Orgulho e Preconceito
Capítulo 37
Depois de passear pela alam eda durante duas horas, entregando-se a toda espécie de pensam entos, relem brando acontecim entos, determ inando probabilidades e reconciliando-se da m elhor form a que podia a um a m udança tão súbita e tão im portante, o cansaço e a lem brança de que ficara m uito tem po ausente fizeram com que voltasse para casa; e ao entrar fez um esforço sobre si m esm a, a fim de parecer alegre com o de costum e, reprim indo todas a reflexões que a poderiam tornar inapta para a conversação.
Disseram -lhe im ediatam ente que os dois cavalheiros de Rosings tinham aparecido durante a sua ausência, Mr. Darcy apenas durante alguns m inutos para se despedir, m as o coronel Fitzwilliam ficara pelos m enos um a hora, esperando pelo seu regresso, e quase resolvera sair a pé para ir procurá-la. Elizabeth fingiu que isto lhe produzia um a grande decepção; m as na verdade ela se alegrava. O
coronel Fitzwilliam tinha perdido todo o interesse; ela só podia pensar na carta.
37
Os dois prim os partiram de Rosings na m anhã seguinte, e Mr. Collins, que tinha ido esperá-los perto da casa do vigia para apresentar as suas despedidas, voltou pouco depois, trazendo a boa notícia de que eles pareciam estar de m uito boa saúde e relativam ente de bom hum or, apesar da cena m elancólica que se tinha passado em Rosings. Mr. Collins então se dirigiu apressadam ente para Rosings, a fim de consolar Lady Catherine e sua filha e, de volta, trouxe, com grande satisfação, um recado de Lady Catherine: ela se sentia tão entediada que desej ava vê-los todos em sua casa para j antar.
Elizabeth não pôde deixar de se lem brar, ao ver Lady Catherine, de que se o tivesse desej ado, poderia agora ser-lhe apresentada com o a sua futura sobrinha, e sorriu ao im aginar a indignação com que Sua Senhoria receberia a notícia.
O prim eiro assunto abordado foi a dim inuição que sofrera o grupo de Rosings.
— Asseguro-lhes que sinto m uito — disse Lady Catherine —, creio m esm o que ninguém sinta tanto a ausência dos am igos quanto eu. Sou m uito ligada àqueles rapazes e sei que tam bém gostam m uito de m im . Ficaram tristíssim os de partir, e todos os anos acontece o m esm o. O coronel conseguiu dom inar os seus sentim entos até o fim , m as Darcy parecia estar consternado. Mais do que no ano passado. Vê-se que ele gosta cada vez m ais de Rosings.
Mr. Collins aproveitou a ocasião para fazer um elogio, que foi recebido com um sorriso pela m ãe e pela filha.
Lady Catherine observou depois do j antar que Miss Bennet parecia m elancólica.
E atribuindo im ediatam ente esta tristeza à proxim idade da sua partida, acrescentou:
— Mas se este é o caso, escreva à sua m ãe pedindo-lhe para ficar m ais um pouco. Estou certa de que Mrs. Collins terá grande prazer em ter por m ais tem po a sua com panhia.
— Eu lhe fico m uito agradecida pelo seu am ável convite — replicou Elizabeth
—, m as infelizm ente não posso aceitar. Preciso estar em Londres no sábado vindouro.
— Mas neste caso só terá ficado aqui seis sem anas. Contava que perm anecesse pelo m enos dois m eses. Foi o que eu disse a Mrs. Collins antes da sua vinda. Não pode haver m otivo para um a partida tão prem atura. Mrs. Bennet lhe concederia outros 15 dias.
— Mas m eu pai não o faria. Ele m e escreveu na sem ana passada, dizendo que apressasse a m inha volta.
— Oh, se sua m ãe deixa, seu pai tam bém deixará. Um a filha nunca é m uito necessária para um pai. E se quiser ficar m ais um m ês, eu poderei levá-la com igo até Londres. Preciso de ir lá em com eço de j unho. Dem orar-m e-ei um a sem ana e na m inha carruagem haverá espaço para um a de vocês. E até, se o
tem po estiver frio, poderiam ir as duas, pois am bas são m agrinhas.
— Muito m e desvanece a sua bondade, Lady Catherine, m as creio que serei obrigada a seguir o m eu plano anterior.
Lady Catherine pareceu ficar resignada.
— Mrs. Collins — disse —, é preciso que m ande um a criada com elas. Sabe que eu sem pre falo o que penso. Eu não posso tolerar a ideia de duas m oças viaj arem sozinhas na diligência. É m uito im próprio. É preciso que m ande um a pessoa. São coisas que eu não suporto. As m oças devem sem pre ser acom panhadas e protegidas, de acordo com a sua situação na vida. Quando m inha sobrinha Georgiana foi para Ram sgate no verão passado, fiz questão que dois criados hom ens a acom panhassem . Miss Darcy , a filha de Mr. Darcy de Pem berley e de Lady Anne, não poderia viaj ar de m aneira diferente. Dou m uita atenção a estas coisas. Mrs. Collins, m ande John acom panhar as m oças. Estou satisfeita de m e ter lem brado disto, pois seria pouco recom endável para o senhor m andá-las sozinhas.
— Meu tio vai m andar um criado para nos acom panhar.
— Oh, o seu tio... Ele tem um criado? Ainda bem que tem alguém na sua fam ília que pense nestas coisas. Onde trocarão os cavalos? Oh, Brom ley , naturalm ente.
Se falarem lá no m eu nom e, serão m uito bem -servidas.
Lady Catherine fez m uitas outras perguntas a respeito da viagem . E com o ela própria não respondia a todas, era necessário prestar atenção, coisa que Elizabeth apreciou, pois de outra m aneira, com as preocupações que a absorviam , ela poderia até se esquecer do lugar onde estava. Era necessário deixar suas reflexões para as horas solitárias. Sem pre que se encontrava sozinha, entregava-se a elas com alívio. E todos os dias saía a passeio sozinha, para poder se dar ao consolo de recordar as coisas desagradáveis.
Dentro de pouco tem po j á sabia a carta de Mr. Darcy quase de cor. Estudava cada frase, e os seus sentim entos para com o m issivista variavam frequentem ente. Quando se lem brava do seu estilo, ficava cheia de indignação, m as quando considerava a inj ustiça com que o tinha condenado e tratado, a sua cólera se voltava contra si m esm a. Enquanto o desapontam ento que ele tinha sofrido o tornava obj eto de sua com paixão, o afeto de Mr. Darcy despertava a sua gratidão, e o caráter dele, respeito. Mas Elizabeth não podia concordar com o que tinha feito. Nem podia arrepender-se da sua recusa. Tam pouco sentia a m enor vontade de vê-lo. A sua conduta passada era um a fonte constante de am arguras e de ressentim entos. E os infelizes defeitos da sua própria fam ília eram um m otivo ainda m ais forte de aborrecim ento. Eram falhas irrem ediáveis.
Seu pai se lim itava a rir e nunca faria nenhum esforço para corrigir as leviandades das suas filhas m ais m oças, e sua m ãe, cuj as m aneiras não eram m uito m elhores, continuava naturalm ente insensível a esse m al. Elizabeth frequentem ente reunia os seus esforços aos de Jane, num a tentativa de reprim ir
as im prudências de Katherine e de Ly dia. Mas fortalecidas pela indulgência da m ãe, elas resistiam e não havia esperança de m elhorarem . Katherine, espírito im pressionável e fraco, com pletam ente sob o dom ínio de Ly dia, sem pre tom ava a m al os conselhos das suas irm ãs m ais velhas, e Ly dia, voluntariosa e descuidada, nem sequer lhes dava ouvidos. Am bas eram ignorantes, indolentes e vaidosas. Enquanto existisse um oficial em Mery ton, elas continuariam a nam orar. E enquanto Mery ton ficasse a um a m ilha de distância de Longbourn, viveriam em cam inhadas para lá. Outra das suas m aiores preocupações era o futuro de Jane. A explicação de Mr. Darcy , inocentando Bingley , realçava o valor daquilo que Jane tinha perdido e dem onstrava a sinceridade da sua afeição.