Os Mistérios do Castelo de Udolfo
XX. Sons Misteriosos
XX
Sons Misteriosos
A manhã do dia seguinte decorreu sem que Emília tivesse notícias de Montoni. Como a ansiedade pelo destino da tia fosse superior ao terror que lhe inspirava semelhante homem, decidiu ir procurá–lo. Ao mesmo tempo, queria saber de Annette e, nesse intuito, meteu pela galeria do sul.
As lamentações da criada ouviam–se de longe. Chorava a sua sorte e a de Ludovico e afirmou a Emília estar prestes a morrer de fome, se não fosse, imediatamente, libertada. Mas quando Emília lhe disse ser preciso ir pedir a Montoni a sua liberdade, a pobre hesitou entre as duas perspectivas: morrer ali ou defrontar o patrão.
Ao atravessar a sala para se dirigir à sala de cedro onde Montoni se encontrava, Emília tropeçou em armas caídas e farrapos de vestuário cobertos de sangue. Tremia com receio de esbarrar com cadáveres. Aproximando–se da sala, ouviu o murmúrio de vozes. Os convidados da véspera encontravam–se ali reunidos. Hesitante, procurou com a vista um criado para ir anunciar a sua presença. Não o viu e quando se dispunha a entrar, Montoni apareceu. Ao vê–lo, ficou trémula e confusa.
Com ar desconfiado, Montoni perguntou–lhe se tinha escutado a conversa. A pergunta reanimou–a. Com altivez, replicou que não estava ali para espiar, mas apenas para pedir clemência. Suplicou–lhe para a deixar visitar a tia e revelou–lhe a prisão de Annette.
Montoni respondeu–lhe com um sorriso de ironia, o que aumentou os receios de Emília pela sorte da tia.
— Quanto à Annette, permito ao Cario que a vá soltar. O desgraçado que a fechou já não existe.
— E a tia? ... Fale–me dela, por Deus!
— Está bem — responde ele — Não tenho tempo para escutar as suas tolices.
Tentou afastar–se, mas Emília deteve–o, implorando–lhe pela tia. De súbito, soaram trombetas, um tropear de cavalos e uma confusão de vozes encheu o pátio e Montoni correu para o vestíbulo. Emília, meio oculta no fundo da sala, viu entrar um grupo de homens que se lhe afigurou serem os mesmos que vira partir alguns dias atrás. Não teve ocasião para se certificar. Os homens precipitaram–se para a porta e de todos os pontos do castelo apareceu gente para receber os recém–chegados.
Dominada por tristes apreensões, correu a refugiar–se no seu quarto. Pouco depois, bateram–lhe à porta e apareceu Cario.
— Até agora não pude tratar de si, mademoiselle. Trago–lhe fruta e vinho. Deve precisar de comer.
— Obrigada, Cario. Foi o senhor Montoni quem o encarregou de trazer–me de comer?
— Ele? Não. Tem muito em que pensar para se preocupar com isso.
Emília fez–lhe algumas perguntas sobre o destino da tia. Cario, porém, como se encontrava na outra extremidade do castelo na altura da prisão de madame Montoni, não pôde dizer–lhe coisa alguma. Laconicamente, descreveu o combate da véspera, afirmando estar já tudo sossegado, pois Montoni reconhecera ter–se enganado quando suspeitara de que os seus convidados haviam atentado contra a sua vida.
— O sangrento combate terminou — afirmou o velho criado — e peço a Deus para que nunca mais se repita semelhante espetáculo neste castelo, embora se preparem coisas muito estranhas.
Emília pediu–lhe para se explicar melhor.
— Não, signorina, não devo atraiçoar os segredos de meu amo, nem dizer o que penso. O tempo se encarregará de os revelar.
Em seguida, Emília pediu–lhe para ir libertar Annette, indicando–lhe o quarto onde ela se encontrava. Cario prometeu fazê–lo.
Quando o criado ia a sair, perguntou–lhe quem eram os cavaleiros recém–chegados. Não se enganara. Era Varezzi, com os seus homens.
Decorrida uma hora depois desta conversa, Annette apareceu soluçante, chamando por Ludovico.
— Minha pobre Annette — consolou Emília — A morte, por vezes, rouba–nos os entes mais queridos. Conformemo–nos com os desígnios de Deus. As nossas lamentações e lágrimas, infelizmente, não poderão ressuscitá–los. Um dia encontrarás Ludovico num mundo melhor.
— Mademoiselle — replicou a rapariga, tirando o lenço dos olhos — espero encontrá–lo ainda neste mundo, conquanto esteja ferido.
— Está apenas ferido? Ainda vive?
— Vive, mas o ferimento foi terrível e não o deixou vir libertar–me. Supuseram–no morto durante algum tempo e ele próprio quase não acredita ser ainda deste mundo.
— Alegro–me com a notícia, Annette.
Quando o desgosto de Annette acalmou, Emília pediu–lhe para ir ver se conseguia obter notícias da tia. Os resultados foram nulos. Uns ignoravam o destino de madame Montoni. Os outros, provavelmente, haviam recebido ordem para não o divulgar.
Os dois dias seguintes decorreram sem incidente de maior. Na noite do último, depois da saída de Annette, Emília deitou–se. Não conseguindo, porém, conciliar o sono, levantou–se e foi abrir a janela a fim de respirar o ar fresco da noite.
O silêncio era profundo e não havia luar. Na escuridão, mal se distinguia o contorno das montanhas distantes, o vulto das torres e as muralhas no alto das quais passeava a sentinela. A infeliz rapariga deixou–se ficar à janela, contemplando os milhões de estrelas que cintilavam no firmamento. Recordou quantas vezes, com seu pai, lhes admirara o brilho e seguira a sua marcha pelo infinito. Erguendo a vista para o alto, viu brilhar por cima da torre de leste o mesmo planeta que notara no Languedoc, na véspera da morte de Saint–Aubert. Acudiu–lhe à memória a conversa que tivera com ele sobre as almas separadas dos corpos e teve a impressão de escutar a mesma música suave, essa música à qual, a despeito de todos os raciocínios, atribuíra um sentido supersticioso. Todas estas recordações a transportaram para um mundo diferente, alheando–a da realidade.
De súbito, chegou–lhe aos ouvidos uma melodia suave. Seria ilusão provocada pela evocação do passado? ... Os sentidos seriam joguete de sensações em tempos experimentada”? Inexplicável temor se apoderou dela. Escutou durante algum tempo com profunda atenção, tentando controlar os pensamentos. A alucinação, porém, se alucinação era, prolongou–se, apesar de todos os seus esforços para a afastar. Quando pôde raciocinar, tentou descobrir o ponto donde partiam os sons e teve a impressão de que vinham de baixo, mas não pôde distinguir se seria do terraço ou de algum quarto do castelo. O medo e a surpresa deram lugar ao encantamento. No silêncio da noite, as notas pareciam ainda mais suaves. Pouco tempo depois, a música afastou–se, foi diminuindo de intensidade e sumiu–se de todo.
Emília continuou atenta, mas não tornou a escutá–la. Não conseguiu desviar o pensamento de tão estranha circunstância. Uma melodia tão suave, à meia–noite, quando todos dormiam e num castelo onde ninguém tocava senão pífaro e trombetas! O prolongado sofrimento predispusera o espírito de Emília para o terror e superstição. Teve a impressão de que o espírito do pai lhe falava por intermédio da música, para lhe inspirar coragem e animá–la. A razão, porém, dizía–lhe que não devia abandonar–se a estas ideias doentias. Fez todo o possível por afastá–las, mas, por uma reação estranha da sua fantasia excitada, evocou outras não menos fantásticas. Recordou a forma como o castelo viera parar às mãos do atual possuidor e o mistério que envolvia o desaparecimento da antiga proprietária, sem que ninguém conseguisse saber qual o seu destino. Aparentemente, não podia existir relação entre esta aventura e a música que tanto a emocionara e, no entanto, qualquer coisa lhe dizia que entre os dois mistérios existia um laço oculto. Com este pensamento, a testa humedeceu–se–lhe de suor frio. Relanceou um olhar alucinado pelos recantos do quarto e a escuridão que neles reinava mais lhe excitou a imaginação.
Depois, envergonhada pela sua fraqueza, fechou a janela e voltou para a cama. Porém, o sono recusava–se. Não conseguia desviar o pensamento dos estranhos acontecimentos daquela noite e jurou a si mesma estar a pé na noite seguinte, à mesma hora, para escutar a música, se ela voltasse a fazer–se ouvir, o que aconteceria, por certo, se fosse um ente humano quem tocasse.