Orgulho e Preconceito

Jane Austen · Capítulo 47 de 62

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Orgulho e Preconceito

Capítulo 47

— Mas que farem os com relação a Pem berley ? — exclam ou Mrs. Gardiner. —

John nos contou que Mr. Darcy estava aqui quando você nos m andou cham ar. É

verdade?

— Sim , e eu disse a ele que não poderíam os cum prir os nossos com prom issos.

Ficou tudo com binado.

— Tudo o quê? — repetiu a outra para si m esm a, enquanto corria para o quarto a fim de se preparar. — Será que j á estão em term os tais que ela lhe possa revelar toda a verdade? É isto o que eu desej ava saber.

Mas esses desej os eram todos vãos. No m áxim o poderiam servir para distraí-la durante a confusão dos preparativos apressados. Se Elizabeth tivesse tido tem po diante de si, na aflição em que se encontrava não poderia ter achado nenhum a distração. Ela tam bém tinha a sua parte a fazer nos preparativos. E entre outras coisas, precisava escrever bilhetes para todos os seus am igos em Lam bton, apresentando desculpas pela partida tão repentina. Dentro de um a hora tudo estava pronto; e com o, entrem entes, Mr. Gardiner tivesse pago a conta da hospedaria, nada lhes restava fazer senão partir. E Elizabeth, depois de todas as aflições da m anhã, encontrou-se, m ais cedo do que esperava, instalada na carruagem , e a cam inho de Longbourn.

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— Estive refletindo novam ente sobre o caso — disse Mr. Gardiner, enquanto a carruagem saía da cidade. — E realm ente, pensando bem , estou m uito m ais inclinado do que estava a j ulgar as coisas com o a sua irm ã m ais velha. Parecem e m uito pouco provável que um rapaz qualquer form asse um desígnio desses contra um a m oça que não é de form a algum a desprotegida nem carece de relações, e que além disso residia com a fam ília do coronel do seu regim ento.

Por isto estou fortem ente inclinado a acreditar no m elhor. Poderia ele supor que os am igos dela não interviriam a seu favor? Poderia esperar ser novam ente aceito pelo regim ento depois de um a tal afronta ao coronel Forster? O risco seria m aior do que a tentação.

— Pensa realm ente assim ? — exclam ou Elizabeth, subitam ente esperançosa.

— Dou-lhe a m inha palavra que eu tam bém com eço a ser da opinião do seu tio

— disse Mrs. Gardiner. — Este ato é um a tão grande violação da decência, da honra e do bom senso, que não acho que Wickham sej a capaz de praticá-lo. E

você, Lizzy , será que m udou tanto a respeito de Wickham que agora o j ulgue capaz disto?

— Não o j ulgo capaz talvez de se descuidar dos seus próprios interesses. Mas de todos os dem ais descuidos eu o j ulgo capaz. Se ao m enos eu pudesse acreditar no que vocês acabam de dizer! Mas não ouso esperar. Se isto é verdade, por que não foi para a Escócia?

— Em prim eiro lugar — replicou Mr. Gardiner —, não há prova absoluta de que não tenham ido para a Escócia.

— Oh, m as o fato de eles se terem m udado para um coche de aluguel é um a indicação m uito clara da sua intenção. E além disso não se achou nenhum sinal da sua passagem na estrada de Barnett.

— Bem , suponham os então que eles estej am em Londres. Podem ter ido para lá apenas para se esconder. Não é provável que nenhum dos dois tenha m uito dinheiro. E é j usto que tenham achado m ais econôm ico se casarem em Londres do que na Escócia.

— Mas então por que todo esse m istério? Por que se escondem eles? Por que é que desej am casar secretam ente? Oh, não, isto não é provável. O m ais íntim o am igo de Wickham , com o leram na carta de Jane, está persuadido de que ele nunca teve intenção de se casar com ela. Wickham nunca se casará com um a m ulher que não tenha fortuna. Ele não poderá sustentá-la. E que grandes interesses tem Ly dia, a não ser os encantos da m ocidade, da saúde e um espírito alegre para que ele renuncie por sua causa a um casam ento rico? Quanto à ofensa aos brios do regim ento que esse atentado contra a honra de um a m oça possa produzir, não sei até que ponto isto poderá levá-lo a hesitar, pois não sei tam bém os efeitos que um tal ato possa produzir. Mas quanto à sua outra obj eção,

não creio que tenha m uito peso. Ly dia não tem irm ãos que a possam defender. E

Wickham , que conhece m eu pai, j ulga que, com a sua indolência e com a pouca atenção que parece dar à fam ília, ele pouco faria e pensaria o m enos possível no assunto.

— Mas você acha que Ly dia está tão perdidam ente apaixonada por ele que consinta em viver com um hom em sem serem casados?

— É o que parece, e é bem triste — respondeu Elizabeth, com lágrim as nos olhos. — Ter de pôr em dúvida o senso da decência e da virtude de um a irm ã!

Mas realm ente eu não sei o que dizer. Talvez eu estej a sendo inj usta. Mas Ly dia é m uito m oça, nunca lhe ensinaram a pensar em coisas sérias. E durante os últim os seis m eses, ou m elhor, durante todo o últim o ano, ela nada fez senão se divertir e dar largas à sua vaidade. Deram -lhe a liberdade de dispor do seu tem po da m aneira m ais frívola e inútil e de adotar as opiniões de todos os que encontrava. Desde que o regim ento da m ilícia ficou aquartelado em Mery ton, ela não pensou em outra coisa senão em nam oro, am or e oficiais. Fez tudo o que estava em seu poder para aum entar, com o direi, a sua susceptibilidade aos seus sentim entos, j á por natureza facilm ente inflam áveis. Pensou e conversou sobre isto continuam ente e todos sabem os que Wickham tem todas as qualidades pessoais para cativar um a m ulher.

— Mas você vê — disse a sua tia — que Jane não o j ulga capaz de um tal atentado.

— De quem é que Jane j am ais pensou m al? E qual a pessoa que ela j ulgaria capaz de um tal atentado, quaisquer que fossem os seus antecedentes, até que o fato tivesse ficado provado? Mas Jane sabe tanto quanto eu o que esse Wickham realm ente é. Am bas sabem os que se trata de um dissoluto em todos os sentidos da palavra. Que ele não tem integridade nem honra. Que é tão falso e perigoso com o insinuante.

— E você sabe realm ente disto tudo? — exclam ou Mrs. Gardiner, curiosa.

— Sei realm ente — replicou Elizabeth, corando. — Eu j á lhes contei no outro dia a sua conduta infam e para com Mr. Darcy . E a senhora m esm o, quando esteve em Longbourn na últim a vez, ouviu em que term os falou de um hom em que se m ostrou tão generoso para com ele. Existem outras circunstâncias que não vale a pena m encionar. Mas as suas m entiras a respeito da fam ília de Pem berley são inúm eras. Pelo que ele disse de Miss Darcy , eu j ulgava que ia encontrar um a m oça orgulhosa, fechada, desagradável. No entanto, ele sabia a verdade.

Wickham deve saber que ela é am ável e m odesta.

— Mas Ly dia nada sabe de tudo isto? Será que ignora tudo o que você e Jane parecem com preender tão bem ?

— Oh, sim , isto é que é o pior de tudo. Até eu estar no Kent, e entrar m ais intim am ente em contato com Mr. Darcy e seu prim o, o coronel Fitzwilliam , eu m esm a ignorava a verdade. E quando voltei para casa, soube que o regim ento ia

deixar Mery ton dentro de 15 dias. Por isso, nem eu nem Jane, a quem contei todo o caso, j ulgam os necessário tornar pública a nossa descoberta, pois pensam os que não aproveitaria a ninguém destruir a boa reputação que ele gozava em toda a redondeza. E m esm o quando ficou decidido que Ly dia ia com Mrs. Forster, nunca m e ocorreu a necessidade de abrir os seus olhos quanto ao caráter de Wickham . Nunca j ulguei que ela corresse o risco de ser iludida. E naturalm ente nem de longe im aginava que pudesse sobrevir esta consequência.

— Quando eles partiram para Brighton, você não tinha m otivos para supor então que gostassem um do outro?

— Nem o m ais leve m otivo. Não m e lem bro do m enor sintom a de afeição de nenhum dos lados. E se algum a coisa fosse perceptível, a senhora bem sabe que a nossa fam ília não deixaria passar o fato sem reparar nele. Quando Wickham entrou no regim ento, Ly dia estava disposta a adm irá-lo, m as todas as m oças de Mery ton e das redondezas perderam a cabeça por sua causa durante uns dois m eses. Mas Wickham nunca distinguiu Ly dia com qualquer atenção particular. E

por conseguinte, depois de um curto período de extravagante entusiasm o, esqueceu-se dele, e outros oficiais do regim ento que a tratavam com m ais atenção voltaram a ser os seus favoritos.

* * *

É fácil com preender que durante toda a viagem , conquanto nenhum fato novo os viesse esclarecer acerca dos seus tem ores, esperanças e conj eturas, nenhum outro tópico os poderia desviar m uito tem po daquele im portante assunto.

Elizabeth pensava nele continuam ente. A m ais aguda de todas as angústias, o rem orso, a im pedia de encontrar um só m inuto de descanso.

Viaj aram o m ais rapidam ente possível. E dorm indo um a noite na estrada, alcançaram Longbourn no dia seguinte, à hora do j antar. Foi um consolo para Elizabeth saber que, pelo m enos, Jane não tinha esperado m uito tem po. Quando a carruagem entrou no j ardim e se aproxim ou da porta da casa, todos os pequenos Gardiner, atraídos pelo rum or, vieram se colocar nos degraus da escada. E

quando o carro parou, m anifestaram a sua alegria com m uitos pulos e piruetas.

Elizabeth saltou. E depois de dar a cada um deles um rápido beij o, correu para o vestíbulo, onde se encontrou com Jane que estava no quarto da sua m ãe e que tinha descido apressadam ente a escada. Abraçaram -se afetuosam ente, com lágrim as nos olhos. Elizabeth, sem perder um só instante, perguntou se tinham sabido algum a coisa dos fugitivos.

— Ainda não — replicou Jane. — Mas agora que o nosso caro tio chegou, espero que tudo irá m elhor.

— Papai está em Londres?

— Está, ele foi na terça-feira, conform e escrevi.

— Já tiveram notícias suas?

— Sim , escreveu um a vez. Escreveu-m e um as linhas na quarta-feira, dizendo que tinha chegado bem e dando o seu endereço, coisa que eu tinha pedido a ele particularm ente. Acrescentou tam bém que não escreveria m ais até que tivesse um a coisa im portante a com unicar.

— E m am ãe, com o está ela? Com o vão todos?

— Mam ãe vai regularm ente, em bora estej a m uito deprim ida. Ela está lá em cim a e teria m uito prazer em vê-los todos. Não sai ainda do quarto. Mary e Kitty , graças a Deus, vão m uito bem .

— E você, com o vai você? — exclam ou Elizabeth. — Parece pálida! Por quanta aflição não deve ter passado!

Jane, entretanto, perseverou na afirm ação de que estava perfeitam ente bem . A conversa foi interrom pida pela entrada de Mr. e Mrs. Gardiner, que até aquele m om ento tinham estado com as crianças. Jane correu para os seus tios e os abraçou, agradecendo a am bos com sorrisos e lágrim as. Depois entraram todos na sala. As perguntas que Elizabeth j á tinha feito foram naturalm ente repetidas pelos outros. Porém , ficaram logo sabendo que Jane não tinha nenhum a notícia a dar.

No entanto, devido ao seu caráter indulgente, Jane ainda não perdera todas as esperanças. Ainda acreditava que tudo acabasse bem , e que um a m anhã destas chegaria um a carta, de Ly dia ou de seu pai, explicando o procedim ento dos fugitivos e anunciando talvez o seu casam ento. Em seguida foram todos ao quarto de Mrs. Bennet, que os recebeu exatam ente com o era de esperar. Com lágrim as, lam entações, invectivas contra a conduta infam e de Wick ham , queixas pelos padecim entos que lhe infligiam , acusava a todo o m undo, esquecendo-se de que fora ela própria, com a sua insensata indulgência, a causadora principal do que acontecera à filha.

— Se m e tivessem feito a vontade — disse ela —, se eu tivesse ido tam bém para Brighton, com toda a fam ília, isto não teria acontecido. Mas a m inha pobre Ly dia não tinha ninguém para tom ar conta dela. Por que é que os Forster a deixaram fora das suas vistas? Estou certa de que houve um grave descuido da parte deles, pois Ly dia não seria capaz de fazer isto se alguém tivesse olhado por ela. Sem pre pensei que eles não serviam para tom ar conta de m inha filha. Mas com o sem pre, ninguém ouviu a m inha opinião. Minha pobre filhinha... E agora lá se foi Mr.

Bennet. Eu sei que ele vai se bater em duelo com Wickham , quando o encontrar, e na certa será m orto. Que é que vai ser de nós depois? Os Collins vão nos expulsar daqui antes do corpo ficar frio. E se você não for bom para nós, m eu irm ão, não sei o que será.

Todos protestaram contra ideias tão sinistras. E Mr. Gardiner, depois de tranquilizá-la quanto à afeição que sentia por ela e pela sua fam ília, disse que tencionava partir para Londres no dia seguinte, a fim de auxiliar Mr. Bennet nas suas tentativas para encontrar Ly dia.

— Não se entregue a receios exagerados. É preciso estar preparada para o pior, m as não há m otivo para acreditar que isto sej a certo. Ainda não faz um a sem ana que saíram de Brighton. Daqui a poucos dias devem os ter notícias deles. E até que saibam os positivam ente que não estão casados e que não têm intenção de casar, ainda não podem os considerar tudo perdido. Assim que eu chegar a Londres, irei ver o seu m arido e o trarei com igo para Gracechurch Street e aí com binarem os o que deve ser feito.

— Oh, m eu caro irm ão — replicou Mrs. Bennet —, isto é exatam ente o que eu m ais desej o. E quando chegar a Londres, faça tudo para encontrar m inha filha, onde quer que estej a. E se eles não estiverem casados, faça com que se casem .

Quanto ao enxoval, diga que não precisam esperar. Diga a Ly dia que ela terá todo o dinheiro que quiser para com prá-lo depois que se casar. E sobretudo não deixe Mr. Bennet brigar com Mr. Wickham . Conte a ele o estado em que estou.

Fale que m e acho horrivelm ente assustada, e tenho trem ores por todo o corpo, horríveis dores no lado, na cabeça, e tantas palpitações que não posso descansar nem de dia nem de noite. E diga à m inha querida Ly dia que não tom e providências a respeito das roupas até que m e tenha visto, pois ela não sabe quais são as m elhores loj as. Oh, m eu irm ão, com o você é bonzinho, bem sei que vai arranj ar tudo!

Mr. Gardiner, em bora lhe assegurasse que faria todos os esforços possíveis, não pôde deixar de lhe recom endar m oderação, tanto para as suas esperanças com o para os seus receios. E conversou com ela neste tom até a hora do j antar. Em seguida deixaram -na aos cuidados da criada, que tratava dela na ausência das filhas.

Em bora Mr. e Mrs. Gardiner estivessem persuadidos de que não havia m otivo para um a tal reclusão, acharam m elhor não se opor, pois sabiam que ela não tinha prudência suficiente para calar a boca diante dos criados. Era preferível que um a das criadas apenas, aquela em quem m ais confiavam , ficasse sabendo de todas as suas m ágoas e tem ores.

Na sala de j antar, Mary e Kitty , que tinham estado ocupadas nos seus respectivos quartos e não tinham aparecido m ais cedo, se reuniram afinal aos outros. Um a vinha dos seus livros e a outra da sua toalete. Os rostos de am bas, no entanto, estavam bastante calm os. Apenas Kitty se m ostrava m ais irritada do que de costum e, m as não se sabia se era por causa da perda da sua irm ã favorita ou da raiva que sentia por estar envolvida no acontecim ento. Quanto à Mary , seu dom ínio sobre si m esm a era perfeito. E com o rosto m uito grave ela sussurrou para Elizabeth, pouco depois de se sentar à m esa:

— Isto é um acontecim ento bem desagradável. E provavelm ente será m uito com entado. Mas nós devem os nos opor à m aré de m aledicência, e derram ar sobre os nossos corações feridos o bálsam o dos consolos fraternais.

Em seguida, vendo que Elizabeth não estava disposta a responder, acrescentou:

— Por infeliz que tenha sido Ly dia, podem os tirar disto um a lição útil. Que a perda da virtude num a m ulher é irrem issível. Que um só passo falso acarreta um a série de desgraças sem fim e que a sua reputação não é m enos frágil do que a sua beleza. Que um a m ulher nunca pode ser cautelosa dem ais para com as pessoas do outro sexo, especialm ente as que não m erecem a sua confiança. Elizabeth levantou os olhos atônitos. Sentia-se oprim ida dem ais para responder.

Mary , porém , continuou a se consolar extraindo m áxim as m orais da infelicidade de sua irm ã.

De tarde as duas m ais velhas conseguiram ficar m eia hora sozinhas; e Elizabeth im ediatam ente aproveitou esta oportunidade para pedir que Jane lhe contasse outros detalhes do acontecim ento. Jane estava igualm ente ansiosa para conversar sobre o assunto. Prim eiro, as duas lam entaram as terríveis consequências daquele fato. Conse quências que Elizabeth considerava m uito graves. Jane não podia afirm ar que os prognósticos de sua irm ã fossem de todo im possíveis. Em seguida Elizabeth prosseguiu no assunto, dizendo:

— Conte-m e tudo o que eu ainda não sei. Dê-m e outros detalhes. Que foi que o coronel Forster disse? Eles desconfiavam de algum a coisa antes da fuga? Devem ter visto os dois frequentem ente j untos.

— O coronel Forster confessou que m uitas vezes desconfiava que havia algum a coisa. Especialm ente do lado de Ly dia. Mas nunca se passou nada que inspirasse alarm e. Eu sinto m uito por ele. Mostrou-se extrem am ente atencioso e bom .

Resolvera vir até cá para nos com unicar as suas preocupações, m esm o antes de saber que eles não tinham ido para a Escócia. Os rum ores que com eçaram a circular apressaram a sua partida.

— E Denny estava convencido que Wickham não ia se casar? Sabia que eles pretendiam fugir? O coronel Forster falou com Denny pessoalm ente?

— Falou. Mas, interrogado pelo coronel, Denny negou que soubesse algum a coisa a respeito do plano. E não quis dar a sua verdadeira opinião. Ele não repetiu que estava convencido de que não se casaria. E por isto tenho esperanças de que tenham entendido m al as suas palavras anteriorm ente.

— E até o coronel Forster chegar, nenhum a de vocês teve algum a suspeita de que não estivessem realm ente casados?

— Com o é que um a tal ideia nos poderia passar pela cabeça? Eu m e senti um pouco tem erosa quanto à felicidade de m inha irm ã com aquele casam ento, pois sabia que a conduta dele não fora sem pre das m elhores. Papai e m am ãe nada sabiam a respeito dos antecedentes do rapaz, e sentiam apenas que aquele casam ento era im prudente.

Kitty então confessou, triunfante, que sabia m ais do que nós. Que Ly dia, na sua últim a carta, lhe deixara entrever as suas intenções. Parece que há m uitas sem anas ela j á sabia que os dois estavam apaixonados.

— Mas sabia disto antes de partirem para Brighton?

— Não, creio que não.

— E o coronel Forster m ostrou que desconfiava de Wickham ? Ele conhece o seu verdadeiro caráter?

— Devo confessar que não falou tão bem de Wickham com o antigam ente o fazia. Disse que o achava im prudente e extravagante. E depois desta triste história, soube-se que ele saiu de Mery ton m uito endividado. Mas espero que isto sej a falso.

— Oh, Jane, se nós não tivéssem os sido tão discretas, se tivéssem os dito o que sabíam os a respeito dele, isto não teria acontecido!

— Talvez tivesse sido m elhor — replicou Jane. — Mas não parecia j usto denunciar os erros passados de um a pessoa, sem saber quais eram os seus sentim entos naquele m om ento. Agim os com a m elhor das intenções.

— E o coronel Forster sabia os term os da carta de Ly dia para a sua m ulher?

— Ele a trouxe consigo.

Jane então tirou a carta da bolsa e deu-a a Elizabeth. A carta era a seguinte: Minha cara Harriet: você há de rir bastante quando souber que eu fugi, e eu não posso deixar de rir tam bém , com a surpresa que você terá am anhã de m anhã quando der pela m inha falta. Vou para Gretna Green. E se você não adivinhar com quem , é um a grande tola. Só existe um hom em no m undo que eu am o e ele é um anj o. Nunca poderia ser feliz sem ele, por isso acho que não faço m al em partir. Não precisa escrever para Longbourn com unicando a m inha partida se você não quiser, pois isto tornará apenas m aior a surpresa quando eu escrever para casa e assinar o m eu nom e: Ly dia Wickham . Há de ser um a boa piada.

Quase não posso escrever de tanto rir. Transm ita as m inhas escusas a Pratt por não poder cum prir a m inha palavra e dançar com ele hoj e à noite. Diga-lhe que eu espero que m e perdoe quando souber o m otivo e que eu terei o m aior prazer em dançar com ele no próxim o baile em que nos encontrarm os. Mandarei buscar as m inhas roupas quando chegar a Longbourn; m as queria que você dissesse a Sally para costurar um rasgão no m eu vestido de m ousseline usado, antes de pôr as coisas na m ala. Até breve. Minhas lem branças para o coronel Forster. Espero que bebam à nossa saúde, desej ando que façam os um a boa viagem . Sua am iga afetuosa.

Ly dia Bennet.

— Oh, que desm iolada! — exclam ou Elizabeth, depois de ler a carta. —

Escrever um a carta destas num tal m om ento... Pelo m enos m ostra que tinha intenções sérias. Não sei se depois ele a persuadiu a fazer outra coisa, m as pelo m enos, da sua parte, a infâm ia não foi prem editada. Pobre papai, com o ele deve ter sofrido!

— Nunca vi ninguém ficar tão abalado. Durante bem uns dez m inutos ele não pôde dizer nenhum a palavra. Mam ãe caiu doente im ediatam ente e a casa toda

ficou na m aior confusão.

— Oh, Jane — exclam ou Elizabeth —, você acha que um só criado nesta casa não tenha ficado sabendo da história, naquele m esm o dia?

— Não sei, espero que sim . Mas é m uito difícil ser discreta num a ocasião destas.

Mam ãe ficou transtornada. E em bora eu procurasse auxiliá-la da m elhor m aneira, j ulgo que não fiz tanto quanto devia ter feito. Mas o horror do que poderia acontecer quase m e privou do uso das m inhas faculdades.

— Os seus cuidados foram dem asiados. Você não m e parece estar m uito bem de saúde. Antes eu tivesse ficado a seu lado. Você teve de suportar tudo sozinha...

— Mary e Kitty foram m uito prestativas. E estou certa de que teriam com partilhado das m inhas fadigas de boa vontade, m as achei que não convinha a nenhum a das duas. Kitty é m uito sensível e Mary estuda tanto que as suas horas de repouso não devem ser interrom pidas. Minha tia Philips veio na terça-feira, depois que papai foi em bora. E teve a bondade de ficar até quinta com igo. O seu auxilio nos foi precioso. E Lady Lucas tam bém tem sido m uito delicada. Ela veio até aqui, a pé, na quarta-feira de m anhã, para exprim ir os seus sentim entos e oferecer os seus serviços e os de qualquer um a das suas filhas, caso tivéssem os necessidade.

— Seria m elhor que ela tivesse ficado em casa — exclam ou Elizabeth —; talvez a intenção tenha sido boa, m as num a situação com o esta deve-se ver os vizinhos o m enos possível. Qualquer auxilio é im possível. Tais m anifestações são insuportáveis. Que elas triunfem à distância e se deem por satisfeitas.