Orgulho e Preconceito
Capítulo 9
— Eliza Bennet — disse Miss Bingley , assim que a porta se fechou — é um a dessas m oças que procuram se fazer aos olhos das pessoas do outro sexo falando m al do seu próprio; e m uitos hom ens se deixam enganar por isto. Mas, na m inha opinião, é um estratagem a m uito baixo.
— Sem dúvida — replicou Darcy , a quem principalm ente se dirigia a observação —, existe baixeza em todos os estratagem as que as senhoras às vezes
condescendem em em pregar para cativar. Tudo o que tem afinidade com a astúcia é desprezível.
Miss Bingley não se sentiu inteiram ente satisfeita com esta resposta, que não a encoraj ava a prosseguir no assunto.
Elizabeth tornou a entrar para avisar que a irm ã estava pior e que não podia deixá-la. Bingley insistiu para que Mr. Jones fosse cham ado im ediatam ente; suas irm ãs, convencidas de que os recursos m édicos da aldeia não eram suficientes para o caso, recom endaram que se enviasse um expresso para a cidade, cham ando um dos m édicos m ais em inentes de Londres. Elizabeth recusou, m ostrando-se no entanto disposta a aceitar a sugestão de Bingley . Ficou decidido que Mr. Jones seria cham ado no dia seguinte de m anhã cedo, caso Miss Bennet não am anhecesse francam ente m elhor. Bingley m ostrou-se m uito inquieto; suas irm ãs declararam que estavam inconsoláveis. Consolaram entretanto a sua tristeza cantando duetos depois da ceia, enquanto Bingley tranquilizava as suas inquietudes dando ordens à sua caseira para que todas as atenções possíveis fossem dispensadas à m oça doente e à sua irm ã.
9
Elizabeth passou a m aior parte da noite no quarto da irm ã e de m anhã teve o prazer de poder enfim m andar respostas m ais tranquilizadoras aos recados que recebera m uito cedo de Mr. Bingley , por interm édio de um a criada e, algum tem po depois, pelas elegantes dam as de com panhia das irm ãs do dono da casa.
Apesar dessas m elhoras, Elizabeth pediu que enviassem um bilhete a Longbourn pedindo que sua m ãe viesse visitar Jane e tom asse pessoalm ente as providências que a situação exigia. O bilhete foi despachado im ediatam ente e a resposta não tardou. Mrs. Bennet, acom panhada pelas suas duas filhas m ais m oças, chegou a Netherfield pouco depois do alm oço.
Se tivesse encontrado Jane aparentem ente em perigo, Mrs. Bennet teria ficado extrem am ente desolada; m as vendo que a doença não era grave, não desej ou que ela se restabelecesse im ediatam ente, pois isto significaria provavelm ente o seu regresso de Netherfield. Repeliu portanto a proposta que lhe fez Jane, que desej ava ser transportada para casa. O farm acêutico tam pouco achou a ideia razoável. E, depois de se ter dem orado algum tem po com Jane, Mrs. Bennet e suas três filhas aceitaram o convite que lhes veio fazer Miss Bingley para que fossem alm oçar.
Bingley veio ao encontro de Mrs. Bennet, exprim indo-lhe a sua esperança de que não tivesse encontrado Miss Bennet pior do que esperava.
— Realm ente, eu a encontrei pior do que esperava — respondeu Mrs. Bennet. —
O seu estado não perm ite que ela sej a transportada. Mr. Jones disse que nem devem os pensar nisto. Serem os obrigadas a abusar m ais algum tem po da sua hospitalidade.
— Transportá-la? — exclam ou Bingley — nem devem os pensar nisto. Minha irm ã, estou certo, não o perm itirá.
— Pode ficar certa, m adam e — disse Miss Bingley com fria am abilidade —, que Miss Bennet receberá todas as atenções enquanto estiver em nossa casa.
Mrs. Bennet agradeceu efusivam ente.
— Estou certa — acrescentou ela — de que se não fossem os bons am igos que tem , a sua situação seria m uito grave, pois está realm ente m uito doente; sofre m uito, em bora com um a paciência adm irável; aliás, é sem pre assim , pois ela tem , sem nenhum a dúvida, o gênio m ais dócil do m undo. Eu sem pre digo às m inhas outras filhas que nada são perto de Jane. O quarto em que ela está, Mr.
Bingley , é m uito agradável e tem um a encantadora vista sobre a aleia principal.
Não conheço outro lugar no país que sej a tão agradável quanto Netherfield.
Espero que o senhor não se apresse a abandoná-lo, em bora o tenha alugado por pouco tem po.
— Tudo o que faço — replicou ele — é às pressas e, portanto, se resolvesse deixar Netherfield, eu o faria provavelm ente em cinco m inutos.
— Isso é exatam ente o que eu supunha da sua parte — disse Elizabeth.
— Está com eçando a com preender-m e? — exclam ou, virando-se para Elizabeth.
— Com preendo-o perfeitam ente.
— Desej aria poder aceitar a sua declaração com o um elogio, m as acho que ser tão transparente é lam entável.
— Em geral é assim , m as não se segue necessariam ente que um caráter profundo e com plicado sej a m ais estim ável do que o seu. — Lizzy , gritou a sua m ãe —, lem bre-se de onde está e não se precipite com o se estivesse em casa.
— Não sabia — continuou Bingley im ediatam ente — que a senhorita era um a tão grande estudiosa dos caracteres. Deve ser um estudo absorvente.
— Sim , m as os caracteres com plexos são os m ais interessantes. Pelo m enos têm a vantagem de ser com plicados.
— O cam po — disse Darcy — oferece em geral poucos exem plares para um tal estudo. A sociedade em que nos m ovem os no cam po é em geral m uito lim itada e m onótona.
— Mas as pessoas em si m udam tanto que sem pre existe nelas algum a coisa de novo a observar.
— Realm ente — exclam ou Mrs. Bennet, ofendida pela m aneira com o ele se referia aos m oradores do cam po. — Asseguro-lhes que existe tanta m onotonia na cidade com o no cam po.
Todos ficaram surpreendidos e Darcy , depois de fitá-la um instante, virou-se para o outro lado em silêncio.
Mrs. Bennet, que im aginava ter ganho um a vitória com pleta sobre o outro, continuou, triunfante:
— Não vej o em que Londres tenha tão grande vantagem sobre o cam po, exceto quanto às loj as e lugares públicos. O cam po é m uito m ais agradável, não é, Mr.
Bingley ?
— Quando estou no cam po — respondeu este — nunca desej o ir em bora. E
quando estou na cidade, acontece a m esm a coisa. Cada lugar tem as suas vantagens. Eu m e sinto igualm ente bem em am bos.
— Sim , isto é porque o senhor tem boa vontade. Mas aquele gentlem an — disse, olhando para Darcy — parece que detesta o cam po.
— Você está enganada, m am ãe — disse Elizabeth, envergonhada com a sim plicidade da sua m ãe. — Você não com preendeu Mr. Darcy . Ele quis apenas dizer que não há tão grande variedade de tipos no cam po quanto na cidade. E
você tem de reconhecer que isto é verdade.
— Certam ente, m eu bem , ninguém disse o contrário. Mas, quanto ao pequeno núm ero de pessoas que m oram nesta redondeza, creio que existem poucas regiões m ais habitadas. Sei que nos dam os com 24 fam ílias.
Se não fosse a sua vontade de agradar Elizabeth, Bingley teria estourado de rir.
Sua irm ã foi m enos delicada e lançou para Mr. Darcy um olhar acom panhado de um sorriso m uito expressivo. Elizabeth, a fim de desviar as ideias de sua m ãe, perguntou-lhe se Charlotte Lucas estivera em Longbourn desde que ela, Elizabeth, saíra de lá.
— Sim , Charlotte veio ontem com o pai. Que hom em agradável, Sir William , não acha, Mr. Bingley ? E um hom em tão m oderno, tão educado, tão gentil... Para todo o m undo ele sem pre tem algum a coisa que dizer. É assim que eu entendo a boa educação. E essas pessoas que se im aginam m uito im portantes e nunca abrem a boca estão inteiram ente enganadas.
— Charlotte j antou lá em casa?
— Não, ela preferiu ir em bora. Creio que estavam precisando dela por causa dos croquetes. Quanto a m im , Mr. Bingley , sem pre tom o criados que sabem fazer os seus serviços. Minhas filhas são educadas de m odo diferente. Mas cada um sabe o que faz... E as m eninas Lucas são realm ente m uito boas m eninas, posso lhe assegurar. E pena que não sej am bonitas. Não que ache Charlotte assim tão feia; m as tam bém é nossa am iga particular.
— Ela parece um a m oça m uito agradável — disse Bingley .
— Oh, decerto, m as o senhor precisa reconhecer que é m uito pouco graciosa. A própria Lady Lucas j á o tem dito m uitas vezes. Ela disse tam bém que m uito m e invej a a beleza de Jane. Não gosto de m e gabar das m inhas filhas, m as, para dizer a verdade, Jane... Não é m uito frequente a gente ver um a m oça m ais bonita. É o que todos dizem . Não confio inteiram ente nessa parcialidade. Quando ela tinha apenas 15 anos, havia um cavalheiro que frequentava a casa de m eu irm ão Gardiner, em Londres. Estava tão apaixonado por ela que m inha cunhada estava certa de que ia fazer um a proposta antes de nos m udarm os para cá. No entanto, ele não fez. Talvez a j ulgasse m uito j ovem . Apesar de tudo, escreveu-lhe uns versos, que aliás eram m uito bonitos.
— E assim acabou a afeição daquele senhor — disse Elizabeth, im paciente. —
Suponho que tenha havido m uitos no m esm o caso. Eu queria saber quem descobriu a eficácia que tem a poesia de afugentar o am or.
— A m im sem pre m e disseram que a poesia é o alim ento do am or.
— De um am or sincero, sólido, sadio, pode ser. Tudo serve de alim ento ao que j á tem força. Mas quando se trata de um a ligeira e fraca inclinação, estou convencida que um bom soneto é suficiente para fazê-la m orrer de inanição.
Darcy contentou-se em sorrir. E a pausa geral que se seguiu fez Elizabeth trem er de m edo à ideia de que sua m ãe se tornasse novam ente ridícula. Ela queria dizer algum a coisa m as não conseguiu encontrar nenhum assunto. E depois de um curto silêncio, Mrs. Bennet com eçou a repetir os agradecim entos que fizera a Mr.
Bingley , pela sua bondade com Jane, desculpando-se igualm ente do incôm odo que lhe dava com Lizzy . Mr. Bingley respondeu com toda a am abilidade e obrigou a sua irm ã m ais m oça a ser igualm ente cortês e a responder de acordo
com a situa ção. Esta desem penhou o seu papel, aliás de m á vontade, m as Mrs.
Bennet ficou satisfeita. Pouco depois m andou cham ar a sua carruagem . Nesse m om ento, a m ais m oça das suas filhas se adiantou. Kitty e Ly dia, as duas filhas m enores, tinham conversado em voz baixa um a com a outra durante toda a visita. E tinha ficado resolvido entre elas que a m ais m oça devia lem brar a Mr.
Bingley que, logo depois de sua chegada, ele prom etera que daria um baile em Netherfield.
Ly dia tinha 15 anos e era um a m oça forte e desenvolvida. Tinha o rosto agradável e um a expressão j ovial; era a favorita da sua m ãe que, devido a essa afeição, a tinha introduzido na sociedade m uito cedo ainda para a sua idade. Era dotada de m uita vitalidade e de um a espontaneidade que se transform ara em segurança graças à atenção que os oficiais lhe dispensavam . Estes eram atraídos, aliás, não só pela sua naturalidade com o pelos bons j antares de seu tio. Ela se sentiu, pois, autorizada a dirigir-se a Mr. Bingley sobre o assunto do baile e a lem brar-lhe abruptam ente a sua prom essa, acrescentando que ele com eteria o ato m ais vergonhoso do m undo se não a cum prisse. A resposta de Bingley a este súbito ataque foi deliciosa para os ouvidos de Mrs. Bennet.
— Asseguro-lhe que estou pronto a cum prir a m inha prom essa. E assim que a sua irm ã estiver restabelecida, a senhorita m e fará o favor de m arcar pessoalm ente o dia do baile. Penso que não gostaria de dançar enquanto sua irm ã estiver doente.