Orgulho e Preconceito

Jane Austen · Capítulo 3 de 62

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Orgulho e Preconceito

Capítulo 3

Passaram o resto da noite conj eturando qual seria o dia provável em que o estranho viria pagar a visita de Mr. Bennet e procurando determ inar aquele em que o convidariam para j antar.

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Entretanto todas as perguntas que Mrs. Bennet, com auxílio das suas cinco filhas, fez sobre o assunto foram insuficientes para extrair do m arido um a descrição satisfatória de Mr. Bingley . Atacaram -no de vários m odos, com perguntas diretas, engenhosas suposições e hipóteses distantes. Ele desafiou a habilidade de todas elas. Afinal foram obrigadas a aceitar as inform ações de segunda m ão da sua vizinha Lady Lucas. O relatório desta últim a foi altam ente favorável. Sir William tinha ficado encantado com ele. Era j ovem , elegantíssim o, extrem am ente agradável. E para coroar tudo, tencionava ir ao próxim o baile em com panhia de grande núm ero de conhecidos. Nada poderia ser m ais delicioso.

Gostar de dança era o prim eiro passo para se apaixonar. E vivas esperanças de conquistar o coração de Mr. Bingley foram bafej adas.

— Se eu pudesse ver um a das m inhas filhas instalada em Netherfield, alegre e feliz — disse Mrs. Bennet ao m arido —, e todas as dem ais igualm ente bem -

casadas, nada m ais teria a desej ar.

Daí a poucos dias Mr. Bingley veio retribuir a visita de Mr. Bennet. Conversaram na biblioteca durante dez m inutos. Mr. Bingley tinha alim entado a esperança de ver um a das m oças, sobre cuj a beleza tanto ouvira falar. Mas viu apenas o pai.

As senhoras tiveram m ais sorte: olhando por detrás de um a j anela do sobrado, conseguiram saber que ele usava casaco azul e m ontava um cavalo preto.

Pouco depois, um convite para j antar foi-lhe enviado. Mrs. Bennet j á tinha planej ado os pratos à altura da fam a da sua cozinha, quando chegou um a resposta adiando tudo. Mr. Bingley se via obrigado a partir para a cidade no dia seguinte e portanto não podia aceitar a honra daquele convite, etc. Mrs. Bennet ficou desolada. Não sabia que negócio poderia tê-lo atraído à cidade, tão pouco tem po depois da sua chegada no Hertfordshire. Com eçou a tem er que Mr.

Bingley estivesse sem pre em trânsito de um lugar para outro, e que nunca se dem orasse em Netherfield, com o devia. Lady Lucas acalm ou um pouco os seus receios, sugerindo a ideia de que Mr. Bingley tinha partido para Londres apenas para buscar conhecidos que o acom panhassem ao baile. As m eninas lam entaram a vinda de tão grande núm ero de senhoras. Mas, na véspera do baile, consolaram -se ao saber que em vez de doze, Mr. Bingley tinha trazido apenas seis senhoras de Londres, cinco irm ãs e um a prim a. E quando o grupo entrou no salão, consistia apenas em cinco pessoas: Mr. Bingley , suas duas irm ãs, o m arido da m ais velha e outro rapaz.

Mr. Bingley era sim pático e fino de m aneiras. A sua aparência era agradável, os seus gestos sem afetação. Quanto às suas irm ãs, era visível que se tratava de pessoas distintas. Vestiam -se à últim a m oda. O cunhado, Mr. Hurst, era o que se pode cham ar um gentlem an, sem outras características. Mas o am igo, Mr.

Darcy , atraiu desde logo a atenção da sala, pela sua estatura, elegância, traços

regulares e nobre atitude e tam bém pela notícia que circulou, cinco m inutos depois da sua entrada, de que possuía um rendim ento de dez m il libras por ano.

Os cavalheiros declararam que ele era um a bela figura de hom em , as senhoras foram de opinião que era m uito m ais elegante do que Mr. Bingley . Todos o olharam com grande adm iração durante m etade do baile, até que finalm ente a sua atitude provocou um certo desapontam ento que alterou a sua m aré de popularidade, pois descobriram que era orgulhoso, perm anecia afastado do seu grupo e parecia im possível de contentar. E nem m esm o toda a sua grande propriedade, no Derby shire, pôde salvá-lo da opinião que com eçava a form ar-se a seu respeito, de que ele tinha m odos antipáticos e desagradáveis, e de que era indigno de ser com parado ao am igo. E Mr. Bingley em pouco tem po travou relações com as principais pessoas da sala. Era anim ado e franco, dançava todas as vezes e m ostrou-se aborrecido por ter o baile term inado tão cedo. Chegou m esm o a falar em dar outro em Netherfield. Qualidades tão am áveis falam por si m esm as. Que contraste entre ele e seu am igo! Mr. Darcy dançou apenas um a vez com Mrs. Hurst e outra com Miss Bingley . Recusou-se a ser apresentado a qualquer outra m oça e passou o resto da noite andando pelo salão, conversando ocasionalm ente com um a ou outra pessoa do seu próprio grupo. Seu caráter estava fixado. Era o hom em m ais orgulhoso, m ais desagradável do m undo. E

todos pediram a Deus que ele nunca m ais voltasse. Entre as pessoas que estavam contra ele, a m ais violenta era Mrs. Bennet, a cuj a antipatia pela sua conduta se som ava o despeito de ver um a das suas filhas desprezada por ele.

Devido à falta de pares, Elizabeth Bennet fora obrigada a ficar sentada durante duas danças; e parte desse tem po ela o passou suficientem ente próxim a a Mr.

Darcy para ouvir um a palestra entre ele e Mr. Bingley . Este últim o, que acabara de dançar, vinha anim ar o am igo a im itá-lo.

— Venha, Darcy — disse ele —, você precisa dançar. Incom oda-m e vê-lo aí sozinho, de um m odo tão estúpido. Seria m uito m elhor que você dançasse.

— Por coisa algum a deste m undo; bem sabe com o eu detesto dançar, a não ser conhecendo intim am ente o m eu par. Num a festa com o esta seria insuportável.

Suas irm ãs estão ocupadas e não existe outra m ulher na sala com quem eu dançaria sem sacrifício.

— Jam ais eu seria tão exigente — exclam ou Bingley —; palavra de honra, eu nunca encontrei tantas m oças interessantes na m inha vida... E você está vendo que algum as são excepcionalm ente belas!

— Você está dançando com a única m oça realm ente bonita que existe nesta sala

— disse Mr. Darcy , olhando para a m ais velha das irm ãs Bennet.

— Oh, é a m ais bela m oça que j á vi na m inha vida, m as bem atrás de você está um a das suas irm ãs, que é m uito bonita e agradável. Deixe-m e pedir ao m eu par que o apresente a ela?

— Qual? — perguntou ele, voltando-se e detendo um m om ento a vista em

Elizabeth até que, encontrando os seus olhos, desviou os seus e disse, friam ente:

— É tolerável, m as não tem beleza suficiente para tentar-m e. Não estou disposto agora a dar atenção a m oças que são desprezadas pelos outros hom ens. É m elhor você voltar ao seu par e se deliciar com os seus sorrisos, pois está perdendo tem po com igo.

Mr. Bingley seguiu o conselho. Mr. Darcy se afastou e os sentim entos de Elizabeth para com ele não perm aneceram m uito cordiais. No entanto, ela contou a história com m uita graça às suas am igas, pois era de espírito alegre e brincalhão e se deleitava com tudo o que era ridículo.

De um m odo geral a noite decorreu agradavelm ente para toda a fam ília. Mrs.

Bennet vira a sua filha m ais velha ser m uito adm irada pelo grupo de Netherfield.

Mr. Bingley tinha dançado duas vezes com ela. E as irm ãs dele a tinham tratado com m uita am abilidade. Jane ficou tão contente quanto a sua m ãe, em bora m anifestasse os seus sentim entos de m aneira m ais discreta. Elizabeth se alegrou com o prazer de Jane. Mary ouvira o seu nom e m encionado por Miss Bingley com o sendo o da m oça m ais dotada da reunião. Katherine e Ly dia tinham tido a sorte de nunca ficarem sem par, a única coisa que elas consideravam im portante num baile. Todos voltaram , pois, de bom hum or para Longbourn, aldeia onde residiam e da qual eram os principais habitantes. Encontraram Mr. Bennet ainda acordado. Com um livro na m ão ele perdia a noção do tem po. Naquele m om ento m anifestou grande curiosidade em saber a causa de tão grande alegria. Antes de sua m ulher sair para o baile, j ulgara que as esperanças dela seriam destruídas, m as verificou logo que a história era m uito diferente.

— Meu caro Mr. Bennet — disse ela, entrando na sala —, tivem os um a noite deliciosa, um baile excelente! Pena é que você não estivesse lá. Jane foi tão adm irada! Nada podia ter acontecido m elhor... Todos disseram que ela estava m uito bonita. Mr. Bingley achou-a linda e dançou duas vezes com ela. Im agine, m eu caro! Dançou com ela duas vezes! Foi a única m oça na sala com quem ele repetiu um a dança. Prim eiro dançou com Miss Lucas. Fiquei desapontada, m as no entanto ele não pareceu m uito entusiasm ado com ela. Aliás ninguém o pode...

Mr. Bingley parecia m uito im pressionado com Jane, ao vê-la dançar com outro rapaz. Foi aí que ele perguntou quem era ela, pediu que o apresentassem e solicitou as duas próxim as danças. Depois dançou com Miss King as duas terceiras, com Maria Lucas as duas quartas, as duas quintas com Jane novam ente, as duas sextas afinal com Lizzy e a Boulanger.

— Se ele tivesse tido qualquer espécie de com paixão por m im — exclam ou o m arido, im paciente —, não teria dançado nem sequer a m etade! Pelo am or de Deus, não continue a lista dos pares de Mr. Bingley . Antes ele tivesse torcido o pé na prim eira dança.