Orgulho e Preconceito

Jane Austen · Capítulo 26 de 62

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Orgulho e Preconceito

Capítulo 26

As recom endações de Mrs. Gardiner a Elizabeth foram transm itidas cordialm ente na prim eira oportunidade favorável que encontrou de falar a sós com a sua sobrinha; depois de dizer francam ente o que pensava, continuou da seguinte m aneira:

— Você é um a m oça sensata dem ais, Lizzy , para se apaixonar por um rapaz apenas porque alguém lhe previne de que não o faça. E portanto, não tenho m edo de falar abertam ente. Seriam ente, queria que você estivesse prevenida. Não se com prom eta nem procure com prom etê-lo num a afeição que a ausência de fortuna tornaria m uito im prudente. Nada tenho contra o rapaz. É dos m ais interessantes. E se ele tivesse a situação que deveria ter, acho que você não poderia encontrar m elhor. Mas não sendo este o caso, você não deve se deixar levar pela sua im aginação. Você tem bom senso e todos nós esperam os que você o utilize. Seu pai confia na sua resolução e na sua boa conduta. Você não pode desapontá-lo.

— Minha cara tia, a senhora está tom ando as coisas m uito a sério.

— Sim , e espero que você as considere com a m esm a seriedade.

— Bem , neste caso não precisa se alarm ar. Eu tom arei conta de m im m esm a e de Mr. Wickham tam bém . Se isto depender de m im , ele não se apaixonará.

— Elizabeth, você não está falando sério.

— Desculpe, vou tentar novam ente. No m om ento, não estou apaixonada por Mr.

Wickham ; não, certam ente não estou. Mas, ele é sem com paração, o hom em m ais agradável que eu j am ais conheci. E se realm ente se interessar por m im , acredito que é m elhor que ele não se apaixone. Vej o perfeitam ente a im prudência que há nisto. Oh, aquele abom inável Mr. Darcy ! A opinião que m eu pai tem de m im m e orgulha m uito. E eu seria um a criatura indigna se a traísse.

No entanto, m eu pai sim patiza m uito com Mr. Wickham . Em sum a, m inha cara tia, eu ficaria m esm o m uito triste se causasse algum aborrecim ento a algum de vocês. Mas com o estam os vendo todos os dias que, quando existe um a afeição real, os j ovens dificilm ente se deixam separar pelas condições im ediatas de fortuna, com o poderei lhe prom eter que serei m ais prudente do que tantas das m inhas sem elhanças, se eu for tentada, com o posso m esm o saber que a prudência consiste em resistir? Tudo o que posso lhe prom eter, portanto, é que não agirei precipitadam ente. Não terei pressa em m e considerar o m ais alto obj eto da afeição de Mr. Wickham . Em sum a, farei o possível.

— Talvez fosse m elhor que você não o encoraj asse a vir aqui tantas vezes. Pelo m enos você não devia lem brar a sua m ãe de convidá-lo.

— Com o fiz no outro dia — disse Elizabeth, com um sorriso intencional. — E

verdade, será m ais prudente não o fazer. Mas não im agine que ele vem aqui tão frequentem ente assim . Foi só por sua causa que ele foi convidado tantas vezes

esta sem ana. A senhora sabe que m am ãe gosta de ter m uita gente em casa a fim de distrair os seus convidados. Mas eu lhe dou a m inha palavra de honra que seguirei o cam inho que achar m ais prudente. E agora espero que estej a satisfeita.

Sua tia lhe assegurou que estava, e Elizabeth agradeceu o carinho das suas sugestões. Em seguida elas se separaram . Belo exem plo de conselhos referentes a um tal assunto, serem aceitos sem ressentim entos.

Mr. Collins voltou para o Hertfordshire pouco depois da partida de Jane e dos Gardiner. E desta vez a sua chegada não causou grandes transtornos a Mrs.

Bennet, pois ele se hospedou em casa dos Lucas.

O dia do seu casam ento estava próxim o. Mrs. Bennet se resignara enfim ao inevitável. Costum ava até dizer com insistência, num tom am argo, que ela desej ava que eles fossem felizes. O casam ento seria realizado na quinta-feira seguinte. E na quarta, Miss Lucas veio fazer a sua visita de despedidas. Quando ela se levantou para sair, Elizabeth, envergonhada com os parabéns forçados de sua m ãe, e sinceram ente com ovida, acom panhou a sua antiga am iga até a porta.

Quando desciam as escadas, j untas, Charlotte disse:

— Espero que você m e escreva frequentem ente, Eliza.

— Você pode contar com isto.

— E eu tenho outro favor a lhe pedir. Você virá m e visitar?

— Espero que nos encontrem os m uitas vezes aqui no Hertfordshire.

— Não é provável que eu possa sair do Kent durante algum tem po. Prom eta-m e portanto que você virá a Hunsford.

Elizabeth não pôde recusar, em bora não encarasse aquela visita com prazer.

— Meu pai e Maria irão m e visitar em m arço — acrescentou Charlotte. — E

espero que você consinta em ir na com panhia deles. Realm ente, Eliza, você será tão bem -recebida quanto qualquer um deles.

Enfim aconteceu o casam ento. O noivo e a noiva partiram para o Kent diretam ente da igrej a. E todos tiveram m uita coisa que dizer e que ouvir, com o de costum e nessas ocasiões. Elizabeth recebeu logo um a carta da sua am iga, e a correspondência entre elas continuou tão regular e frequente com o sem pre. Mas era-lhe im possível m anter o m esm o tom de franqueza de antigam ente. Elizabeth nunca se dirigia à sua am iga sem sentir que todo o prazer e intim idade que havia nas suas relações tinham cessado. E, em bora decidida a não desleixar da sua correspondência, quando escrevia, pensava no passado m ais do que no presente.

As prim eiras cartas de Charlotte foram recebidas com m uita ansiedade.

Elizabeth estava curiosa para saber com o a sua am iga falaria da nova casa, o que tinha achado de Lady Catherine e até que ponto ela ousaria se declarar feliz.

Porém , quando as cartas chegaram , Elizabeth sentiu que Charlotte se externava sobre todos esses pontos, exatam ente com o tinha previsto. Escrevia alegrem ente, parecia rodeada de conforto e só m encionava o que podia louvar. A casa, a m obília, a vizinhança, as estradas, tudo achava a seu gosto. E Lady Catherine se

m ostrara benevolente e am ável. Era o m esm o quadro de Hunsford e de Rosings que Mr. Collins pintara. Apenas, m ais esbatido. Elizabeth com preendeu que teria de esperar até o dia da sua visita para saber o resto.

Jane j á tinha escrito algum as linhas à sua irm ã, anunciando a sua chegada a Londres, sem novidades. Elizabeth tinha esperança de que quando ela tornasse a escrever pudesse transm itir algum a notícia dos Bingley .

A sua im paciência pela segunda carta foi recom pensada com o costum a sê-lo.

Jane tinha estado um a sem ana em Londres sem ver Caroline e sem ter notícias dela. Explicava o fato, no entanto, supondo que a sua últim a carta de Longbourn para a am iga se extraviara. “Minha tia”, continuou ela, “vai am anhã para aqueles lados da cidade. E eu terei a oportunidade de fazer um a visita em Grosvenor Street.” Depois da visita ela tornou a escrever dizendo que tinha visto Miss Bingley . “Não creio que Caroline estivesse de bom hum or”, dizia ela. “Mas pareceu m uito contente de m e ver e censurou-m e por não a ter avisado da m inha chegada a Londres. Portanto eu tinha razão. Ela não recebeu a m inha últim a carta. Perguntei com o estava o seu irm ão, é claro. Estava bem , m as tão ocupado com Mr. Darcy que quase nunca suas irm ãs tinham ocasião de vê-lo. Soube que Miss Darcy estava sendo esperada para o j antar. Eu desej ava conhecê-la. Minha visita não foi longa, pois Caroline e Mrs. Hurst estavam para sair. Espero que elas virão em breve visitar-m e aqui.”

Elizabeth sacudiu a cabeça. A carta lhe provava que só por um acaso Mr.

Bingley descobriria que sua irm ã estava em Londres.

Passaram -se as quatro sem anas e Jane nem um a só vez o viu. Tentou persuadir a si m esm a de que não o lam entava. Mas não podia continuar cega às intenções de Miss Bingley . E depois de esperar em casa todas as m anhãs durante 15 dias, recebendo todas as noites novas desculpas, finalm ente a visitante apareceu. Mas a brevidade da visita, e sobretudo a m udança das suas m aneiras não deixaram a Jane nenhum a ilusão. A carta que escreveu à sua irm ã naquela ocasião m ostrava bem o que sentia:

Minha querida Lizzy :

Estou certa de que você é incapaz de regozij ar-se à m inha custa se eu lhe confessar que m e enganei inteiram ente quanto à afeição de Miss Bingley por m im . Mas, m inha cara irm ã, em bora o que se passou tenha provado que você tinha razão, não m e acuse de obstinação se eu continuo a sustentar que, considerando a conduta antiga de Caroline, a m inha confiança era tão natural quanto as suas suspeitas. Não com preendo absolutam ente as razões que ela tinha para desej ar ter relações íntim as com igo, m as se estas m esm as circunstâncias se repetissem , estou certa de que eu tornaria a ser iludida. Caroline não retribuiu a visita senão ontem ; não recebi no intervalo nem um a nota, nem um bilhete, nem um a linha. E quando ela veio tornou-se evidente que não tinha nenhum prazer em

m e ver. Deu ligeiras desculpas, inteiram ente form ais e não disse um a só vez que desej ava tornar a ver-m e; achei-a sob todos os aspectos tão indiferente que, quando ela partiu, eu estava perfeitam ente resolvida a cortar relações. Tenho pena dela m as não posso deixar de culpá-la. Fez m uito distinguindo-m e a princípio, com o aconteceu. Posso dizer com certeza que tom ou todas as iniciativas, m as tenho pena dela porque deve sentir que procedeu erradam ente e porque tenho plena certeza de que a causa de tudo isso foi a preocupação que tem com o irm ão. Não preciso m e explicar m elhor. E em bora eu e você saibam os que esta preocupação é inteiram ente inútil, se ela a sente de fato, ficará facilm ente explicada a sua conduta para com igo. E se tem tanta afeição pelo irm ão, afeição que ele aliás m erece, qualquer preocupação que sinta por ele será natural e louvável. No entanto espanta-m e que continue ainda a ter estes receios, pois se ele gostasse realm ente de m im j á nos teríam os encontrado há m uito tem po. Ele sabe que eu estou em Londres, pois ouvi-a se referir a isto. E no entanto, a m aneira com o fala dá a entender que desej a persuadir a si m esm a de que o irm ão se interessa realm ente por Miss Darcy . Não posso com preendê-la.

Se eu não tivesse receio de fazer um j ulgam ento precipitado, estaria quase tentada a dizer que em tudo isto há um a forte aparência de duplicidade. Mas procurarei banir todos os pensam entos dolorosos e pensar som ente no que m e pode tornar feliz: a sua afeição, e a inalterável bondade dos m eus caros tios.

Escreva-m e breve. Miss Bingley disse algum a coisa a respeito de nunca m ais voltar a Netherfield, de desistir da casa, m as não deu toda a certeza. É m elhor não falar nisto. Estou extrem am ente satisfeita por você ter recebido notícias tão agradáveis dos nossos am igos de Hunsford. Peço-lhe que vá visitá-los com Sir William e Maria. Estou certa de que você se sentirá m uito bem lá.

Sua. etc.

Esta carta causou certa tristeza a Elizabeth; m as a coragem lhe voltou ao considerar que, pelo m enos, Jane não seria m ais enganada pela irm ã de Bingley .

Quanto a este, todas as esperanças estavam agora perdidas. Jane nem sequer desej aria tornar a receber as suas atenções. Sob todos os pontos de vista ele baixava no conceito dos outros. E com o castigo para Mr. Bingley , bem com o para um a possível com pensação para Jane, Elizabeth desej ava sinceram ente que na verdade ele se casasse com a irm ã de Mr. Darcy , pois segundo a descrição que da m esm a lhe fizera Wickham , ela o faria se arrepender am argam ente de ter rej eitado Jane.

Nessa ocasião Mrs. Gardiner relem brou por carta a Elizabeth a prom essa que esta lhe fizera a respeito de Wickham . E as notícias que Elizabeth lhe m andou em resposta eram m ais satisfatórias para a sua tia do que para ela m esm a. O

interesse de Mr. Wickham parecia ter-se desvanecido. Suas atenções, dedicava-as a outra pessoa. Elizabeth observara tudo, m as podia escrever a respeito disto

com certo desprendim ento. O seu coração fora apenas ligeiram ente afetado. E

seu am or próprio se aplacava com a reflexão de que se a fortuna o tivesse perm itido, ela, Elizabeth, teria sido a escolhida. A súbita aquisição de dez m il libras era o encanto m ais notável da j ovem que ele agora cortej ava.