Orgulho e Preconceito

Jane Austen · Capítulo 28 de 62

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Orgulho e Preconceito

Capítulo 28

A senhora m e inspira nova vida e vigor. Adeus, desapontam entos e tristezas. Que im portam os hom ens aos rochedos e às m ontanhas? Oh, quantas horas agradáveis vam os passar! E quando voltarm os, não farem os com o os outros viaj antes que nada podem descrever com precisão. Nós nos lem brarem os dos lugares que visitam os e das coisas que vim os. Lagos, m ontanhas e rios não se confundirão nas nossas lem branças. Nem quando tentarm os descrever um a cena, discutirem os a respeito da sua localização. E que as nossas prim eiras efusões sej am m enos insuportáveis do que as da m aioria dos viaj antes!

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No dia seguinte, durante a viagem , tudo pareceu a Elizabeth novo e interessante.

Sua disposição era excelente. Encontrara a sua irm ã tão bem , que todas as preocupações sobre a sua saúde se tinham dissipado. E as perspectivas da sua viagem para o Norte eram um a fonte perm anente de prazer.

Quando deixaram a estrada principal para entrar no cam inho que levava a Hunsford, todos os olhos estavam atentos para divisar a reitoria, e a cada volta esperavam vê-la surgir. A cerca do parque de Rosings lim itava a estrada de um lado. Elizabeth sorria ao lem brar-se de tudo o que lhe tinham dito a respeito de seus habitantes.

Afinal a reitoria apareceu. O j ardim , descendo em ram pa suave pela estrada, a casa que o encim ava, a cerca verde, as sebes de loureiro, tudo declarava que estavam chegando. Mr. Collins e Charlotte apareceram à porta e a carruagem parou j unto ao pequeno portão; um a aleia ensaibrada conduzia até à casa. Num instante saltaram todos do carro, contentes de se reverem . Mrs. Collins acolheu a sua am iga com m uita alegria e Elizabeth, ao ver-se tão afetuosam ente recebida, estava cada vez m ais satisfeita de ter vindo. Viu im ediatam ente que os m odos do seu prim o não se tinham alterado com o casam ento. A sua am abilidade convencional perm anecia exatam ente a m esm a. E ele a deteve alguns instantes no portão, para fazer perguntas a respeito de cada um a das pessoas da sua fam ília. Foram então conduzidos ao interior da casa. Mr. Collins fez ressaltar a beleza da entrada, e assim que chegaram à sala, tornou a dar as boas vindas com pom posa form alidade e repetiu m eticulosam ente todas as recom endações da sua esposa para que os visitantes se pusessem à vontade.

Elizabeth estava preparada para vê-lo em toda a sua glória. E não pôde deixar de im aginar, ao ouvi-lo elogiar o tam anho da sala, seu aspecto e sua m obília, que se dirigia a ela particularm ente, com o se desej asse fazer-lhe sentir tudo o que tinha perdido ao recusar a sua m ão. Mas em bora tudo tivesse bom aspecto, Elizabeth não podia contentá-lo m ostrando qualquer sinal de arrependim ento, antes se espantava de que a sua am iga pudesse se m ostrar tão alegre, vivendo com um tal com panheiro. Quando Mr. Collins dizia algum a coisa de que sua m ulher podia, com razão, se envergonhar, o que aliás era bastante frequente, Elizabeth voltava os olhos involuntariam ente para Charlotte. Um a ou duas vezes ela pôde perceber um leve rubor. Mas em geral Charlotte, sensatam ente, fingia que não tinha ouvido. Depois de ficarem sentados na sala o tem po suficiente para adm irar cada peça da m obília, desde o guarda-louça até a grade da lareira, e contarem a sua viagem e tudo o que tinha acontecido em Londres, Mr. Collins convidou-os para um passeio no j ardim , que era grande e bem -traçado, e de cuj o trato se encarregava pessoalm ente. Trabalhar no j ardim era um dos seus prazeres m ais respeitáveis. E Elizabeth se adm irou da seriedade com que Charlotte se referiu

àquele exercício saudável e adm itiu que ela o encoraj ava nisto o m ais que podia.

Aí, conduzindo-os através de todos os cam inhos e atalhos, sem lhes deixar tem po de exprim ir os elogios que ele próprio desej ava, fazia ressaltar cada detalhe do j ardim com um a m inúcia que destruía toda a beleza. Sabia enum erar os cam pos em todas as direções e sabia quantas árvores havia nos m aciços m ais distantes.

Mas de todas as vistas de que o seu j ardim , o condado ou o reino inteiro se podiam gabar, nenhum a se podia com parar com a vista de Rosings descortinada através das árvores que bordej avam o parque, quase defronte da sua casa. Era um belo edifício m oderno, bem -situado num a elevação. Do j ardim , Mr. Collins queria conduzi-los para um a volta em torno dos seus dois prados. Mas as senhoras, que não tinham os sapatos adequados para andar nos cam pos, ainda recobertos por um resto de geada, preferiam voltar. E enquanto Sir William acom panhava Mr. Collins, Charlotte conduziu a sua irm ã e a sua am iga para lhes m ostrar a casa, contente por ter um a oportunidade de fazê-lo sem o auxílio do m arido. A casa era pequena, porém bem -construída e côm oda. E tudo estava arrum ado com um a sim plicidade e um a lógica que Elizabeth atribuiu inteiram ente a Charlotte. Abstraindo a presença de Mr. Collins, reinava realm ente em tudo um ar de conforto. E a j ulgar pelo prazer com que Charlotte m ostrava tudo aquilo, Elizabeth supôs que a presença de Mr. Collins era frequentem ente esquecida.

Já lhe tinham inform ado que Lady Catherine continua va ainda no cam po.

Tornaram a falar nisto ao j antar e Mr. Collins observou:

— Sim , Miss Elizabeth terá a honra de ver Lady Catherine de Bourgh dom ingo que vem na igrej a. E não preciso dizer que ficará encantada com Lady Catherine. Ela é toda afabilidade e condescendência. E eu não duvido de que Miss Elizabeth sej a honrada com a sua atenção, depois que term inar o serviço.

Não hesito em afirm ar que ela a incluirá, bem com o a m inha irm ã Maria, em todos os convites com que nos honrar durante a sua visita aqui. A sua atitude para com a m inha cara Charlotte é encantadora. Costum am os j antar em Rosings duas vezes por sem ana e Lady Catherine nunca perm ite que voltem os a pé para casa.

Sem pre nos oferece a sua carruagem , ou m elhor, um a das suas carruagens, pois tem várias.

— Lady Catherine é um a senhora m uito respeitável e de m uita sensibilidade —

acrescentou Charlotte. — E um a vizinha m uito atenciosa.

— É verdade, m inha cara, é exatam ente o que eu digo. Ela é dessas senhoras que a gente não pode deixar de tratar com a m aior deferência.

Passaram a m aior parte da noite falando sobre as novidades do Hertfordshire, e repetindo verbalm ente o que j á tinha sido com unicado por carta. E m ais tarde, na solidão do seu quarto, Elizabeth teve que m editar sobre o extraordinário contentam ento de Charlotte, a fim de com preender a serenidade e a habilidade com que ela conduzia o m arido; pensou tam bém nos dias que passaria ali, nos

calm os divertim entos que os encheriam , nas irritantes interrupções de Mr. Collins e nas alegrias das visitas a Rosings. A sua im aginação traçou um a im agem viva de tudo isto.

No dia seguinte, depois do alm oço, enquanto Elizabeth se aprontava no seu quarto para o passeio, um ruído súbito lá em baixo pareceu lançar a casa em confusão.

Depois de ficar atenta um m inuto, Elizabeth ouviu alguém subir as escadas correndo, gritando o seu nom e. Abriu a porta e no patam ar encontrou Maria, que, sem fôlego, de tanta agitação, exclam ou:

— Oh, Eliza, apronte-se depressa e desça para a sala de j antar. Você não sabe quem está aí. Não vou lhe dizer quem é. Venha depressa, desça im ediatam ente.

Elizabeth fez várias perguntas em vão. Maria se recusou a lhe dar resposta.

Correram para baixo e entraram na sala de j antar que ficava defronte da alam eda. No portão do j ardim estava estacionado um faéton baixo com duas senhoras.