Orgulho e Preconceito

Jane Austen · Capítulo 23 de 62

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Orgulho e Preconceito

Capítulo 23

Mas nunca poderia ter suposto que no instante de confrontar as suas ideias com a realidade ela fosse capaz de sacrificar todos os seus m elhores sentim entos às vantagens m undanas. Charlotte, m ulher de Mr. Collins, era um quadro hum ilhante. E à dor de ver um a am iga se rebaixar assim na sua estim a acrescia a triste convicção de que era im possível que aquela m esm a am iga fosse feliz no cam inho que escolhera.

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Elizabeth estava sentada com sua m ãe e suas irm ãs, pensando no que ouvira e em dúvida sobre se devia m encioná-lo, quando Sir William Lucas em pessoa apareceu, enviado pela sua filha para anunciar o seu noivado. Depois de m uitos cum prim entos e congratulações pelas perspectivas da união entre as duas fam ílias, ele abordou o assunto, para um a audiência não som ente atônita, m as tam bém incrédula. Pois Mrs. Bennet, com m ais perseverança do que polidez, retrucou que ele devia estar com pletam ente enganado. E Ly dia, que era às vezes m uito atirada e quase sem pre m alcriada, exclam ou:

— Arre, Sir William , com o é que o senhor pode contar um a história destas?

Então não sabe que Mr. Collins quer se casar com Lizzy ?

Só um cavalheiro, m unido de toda a sua tolerância, poderia suportar um a tal desconsideração sem se zangar. Mas a boa educação de Sir William conseguiu fazer com que relevasse tudo aquilo. E em bora insistisse para que a fam ília acreditasse na verdade da sua inform ação, suportou todas aquelas im pertinências com a m ais perfeita cortesia.

Elizabeth, sentindo que lhe cabia o dever de salvá-lo daquela situação incôm oda, adiantou-se e confirm ou as suas palavras, m encionando o conhecim ento prévio que tivera de Charlotte pessoalm ente. E procurou pôr um term o às exclam ações de sua m ãe e de suas irm ãs, dando os m ais sinceros parabéns a Sir William , atitude que Jane im ediatam ente secundou, fazendo diversas observações sobre a felicidade que poderia trazer aquela aliança, o caráter excelente de Mr. Collins e a distância conveniente que separava Hunsford de Londres.

Mrs. Bennet ficou tão ofuscada que nada pôde dizer enquanto Sir William estava presente. Mas apenas tinha saí do, os seus sentim entos transbordaram . Em prim eiro lugar persistiu em duvidar da verdade daquelas afirm ações. Em segundo lugar ela tinha certeza de que Mr. Collins tinha sido iludido. Em terceiro lugar tinha certeza de que nunca seriam felizes. E em quarto, que o com prom isso poderia ser rom pido. Duas coisas no entanto se podiam claram ente deduzir do assunto: prim eiro, que era Elizabeth a causa de todo aquele m al e segundo, que ela, Mrs. Bennet, tinha sido tratada infam em ente por todos. E foi sobre estes dois pontos, principalm ente, que ela se expandiu durante o resto do dia. Nada a podia consolar ou aplacar e aquele dia passou sem que o seu ressentim ento dim inuísse.

Durante um a sem ana não pôde ver Elizabeth sem ralhar com ela. Só depois de decorrido um m ês pôde conversar novam ente com Sir William e Lady Lucas, sem ser grosseira, só perdoando Charlotte m uitos m eses depois.

Os sentim entos de Mr. Bennet eram m uito m ais tranquilos. Ele achou que a situação era m uito agradável, pois se sentia satisfeito, dizia, por descobrir que Charlotte Lucas, pessoa que ele j ulgara toleravelm ente sensata, era, na realidade, tão tola quanto a sua m ulher e m ais tola ainda do que a sua filha.

Jane se confessou um tanto surpreendida. Mas falou m enos em seu espanto do que no desej o sincero de que eles fossem felizes. Elizabeth não conseguiu persuadi-la de que aquela felicidade era pouco provável. Kitty e Ly dia estavam longe de invej ar Miss Lucas. Para elas Mr. Collins era apenas um pastor, e a notícia afetou-as apenas com o um a novidade que podiam espalhar em Mery ton. Lady Lucas não poderia ter resistido ao triunfo de falar a Mrs. Bennet sobre o conforto que representava para ela o fato de ter um a filha bem -casada. Veio a Longbourn com m ais frequência do que de costum e, para dizer o quanto se sentia feliz, em bora os olhares irados de Mrs. Bennet e as suas observações rancorosas am eaçassem , por vezes, estragar a sua felicidade...

Entre Elizabeth e Charlotte havia certo constrangim ento, que as im pedia m utuam ente de abordar aquele assunto; e Elizabeth se sentiu persuadida de que nenhum a confiança real poderia subsistir daí por diante entre elas. O

desapontam ento que sofrera fez Elizabeth aproxim ar-se m ais da irm ã, em cuj a retidão e delicadeza de sentim entos tinha absoluta confiança e cuj a felicidade cada dia m ais a preocupava, pois fazia um a sem ana que Bingley partira e ainda ninguém falara na sua volta.

Jane enviara a Caroline um a resposta im ediata à sua carta e contava os dias que tinha de esperar, até que outra lhe chegasse. A prom etida carta de agradecim ento de Mr. Collins chegou na terça-feira. Era dirigida a Mr. Bennet e escrita com tanta solenidade e gratidão com o se ele tivesse residido um ano com a fam ília. Depois de tranquilizar a sua consciência quanto a este tópico, servindo-se das expressões m ais calorosas, Mr. Collins passava a inform á-lo da sua felicidade de ter conquistado o coração daquela vizinha tão am ável, Miss Lucas, e explicava que era apenas com a intenção de gozar a com panhia de sua prom etida que ele m anifestara com tanta insistência o desej o de voltar a Longbourn, onde esperava chegar daquela segunda-feira a 15 dias. Lady Catherine, acrescentava ele, aprovava tanto o seu casam ento, que desej ava que o acontecim ento se desse o m ais cedo possível. Com esse argum ento, que j ulgava decisivo, esperava convencer Charlotte a m arcar um a data próxim a para o dia que havia de torná-lo o m ais feliz dos hom ens.

A volta de Mr. Collins para o Hertfordshire j á não parecia m ais tão agradável a Mrs. Bennet. Ao contrário, estava m uito disposta a se queixar ao m arido. Achava m uito curioso que ele viesse a Longbourn em vez de se hospedar em Lucas Lodge. A visita era tam bém m uito inconveniente e principalm ente incôm oda.

Não gostava de ter hóspedes em casa quando a sua saúde não era m uito boa. E os noivos eram as pessoas m ais desagradáveis do m undo. Esses m urm úrios de Mrs.

Bennet continuaram , até que surgiu a preo cupação m uito m aior a respeito da ausência prolongada de Mr. Bingley . Nem Jane nem Elizabeth se sentiam tranquilas quanto a isto. Os dias passavam sem trazer nenhum a notícia dele, a não ser o boato que circulou em Mery ton de que Mr. Bingley não voltaria para

Netherfield durante todo o inverno. Boato esse que enfureceu Mrs. Bennet e que ela nunca deixava de contradizer com o se se tratasse da m ais escandalosa das m entiras.

Elizabeth, por sua vez, com eçou a tem er, não que Bingley fosse indiferente a Jane, m as que as suas irm ãs conseguissem im pedir o seu regresso. Apesar da sua relutância em adm itir um a hipótese tão desfavorável para a felicidade de Jane e tão pouco honrosa para o seu nam orado, não podia im pedir que tal ideia lhe ocorresse frequentem ente. Os esforços reunidos daquelas criaturas m aldosas que eram as suas duas irm ãs e do seu autoritário am igo, som ados aos atrativos de Miss Darcy e aos divertim entos de Londres, seriam talvez superiores ao seu interesse por Jane. Quanto a esta últim a, a sua ansiedade durante aquele período de incerteza era naturalm ente m ais dolorosa do que a de Elizabeth. Mas queria esconder tudo o que sentia e entre as duas irm ãs, portanto, nunca se fazia qualquer alusão àquele assunto. Mas com o nenhum a delicadeza daquela espécie refreava Mrs. Bennet, não se passava um a hora sem que ela falasse em Bingley , sem que exprim isse a sua im paciência pela sua chegada ou m esm o sem que exigisse que Jane declarasse de um a vez por todas que se Bingley não voltasse ela se consideraria ofendida. Foi necessária toda a doçura e firm eza de Jane para suportar esses ataques com relativa tranquilidade.

Mr. Collins voltou pontualm ente no dia m arcado, m as a sua recepção em Longbourn não foi tão am ável quanto da prim eira vez. Mas ele se sentia tão feliz que não precisava de m uita atenção e felizm ente para os outros as suas atribuições de noivo os aliviavam grandem ente da sua com panhia. Ele passava a m aior parte do tem po em Lucas Lodge e m uitas vezes voltava a Longbourn apenas o tem po de desculpar-se pela sua ausência antes da fam ília se retirar para os seus aposentos.

Mrs. Bennet estava realm ente num estado lam entável. A sim ples alusão a qualquer detalhe relativo ao casam ento precipitava-a num acesso de m au hum or.

Em qualquer lugar onde se encontrasse tinha certeza de ouvir falar naquele assunto. A presença de Miss Lucas era-lhe insuportável. Olhava-a com ciúm e, despeito e horror, com o a sua sucessora naquela casa. Cada vez que Charlotte vinha visitá-los, ela concluía que a sua intenção era antecipar a hora da posse e cada vez que Charlotte falava em voz baixa a Mr. Collins, tinha certeza de que falavam da propriedade de Longbourn e planej ava expulsá-la e às suas filhas da casa, assim que Mr. Bennet m orresse. Queixava-se am argam ente de tudo aquilo ao m arido.

— Realm ente, Mr. Bennet — dizia ela —, é m uito duro pensar que Charlotte Lucas será um dia dona desta casa e que eu serei forçada a lhe ceder o m eu lugar!

— Não pense nestas coisas tristes, m eu bem . Tenham os confiança no futuro.

Encarem os a possibilidade de que eu sobreviva a você.

Isto não era m uito consolador para Mrs. Bennet. E portanto, em vez de responder, continuou com o antes.

— Não posso suportar a ideia de que eles possuirão toda esta propriedade. Se não fosse esta questão de sucessão, eu não m e im portaria.