Orgulho e Preconceito

Jane Austen · Capítulo 34 de 62

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Orgulho e Preconceito

Capítulo 34

finalm ente Elizabeth chegou à conclusão de que Mr. Darcy se deixara levar em parte pelo seu desm edido orgulho e em parte pelo desej o de reter Mr. Bingley para sua irm ã. As agitações e as lágrim as que o assunto causara trouxeram a Elizabeth um a dor de cabeça que à noite se agravou. Esta circunstância e a sua repugnância em ver Mr. Darcy determ inaram -na a não acom panhar as suas prim as a Rosings, onde deviam tom ar chá. Mrs. Collins, vendo que ela realm ente não estava bem , não insistiu, im pedindo o m ais que pôde o seu m arido de insistir.

Mr. Collins não pôde esconder a sua apreensão de que Lady Catherine se m ostrasse aborrecida por Elizabeth ter ficado em casa.

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Depois que os seus am igos partiram , Elizabeth, com o se tencionasse exasperar-se o m ais que podia contra Mr. Darcy , escolheu com o ocupação a leitura de todas as cartas que Jane lhe enviara, desde que ela, Elizabeth, estava no Kent. Essas cartas não continham nenhum a queixa expressa. Não relem bravam acontecim entos passados nem com unicavam sofrim entos presentes. Mas em todas elas, em quase cada linha, sentia-se a falta daquela anim ação que sem pre caracterizara o estilo de Jane, e que procedia da serenidade de um espírito tranquilo e bem -disposto para consigo m esm o e para com todos. Elizabeth observou com um a atenção que não tivera durante a prim eira leitura cada frase que traía algum a inquietude. A vergonhosa j actância de Mr. Darcy a respeito dos sofrim entos que ele pudera causar fazia com que sentisse m ais agudam ente os sofrim entos da sua irm ã. Era um consolo pensar que a sua visita a Rosings term inaria daí a dois dias. E outro, ainda m aior, a ideia de que em m enos de 15

dias ela estaria novam ente j unto de Jane, preparada para contribuir com toda a afeição de que era capaz para o restabelecim ento da sua tranquilidade.

Não podia pensar na partida de Darcy sem se lem brar de que o prim o tam bém iria com ele. Mas o coronel Fitz william dera a entender claram ente que não tinha nenhum a intenção em relação a ela e, em bora fosse um hom em agradável, Elizabeth não estava disposta a ficar triste por sua causa.

Decidira este ponto, quando teve a sua atenção despertada pelo som da cam painha da porta. A princípio ficou um pouco em ocionada com a ideia de que pudesse ser o coronel Fitzwilliam , que j á um a vez aparecera tarde à noite, e que viesse agora para se inform ar da sua saúde. Mas esta ideia foi logo banida e a sua em oção foi inteiram ente diversa quando viu com im ensa surpresa Mr. Darcy entrar na sala. Ele com eçou apressadam ente a fazer perguntas sobre a sua saúde, atribuindo a sua visita ao desej o de se tranquilizar. Ela respondeu com fria am abilidade. Darcy ficou sentado durante alguns instantes e depois, levantando-se, pôs-se a cam inhar pela sala. Elizabeth ficou espantada, m as não disse nada.

Depois de um silêncio de alguns m inutos, aproxim ou-se agitado, e disse:

— Em vão tenho lutado com igo m esm o; nada consegui. Meus sentim entos não podem ser reprim idos e preciso que m e perm ita dizer-lhe que eu a adm iro e am o ardentem ente.

O espanto de Elizabeth não teve lim ites. Olhou fixam ente para ele, enrubesceu, duvidou e ficou calada. Mr. Darcy considerou esta atitude com um encoraj am ento e im ediatam ente fez-lhe a confissão de tudo o que sentia e j á desde há m uito vinha sentindo. Declarou-se bem , m as através das suas palavras outros sentim entos além dos do coração podiam ser percebidos. E ele não falava com m ais eloquência da sua ternura do que do seu orgulho. O sentim ento da inferioridade de Elizabeth, do rebaixam ento que aquele am or constituía, os

obstáculos de fam ília que a razão sem pre opusera à inclinação foram descritos com um ardor que parecia devido ao seu am or-próprio ferido, m as que recom endava m uito pouco as suas pretensões.

Apesar da sua profunda antipatia, Elizabeth não podia deixar de ficar desvanecida pela afeição de um tal hom em . E em bora as suas intenções nem por um só instante m udassem , a princípio teve pena de ser obrigada a lhe causar um a tal decepção. Mas as palavras seguintes de Mr. Darcy tornaram a provar o seu ressentim ento. Encolerizada, perdeu toda a com paixão. Procurou no entanto dom inar-se, para responder com paciência, assim que ele acabasse de falar. Ele concluiu descrevendo-lhe a força daquela afeição que, apesar dos seus esforços, não conseguira dom inar. E exprim iu a sua esperança de que essa afeição seria agora recom pensada pela aceitação de Elizabeth. Enquanto Mr. Darcy falava, era evidente para Elizabeth que ele não duvidava de que a resposta fosse favorável. Ele falava em apreensão e ansiedade, m as o seu rosto exprim ia realm ente a certeza. Isto ainda a exasperou m ais, e quando term inou, o sangue subiu ao rosto de Elizabeth, que disse:

— Em casos com o estes creio que é costum e estabelecido exprim ir a nossa gratidão pelos sentim entos que nos são confessados, em bora esses sentim entos não possam ser retribuídos. É natural que essa gratidão sej a sentida. E se eu a experim entasse agora, eu lhe agradeceria. Mas eu não posso desej ar e nunca desej ei a sua boa opinião e aliás o senhor a confere a m im contra a sua vontade.

Sinto m uito ter de causar decepção a qualquer pessoa, não o faço de propósito, entretanto espero que ela será de curta duração. Os sentim entos que, segundo o senhor m e disse, o im pediram durante m uito tem po de reconhecer a sua afeição hão de socorrê-lo facilm ente depois da presente explicação.

Mr. Darcy , que estava apoiado contra a lareira, com os olhos fixos no rosto de Elizabeth, parecia receber as suas palavras com tanta surpresa quanto ressentim ento. O seu rosto se tornou pálido de cólera e a perturbação era visível em cada um dos seus traços. Ele lutava para dar aos seus gestos um a aparência de calm a e não queria falar antes de ter conseguido o que desej ava. A pausa era insuportável para Elizabeth. Afinal, num a voz em que transparecia o esforço para torná-la calm a, respondeu:

— E esta é a única reposta a que eu tinha direito e com a qual tenho de m e contentar! Desej aria talvez que m e inform asse por que sou assim rej eitado, sem a m enor tentativa de cortesia da sua parte. Mas isto tem pouca im portância.

— Por m inha vez, eu poderia perguntar — replicou ela — por que, com o intuito tão evidente de m e ofender e de insultar, o senhor resolveu dizer que gostava de m im contra a sua vontade, contra a sua razão e m esm o contra o seu caráter? Não é essa um a escusa suficiente para a m inha falta de cortesia? Se é que realm ente eu com eti essa falta... Mas tenho outros m otivos para m e sentir ferida. E o senhor bem o sabe. Mesm o que os m eus sentim entos não lhe fossem contrários, se lhe

fossem indiferentes ou m esm o favoráveis, o senhor acha que qualquer consideração m e inclinaria a aceitar um hom em que arruinou talvez para sem pre a felicidade de um a irm ã querida?

Enquanto ela pronunciava estas palavras, Mr. Darcy m udou de cor. Mas a em oção foi curta e ele continuou a ouvir sem tentar interrom pê-la.

— Tenho todas as razões do m undo para pensar m al do senhor — prosseguiu Elizabeth. — Nenhum m otivo poderá escusar o ato inj usto e m esquinho que praticou. O senhor não ousará negar que foi o m eio principal, senão o único, de separar aquelas duas pessoas e de expô-las à censura e ao ridículo do m undo, um a delas por capricho e instabilidade, outra pela decepção das suas esperanças, causando-lhe um grande m al.

Fez um a pausa e viu, com grande indignação, que ele a ouvia com ar de quem não sentia o m enor rem orso. Olhou m esm o para ela com um sorriso de incredulidade afetada.

— O senhor pode negar o que fez? — repetiu.

Ele então respondeu com fingida tranquilidade:

— Não desej o negar que fiz tudo o que podia para separar m eu am igo da sua irm ã. Nem tam pouco negarei que m e alegro desse êxito. Fui m ais previdente para com ele do que para com igo próprio.

Elizabeth não quis m ostrar que com preendia esta observação, m as o seu sentido não lhe escapou. Nem tam pouco era de natureza a aplacá-la.

— Mas não é apenas nessa história que se funda a m inha antipatia — continuou.

— Muito antes dela acontecer eu j á tinha opinião form ada a seu respeito. A narrativa que j á há m uitos m eses m e fez Mr. Wickham m e revelou o seu caráter.

Que tem o senhor a dizer sobre este assunto? Que ato im aginário de am izade poderá o senhor alegar para se j ustificar? Que falsos m otivos poderá inventar para iludir os outros?

— A senhora parece se interessar extraordinariam ente pelas m ágoas daquele cavalheiro.

— Nenhum a pessoa que conheça o seu infortúnio pode deixar de se interessar por ele.

— Seu infortúnio! — repetiu Darcy , num tom de desprezo. — Sim , o seu infortúnio foi realm ente grande.

— E foi o senhor quem o infligiu — exclam ou Elizabeth, com energia. — Foi o senhor quem o reduziu ao seu estado atual de pobreza, de com parativa pobreza.

O senhor lhe recusou os direitos que lhe cabiam , as vantagens que lhe tinham sido destinadas. Privou-o, durante os m elhores anos da sua vida, da independência a que tinha direito e que aliás m erecia. Tudo isso o senhor fez! E agora ouve o relato do seu infortúnio com desprezo e ironia.

— Então é esta a opinião que tem de m im ! — exclam ou Darcy , cam inhando apressado pela sala. — É este o valor que m e dá! Agradeço-lhe por se ter

explicado tão claram ente. Minhas faltas, tais com o as descreve, são realm ente pesadas. Mas talvez — acrescentou detendo-se e voltando-se para Elizabeth —, talvez essas ofensas pudessem ter sido relevadas, se eu não tivesse ferido o seu orgulho, confessando-lhe com toda a franqueza os escrúpulos que m e im pediram durante tanto tem po de tom ar um a resolução. Eu poderia ter evitado as suas am argas acusações, se m e tivesse m ostrado m ais hábil, escondendo-lhe as m inhas lutas e fazendo crer que era m ovido por um a inclinação a que nada se opunha, nem a razão, nem a reflexão, nem outro qualquer m otivo. Mas eu odeio toda a espécie de fingim ento. Nem tam pouco m e envergonham os sentim entos que lhe exprim i. São naturais e j ustos. Pode exigir de m im que m e felicite pela inferioridade social dos seus parentes? Ou que m e alegre com a esperança de m e relacionar com pessoas de condição inferior à m inha?

Elizabeth sentia a sua cólera crescer de m om ento a m om ento; apesar disso procurou falar com toda a calm a:

— O senhor está enganado, Mr. Darcy . A sua atitude pouco cavalheiresca apenas m e poupou o desgosto de recusar o seu pedido, se tivesse sido feito de outra form a.

Elizabeth percebeu que ele se sobressaltava ao ouvir estas palavras. Mas Mr.

Darcy nada disse e ela prosseguiu:

— Eu o teria recusado de qualquer form a. Nada m e poderia ter persuadido a aceitar a sua m ão.

Novam ente o seu espanto foi evidente. Mr. Darcy olhou para Elizabeth com incredulidade e m ortificação. Ela continuou:

— Posso dizer que desde o princípio, desde o prim eiro instante quase em que o conheci, as suas m aneiras m e convenceram de que era um hom em arrogante, pretensioso, e de que tinha a m aior indiferença pelos sentim entos dos outros. Esta im pressão foi tão profunda que constituiu, por assim dizer, o alicerce sobre o qual os acontecim entos subsequentes elevaram um a indestrutível antipatia; e m enos talvez de um m ês depois de conhecê-lo, estava convencida de que o senhor seria o últim o hom em no m undo com o qual eu m e casaria.

— Não precisa acrescentar m ais nada — disse Darcy . — Com preendo perfeitam ente os seus sentim entos, e nada m e resta senão m e envergonhar dos m eus. Perdoe-m e ter tom ado o seu precioso tem po, e aceite os m eus m ais sinceros votos de felicidade.

E dizendo estas palavras, saiu apressadam ente da sala e, depois de alguns instantes, Elizabeth o ouviu abrir a porta da frente e sair. O tum ulto das suas ideias lhe era tão doloroso, que, incapaz de recuperar o seu equilíbrio, deixou-se cair sobre um a cadeira e chorou durante m eia hora sem cessar. A sua surpresa aum entava cada vez que recordava o que se tinha passado. Recebera um a proposta de casam ento de Mr. Darcy ! Há vários m eses estava apaixonado por ela! Am ava-a tanto que desej ava desposá-la, apesar de todas as obj eções que o levaram a im pedir o casam ento do seu am igo. Era agradável saber que ela tinha inspirado um a afeição tão forte. Mas a piedade, que a ideia de um a tal paixão por um m om ento tinha inspirado a Elizabeth foi logo sufocada pelo orgulho de Mr.