Orgulho e Preconceito
Capítulo 24
— De que é que você não se im portaria?
— De nada.
— Então vam os agradecer a Deus, porque você está preservada de cair num tal estado de insensibilidade.
— Não posso ser grata a nada que se refira a esta sucessão, Mr. Bennet. Com o é que alguém pode ficar tranquilo ao saber que suas filhas vão ficar privadas da propriedade que possuem ? E em favor de quem ? De Mr. Collins! Por que ele e não um a outra qualquer pessoa?
— Confio-lhe a resolução deste problem a — disse Mr. Bennet.
24
A carta de Miss Bingley chegou e pôs fim a todas as dúvidas. Logo à prim eira frase evidenciava que eles tinham se instalado em Londres para todo o inverno e concluía transm itindo os sentim entos do seu irm ão por não ter tido tem po de apresentar os seus respeitos aos seus am igos de Hertfordshire antes da sua partida.
Todas as esperanças estavam perdidas, com pletam ente perdidas. E quando Jane pôde continuar a leitura, nada encontrou para consolá-la a não ser as expressões de afeto da m issivista. O elogio de Miss Darcy era o assunto principal da carta.
Seus m uitos atrativos eram novam ente descritos. Caroline se gabava alegrem ente da crescente intim idade entre elas; arriscava-se a predizer a realização dos desej os que exprim ira na sua carta anterior. Com unicava tam bém , com grande alegria, que seu irm ão era hóspede de Mr. Darcy , e m encionava com entusiasm o os planos deste últim o, relativos a um a nova m obília que encom endara.
Elizabeth, a quem Jane com unicou tudo isso sem dem ora, ouviu-a, cheia de silenciosa indignação. Seus sentim entos estavam divididos entre a preocupação pela irm ã e o seu ressentim ento contra todos os outros. Não deu crédito à afirm ação de Caroline de que seu irm ão se interessava por Miss Darcy .
Continuava a acreditar, m ais do que nunca, na sinceridade da afeição que Bingley tinha por Jane. Apesar da sim patia com que sem pre o considerara, não podia pensar, sem cólera e quase com desprezo, naquela m aleabilidade de gênio, na falta de iniciativa pessoal que o tornava um j oguete entre as m ãos dos seus intrigantes am igos e o levava a sacrificar a sua própria felicidade ao capricho das inclinações alheias. Se a única coisa em j ogo fosse a sua própria felicidade, poderia arriscá-la com o entendesse, m as a sua irm ã estava envolvida naquilo, e ele devia ter consciência disso. Enfim , era um assunto ao qual seria necessário dedicar um a longa reflexão sem que se pudesse chegar realm ente a nenhum resultado. Não encontrava outra hipótese. E no entanto, quer a afeição de Bingley tivesse realm ente declinado, sufocada ou não pela interferência dos seus am igos, quer ele tivesse consciência da afeição de Jane, ou ao contrário, a ignorasse, em qualquer um dos casos, e em bora a sua opinião acerca de Bingley variasse forçosam ente segundo essas hipóteses, a situação da sua irm ã perm anecia a m esm a, a sua paz de espírito igualm ente perturbada. Passaram-se um ou dois dias, antes que Jane adquirisse coragem para falar a Elizabeth acerca dos seus sentim entos; m as afinal, um dia em que Mrs. Bennet, depois de se queixar com m ais irritação do que de costum e sobre Netherfield e seu proprietário, as deixara sozinhas, Jane não pôde se im pedir de dizer à irm ã:
— Oh, eu queria que m am ãe tivesse m ais dom ínio sobre si m esm a. Ela não tem ideia da dor que m e causa, falando continuam ente nisto. Mas eu não m e
queixarei; não pode durar m uito tem po. Ele será esquecido e todos serem os felizes com o antes.
Elizabeth olhou para a irm ã com solicitude e incredulidade, m as não disse nada.
— Você duvida de m im ? — exclam ou Jane, corando ligeiram ente. — Você não tem razão. Talvez ele continue a viver na m inha m em ória com o o hom em m ais atraente das m inhas relações. Mas é tudo. Nada tenho que esperar ou que tem er.
E não tenho nenhum m otivo para censurá-lo. Graças a Deus não tenho esta dor.
Dê-m e um pouco de tem po e certam ente eu tentarei esquecê-lo.
Num a voz m ais forte acrescentou, pouco depois:
— Eu tenho desde j á este consolo. É que tudo não foi m ais do que um erro da m inha im aginação, e que esse erro não fez m al a ninguém a não ser a m im m esm a.
— Minha querida Jane — exclam ou Elizabeth —, você é boa dem ais. Sua doçura e seu desinteresse são realm ente angélicos. Sinto que nunca lhe fiz a devida j ustiça e que nunca a am ei com o você m erece.
Miss Bennet protestou com veem ência contra os m éritos extraordinários que lhe conferiam e atribuiu o elogio à viva afeição da sua irm ã.
— Não — disse Elizabeth —, isto não está direito. Você quer pensar que todas as pessoas são respeitáveis e se sente ferida se eu falo m al de alguém . Quero apenas pensar que você é perfeita e você se volta contra m im . Não tenha m edo de que eu caia em algum excesso, nem lance m ão do seu privilégio de boa vontade universal. Seria inútil. São poucas as pessoas a quem eu quero realm ente, e m enos ainda aquelas das quais eu tenho um a boa opinião. Quanto m elhor eu conheço o m undo, m enos ele m e satisfaz; e cada dia vej o confirm ada a m inha crença na inconsistência de todos os caracteres hum anos e na pouca confiança que se pode depositar nas aparências do m érito ou do bom senso. Ultim am ente encontrei dois exem plos; um deles eu não m encionarei — o outro é o casam ento de Charlotte. É inexplicável! Sob todos os pontos de vista, é inexplicável.
— Querida Lizzy , não se entregue a sentim entos desta espécie. Eles arruinarão a sua felicidade. Você não deixa nenhum a m argem para diferenças de situação e de tem peram ento. Pense na respeitabilidade de Mr. Collins, no caráter prudente e firm e de Charlotte. Lem bre-se de que a fam ília dela é m uito grande; que quanto à fortuna é um partido m uito desej ável. E m ostre-se pronta a acreditar, para bem de todo o m undo, que Charlotte possa sentir realm ente respeito e estim a pelo nosso prim o.
— Para lhe fazer a vontade, eu tentarei acreditar em quase tudo. Mas ninguém se beneficiará disto. Pois se eu estivesse persuadida de que Charlotte o respeita, realm ente ela desceria no conceito que tenho da sua inteligência, o m esm o que perdeu antes no valor que eu atribuía ao seu coração. Minha querida Jane, Mr.
Collins é um hom em tolo, pom poso, pretensioso e de ideias estreitas. Você sabe que ele é tudo isto tão bem quanto eu. E você deve sentir com o eu que um a
m ulher que se casar com ele não pode ter um a visão m uito j usta das coisas.
Você não há de querer defendê-la só porque ela é Charlotte Lucas. Você não pode, por causa de um caso individual, m udar o sentido das palavras “bom senso” e “integridade”, nem procurar persuadir a você m esm a ou a m im que o egoísm o é a prudência, e a insensibilidade diante do perigo, certeza de felicidade.
— Acho que as suas expressões são m uito fortes, e espero que você se convencerá disso, vendo-os casados e felizes. Quanto a isto, basta. Mas você aludiu a outra coisa. Você m encionou dois exem plos. Sei o que você está pensando. Mas eu lhe peço, querida Lizzy , que não m e cause m ágoa, j ulgando que aquela pessoa é culpada. Nem dizendo que ela perdeu no seu conceito. Não devem os ser precipitadas e j ulgar que fom os intencionalm ente feridas. Não podem os exigir que um rapaz despreocupado sej a sem pre prudente e circunspecto. Muitas vezes é apenas a nossa vaidade que nos engana. As m ulheres sobre-estim am facilm ente a adm iração dos hom ens.
— E os hom ens fazem tudo para m antê-las nesta ilusão.
— Se o fazem propositadam ente, não pode haver j ustificativa. Mas eu creio que não há tanta m á vontade no m undo quanto as pessoas acreditam .
— Estou longe de atribuir qualquer aspecto da conduta de Mr. Bingley a um a intenção perversa — disse Elizabeth —; m as m esm o sem o propósito deliberado de errar, ou de tornar os outros infelizes, pode haver enganos e tristezas. Pouco caso, falta de atenção para com os sentim entos de outras pessoas, ou falta de firm eza, produzem os m esm os efeitos.
— E você atribui qualquer desses defeitos a ele?
— Sim , todos. Mas se continuar incorrerei no seu desagrado, dizendo o que penso acerca das pessoas que você estim a. Detenha-m e enquanto é tem po.
— Você persiste então em supor que as irm ãs dele o influenciaram ?
— Sim , de com binação com o am igo dele.
— Não posso acreditar nisto. Por que tentariam influenciá-lo? Só podem desej ar a sua felicidade, e se ele m e am a, nenhum a outra m ulher pode lhe trazer esta felicidade.
— A sua prim eira suposição é falsa. Podem desej ar m uitas coisas além da felicidade dele. Podem desej ar o aum ento da sua fortuna e da sua im portância.
Podem desej ar que ele se case com um a m oça que tenha im portância social, dinheiro, relações de alta classe e orgulho.
— Sem dúvida. Eles desej am que escolha Miss Darcy . Mas isto pode se originar de sentim entos m elhores do que você supõe. Eles a conhecem há m uito m ais tem po do que a m im . Não é de espantar que a prefiram . Mas quaisquer que sej am os seus desej os, é m uito pouco provável que elas pudessem se opor à vontade do irm ão. Que irm ã se sentiria j ustificada em fazer um a coisa destas, a não ser que existisse um m otivo m uito m ais forte? Se acreditassem que ele gosta realm ente de m im , não tentariam nos separar, pois se tal fosse o caso, não o
conseguiriam . Mas supondo tal afeição, você faz todo m undo agir m aldosa e erradam ente e a m im torna m uito infeliz. Não discuta esta m inha ideia. Não estou envergonhada por m e ter enganado, ou pelo m enos a vergonha é pouca.
Não é nada em com paração com o que eu sentiria se pensasse m al dele ou das suas irm ãs. Deixe-m e ver as coisas sob o seu m elhor aspecto, um aspecto capaz de esclarecê-las.
Elizabeth não podia se opor a um tal desej o. E a partir desse dia, o nom e de Mr.
Bingley quase nunca m ais foi m encionado entre elas. Mrs. Bennet continuou ainda a estranhar e a queixar-se de que ele não voltava m ais. E em bora não se passasse um dia sem que Elizabeth desse um a explicação razoável, parecia haver pouca probabilidade de que Mrs. Bennet j am ais considerasse aquele fato com m enos perplexidade. Sua filha procurava convencê-la de um a coisa em que ela m esm a não acreditava: de que as atenções de Bingley tinham sido o efeito de um a sim patia transitória, cessando depois que a perdera de vista. Mas em bora a probabilidade dessa afirm ação fosse adm itida no m om ento, Jane era obrigada a repeti-la no dia seguinte. O m elhor consolo de Mrs. Bennet era lem brar-se de que Bingley tornaria a voltar para o verão.
Mr. Bennet pensava de m aneira diferente.
— Então, Lizzy — disse um dia —, sua irm ã teve um desgosto am oroso, creio eu.
Ela m erece os m eus parabéns. Depois do casam ento, o que um a m oça m ais gosta é de um desgosto am oroso de vez em quando. É um a coisa que dá o que pensar e lhe confere um a espécie de distinção entre as suas com panheiras.
Quando chegará a sua vez? Você não há de querer ser suplantada por Jane.
Chegou a sua hora. Há bastantes oficiais em Mery ton, para desapontar todas as m oças da região. Escolha Wickham . É um suj eito sim pático e lhe daria o fora agradavelm ente.
— Obrigada, m eu pai, m as um hom em m enos agradável seria suficiente para m im . Não devem os todas esperar a boa sorte de Jane.
— É verdade — disse Mr. Bennet —, m as é um conforto pensar que o que quer que lhe suceda nesse gênero, você tem um a m ãe afetuosa que saberia tirar o m elhor partido disto.
A com panhia de Mr. Wickham aj udava eficientem ente a dissipar a tristeza que as últim as ocorrências tinham trazido para m uitos dos habitantes de Longbourn.
Viam -no frequentem ente agora e às suas outras qualidades acrescia a de um a franqueza absoluta. O que Elizabeth j á sabia, as suas queixas de Mr. Darcy e o que sofrera por sua causa, tudo era agora publicam ente discutido. E todos se sentiam contentes de pensar que sem pre tinham antipatizado com Mr. Darcy , m esm o antes de saber qualquer coisa contra ele.
Jane era a única criatura que supunha que pudessem existir circunstâncias atenuantes no caso, desconhecidas para a sociedade do Hertfordshire. Com doce e firm e candura invocava sem pre a tolerância e a possibilidade de enganos. Mas