Orgulho e Preconceito

Jane Austen · Capítulo 35 de 62

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Orgulho e Preconceito

Capítulo 35

Darcy , o seu abom inável orgulho, pela cínica confissão de sua atitude para com Jane, a sua im perdoável tranquilidade ao reconhecer o que tinha feito, em bora não o pudesse j ustificar, e pela m aneira desapiedada com que se referira a Mr.

Wickham , sem que tentasse negar a crueldade com que o tinha tratado.

Essas reflexões agitadas prosseguiram até que Elizabeth ouviu o ruído da carruagem de Lady Catherine. Sentindo que não estava em condições de enfrentar a perspicaz atenção de Charlotte, correu para o quarto.

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Na m anhã seguinte, ao despertar, Elizabeth encontrou no seu espírito os m esm os problem as que debatera na véspera até adorm ecer. Ainda não voltara a si da surpresa. Era im possível pensar em outro assunto; incapaz de encontrar um a ocupação que a distraísse, resolveu, logo depois da prim eira refeição, fazer um pouco de exercício ao ar livre. Estava se encam inhando para o seu lugar favorito, quando a lem brança de que Mr. Darcy costum ava aparecer lá a deteve. E em vez de entrar no parque, Elizabeth tom ou a vereda que a bordej ava. A cerca do parque lim itava a estrada de um lado e pouco depois ela passou por um dos portões. Depois de andar duas ou três vezes naquela parte do cam inho, sentiu-se tentada pela beleza da m anhã a parar nos portões e contem plar o parque.

Durante as cinco sem anas que tinha passado no Kent, um a grande transform ação se operara, e cada dia as árvores ficavam m ais verdes. Elizabeth estava a ponto de continuar o passeio, quando avistou de relance, no pequeno bosque que bordej ava o parque, um hom em que vinha na sua direção. Tem erosa de que fosse Mr. Darcy , ela recuou. Mas a pessoa se encontrava agora tão próxim a que podia vê-la. Apressando o passo, esta pessoa se aproxim ou e pronunciou o nom e de Elizabeth. Ela estava de costas m as ao ouvir o seu nom e, em bora reconhecesse a voz de Mr. Darcy , voltou a se acercar do portão. Mr. Darcy , do outro lado fizera o m esm o. Ele lhe estendeu um a carta, que ela aceitou instintivam ente. Em seguida disse, com um olhar altivo:

— Estive passeando no bosque na esperança de encontrá-la. Quer m e dar a honra de ler esta carta?

Em seguida, depois de inclinar-se levem ente, voltou-se e partiu. Sem esperança de prazer m as com a m aior curiosidade, Elizabeth abriu a carta; com espanto sem pre crescente viu que o envelope continha duas folhas de papel, inteiram ente recobertas por um a letra apertada. Continuando o seu cam inho pela alam eda, Elizabeth com eçou a ler. A carta estava datada de Rosings, das oito horas da m anhã, e dizia o seguinte:

Não fique alarm ada, Miss Eliza, ao receber esta carta, pela apreensão de que ela contenha a repetição daqueles sentim entos ou a renovação daquelas propostas que ontem à noite tanto lhe repugnaram . Escrevo-lhe sem nenhum a intenção de aborrecê-la ou de m e hum ilhar, insistindo em exprim ir esperanças que para a felicidade de am bos não podem ser esquecidas cedo dem ais. E o esforço da m inha parte ao escrever esta carta e da sua em percorrê-la teria sido poupado se o m eu caráter não exigisse que ela fosse escrita e lida. É preciso, pois, que m e perdoe a liberdade com que exij o a sua atenção; sei que os seus sentim entos a concederão com relutância. Mas eu a exij o da sua j ustiça. Duas foram as acusações que m e fez ontem à noite, de natureza m uito diferente e de

im portância igualm ente desigual. A prim eira foi: que eu tinha separado Mr.

Bingley da sua irm ã, indiferente aos sentim entos de am bos. E a outra, de ter arruinado a possibilidade im ediata e as probabilidades futuras de Mr. Wickham , ferindo vários direitos, desafiando a honra e a hum anidade. Ter repudiado voluntária e gratuitam ente o com panheiro da m inha infância, o favorito declarado de m eu pai, um rapaz que dependia exclusivam ente da nossa proteção e a quem esta fora prom etida seria um a perversidade incom paravelm ente m ais grave do que a separação de duas pessoas cuj a afeição, em bora real, não poderia ter crescido excessivam ente, no espaço das poucas sem anas que estiveram j untas. Espero estar a salvo para o futuro da severidade das censuras que m e foram feitas com tanta veem ência, a respeito destes dois casos, depois de ter lido a seguinte explicação dos m eus atos e dos seus m otivos. Se durante esta explanação eu m e encontrar na necessidade de exprim ir sentim entos que possam ser ofensivos aos seus, posso dizer apenas que isto m e entristece sinceram ente. A necessidade de expô-los deve ser obedecida. E outras quaisquer desculpas serão supérfluas. Pouco depois da m inha chegada ao Hertfordshire, percebi, j untam ente com outras pessoas, que Bingley preferia a sua irm ã m ais velha a qualquer outra m oça da região. Mas foi só por ocasião do baile de Netherfield que fiquei pela prim eira vez apreensivo de que ele se apaixonasse seriam ente.

Muitas vezes antes eu j á o tinha visto apaixonado. Naquele baile, enquanto eu tinha a honra de dançar com a senhora, soube através da inform ação acidental de Sir William , que as atenções de Bingley para com a sua irm ã tinham dado lugar a um rum or geral acerca do seu casam ento. Sir William falou naquilo com o num acontecim ento positivo, acerca do qual só a data era incerta. A partir desse m om ento observei a atitude do m eu am igo com m uita atenção. E vi que a sua inclinação por Miss Bennet era m ais forte do que qualquer um a das que lhe tinha visto antes. Observei tam bém a sua irm ã; seu olhar, suas m aneiras, eram francas, alegres e atraentes com o sem pre, m as sem qualquer sintom a especial de afeição. E a partir desta noite fiquei convencido de que em bora ela aceitasse as atenções de Bingley com prazer, não as provocava porque participasse do m esm o sentim ento. Quanto a este ponto, se a senhora não se enganou, enganei-m e eu. Com o conhece m elhor a sua irm ã, a últim a hipótese parece ser m ais provável. Se este é o caso, se este erro m e levou a infligir um desgosto à sua irm ã, o seu ressentim ento é incom preensível. Mas eu não tenho receio de afirm ar que a serenidade do rosto da sua irm ã e a tranquilidade da sua expressão são tais, que o observador m ais agudo concluiria que, por m ais am ável que sej a o seu gênio, seu coração não é dos m ais fáceis de atingir; é certo que eu desej ava acreditar na indiferença dela, m as arrisco-m e a afirm ar que as m inhas investigações e as m inhas decisões não são geralm ente influenciadas pelas m inhas esperanças ou pelos m eus receios. Não foi porque o desej asse que acreditei na indiferença da sua irm ã, foi porque cheguei a esta convicção

im parcial e ela é tão sincera quanto o m eu desej o. Minhas obj eções contra aquele casam ento não foram apenas as que lhe descrevi ontem à noite e que no m eu próprio caso exigiram toda a força da paixão para serem vencidas; a desigualdade social não seria um m al tão grande para o m eu am igo quanto para m im . Mas existiam outras causas para a m inha resistência; causas que, em bora ainda existentes, e existentes do m esm o m odo, eu tentara esquecer porque não as via de m aneira im ediata diante de m im . Essas causas precisam ser ditas em bora sum ariam ente. A situação da fam ília da sua m ãe, em bora pouco recom endável, não era nada em com paração com aquela falta total de delicadeza tão frequente e quase perm anentem ente dem onstrada por sua m ãe, por suas três irm ãs m ais m oças e às vezes até por seu pai. Perdoe-m e, dói-m e ter de ofendê-la. Mas no m eio dos aborrecim entos que os defeitos dos seus parentes m ais próxim os lhe causam e o desprazer que a presente descrição não pode deixar de lhe dar, a seguinte reflexão lhe sirva de consolo: saiba que o fato universalm ente reconhecido de que tanto a senhora com o a sua irm ã m ais velha sem pre se com portaram de m odo a evitar um a censura sem elhante é o m elhor elogio que se poderia fazer à sensatez e ao caráter de am bas. Acrescentarei apenas que os fatos que se passaram naquela noite confirm aram a m inha opinião sobre todas as pessoas em questão e fortaleceram a m inha resolução de proteger o m eu am igo de um a aliança que eu considerava a m ais desastrada. Ele deixou Netherfield no dia seguinte, com o decerto está lem brada, com a intenção de regressar breve.

Agora devo explicar a parte que tom ei no caso. A inquietude da irm ã de Bingley fora igualm ente despertada e logo descobrim os que os nossos sentim entos coincidiam a esse respeito; convencidos am bos de que devíam os agir rapidam ente, resolvem os acom panhá-lo a Londres. Foi o que fizem os. E lá tom ei a m eu cargo a incum bência de revelar ao m eu am igo as consequências desastradas da escolha que fizera. No entanto, por m ais que esta advertência possa ter abalado a sua resolução, não creio que ela teria sido suficiente para im pedir o casam ento, se não tivesse sido apoiada pela afirm ação, que não hesitei em fazer, de que a sua irm ã lhe era indiferente. Ele acreditava até aquele m om ento que Miss Jane correspondia à sua afeição sinceram ente, senão com igual intensidade. Mas Bingley é por natureza m uito m odesto, e além disso tem m ais confiança no m eu j ulgam ento do que no seu próprio. Convencê-lo, portanto, de que ele se tinha enganado não foi m uito difícil. Persuadi-lo, em seguida, de que não devia voltar para o Hertfordshire, depois de firm ado o prim eiro ponto, foi coisa de um instante. Não m e arrependo de tê-lo feito. Existe apenas um a parte da m inha conduta que não m e satisfaz. É que eu condescendi em usar de certos artifícios para esconder de Bingley o fato de sua irm ã se encontrar em Londres. Sabia dessa presença, bem com o Miss Bingley , m as o seu irm ão até agora ainda não sabe. É possível que eles pudessem ter-se encontrado sem outras consequências; m as o seu afeto não m e pareceu suficientem ente extinto para que

ele pudesse ver a sua irm ã sem correr algum perigo. Talvez esse artifício sej a indigno de m im . Mas o que está feito está feito. E a m inha intenção foi a m elhor possível. Sobre este assunto nada m ais tenho a dizer, nem outra explicação a dar.

Se feri os sentim entos da sua irm ã, foi sem a intenção de fazê-lo, e em bora os m otivos que inspiraram a m inha conduta lhe pareçam naturalm ente insuficientes, não vej o ainda razões para condená-los. Com relação à outra acusação, a m ais grave, a que diz respeito a Mr. Wickham , só poderei refutá-la, expondo-lhe toda a história das suas relações com m inha fam ília. Ignoro se ele form ulou algum a acusação particular à m inha pessoa; m as acerca da verdade do que vou relatar posso dar m ais de um a testem unha insuspeita. Mr. Wickham é o filho de um hom em m uito respeitável, que durante m uitos anos geriu todos os bens da propriedade de Pem berley ; a fidelidade com que sem pre se desincum biu das suas funções m ereceu naturalm ente a gratidão do m eu pai. E para com George Wickham , que era o seu afilhado, m eu pai se m ostrou sem pre generoso, dedicando-lhe um a grande afeição. Pagou os seus estudos num colégio e m ais tarde em Cam bridge. Auxílio im portante, pois o pai de Mr. Wickham , que as extravagâncias da sua esposa privavam quase sem pre do necessário, não estava em condições de dar ao filho um a educação liberal. Meu pai não só gostava m uito da com panhia de George Wickham , cuj as m aneiras, aliás, eram sem pre m uito atraentes, m as tinha por ele a m aior adm iração e, alim entando a esperança de que o rapaz abraçasse a carreira eclesiástica, tencionava reservar-lhe um lugar na m esm a. Quanto a m im , há j á m uitos anos que com ecei a pensar de m aneira diferente a respeito dele. As suas inclinações viciosas, a falta de escrúpulos, que ele tinha o cuidado de esconder do seu m elhor am igo, não poderiam passar despercebidas a um rapaz da sua idade, que o observava e tinha a oportunidade de vê-lo em m om entos de descuido, coisa que m eu pai não tinha.

Aqui, novam ente, terei de m agoá-la. Até que ponto não sei. Só a senhora m esm a poderá dizê-lo. Mas quaisquer que sej am os sentim entos que Mr. Wickham lhe tenha inspirado, a suspeita que alim ento acerca da natureza desses sentim entos não m e im pedirá de lhe revelar o verdadeiro caráter daquela pessoa. Acrescento m esm o um outro m otivo. Meu excelente pai m orreu há cerca de cinco anos e a sua afeição por Mr. Wickham foi até o fim tão firm e que m e recom endou particularm ente no seu testam ento que m e encarregasse de prom over o seu adiantam ento na carreira que tinha escolhido, e m anifestou o desej o de que um posto im portante, à disposição da fam ília, lhe fosse dado, assim que vagasse, caso Mr. Wickham se ordenasse. Deixou-lhe tam bém um legado de m il libras. O pai dele não sobreviveu m uito tem po ao m eu, e m eio ano depois desses acontecim entos Mr. Wickham m e escreveu, inform ando-m e que resolvera não tom ar ordens. Dizia-m e tam bém que esperava que eu não achasse despropositado o desej o de um a com pensação pecuniária m ais im ediata, em lugar do posto do qual não poderia agora se beneficiar. Acrescentou que tinha

intenção de estudar direito, e que eu devia com preender que os j uros de m il libras não eram suficientes para o seu sustento e os seus estudos. Apesar do m eu desej o de acreditar na sinceridade dele, não o conseguia. Mas de qualquer m odo m ostrei-m e perfeitam ente disposto a ceder à sua proposta. Eu sabia que Mr.

Wickham não devia ser pastor. O negócio foi portanto logo arranj ado. Ele desistiu de toda proteção relativa à sua entrada na igrej a, m esm o se estivesse algum dia em situação de recebê-la, e aceitou em troca a quantia de três m il libras. Todas as nossas relações a partir dessa época ficaram interrom pidas. O que eu sabia a respeito dele era suficiente para não o desej ar com o am igo. E portanto eu não o convidava para vir a Pem berley , nem andava em sua com panhia na cidade.

Creio que durante esse tem po ficou em Londres, m as o seu estudo de direito foi um m ero pretexto. Livre agora de toda obrigação, levava um a vida de dissipação. Durante três anos pouco ouvi falar nele. Mas ao falecer a pessoa que ocupava o posto que outrora lhe fora destinado, tornou a escrever, solicitando a sua apresentação para o dito lugar. Sua atual situação, dizia ele, e eu não tive dificuldade em acreditá-lo, era extrem am ente precária. Descobrira que o estudo de direito era pouco proveitoso e estava agora absolutam ente resolvido a tom ar ordens, se eu o apresentasse para o posto em questão, coisa de que não duvidava, pois estava inform ado de que não havia outro pretendente e eu não poderia ter esquecido as intenções do m eu venerando pai; creio que não há de m e censurar por lhe ter recusado aquela pretensão e rej eitado todas as novas tentativas no m esm o sentido. O ressentim ento que m anifestou foi m uito violento, dada a situação precária em que se encontrava. E, sem dúvida, os insultos de que m e cobriu ao falar a m eu respeito com outras pessoas foram tão violentos quanto as recrim inações que m e dirigiu. Depois desse período, todas as relações de m era form alidade foram cortadas. Com o ele viveu, não sei. Mas no últim o verão tornou a aparecer no m eu cam inho da form a m ais desagradável possível. Devo agora m encionar certas circunstâncias que eu m esm o desej aria esquecer e que só um a obrigação tão forte quanto a atual m e poderia induzir a relatar para qualquer outra pessoa. Depois de ter dito isto, confio inteiram ente na sua discrição. Minha irm ã, que é dez anos m ais m oça do que eu, foi deixada em tutela ao sobrinho de m inha m ãe, o coronel Fitzwilliam , e a m im próprio. Há um ano ela saiu do colégio e foi m orar em Londres em com panhia de um a senhora encarregada de superintender a sua educação; e no verão passado, foi com aquela senhora para Ram sgate. Mr. Wickham , sem dúvida propositadam ente, partiu para o m esm o lugar; depois descobriu-se que havia um relacionam ento anterior entre ele e Mrs. Jounge, sobre cuj o caráter infelizm ente nos enganam os.

Graças ao auxílio e conivência desta pessoa, aproxim ou-se de Georgiana, em cuj o coração por natureza afetivo ainda era m uito vívida a im pressão da bondade com que ele a tratava em criança. Ela se deixou persuadir de que estava apaixonada e consentiu em ser raptada. Com o a m oça tinha apenas 15 anos, essa

loucura é até certo ponto escusável. Tenho o consolo de poder acrescentar que soube disto por ela própria. Cheguei a Ram sgate inesperadam ente um ou dois dias antes da proj etada fuga. E Georgiana, incapaz de suportar a ideia de desgostar e ofender um irm ão que considerava quase com o um pai, confessou-m e tudo. A senhora pode bem im aginar com o m e senti e com o agi. Para não prej udicar a reputação da m inha irm ã e não ofender os seus sentim entos, eu m e abstive de qualquer ato de represália em público. Mas escrevi para Mr.