Os Mistérios do Castelo de Udolfo
XXVIII. A Travessia na Floresta
XXVIII
A Travessia na Floresta
Antes de partir, Emília examinou com surpresa o pátio, habitualmente deserto e agora animado com os preparativos da batalha, com as idas e vindas dos soldados e dos homens que trabalhavam nas muralhas. Quando, por fim, transpôs o pórtico e viu cair a grade que lhe causara tão grande terror no dia da chegada, quando, olhando em volta de si, não viu as altas torres, experimentou a sensação embriagante que pode sentir um preso posto em liberdade. Logo depois, ao recordar o desconhecido que se encontrava encerrado dentro da fortaleza e ao pensar que podia ser Valancourt, uma nuvem de tristeza obscureceu toda a sua alegria. Atreveu–se a arriscar uma pergunta sobre o prisioneiro. Ugo, um dos guias declarou–lhe que, tendo estado fora toda a semana, não podia saber o que se passava no castelo.
— Tínhamos uma tarefa bem difícil a desempenhar. Não podíamos pensar noutra coisa — concluiu.
Finalmente, as montanhas ocultaram o castelo de Udolfo aos olhares de Emília. O cenário que tinha na sua frente era outro. O vento, assobiando por entre os pinhais que se debruçavam para os precipícios, o surdo rumor das torrentes que se despenhavam para os vales, o aspecto selvático da região, tudo concorreu para a mergulhar em tristes reflexões das quais em breve foi arrancada pelo troar surdo dos canhões que se repercutia pela montanha. O inimigo começava a atacar o castelo.
O som do canhão agiu sobre Ugo como o toque de clarim num cavalo de batalha. Ansiava por tomar parte no combate e maldizia Montoni por o ter afastado. Quanto a Beltrão, o outro condottieri, mais parecia talhado para sinistras tarefas do que para proezas belicosas. Caminharam durante muitas horas, atravessando regiões, absolutamente desertas, cujo silêncio profundo não era perturbado sequer pelo ladrar de um cão ou pelo balir das ovelhas. Pela tarde, meteram por um caminho aberto no meio de uma floresta de abetos, ciprestes e pinheiros, à beira de precipícios, um local tão triste e desolado que, se a melancolia pudesse escolher a sua morada, por certo seria aquela. Foi então que os dois companheiros de Emília decidiram descansar. Obrigaram–na a descer da mula, sentaram–se junto de um penhasco e tiraram da sacola algumas provisões, que ela partilhou para ocultar os seus temores. As sombras da noite que, minuto a minuto, se tornavam mais espessas, o aspecto do local e a conversa dos dois bandidos não eram de molde a tranquilizá–la.
Falavam de Orsino e da aventura que o obrigara a fugir de Veneza. Ugo parecia estar ao fato de todas as particularidades do assassinato.
— Não é o primeiro caso do género que tem as costas — afirmou Beltrão — Mas quando um homem não encontra outro meio para se impor, tem de recorrer a esse.
— Com certeza. Só dessa maneira podemos obter justiça imediata. Se recorremos às leis, temos de esperar todo o tempo que os juízes entenderem e, no fim, ainda podemos perder a questão. Não há nada como afirmar os nossos direitos pelas próprias mãos e fazer justiça por nossa conta.
— Se não a fazemos, quem poderá fazê–la? Se me ofendem, quanta paciência e trabalhos serão precisos até chegar o dia da vingança, se chegar! Dez contra um afirmarão estar a razão do lado do inimigo e que as culpas foram todas minhas. Ora adeus! Se alguém se apoderar de uma coisa que eu considero minha, morrerei de fome até que a justiça reconheça os meus direitos? Nada disso. Que devo fazer? Antes de mais nada, apoderar–me do que é meu.
O terror de Emília, ao escutar estas palavras, maior se tornou quando compreendeu de que lhe eram dirigidas. Convenceu–se de que Montoni tinha talvez ordenado aos dois homens para exercerem sobre ela aquele género de justiça.
— Voltando a Orsino — continuou Beltrão — recordo–me que, há–de haver dez anos, teve uma questão com um fidalgo de Milão, a propósito de certa dama com quem esse cavaleiro casou. O marido e sua mulher adoravam–se e isso mais aumentava o despeito de Orsino. Um dia, soube que o casal devia dirigir–se a Pádua por uma estrada bastante deserta. Não perdeu a ocasião de se vingar. Deu as suas instruções a alguns homens, que surpreenderam os viajantes num desfiladeiro apertado entre duas montanhas. Ocultamo–nos com o arvoredo, atiramos, mas falhámos...
Ao escutar estas palavras, Emília não pôde deixar de empalidecer, depois supôs ter ouvido mal. Beltrão continuou a narrativa:
— O cavaleiro defendeu–se, mas não tardou a ser desarmado. Como voltasse a cabeça para chamar os seus homens, foi atingido pelas costas por três punhaladas. Nunca vi golpe mais hábil. Caiu do cavalo e foi morto no mesmo instante. Quanto à mulher, fugiu. Os criados levaram–na antes que déssemos por isso. “Beltrão” — disse o signor quando regressámos...
— Beltrão! — repetiu Emília gelada pelo terror.
— Eu disse Beltrão? — murmurou o bandido muito atrapalhado — Digamos Giovanni ou Roberto. É a mesma coisa. “Beltrão — ou qualquer outro nome — disse o signor — se todos os teus companheiros tivessem feito o seu dever como tu, eu não teria ficado sem a mulher. Toma, aqui tens para te divertir”. E deu–me... deu–lhe uma bolsa cheia de moedas de oiro. E devo dizer que foi pouco para o serviço que lhe prestaram.
— Tens razão — concordou o outro — Foi pouco, muito pouco.
Emília mal conseguia respirar. Logo de princípio, o aspecto dos homens e a sua ligação com Montoni bastaram para lhe despertar a desconfiança. Naquela altura, porém, quando um deles confessava ter sido um assassino, quando a noite se aproximava e se via ali sozinha com eles, no meio da floresta, sem saber para onde a levavam, invencível terror a dominou. Não seria de admitir que Montoni a tivesse entregado nas mãos daqueles miseráveis para a matarem? Não seria a melhor maneira de se apoderar dos bens cobiçados? Não pensou que o senhor do castelo de Udolfo onde, por certo, tantos crimes haviam sido já praticados, não precisava mandá–la para tão longe para executar os seus negros desígnios; desnorteada pelo medo, mal se atrevia a olhar para os rostos patibulares dos seus guias, meio ocultos nas sombras.
O Sol ocultara–se havia muito tempo. As montanhas e os vales confundiam–se nas trevas. Assustada, tentava descobrir a saída do desfiladeiro. Não se avistava qualquer povoado nem uma cabana. As estrelas não brilhavam no firmamento e em volta nem sequer uma luz. Pesadas nuvens passavam por cima da massa dos ciprestes e pinheiros, cujos troncos vergavam com o vento. As espessas copas das árvores rumurejavam, surdamente.
— Onde está o archote? — inquiriu Ugo, levantando–se — Está a escurecer.
— Não o acendas já. Ainda se vê alguma coisa. Se o inimigo andar por estas paragens, o clarão poderia trair–nos.
Prosseguiram meio às escuras. Emília quase desejava que o inimigo os surpreendesse. Uma mudança, fosse ela qual fosse, seria preferível à situação em que se encontrava, a mais terrível de toda a sua vida.
Pelo caminho, reparou em pequenina chama que brilhava na ponta da lança de Beltrão, uma chama idêntica à que vira acender–se na ponta da lança da sentinela, na noite em que a tia morrera. A estranha circunstância causara–lhe supersticiosa impressão.
— Acendamos o archote e procuremos um refúgio. Prepara–se tremenda trovoada. Repara na
minha lança — acrescentou designando a arma{2}.
— Não acredito em milagres, felizmente. Tenho notado que aparece sempre essa chama, quando se aproxima uma trovoada. É infalível. Repara, os relâmpagos começam a rasgar as nuvens.
Se estas palavras dissiparam, em Emília, o receio pelo sobrenatural, por outro lado, não a tranquilizaram sobre a própria situação quando, à claridade lívida de um relâmpago, entreviu os rostos patibulares dos companheiros de viagem. Perguntou–lhes por que haviam tomado pelo bosque quando a estrada, durante a trovoada, seria muito mais segura.
— Nós bem sabemos onde está o perigo. No meio do arvoredo não nos arriscamos a ser descobertos pelo inimigo se, por acaso, ele andar por aqui — respondeu Beltrão — Por S. Pedro e todos os santos do céu! Sou tão valente como os mais valentes e grande número de pobres diabos poderiam atestá–lo, se voltassem a este mundo. Mas um contra muitos como poderá defender–se?
— Que estás tu para aí a resmungar? — perguntou Ugo com ar de desprezo — Mesmo que sejam muitos, podem vir, pelo diabo, todos quantos possam alojar–se no castelo de Montoni. Eu lhes mostrarei quem é o homem com quem têm de lutar!
Um raio, estalando por cima das suas cabeças, interrompeu estas bravatas. O clarão azulado dos relâmpagos filtrava–se pelo arvoredo e envolvia as montanhas num halo lívido e sulfuroso.
Beltrão, muito pálido, persignava–se.
— Quem me dera estar no castelo! Por que teria o signor a ideia de nos encarregar desta maldita tarefa? Que barulho lá no céu, santo Deus! Por acaso terás um rosário, Ugo?
— Um rosário! Isso é bom para os frades e para os cobardes como tu — replicou o outro — Por mim, só uso espada.
— Há–de servir–te de muito contra a trovoada!
Tremendo trovão, que rolou e se repercutiu pelas anfractuosidades da montanha, obrigou–os a calar. Ugo pretendia continuar, mas o furioso temporal fazia coro com a trovoada e desencadeava turbilhões contra as nuvens, que, por fim, se dissiparam. O ribombar dos trovões também se desvaneceu ao longe e depois de uma hora de caminhada, os elementos acalmaram. Os viajantes atingiram o cume de uma montanha. A seus pés desdobrava–se ridente vale que o luar nascente mal iluminava. Algumas nuvens corriam pelo firmamento e afastavam–se, lentamente, para a linha do horizonte.
Quando se encontrou fora da floresta, Emília sentiu–se mais segura. Pensava que, se os dois homens tivessem recebido ordem para a matar, certamente teriam executado a ignóbil tarefa no deserto que acabavam de abandonar onde nunca poderiam descobrir vestígios do crime. Tranquilizada por esta reflexão e pela atitude calma dos guias, atreveu–se a perguntar se estavam perto do fim da viagem. Ugo informou–a de que não se encontravam muito longe.
— Paramos ali, naquele pequeno souto, perto do ribeiro que o luar prateia.
Pouco depois, atingiam o bosque. Através da folhagem avistaram uma luz. Partia da cabana para a qual se dirigiram, seguindo ao longo do ribeiro. As árvores que cresciam na margem interceptavam os raios do luar, mas a claridade que saía da choça traçava um rasto luminoso no solo tapetado de musgo. Beltrão foi bater à porta, chamando por Marcos. A janela donde partia a luz abriu–se e um homem perguntou o que desejavam. Reconhecendo os viajantes, abriu a porta e recebeu–o numa espécie de choça, muito limpa. Depois chamou a mulher e ordenou–lhe que fosse preparar alguma comida. Emília reparou que o dono da casa cochichava com Beltrão. De resto, a sua aparência não era de molde a inspirar confiança, mesmo a uma pessoa desprevenida.
Ugo impacientou–se e pediu a ceia.
— Esperava–os já há mais de uma hora — declarou o camponês — O senhor Montoni escreveu– nos. Mas como era muito tarde, já não contávamos com a sua chegada e deitámo–nos. Como puderam passar com a trovoada?
— Com muito custo — declarou Ugo com mau modo — E não nos sentiremos melhor aqui se não te apressares a servir–nos a ceia. Queremos vinho e também de comer, mas isso depressa.
Marco serviu–lhes tudo quanto havia em casa, isto é, toucinho, figos e uvas de prodigioso tamanho.
Quando Emília restaurou um pouco as forças, a dona da casa foi indicar–lhe o quarto. Emília dirigiu–lhe algumas perguntas a respeito de Montoni, mas a mulher, cujo nome era Dorina, respondeu–lhe com reserva, afirmando desconhecer as intenções de Sua Excelência. Compreendendo não lhe ser possível saber o que desejava, Emília despediu–a e deitou–se. Mas as horas de ansiedade que acabava de passar e a perspectiva de todas as que pressentia ter de suportar ainda, perturbaram–na a tal ponto que, com a consciência da nova situação em que se encontrava não conseguiu conciliar o sono.