Orgulho e Preconceito

Jane Austen · Capítulo 55 de 62

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Orgulho e Preconceito

Capítulo 55

— Lizzy , não faça isso. Você não deve suspeitar de m im . Isto m e m ortifica. Eu lhe asseguro que aprendi a gostar da conversa dele; trata-se de um rapaz agradável e sensato. Garanto a você que não tenho outras intenções. Vej o perfeitam ente, pela m aneira com o ele m e trata, que nunca desej ou realm ente a

m inha afeição. Só que é dotado de m aneiras m uito m ais agradáveis, e de um desej o de agradar m uito m ais forte do que qualquer outro hom em .

— Você está sendo cruel — disse Elizabeth. — Você m e provoca e depois não quer que eu sorria.

— Com o é difícil às vezes fazer com que os outros acreditem em nós!

— E com o é im possível às vezes, para os outros, acreditar!

— Mas, então, por que é que você quer m e persuadir que os m eus sentim entos são m ais com plexos do que eu confessei?

— Isto é um a pergunta a que eu não sei com o responder. Todos gostam os de instruir os outros, em bora só possam os transm itir o que não é digno de ser ensinado. Perdoe, se você insistir na sua indiferença, não m e tom e por confidente.

55

Poucos dias depois daquela visita, Mr. Bingley tornou a aparecer e desta vez veio sozinho. Seu am igo tinha partido naquela m anhã para Londres, ficando de voltar, porém , daí a dez dias. Mr. Bingley se dem orou m ais de um a hora. Estava de excelente hum or. Mrs. Bennet o convidou para j antar. Ele respondeu que sentia im ensam ente, declarando que estava com prom etido.

— Da próxim a vez que vier — disse Mrs. Bennet —, espero que tenham os m ais sorte.

Ele teria im enso prazer em vir em qualquer outra ocasião, etc. etc. E se Mrs.

Bennet lhe desse perm issão, viria m uito breve.

— Pode vir am anhã?

— Sim .

Ele não tinha com prom isso para o dia seguinte. E o convite foi aceito com entusiasm o.

Mr. Bingley veio — e tão pontualm ente que as m oças ainda não estavam vestidas quando chegou. Mrs. Bennet correu para o quarto das m eninas, enrolada num robe de cham bre, o cabelo ainda por fazer, e exclam ou:

— Jane, anda depressa! Corra lá para baixo! Ele chegou! Mr. Bingley chegou, chegou m esm o! Vá ligeiro, depressa! Sarah, venha aj udar Miss Bennet im ediatam ente a pôr o vestido. Deixe o cabelo de Miss Lizzy para depois.

— Nós descerem os assim que puderm os — disse Jane. — Mas, entre nós, Kitty é m ais ligeira do que todas. Já desceu há m eia hora.

— Oh, não se im porte com Kitty , que tem ela a ver com isto? Vam os, vá ligeiro.

Depressa! Onde está a sua écharpe?

Mas depois que a sua m ãe saiu, Jane se recusou a descer sem um a das suas irm ãs.

Durante a visita Mrs. Bennet m ostrou a m esm a ansiedade que de costum e para deixar Mr. Bingley e Jane a sós. Depois do chá, Mr. Bennet se retirou para a biblioteca, com o sem pre o fazia. E Mary subiu para estudar piano. Dos cinco obstáculos dois estavam suprim idos. Mrs. Bennet ficou olhando e piscando para Kitty e para Elizabeth durante um espaço de tem po considerável, sem que nenhum a das duas se im pressionasse com isto. Elizabeth fez que não via e Kitty disse inocentem ente:

— Que é, m am ãe? Por que é que a senhora está piscando para m im ? O que é que a senhora quer que eu faça?

— Nada, m eu bem , nada, eu não pisquei para você!

Ela então continuou sentada durante m ais cinco m inutos. Mas, incapaz de perder um a ocasião tão preciosa, levantou-se e disse para Kitty :

— Meu bem , quero falar com você!

E levou-a para fora da sala. Jane im ediatam ente lançou um olhar para Elizabeth

em que exprim ia a contrariedade que aquela prem editação lhe causava e o seu desej o de que pelo m enos sua irm ã não se prestasse àquela com édia. Poucos m inutos depois, Mrs. Bennet entreabriu a porta e cham ou:

— Lizzy , m eu bem , eu quero falar com você.

Elizabeth foi forçada a ir.

— É m elhor deixá-los a sós — disse Mrs. Bennet, assim que ela entrou no hall. —

Kitty e eu vam os lá para cim a a fim de conversarm os no m eu quarto de vestir.

Elizabeth resolveu não discutir com a sua m ãe, porém perm aneceu tranquilam ente no hall e assim que sua m ãe e Kitty tinham partido, voltou para a sala.

Naquele dia os planos de Mrs. Bennet foram inúteis. Bingley se m ostrou encantador com o sem pre, m as a sua atitude não foi a de um pretendente. Seu bom hum or e a sua sim plicidade o tornaram um com panheiro dos m ais agradáveis. E ele suportou as inoportunas cortesias com que o cum ulava Mrs.

Bennet, e ouviu todas as suas observações disparatadas com um a paciência e um a seriedade que encantaram a Jane.

Ele ficou para cear sem que fosse preciso insistir. E antes de ir em bora, graças à intervenção de Mrs. Bennet, ele assum iu o com prom isso de vir na m anhã seguinte para caçar com Mr. Bennet.

Depois daquele dia Jane não falou m ais na sua indiferença. Nem um a palavra foi trocada pelas irm ãs acerca de Bingley . Mas Elizabeth foi para a cam a contente com a certeza de que tudo chegaria breve a um a conclusão feliz, a não ser que Mr. Darcy voltasse tão breve quanto havia prom etido. No entanto, ela estava até certo ponto persua dida de que tudo isto acontecia com a aquiescência dele.

No dia seguinte Bingley chegou pontualm ente. Mr. Bennet e ele passaram a m anhã j untos, conform e tinham com binado. Mr. Bennet encontrou no outro um com panheiro m uito m ais agradável do que esperava; não havia em Bingley nenhum a pretensão que o tornasse ridículo nem nenhum a insensatez que fizesse Mr. Bennet se refugiar irritadam ente no silêncio. Naquele dia ele estava m ais com unicativo e m enos excêntrico do que nunca. Bingley , naturalm ente, voltou com ele para j antar, e à noite Mrs. Bennet lançou m ão de todos os seus recursos para deixá-lo a sós com a sua filha. Elizabeth, que tinha um a carta para escrever, se retirou para a sala de alm oço pouco depois do chá. Pois j á que os outros iam j ogar cartas, a sua presença não seria necessária para contrabalançar os planos da sua m ãe.

Mas ao voltar para a sala, depois de acabar a carta, viu com infinita surpresa que havia vários m otivos para tem er que sua m ãe tivesse sido m ais engenhosa do que ela. Ao abrir a porta, viu que sua irm ã e Bingley estavam j untos, ao pé da lareira, com o se conversassem sobre um assunto de extrem a gravidade. E se este fato não bastasse para despertar suspeitas, a expressão de am bos, ao se virarem rapidam ente e se afastarem , teria revelado tudo. A situação deles era bastante

em baraçosa. Mas a sua própria, pensou Elizabeth, era pior ainda. Ninguém disse um a só palavra. E Elizabeth estava a ponto de se retirar novam ente, quando Bingley , que im itando o exem plo de Jane se tinha sentado, de súbito se levantou novam ente, e sussurrando algum as palavras para Jane, saiu apressadam ente da sala.

Jane não teria reserva para com a sua irm ã. O assunto da confidência era agradável dem ais para que Jane se m ostrasse reservada. E, abraçando a sua irm ã, im ediatam ente confessou com a m ais viva em oção que ela era a criatura m ais feliz do m undo.

— É dem asiado para m im — acrescentou ela. — Eu não o m ereço. Por que é que todos não estão felizes com o eu?

Elizabeth deu os parabéns com um a sinceridade, um calor, um entusiasm o que as palavras não poderiam exprim ir. Cada um a das suas palavras era um a nova fonte de felicidade para Jane. Porém , esta não poderia se dem orar m ais j unto da sua irm ã, nem tinha tem po para lhe dizer m etade do que ainda lhe restava para contar.

— Preciso im ediatam ente ir ver m am ãe — exclam ou ela. — Não quero deixá-la por m ais tem po em suspense; sua solicitude por m im é tão carinhosa! Nem quero que ela saiba de tudo senão por m eu interm édio. Ele j á foi falar com papai. Oh, Lizzy , que prazer vai dar a toda a fam ília o que eu tenho para dizer! Com o poderei suportar tam anha felicidade?

Jane correu então para j unto da sua m ãe, que tinha interrom pido o j ogo de cartas propositadam ente, e estava no alto da escada com Kitty .

Elizabeth, que tinha ficado sozinha, sorriu da rapidez e da facilidade com que se tinha resolvido um caso que lhes causara ansiedade e incerteza durante tantos m eses.

— E este — disse ela para si m esm a — é o fim de todos os cuidados e precauções do seu am igo, das m entiras e ardis da sua irm ã, o fim m ais feliz, m ais j usto e m ais razoável!

Poucos m inutos depois, Bingley , cuj a conferência com Mr. Bennet fora curta e decisiva, veio se reunir a Elizabeth.

— Onde está Jane? — disse ele, ao abrir a porta.

— Lá em cim a com m inha m ãe. Ela descerá j á.

Bingley então fechou a porta e, aproxim ando-se, reclam ou os seus parabéns e a sua afeição de irm ã. Elizabeth, sincera e cordialm ente, exprim iu a sua alegria.

Eles se apertaram a m ão com grande cordialidade. Em seguida, até a sua irm ã voltar, ela teve que ouvir tudo o que ele dizia sobre a sua própria felicidade e sobre as perfeições de Jane.

E apesar de serem , aquelas, expressões de nam orados, Elizabeth acreditava realm ente no bem -fundado de suas esperanças, porque elas tinham com o base a excelente com preensão, o gênio esplêndido de Jane e um a sem elhança geral de

sentim entos e gostos.

Aquela foi um a noite de grande alegria para todos. A felicidade de Jane dava ao seu rosto um brilho e um a doçura que o tornava m ais belo do que nunca. Kitty dava risinhos e sorria, com a esperança de que a sua vez chegaria breve. Mrs.

Bennet não encontrava term os bastante calorosos para exprim ir o seu consentim ento e a sua aprovação. E falou só nisto, durante m eia hora. E quando Mr. Bennet apareceu, à hora da ceia, sua voz e suas m aneiras m ostravam claram ente o contentam ento que o possuía.

Nem um a só vez, no entanto, ele aludiu ao fato enquanto o visitante estava presente. Mas assim que ele partiu, Mr. Bennet se virou para a sua filha e disse:

— Jane, eu lhe dou os m eus parabéns. Você será m uito feliz.

Jane se aproxim ou dele im ediatam ente, beij ou-o e agradeceu a sua bondade.

— Você é um a boa m enina — respondeu ele. — E tenho prazer em vê-la bem -

casada. Não tenho a m enor dúvida de que vocês se darão m uito bem . Seus gênios são bastante sem elhantes. Am bos são tão tolerantes que nunca tom arão resoluções definitivas. Tão fáceis de levar, que todos os criados os enganarão. E

tão generosos que sem pre hão de gastar m ais do que têm .

— Espero que não. Im prudência ou im previdência em m atéria de dinheiro seriam im perdoáveis da m inha parte.

— Gastar m ais do que têm ! Meu caro Mr. Bennet! — exclam ou a sua m ulher. —

Que é que você está dizendo? Ora, ele tem quatro ou cinco m il libras por ano e provavelm ente ainda m ais...

Em seguida, virando-se para a sua filha:

— Oh, m inha querida Jane! Estou tão feliz! Estou certa de que não dorm irei nem um só instante esta noite! Eu sabia que tudo ia acabar assim , eu sem pre disse que isto se realizaria finalm ente! Tinha certeza de que a sua beleza acabaria triunfante! Eu m e lem bro que quando ele chegou aqui no Hertfordshire, no ano passado, logo vi que era provável que vocês se dessem bem . Ele é o m ais belo rapaz que j am ais vi.

Wickham , Ly dia, tudo o m ais estava esquecido. Jane era, sem com petição, a sua filha favorita. Naquele instante ela não pensava em nenhum a outra. Suas irm ãs m ais m oças com eçaram logo a im aginar os proveitos e os prazeres que retirariam do casam ento da sua irm ã.

Mary pediu para usar a biblioteca de Netherfield e Kitty insistiu m uito para que Jane desse alguns bailes lá durante o inverno.

De então em diante, naturalm ente Bingley veio todos os dias a Longbourn. E

m uitas vezes chegava antes da prim eira refeição e ficava até depois do j antar, a não ser quando algum cruel vizinho lhe tinha enviado um convite para j antar, convite este a que ele não se podia furtar.

Elizabeth dispunha agora de m uito pouco tem po para conversar com a sua irm ã, pois enquanto Bingley estava presente Jane não podia dar atenção a m ais

ninguém . No entanto Elizabeth verificou que era de utilidade considerável para am bos, durante aquelas separações que necessariam ente ocorriam às vezes. Na ausência de Jane ele sem pre se aproxim ava de Elizabeth para conversar. E

depois que Bingley tinha partido, Jane procurava idêntico alívio na conversa com sua irm ã.

— Ele m e deu um grande prazer — disse Jane, certa noite. — Ele m e disse que ignorava totalm ente que eu estivesse em Londres na prim avera passada. Eu não acreditava que isto fosse possível.

— Eu j á suspeitava disso — replicou Elizabeth. — Mas com o é que ele explicou o fato?

— Deve ter sido coisa feita pelas suas irm ãs. Decerto não viam com bons olhos as suas relações com igo, coisa aliás que eu acho m uito natural, pois ele poderia ter feito um a escolha m uito m ais vantaj osa sob todos os pontos de vista. Mas quando virem que o irm ão é feliz com igo, espero que se resignarão e voltarem os a ficar de bem novam ente, em bora nunca m ais possam os ter a m esm a intim idade de antes.

— Essas são as palavras m ais severas que j am ais ouvi você dizer — exclam ou Elizabeth. — Ainda bem , eu ficaria realm ente penalizada se a visse tornar a ser enganada pela falsa am izade de Miss Bingley .

— Im agina, Lizzy , quando ele foi para Londres em novem bro j á gostava de m im . E só não voltou porque o convenceram de que eu lhe era totalm ente indiferente.

— Ele com eteu um pequeno engano, decerto. Isto m ostra pelo m enos que é m odesto.

Isto conduziu Jane naturalm ente a fazer um panegírico da discrição de Bingley e do pouco valor que ele atribuía às suas boas qualidades.

Elizabeth ficou satisfeita por descobrir que ele não tinha revelado a interferência do seu am igo, pois em bora Jane tivesse o coração m ais generoso do m undo, ela sabia que aquilo dificilm ente seria perdoável.

— Sou decerto a criatura m ais feliz que j am ais existiu — exclam ou Jane. — Oh, Lizzy , por que é que fui eu a escolhida na m inha fam ília para receber tão grande graça? Se ao m enos eu pudesse vê-la tão feliz quanto eu... Se existisse outro hom em igual àquele para você!

— Mesm o se você m e desse quarenta hom ens iguais para escolher, eu nunca seria tão feliz quanto você! Seria preciso que eu possuísse o seu gênio e a sua bondade. Não, não, deixe-m e entregue ao m eu próprio destino; talvez, se tiver m uita sorte, eu encontre um dia um outro Mr. Collins.