Orgulho e Preconceito
Capítulo 19
Bingley e Jane estavam j untos, um pouco separados dos outros e conversavam entre si. Elizabeth ficou tão calada quanto Mrs. Hurst e Miss Bingley , e Ly dia se lim itava a exclam ar ocasionalm ente “Arre, com o estou cansada...”
acom panhando estas palavras com um bocej o violento. Quando afinal se levantaram para partir, Mrs. Bennet se desm anchou em am abilidades, na esperança de ver a fam ília toda brevem ente em Longbourn. Dirigiu-se particularm ente a Mr. Bingley para assegurar-lhe que teria o m aior prazer em recebê-lo a qualquer dia, para um j antar em fam ília, sem as form alidades de um convite. Bingley agradeceu com grande prazer e de boa vontade se com prom eteu a aparecer na prim eira oportunidade, depois de sua volta de Londres, para onde deveria partir no dia seguinte, dem orando-se lá pouco tem po.
Mrs. Bennet ficou inteiram ente satisfeita e deixou a casa na deliciosa convicção de que, contando com o prazo necessário para preparar os contratos, as novas carruagens e o enxoval, ela veria sem dúvida a sua filha instalada em Netherfield dentro de três ou quatro m eses no m áxim o. Pensava com igual certeza no
casam ento da outra filha com Mr. Collins e isto lhe dava um prazer apreciável, em bora não tão grande. De todas as suas filhas, Elizabeth era a de quem ela m enos gostava. Em bora o m arido e o casam ento fossem perfeitam ente dignos dela, o valor de am bas as coisas era eclipsado por Mr. Bingley e Netherfield.
19
No dia seguinte abriu-se um a nova cena em Longbourn. Mr. Collins fez a sua declaração em regra, tendo resolvido agir sem m ais perda de tem po, pois a sua licença se expirava no sábado seguinte, e com o não o em baraçassem certas delicadezas de sentim ento, fez o seu pedido com todas as form alidades que supunha indispensáveis à transação.
Pouco depois do café da m anhã, encontrando j untas Elizabeth, Mrs. Bennet e um a das irm ãs m ais m oças, ele se dirigiu à m ãe com as seguintes palavras:
— Posso esperar, m inha senhora, que se entenda com a sua filha Elizabeth para solicitar-lhe em m eu nom e a honra de um a audiência privada esta m anhã?
Antes que Elizabeth, corando de surpresa, tivesse tem po de responder algum a coisa, Mrs. Bennet respondeu espontaneam ente:
— Oh, sim , pois não, certam ente. Tenho certeza que Lizzy terá grande prazer.
Acredito que ela não fará nenhum a obj eção. Vem , Kitty , vam os lá para cim a.
E apanhando os seus trabalhos, ela se afastava apressadam ente, quando Elizabeth exclam ou:
— Não vá j á, m am ãe, peço-lhe que não vá em bora. Mr. Collins terá que m e desculpar, ele nada tem a m e dizer que os outros não possam ouvir. Eu vou tam bém .
— Não, não, que tolice, Lizzy ! Desej o que você fique onde está.
E com o Elizabeth, com olhares em baraçados, parecesse disposta a fugir, ela acrescentou:
— Lizzy , eu insisto para que fique e ouça o que Mr. Collins tem a dizer.
Elizabeth não podia se opor a um a tal inj unção. Depois de refletir um instante, achou que seria realm ente m elhor acabar com aquilo o m ais depressa possível; tornou a sentar-se e, aplicando-se ao trabalho, procurou disfarçar a sua agitação e a sua curiosidade. Assim que Mrs. Bennet e Kitt se afastaram , Mr. Collins com eçou:
— Acredite, m inha cara Miss Elizabeth, que a sua m odéstia, longe de prej udicá-la, acrescenta m ais um a a suas outras perfeições. A senhora teria sido m enos adorável aos m eus olhos, se não tivesse havido essa pequena resistência. No entanto, perm ita que lhe assegure que tenho a perm issão da sua respeitável m ãe para este em preendim ento. A senhora dificilm ente poderá ignorar o verdadeiro sentido das m inhas palavras. No entanto, a sua natural delicadeza pode levá-la a dissim ular. As m inhas atenções foram m arcadas dem ais para serem m alcom preendidas. Quase desde o prim eiro m om ento em que entrei nesta casa a escolhi para com panheira da m inha vida futura. Antes de m e deixar levar pelos m eus sentim entos a este respeito, talvez convenha dizer-lhe as razões que tenho para m e casar e além disso os m otivos que m e trouxeram ao Hertsford shire com o propósito de escolher um a esposa.
A ideia de que Mr. Collins, com toda a sua solenidade, pudesse ser levado pelos seus sentim entos, provocou no espírito de Elizabeth tam anha hilaridade, que ela não pôde utilizar a curta pausa que se seguiu a fim de procurar detê-lo. Ele prosseguiu:
— Minhas razões para casar, são: prim eiro, penso que é um a obrigação para todos os pastores que se encontrem em boa situação, com o eu, o bom exem plo à sua paróquia. Em segundo lugar estou convencido de que isto contribuirá grandem ente para a m inha felicidade. E o terceiro m otivo, que eu devia talvez ter m encionado prim eiro, é o conselho e a expressa recom endação da m uito nobre senhora que eu tenho a honra de cham ar a m inha protetora. Duas vezes ela condescendeu em dar-m e a sua opinião sobre este assunto, sem que eu lha pedisse. E na noite que precedeu a m inha partida de Hunsford, durante um j ogo de cartas e enquanto Miss Jenkinson punha um tam borete sob os pés de Miss de Bourgh, Lady Catherine disse: “Mr. Collins, o senhor precisa se casar. Um pastor com o o senhor tem a obrigação de se casar. Escolha um a m ulher educada, é o que lhe peço; e para seu interesse, escolha um a pessoa ativa, útil, que não tenha sido m im ada pelos pais, m as que saiba adm inistrar um a casa com econom ia.
Encontre um a pessoa nessas condições o m ais depressa possível, traga-a para Hunsford e eu irei visitá-la.” Perm ita-m e a propósito observar, m inha encantadora prim a, que eu não considero a atenção e a am abilidade de Lady Catherine um a das m enores vantagens que estão em m eu poder oferecer-lhe; penso que o seu espírito e a sua vivacidade a tornarão aceitável aos olhos de Lady Catherine, especialm ente se com binar estas qualidades com a veneração e o respeito que a posição de Lady Catherine hão de provocar inevitavelm ente em seu espírito. Isto quanto à m inha opinião geral a favor do m atrim ônio. Resta-m e explicar por que lancei as m inhas vistas sobre Longbourn de preferência ao lugar onde resido, em que, posso lhe assegurar, encontraria m uitas m oças encantadoras. Mas o fato é que sendo eu o herdeiro do seu honrado pai, que no entanto pode ainda viver longos anos, achei que era do m eu dever escolher um a esposa entre as suas filhas, para que o prej uízo destas pessoas pudesse ser o m enor possível, quando se der aquele triste acontecim ento; o qual entretanto, com o eu j á disse, pode dem orar ainda m uitos anos. Este foi o m eu m otivo principal, m inha estim ada prim a, e estou certo de que ele não m e dim inuirá aos seus olhos. E agora nada m e resta senão lhe exprim ir, na linguagem m ais apaixonada, a violência da m inha afeição. Sou perfeitam ente indiferente à fortuna e não farei nenhum a exigência dessa natureza a seu pai, pois sei perfeitam ente que ela não poderia ser atendida. Sei tam bém que as m il libras a quatro por cento, que só serão suas depois da m orte de sua m ãe, são tudo a que a m inha prim a tem direito. Sobre esse assunto, portanto, eu m e conservarei silencioso. Pode ficar certa de que nenhum a observação pouco generosa atravessará os m eus lábios depois que nos casarm os.
Tornava-se agora absolutam ente necessário interrom pê-lo.
— O senhor está se precipitando — gritou Elizabeth. — Esquece que eu ainda não lhe dei um a resposta. É o que vou fazer, sem m ais perda de tem po: aceite os m eus agradecim entos pela honra que está m e dando. Creia que eu o aprecio devidam ente, m as é-m e im possível fazer outra coisa senão recusar.
— Não é preciso que m e ensine — replicou Mr. Collins, com um largo gesto da m ão — que as m oças costum am rej eitar as propostas do hom em que secretam ente tencionam aceitar, da prim eira vez em que são feitas; e que às vezes até esta recusa se repete duas ou três vezes. Portanto, não estou absolutam ente desencoraj ado pelo que acabou de dizer e espero dentro em breve conduzi-la ao altar.
— Digo-lhe sinceram ente — exclam ou Elizabeth — que a sua esperança m e parece extraordinária depois da m inha declaração. Asseguro-lhe que não sou dessas m oças, se é que existem , que com etem a ousadia de arriscar a sua felicidade confiando nas possibilidades de um segundo pedido. Minha recusa é perfeitam ente séria. O senhor não m e poderia tornar feliz. E estou convencida de que sou a últim a m ulher do m undo capaz de fazê-lo feliz. Creio até que se a sua am iga Lady Catherine m e conhecesse, ela m e acharia sob todos esses aspectos m alqualificada para essa situação.
— Se eu tivesse certeza de que Lady Catherine pensaria assim ... — disse Mr.
Collins m uito gravem ente. — Mas não posso crer que Sua Senhoria desaprovasse a m inha escolha. E pode ficar certa de que, quando tiver a honra de tornar a vê-la, falarei com todo o entusiasm o na sua m odéstia, econom ia e outras estim áveis qualidades.
— Asseguro-lhe, Mr. Collins, que todos esses elogios serão desnecessários. E
preciso que m e conceda a licença de j ulgar por m im m esm a e m e faça o favor de acreditar no que digo. Desej o que se torne m uito rico e m uito feliz e, recusando-lhe a m inha m ão, faço tudo que está em m eu poder para auxiliá-lo a atingir os seus fins. Fazendo-m e este oferecim ento, j á teve ocasião de m ostrar a delicadeza dos seus sentim entos e pode portanto tom ar posse da propriedade de Longbourn quando o m eu pai m orrer, sem nenhum escrúpulo. O assunto pode ser considerado encerrado.
E dizendo estas palavras Elizabeth se levantou e teria saído da sala, se Mr. Collins não tivesse se dirigido a ela:
— Quando eu tiver a honra de lhe falar pela segunda vez neste assunto, espero receber um a resposta m ais favorável. Longe de m im , no entanto, acusá-la de crueldade neste m om ento, pois sei que é um costum e do seu sexo rej eitar as prim eiras propostas de um hom em . E penso que m e deu agora todos os encoraj am entos com patíveis com a verdadeira delicadeza do caráter fem inino.
— Realm ente, Mr. Collins — gritou Elizabeth, com vivacidade —, o senhor m e surpreende. Se o que eu lhe disse até agora pode lhe parecer um encoraj am ento,
não sei de que m aneira lhe exprim ir a m inha recusa de m aneira a torná-la convincente.
— Peço licença, m inha encantadora prim a, para aceitar a sua recusa apenas com o um a questão de palavras. Minhas razões para acreditar nisto, são em sum a as seguintes: não m e parece que a m inha m ão sej a indigna da sua pessoa, nem tam pouco a situação que posso oferecer-lhe. Minha posição na vida, m inhas relações com a fam ília de Bourgh e m eu parentesco com a sua, são circunstâncias que falam altam ente em m eu favor. E além disso a m inha prim a devia tom ar em consideração tam bém que, apesar dos seus m uitos atrativos, não é certo que outra proposta de casam ento lhe sej a feita. O seu dote é infelizm ente tão pequeno, que provavelm ente contrabalançaria os efeitos da sua beleza e das suas qualidades. Devo portanto concluir que, ao m e rej eitar, não está falando seriam ente e prefiro atribuir a sua recusa ao desej o de aum entar o m eu am or, deixando-m e na incerteza, de acordo com os costum es habituais das m ulheres elegantes.