou todos os seus

am igos, fugiu, entregou-se a... Mr. Wickham . Partiram j untos de Brigh ton.

Conhece-o bem dem ais para ter dúvidas quanto ao resto da história. Ela não tem dinheiro, relações, nada que o possa tentar. Está perdida para sem pre!

Darcy ficou im obilizado de espanto.

— E quando penso — acrescentou ela, num tom m ais agitado — que eu poderia ter evitado isto, eu, que sabia quem ele era; se tivesse apenas revelado à m inha própria fam ília um a parte do que vim a saber, se o seu caráter fosse conhecido, nada disto teria acontecido. Mas agora é tarde, dem asiado tarde.

— Estou im ensam ente penalizado — exclam ou Darcy , aflito. — Mas isto é certo, absolutam ente certo?

— Oh, sim . Eles saíram de Brighton j untos sábado à noite e foram seguidos quase até Londres. Certam ente não foram para a Escócia.

— E que é que foi feito, que é que foi tentado para recuperá-la?

— Meu pai foi para Londres e Jane escreveu pedindo o auxílio im ediato de m eu tio. Partirem os, assim o espero, dentro de m eia hora. No entanto, nada m ais pode ser feito. Sei m uito bem que não há nada a fazer. Com o obrigar um hom em com o aquele a proceder corretam ente? Com o ao m enos descobrir o seu paradeiro? Não tenho a m enor esperança. É horrível.

Darcy sacudiu a cabeça, num a silenciosa aquiescência.

— Quando eu descobri qual era o caráter real daquele hom em ... Oh, se eu soubesse o que deveria fazer! Mas eu não sabia... Tinha m edo de ir dem asiado longe. Foi um desgraçado engano.

Darcy não respondeu. Ele m al parecia ouvi-la e cam inhava de um lado para outro na sala, em profunda m editação. Suas sobrancelhas estavam contraídas, sua expressão som bria. Elizabeth com preendeu im ediatam ente que a sua ascendência sobre Darcy estava em declínio. Nada podia resistir a um a tal dem onstração de fraqueza da parte de sua fam ília a tão grande escândalo. Não podia se surpreender nem condená-lo. Refletiu que ele exercia sobre si m esm o um grande dom ínio, m as isto não lhe trouxe nenhum a consolação. E nunca Elizabeth sentira tão claram ente com o naquele m om ento, quando todo o am or era vão, que poderia tê-lo am ado.

Mas as considerações pessoais, em bora ocorressem , não a absorviam . Ly dia, a hum ilhação, a desgraça que ela estava causando à fam ília, dom inaram logo todos os pensam entos de ordem particular. E cobrindo o rosto com um lenço, Elizabeth esqueceu tudo o m ais. Depois de um a pausa de vários m inutos, a voz do seu com panheiro fê-la voltar à realidade. E no tom daquela voz, em bora transparecesse piedade, havia tam bém contenção.

— Creio que há m uito está desej ando a m inha ausência — disse Darcy . — E a não ser a m inha com preensão sincera, porém inútil, nada posso lhe oferecer que j ustifique a m inha presença. Oxalá pudesse dizer ou fazer algum a coisa que a consolasse. Mas não a atorm entarei m ais, exprim indo os m eus vãos desej os,

com o se solicitasse propositadam ente a sua gratidão. Creio que este infeliz acontecim ento im pedirá m inha irm ã de vê-la hoj e à noite em Pem berley .

— Oh, sim , tenha a bondade de apresentar as nossas desculpas a Miss Darcy .

Diga que negócios urgentes nos obrigam a voltar im ediatam ente. Esconda a infeliz verdade o m ais tem po que puder. Sei que não pode ser por m uito tem po.

Ele lhe assegurou prontam ente que poderia contar com a sua discrição. Tornou a exprim ir os seus sentim entos pela aflição de Elizabeth. Desej ou que o caso tivesse um a conclusão m ais favorável do que no m om ento era possível esperar, deixando os seus cum prim entos para Mr. e Mrs. Gardiner, e com um grave olhar, apenas, de despedida, foi-se em bora.

Depois que ele saiu da sala, Elizabeth sentiu que era m uito pouco provável que j am ais tornassem a se encontrar em term os tão cordiais, com o os que tinham m arcado os seus vários encontros no Derby shire. E ao lançar um olhar retrospectivo sobre a história das suas relações com Darcy , história tão cheia de contradições e surpresas, não pôde deixar de suspirar, ao refletir sobre a inconstância dos seus sentim entos e a perversidade das circunstâncias que a levavam agora a desej ar prolongar aquelas m esm as relações, quando anteriorm ente se teria rej ubilado com a sua cessação.

Se a gratidão e a estim a são fundam entos suficientes para a afeição, a m oderação dos sentim entos de Eliza beth seria bastante natural. Mas, ao contrário, se a afeição oriunda de tais m otivos é insensata e pouco natural, em com paração com aquela que em geral dizem se originar no instante m esm o do encontro e antes de qualquer palavra ser trocada, nada pode ser dito em defesa de Elizabeth, a não ser que tinha experim entado este últim o m étodo com Wickham e que o seu fracasso talvez a autorizasse a procurar a outra espécie m enos interessante de afeição. Sej a com o for, viu-o partir com tristeza. E ao refletir sobre aquele infeliz acontecim ento, encontrou um m otivo adicional de angústia no pensam ento de que aquilo era apenas um exem plo dos m ales que a leviandade de Ly dia poderia causar. Nem por um m om ento, desde que lera a segunda carta de Jane, Elizabeth tivera esperança de que Wickham tencionasse realm ente se casar com a sua irm ã. Ninguém , a não ser Jane, pensou, poderia alim entar tais esperanças. A surpresa fora o m enos que sentira nessa ocasião. Ao ler a prim eira carta, ela se surpreendera enorm em ente de que Wickham quisesse se casar com aquela m oça sem fortuna. Parecia-lhe tam bém incom preensível que Ly dia estivesse apaixonada por ele. Mas agora achava tudo natural. Para um a aventura daquelas ela poderia ter encantos suficientes. E em bora Elizabeth não supusesse que Ly dia consentisse deliberadam ente num a fuga sem intenção de casam ento, tinha razões para acreditar que nem a virtude nem o entendim ento a preservariam de se tornar um a presa fácil.

Enquanto o regim ento estava no Hertfordshire, nunca percebera que Ly dia m anifestasse qualquer preferência por Wickham . Mas Elizabeth estava

convencida de que Ly dia se apegaria a qualquer pessoa que a encoraj asse. Entre os oficiais ela m udava constantem ente de favorito, segundo as atenções que eles lhe concediam . Seus entusiasm os sofriam contínuas flutuações, m as nunca sem m otivo. Agora é que Elizabeth com preendia o m al que havia em confiar excessivam ente num a m enina com o aquela.

Elizabeth estava cada vez m ais ansiosa por regressar à sua casa, para ver, ouvir, com partilhar com Jane os cuidados que agora deviam recair inteiram ente sobre ela, num a fam ília tão desorganizada, com o pai ausente, a m ãe incapaz de um esforço e exigindo constantes cuidados. E em bora quase persuadida de que nada poderia ser feito por Ly dia, a interferência do seu tio lhe parecia da m aior im portância e a sua im paciência foi grande enquanto não o viu entrar na sala.

Mr. e Mrs. Gardiner tinham voltado apressadam ente, alarm ados, supondo pelo relato do criado que a sua sobrinha tinha adoecido repentinam ente. Depois de tranquilizá-los sobre este ponto, Elizabeth se apressou em lhes revelar a causa do recado que enviara; leu as duas cartas em voz alta, e insistiu no postscriptum da últim a carta com trêm ula veem ência, em bora Ly dia nunca tivesse sido a favorita dos seus tios. Mr. e Mrs. Gardiner ficaram profundam ente aflitos. Não era Ly dia apenas, todos eles se achavam afetados com aquilo. E depois das prim eiras exclam ações de surpresa e de horror, Mr. Gardiner prontam ente prom eteu todo o auxílio de que fosse capaz. Elizabeth, em bora não esperasse m enos, agradeceu-lhe com lágrim as de gratidão. E com o todos três estavam im buídos pela m esm a ideia, os detalhes relativos à viagem foram rapidam ente com binados. Resolveram partir o m ais depressa possível.