Orgulho e Preconceito

Jane Austen · Capítulo 59 de 62

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Orgulho e Preconceito

Capítulo 59

— Acreditou. Bingley é de um a extraordinária m odéstia. Foi o que o im pediu de confiar no seu próprio j ulgam ento, m as a confiança que ele tem em m im tornou tudo fácil. Fui obrigado a confessar um a coisa que o fez ficar ofendido com igo durante alguns dias. Não pude deixar de dizer que eu sabia que a sua irm ã tinha estado em Londres durante três m eses no inverno passado e que eu propositadam ente escondera este fato dele. Ficou zangado, m as estou persuadido de que a sua cólera durou apenas enquanto tinha dúvidas acerca dos sentim entos da sua irm ã. Ele agora m e perdoou de todo o coração.

Elizabeth teve vontade de observar que Mr. Bingley tinha sido um am igo encantador. Sendo ele, com o era, tão fácil de conduzir, possuía com o am igo um valor inestim ável. No entanto ela se conteve porque lem brou que Darcy ainda não aprendera a ser m enos susceptível. Era ainda cedo para com eçar. Darcy continuou a falar sobre a felicidade que antecipava para Bingley , e que seria apenas m enor do que a sua, até que chegaram em casa. No hall eles se separaram .

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— Querida Lizzy , onde é que você tem andado? — Tal foi a pergunta que Elizabeth recebeu de Jane, assim que entrou na sala. E a m esm a pergunta lhe foi dirigida por todas as pessoas, antes de se sentarem à m esa. Ela disse apenas que tinha se distraído e cam inhado m ais longe do que esperava. E em bora ela corasse ao dizer estas palavras, ninguém suspeitou da verdade.

A tarde passou calm am ente sem que nada de extraordinário ocorresse. Os noivos oficiais falaram e riram . Os não oficiais ficaram calados. Darcy não era dessas pessoas em que a felicidade transborda em alegria; Elizabeth, agitada e confusa, tinha consciência da sua felicidade m as não a sentia propriam ente. Além dos obstáculos im ediatos ainda existiam outros à sua frente. Ela antecipava as reações da sua fam ília quando soubesse da sua decisão. Tem ia m esm o que a antipatia dos outros fosse de tal ordem que nem toda a fortuna e im portância de Darcy a poderiam dissipar.

À noite ela abriu o seu coração para Jane. Em bora Jane fosse um a pessoa m uito pouco desconfiada, dessa vez Elizabeth esbarrou com a sua incredulidade.

— Você está brincando, Lizzy . Não pode ser! Noiva de Mr. Darcy ! Não, não, você não m e engana! Eu sei que é im possível!

— Este com eço não é de fato m uito anim ador. A única pessoa com quem eu contava era você. E se você não acreditar, sei que ninguém m ais o fará! Sim , de fato eu falo seriam ente. Digo apenas a verdade. Ele ainda m e am a e estam os noivos.

Jane olhou para ela, incredulam ente.

— Oh, Lizzy , não pode ser! Bem sei com o você o detesta...

— Você não sabe coisa algum a. Aquilo está tudo esquecido. Talvez eu não o am asse antigam ente tanto com o agora, m as em casos com o este a boa m em ória é um fato im perdoável. Esta é a últim a vez que recordo estas coisas.

Jane continuava atônita. Elizabeth tornou a lhe assegurar com a m aior seriedade que estava falando a verdade.

— Será possível?! Mas agora tenho de acreditar no que diz! — exclam ou Jane. —

Minha querida, querida Lizzy ! Eu a felicito. Mas você tem certeza? Perdoe a m inha pergunta, você tem certeza de que pode ser feliz com ele?

— Quanto a isto não pode haver a m enor dúvida. Ficou decidido entre nós que serem os o casal m ais feliz do m undo. Mas você está contente, Jane? Você gostará de tê-lo com o irm ão?

— Muito m esm o. Nada poderia causar m ais prazer a Bingley e a m im . Nós até j á conversam os sobre isto e acham os que era im possível. E você realm ente gosta dele? Oh, Lizzy , prefira tudo a se casar sem afeição. Você tem certeza de que o am a com o deve?

— Oh, sim . Quando eu lhe contar tudo você até achará que a m inha afeição

excede os lim ites.

— Que é que você quer dizer?

— Ora, eu tenho que confessar que o am o m ais do que a Bingley . Você vai ficar zangada?

— Minha querida irm ã, fale seriam ente: quero conversar com você m uito a sério. Conte-m e im ediatam ente tudo o que você acha que eu devo saber. Há quanto tem po você gosta dele?

— Isto aconteceu tão gradualm ente que eu nem sei com o com eçou. Mas acredito que a m inha afeição data da prim eira vez em que vi o belo parque de Pem berley .

Seguiu-se outra súplica para que ela falasse seriam ente. Desta vez o pedido obteve o efeito desej ado. E Elizabeth deu à sua irm ã as m ais solenes garantias da sua afeição por Darcy . Tranquilizada quanto a este ponto, Jane ficou satisfeita.

— Agora sinto-m e contente — disse ela. — Pois você será tão feliz quanto eu.

Sem pre o apreciei m uito. Bastava aliás o am or dele por você para fazer com que eu o estim asse para sem pre, m as agora, com o am igo de Bingley e seu m arido, só Bingley e você m esm a terão precedência na m inha afeição. Mas Lizzy , você foi m uito sonsa, m uito reservada com igo. Você não m e contou quase nada do que aconteceu em Pem berley e em Lam bton. Devo tudo o que sei a outra pessoa.

Elizabeth lhe explicou por que tinha guardado segredo. Não quisera falar no nom e de Bingley . E a incerteza dos seus próprios sentim entos fazia com que ela evitasse falar no nom e de Darcy . Mas agora Elizabeth não podia esconder por m ais tem po da sua irm ã a participação de Darcy no caso de Ly dia. Contou tudo.

Passaram m etade da noite em conversa.

* * *

— Arre — exclam ou Mrs. Bennet ao se aproxim ar da j anela na m anhã seguinte.

— Não é que aquele hom em desagradável j á vem aí com o nosso querido Bingley ? Que desej a ele, com essas visitas contínuas? Não vê que nos im portuna?

Por que não vai caçar ou fazer outra coisa em vez de nos im pingir a sua com panhia? Que farem os com ele? Lizzy , é m elhor você ir passear novam ente com ele, para que não se m eta no cam inho de Bingley .

Elizabeth não pôde deixar de rir diante de proposta tão conveniente. No entanto ela estava realm ente contrariada com aquelas m anifestações de sua m ãe.

Assim que entrou, Bingley olhou para Elizabeth tão significativam ente e lhe apertou as m ãos com tanto calor que não podia haver dúvida de que estivesse bem -inform ado. E pouco depois ele disse, em voz alta:

— Mrs. Bennet, a senhora não tem no seu parque outros cam inhos em que Lizzy possa se perder?

— Aconselho Mr. Darcy , Lizzy e Kitty — disse Mrs. Bennet — a darem um passeio até Oakham Mount. É um belo e longo passeio e Mr. Darcy nunca apreciou a vista.

— Está m uito bem para os outros — replicou Mr. Bingley —, m as estou certo que é longe dem ais para Kitty . Não é, Kitty ?

Kitty confessou que preferia ficar em casa. Darcy declarou que estava m uito curioso para ver o lugar, e Elizabeth consentiu, em silêncio. Enquanto subia as escadas para ir se aprontar, Mrs. Bennet a acom panhou, dizendo:

— Sinto m uito, Lizzy , que você tenha de fazer com panhia àquele hom em tão desagradável. Mas espero que você não faça caso. É para o bem de Jane, você sabe... E depois, não precisa conversar m uito com ele. Só de vez em quando.

Portanto, não se dê m uito trabalho.

Durante o passeio ficou resolvido que o consentim ento de Mr. Bennet seria solicitado naquela m esm a noite. Elizabeth se encarregou de falar com a sua m ãe.

Não sabia com o Mrs. Bennet receberia aquela com unicação. E às vezes ela duvidava de que toda a fortuna e im portância de Darcy fossem suficientes para vencer a antipatia que sua m ãe tinha por ele. Mas quer Mrs. Bennet se declarasse violentam ente contra o casam ento, ou violentam ente a favor, Elizabeth estava certa de que a sua atitude seria pouco conveniente e sensata. E Elizabeth não poderia tolerar que Mr. Darcy ouvisse as prim eiras m anifestações da sua alegria ou a prim eira veem ência da sua desaprovação.

* * *

À noite, pouco depois de Mr. Bennet se levantar da m esa e entrar na sua biblioteca, Elizabeth viu Mr. Darcy se levantar igualm ente e acom panhá-lo.

Naquele m om ento a sua agitação foi extrem a. Ela não receava a oposição de seu pai. Mas tinha certeza de que isto ia desgostá-lo. E a ideia de que ela, a sua filha favorita, lhe causaria um a grande decepção com a sua escolha, enchendo-o de preocupação quanto ao seu futuro, fez com que ela ficasse angustiada e aflita até que Mr. Darcy tornou a aparecer. O sorriso que ele teve, ao vê-la, aliviou-a um pouco. Poucos m inutos depois ele se aproxim ou da m esa onde Elizabeth estava sentada com Kitty e, fingindo adm irar o trabalho que ela fazia, sussurrou ao seu ouvido:

— Vá à biblioteca. Seu pai quer falar com você.

Elizabeth partiu im ediatam ente.

Mr. Bennet cam inhava de um lado para outro na biblioteca, e sua expressão era grave e ansiosa.

— Lizzy — disse ele —, que é que você está fazendo? Você está no seu j uízo perfeito aceitando este hom em ? Você não o odiava?

Naquele m om ento Elizabeth desej ou ardentem ente que seu pai tivesse exprim ido as suas opiniões m ais m oderadam ente. Isto lhe teria poupado explicações em baraçosas. Mas agora era preciso falar. E Elizabeth lhe assegurou, um tanto

confusa, que tinha afeição por Mr. Darcy .

— Ou, em outras palavras, você está decidida a se casar com ele. Ele é rico, certam ente, e você pode ter roupas e carruagens ainda m ais belas do que as de Jane. Mas você será feliz?

— O senhor tem outra obj eção a não ser a sua suposição de que eu lhe sej a indiferente?

— Nenhum a. Todos sabem os que ele é um hom em orgulhoso e desagradável.

Mas isto não teria im portância se você realm ente o am asse.

— Eu o am o — replicou Elizabeth, com lágrim as nos olhos —, eu o am o sinceram ente. Asseguro-lhe que ele não tem nenhum orgulho inj ustificado. É um hom em m uito bom . O senhor, na realidade, não o conhece. Portanto, não m e m agoe falando nestes term os a seu respeito.

— Lizzy — respondeu Mr. Bennet —, eu j á dei o m eu consentim ento. Ele é realm ente um desses hom ens a quem eu nunca recusaria algum a coisa que ele condescendesse em pedir. E agora torno a lhe dar o m eu consentim ento, se a isto está decidida. Mas eu a aconselho a pensar m elhor. Conheço o seu gênio, Lizzy , penso que j am ais você seria feliz e equilibrada a não ser que estim e realm ente o seu m arido, a não ser que possa considerá-lo com o o seu superior. Sua vivacidade e inteligência a colocariam num a situação de grande perigo num casam ento desigual. Ser-lhe-ia difícil salvar a sua reputação e a sua felicidade.

Minha filha, não m e dê o desgosto de vê-la im possibilitada de respeitar o seu com panheiro de vida. Você não sabe a seriedade do passo que está dando.

Elizabeth, ainda m ais em ocionada, respondeu solene e gravem ente. E afinal, afirm ando repetidam ente que Mr. Darcy era realm ente o hom em que ela tinha escolhido, explicando-lhe a m udança gradual por que tinha passado a sua estim a por ele, relatando a absoluta certeza que tinha da sua afeição, que não era um a coisa de m om ento, m as tinha resistido à experiência de m uitos m eses de incerteza, enum erando com energia todas as qualidades do seu futuro m arido, ela acabou convencendo o pai e reconciliando-o com a ideia do casam ento.

— Bem , m inha querida — disse ele quando Elizabeth acabou de falar. — Nada m ais tenho a dizer. Se este é o caso, ele a m erece. Eu não m e poderia separar de você, m inha querida Lizzy , entregando-a a alguém que fosse m enos digno da sua estim a.

Para com pletar a im pressão favorável do seu pai, ela então lhe relatou o que Mr.

Darcy tinha feito voluntariam ente por Ly dia. Ele a ouviu com grande espanto.

— Realm ente, esta é um a noite de surpresas. Então Darcy fez tudo! arranj ou o casam ento, deu dinheiro, pagou as dívidas do rapaz e lhe arranj ou um posto?

Tanto m elhor. Poupa-m e inúm eros incôm odos e grande som a de dinheiro. Se tudo tivesse sido feito por seu tio, ficaria na obrigação de lhe pagar e de fato lhe pagaria. Mas estes j ovens violentam ente apaixonados fazem tudo de acordo com a sua vontade. Am anhã lhe proporei pagam ento. Ele protestará furiosam ente,

alegando o seu am or por você e assim acabará a história.

Mr. Bennet se lem brou então do em baraço com que Elizabeth ouvira poucos dias antes a leitura da carta de Mr. Collins; e depois de caçoar com ela durante algum tem po, deixou-a partir, dizendo, ao vê-la sair da sala:

— Se chegarem rapazes para Mary ou Kitty , pode m andar entrar, pois não tenho nada que fazer.

Elizabeth se sentiu aliviada de um grande peso. E depois de refletir calm am ente no seu quarto durante m eia hora, voltou para j unto dos outros com o rosto tranquilo. Tudo aquilo ainda era m uito recente para que a sua alegria transbordasse. A noite passou tranquilam ente. Não havia m ais nada a tem er e a calm a voltaria aos poucos.

Quando a sua m ãe subiu para o quarto, Elizabeth a acom panhou e fez a im portante com unicação. O efeito foi extraordinário, pois ao ouvi-la Mrs. Bennet perm aneceu com pletam ente im óvel, incapaz de dizer um a só palavra. Só depois de m uitos e m uitos m inutos ela pôde com preender o que tinha ouvido, em bora estivesse sem pre atenta a tudo o que redundasse em proveito para a fam ília, ou que se apresentasse sob o aspecto de um noivo para qualquer um a das suas filhas.

Finalm ente ela com eçou a voltar a si, a se m exer na cadeira; levantou-se, tornou a sentar, abriu a boca, persignou-se:

— Meu Deus do céu! Deus m e abençoe! Im agine! Ora essa! Mr. Darcy ! Quem poderia supor? É verdade m esm o? Oh, m inha querida Lizzy ! Com o você será rica e im portante! Que m esadas, que j oias, que carruagens você terá! O

casam ento de Jane não é nada em com paração com o seu! Estou tão feliz, tão contente! Um hom em tão encantador! Tão bonito! Tão alto! Oh, m inha querida Lizzy ! Perdoe-m e por ter antipatizado com ele no princípio! Espero que ele m e perdoará. Minha querida Lizzy ... Um a casa em Londres! Tudo o que há de m elhor! Três filhas casadas! Dez m il libras por ano! Meu Deus do céu, que será de m im ? Vou ficar louca...

Essas exclam ações eram suficientes para m ostrar a Elizabeth que não precisava duvidar da aprovação de sua m ãe. E congratulando-se por ser a única testem unha daquela efusão, Elizabeth se retirou para o seu próprio quarto. Três m inutos depois Mrs. Bennet apareceu.

— Minha querida filha — exclam ou ela —, não posso pensar noutra coisa. Dez m il libras por ano e provavelm ente m ais! É com o se fosse um lord! E vocês se casarão com um a licença especial. Faço questão de um a licença especial. Mas, m eu bem , diga-m e qual é o prato que Mr. Darcy prefere. Eu o farei am anhã.

Isto era um triste prenúncio do que poderia ser o com portam ento da sua m ãe para com o seu noivo. E Elizabeth descobriu que, em bora de posse do m ais caloroso dos afetos e tranquila quanto ao consentim ento dos pais, havia ainda algum a coisa a desej ar. Mas o dia seguinte passou m uito m elhor do que tinha esperado. Mrs. Bennet, por sorte, tinha tanto respeito por seu futuro genro, que só

se atreveu a lhe dirigir a palavra para lhe dizer algum a am abilidade ou m anifestar a deferência que sentia pelas suas opiniões. Elizabeth teve a satisfação de ver seu pai fazer esforços para entrar em com unicação com Darcy . Mr. Bennet lhe assegurou que a sua estim a por ele crescia a cada m om ento.