Os Mistérios do Castelo de Udolfo
VI. Supremo Adeus
VI
Supremo Adeus
Despertada pelo barulho que partia de fora, Emília reconheceu a voz de Miguel que falava aos animais. Levantou–se, preparou–se e foi ter com o pai que já estava pronto também, mas mais enfraquecido do que aliviado com a noite febril. Auxiliou–o a descer para a sala, em baixo, onde na véspera haviam ceado e onde os seus hospedeiros já os esperavam com o almoço.
Inquieta com o estado do pai, Emília pediu–lhe para adiar a partida. Saint–Aubert, porém, ansioso por se encontrar em casa, insistiu, afirmando que havia muito tempo não se encontrava tão bem disposto e a viagem se tornaria mais fácil com a frescura matinal.
Mas quando, já pronto para partir, agradecia ao seu hospedeiro, Emília viu–o empalidecer, vacilar e cair sobre uma cadeira, antes de ter tempo para o amparar. Sentiu–se tão mal que, pondo de parte toda a ideia de partir, pediu para o levarem para o quarto e auxiliarem–no a deitar–se.
Quando se acomodou, mandou chamar a filha, que entrou no quarto, simulando serenidade, e pediu para os deixarem sozinhos. Pegou–lhe na mão e olhou–a com tanta ternura que a firmeza de Emília a abandonou e começou a chorar. Ele próprio se sentia sufocado pelas lágrimas. Por fim, conseguiu falar.
— Minha filha — disse — os minutos são preciosos e escassos para o que tenho a dizer–te. Gostaria de poder mascarar a triste realidade, mas não posso. Vou morrer. Encaremos o cruel momento e preparemo–nos para a separação.
Como se pela primeira vez tomasse consciência do perigo que ameaçava o pai, Emília fitou–o com indescritível aflição e desmaiou. Aos gritos de Saint–Aubert acudiram Voisin e a mulher, que prodigalizaram todos os cuidados à pobre menina. Por seu lado, Saint–Aubert sentia–se tão fraco que nem tinha forças para falar. Pediu um cordial e depois ficou de novo sozinho com a filha.
— Coragem, Emília — exortou — conformemo–nos com a vontade de Aquele que sempre nos protegeu e amparou. Não chores. A morte não tem nada de surpreendente, pois todos nós sabemos que temos de morrer, nem de terrível para aqueles que confiam em Deus.
Calou–se uns momentos e, vendo a filha mais calma, continuou:
— Escuta–me com atenção, minha filha, pois não podemos dispor de muito tempo. Vou revelar–te um segredo de grande importância e exigir–te uma promessa, antes de te fazer conhecer o principal motivo desta conversa. Jura–me que executarás, fielmente, o que vou ordenar–te.
Emília, subjugada com o tom solene do pai, fez o juramento exigido.
— Conheço–te bem para recear que faltes à tua promessa — continuou o moribundo — Vou dizer– te do que se trata. Conheces o gabinete contíguo ao meu quarto, no nosso castelo do Vale. Existe aí uma espécie de alçapão, encoberto com uma tábua do chão, a ante penúltima em face da porta. Perto da janela verás uma fenda, como se a tábua tivesse sido substituída. Carrega nessa linha e, quando ela ceder, facilmente, a farás deslizar sob a tábua vizinha...
Parou um instante para descansar e depois insistiu, olhando para Emília:
— Entendes o que te digo?
Emília confirmou com a cabeça.
— Quando voltares para casa. ..
E calou–se, esmagado pela emoção, enquanto a filha cobria o rosto com as mãos.
— Quando voltares para casa — repetiu — vai sozinha ao meu gabinete. No esconderijo que te revelei encontrarás um maço de papéis ... Agora presta bem atenção, pois é este o juramento que te exigi... Queimarás esses papéis sem os ler, sem olhar para eles... É esta a minha vontade, o meu último desejo. Se pudesse explicar–te a razão deste pedido, o teu juramento seria inútil. Basta dizer–te que o seu cumprimento é de extrema importância... No mesmo sítio encontrarás duzentos dobrões metidos numa bolsa de seda. Agora resta–me fazer–te outro pedido. Nunca, seja qual for a tua situação, vendas o Vale, e desejo que, se casares, fique estipulado no contrato de casamento que o castelo nunca deixará de pertencer–te.
Em seguida, deu–lhe mais pormenores sobre a sua fortuna. — Os duzentos dobrões e o dinheiro que encontrarás na minha bolsa é tudo quanto posso deixar–te. Ficas pobre, mas não na miséria.
Emília não conseguia responder–lhe. De joelhos junto do leito, limitava–se a chorar.
Depois desta conversa, Saint–Aubert ficou mais calmo, mas, esgotado pelo esforço dispendido, caiu em profundo abatimento. Emília continuou a velar à sua cabeceira até que leve pancada na porta interrompeu a sua meditação. Era Voisin, para lhe dizer que um frade do convento próximo se encontrava ali a fim de assistir aos últimos momentos do pai. A pobre rapariga esperou que o pai saísse daquela sonolência para lhe perguntar se desejava um confessor. Como ele lhe dissesse que sim, com a cabeça, mandou entrar o frade e saiu do quarto. Decorrida meia hora, voltou a entrar e, com Voisin e a filha, ajoelhou, enquanto o padre lia a oração dos agonizantes.
Quando a triste cerimónia acabou, Saint–Aubert chamou Voisin com um gesto, estendeu–lhe a mão e murmurou com voz extinta:
— Meu amigo, conhecemo–nos há pouco tempo, mas esse bastou para me revelar a bondade do seu coração. Quando eu morrer, peço–lhe para velar por minha filha. Confio–a aos seus cuidados durante o pouco tempo que permanecer aqui. O senhor é pai, deve compreender o que sinto.
Voisin prometeu–lhe que olharia pela filha e que, se o desejasse, a acompanharia à Gasgonha. O oferecimento sensibilizou o moribundo que, como não pudesse já falar, se limitou a agradecer com um aperto de mão. Depois de descansar um pouco, chamou a filha e falou–lhe de madame Chéron. — Temos tido pouca convivência, mas é a única parente que te resta. Julguei conveniente, como poderás verificar pelo meu testamento, entregar–te à sua proteção até à tua maioridade. Não é, precisamente, a pessoa a quem desejaria confiar–te, mas não tinha por onde escolher e, no fundo, não é má. Faz o possível por conciliar as suas simpatias.
Emília afirmou que todas as recomendações do pai seriam cumpridas religiosamente.
— Será essa — exclamou soluçando — a minha única consolação.
Saint–Aubert calou–se. Pouco a pouco, o olhar enevoou–se–lhe, a palidez espalhou–se–lhe pelas faces e um frio de morte lhe tomou os membros. Estendeu a mão para abençoar a filha e a cabeça recaiu– lhe na almofada. Emília apertou contra si a cabeça querida, beijou os lábios já frios e recebeu nesse beijo o último suspiro do pai.
Voisin e a filha a custo a arrancaram do quarto e tentaram suavizar a sua dor, chorando com ela.